Divagações sobre a “Declaração de Fé Congregacional da UIECB” (Minuta do DET): Art. 24, Parte 6
Artigo 24 – Cremos que as igrejas devem se organizar como comunidades autônomas, administrativamente independentes umas das outras2⁴3, embora ligadas pela fraternidade da fé e pela comunhão no evangelho2⁴⁴, cujos membros reunidos em assembleia constituem o órgão que deve conhecer e executar a vontade de Jesus Cristo2⁴⁵, e que são supervisionadas por oficiais qualificados e por elas eleitos2⁴⁶, espiritualmente, pelos presbíteros ou bispos, que desempenham as funções de pastor e mestre em variados graus de responsabilidade2⁴⁷, e, quanto às necessidades temporais, pelos diáconos e diaconisas2⁴⁸, devendo ambos receberem a devida honra2⁴⁹.
243 Atos 11.22-26; 13.1-3; Apocalipse 2,3. 244 Romanos 15.25-27; 1Coríntios 16.1-3; 2Coríntios 8.3-9; 9.1,2. 245 Mateus 18.15-20; Atos 1.15-26; 11.29; 1Coríntios 5.1-8. 246 Atos 6.1-6; 14.23. 247 Atos 20.17,28; Colossenses 1.7; 4.12; 1Timóteo 3.1-7; 5.17; Tito 1.5-9; Tiago 5.14; 1Pedro 5.1-4. 248 Romanos 16.1; Filipenses 1.1; 1Timóteo 3.8-13. 249 Filipenses 2.29; 1Tessalonicenses 5.12,13; 1Timóteo 3.13; Hebreus 13.17.

Consideramos na divagação anterior os fundamentos do sistema congregacional de governo. Seguimos, nesta, avaliando a posição dos oficiais eclesiásticos, observando a parte final do art. 24 da Declaração, segundo a qual as igrejas de Jesus Cristo “são supervisionadas por oficiais qualificados e por elas eleitos: espiritualmente, pelos presbíteros ou bispos, que desempenham as funções de pastor e mestre em variados graus de responsabilidade, e, quanto às necessidades temporais, pelos diáconos e diaconisas, devendo ambos receberem a devida honra”. Antes, porém, convém estabelecer os fundamentos históricos do congregacionalismo de tradição kalleyana.
1. De fato, Kalley fundou igrejas independentes ou congregacionais. Tanto as igrejas por ele plantadas eram independentes, uma em relação às outras, como todos os membros da igreja tomavam as decisões mais relevantes democraticamente, reunidos em assembleias. Socorremo-nos de Forsyth quando pontua que Kalley, de berço presbiteriano, “se tornara um congregacionalista praticante” por pelo menos três razões: a uma, Kalley era um “independente declarado”, que negava ser presbiteriano e se dizia um membro da Igreja de Cristo; a duas, sempre esteve em estreita associação com ministros congregacionais, inclusive tendo sido indicado à Sociedade Missionária de Londres – cujos membros eram majoritariamente congregacionais – por um congregacional; por fim, casou-se com Sarah, de família tradicionalmente congregacional. Kalley, a despeito de jamais haver reivindicado vínculos institucionais com igrejas, denominações ou agências missionárias de quaisquer matizes, possuía “fortes convicções congregacionalistas” e que “ele se tornara um congregacionalista praticante”. Nesse sentido, o Rev. Vanderli Lima Carreiro afirma que Sarah certamente “exerceu influência sobre seu esposo, com o seu conhecimento dos princípios e do governo congregacionalista” e que, apesar de não haver ligação direta entre Kalley e o congregacionalismo inglês e americano, “não se pode negar que o fundamento teológico é o mesmo”.
2. Como consabido, 1913 foi ano decisivo às igrejas kalleyanas, em virtude da consolidação da tão sonhada União das Egrejas EvangelicasIndenominacionais, em 6 de julho. Nesse contexto, chamamos a atenção do leitor ao fato da consciente persistência dos fundadores da denominação e seus herdeiros imediatos em rejeitar o nome congregacional para a “União” criada em 1913. O termo “congregacional” foi empregado em 1916, 1921, 1923, 1924, 1934 e, a partir de 1942 (UIECCB), em 1960 e em 1969 (UIECB). Não constou, todavia, dos nomes denominacionais de 1913, 1919, e 1941. Vejamos: o primeiro nome foi “União das Igrejas Evangélicas Indenominacionais”, em 1913; o segundo, “Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais Brasileiras e Portuguesas”, em 1916; o terceiro, “União das Igrejas Evangélicas que Aceitam os 28 Artigos da Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo”, em 1919; o quarto, “União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil e Portugal”, em 1921; o quinto, “União das Igrejas Evangélicas Congregacionais Independentes”, em 1923; o sexto, “União Evangélica Congregacional Brasileira”, em 1924; o sétimo, “Federação Evangélica Congregacional do Brasil e Portugal”, em 1934; o oitavo, “União Evangélica Congregacional do Brasil e Portugal”, em 1934; o nono, “União das Igrejas Evangélicas do Brasil”, em 1941; o décimo, “União das Igrejas Evangélicas Congregacionais e Cristãs do Brasil (UIECCB)”, em 1942.
3. Quais seriam as razões da rejeição do nome “congregacional”? Havia algum tipo de dúvida sobre a natureza eclesiástica das igrejas kalleyanas? Para alguns autores, a exemplo de Douglas Nassif Cardoso, tanto a não adoção do termo quanto a constante mudança do nome (em 10 anos, entre 1913 e 1923, a denominação trocou de nome cinco vezes!) demonstram “claramente um problema de identidade”. Para o Doutor Nassif, a correspondência entre as igrejas kalleyanas e o congregacionalismo inglês foi um desvio histórico encetado pelo reverendo Francisco de Souza, com seus artigos no O Cristão (jornal que passou a ser o órgão oficial da denominação), publicados entre 15 de setembro de 1914 e 31 de janeiro de 1917, e fomentados pelo Reverendo Manoel da Silveira Porto Filho, com sua obra Congregacionalismo Brasileiro. De fato, o Rev. Souza escreveu seus artigos com base na obra de Robert William Dale, A Manual of CongregationalPrinciples (Um Manual dos Princípios Congregacionais). Seu labor foi interrompido em 31 de janeiro de 1917, momento em que havia chegado somente aos primeiros capítulos da segunda parte da obra do Dr. Dale, que é composta por quatro, quais sejam: Os Princípios do Governo Congregacional, Oficiais Eclesiásticos, Os Sacramentos e o Culto cristãos e Alguns Aspectos Práticos do Congregacionalismo. Assim, Nassif entende que a obra de Kalleyfoi a de um “reformador”, de “um profeta da fé”, e que suas igrejas nada têm a ver com os pais peregrinos, tampouco com a comunidade de Scrooby.
4. Entretanto, antes mesmo dos artigos do Reverendo Souza, a iniciativa para a formação de uma fraternidade entre as igrejas kalleyanas já havia sido tomada pelo Pastor João Manoel Gonçalves dos Santos. Com efeito,o Reverendo Hildebrando Costa Santos Filho concluiu, após análise detida da “documentação disponível”, que “toda a iniciativa foi obra do pastor João Manoel Gonçalves dos Santos, enquanto ainda era pastor da Igreja Fluminense, em 1910”. Após o afastamento do Reverendo João dos Santos, continuaram seus esforços no sentido de reunir as igrejas kalleyanas em uma “União” os pastores Alexander Telford e Francisco Antônio de Souza, ambos imbuídos de “um grande amor pelo trabalho congregacional brasileiro”, conforme observação do Rev. Ismael da Silva Júnior. O Rev. Souza terminou seus estudos em 21 de dezembro de 1910 e foi ordenado em 5 de março de 1911, na Igreja Evangélica Fluminense, pelos reverendos João Manoel Gonçalves dos Santos e Alexander Telford. Ao lado de Telford, deu seguimento às iniciativas do Pastor Santos e, com trabalho diligente, logrou sensibilizar outros líderes para a concretização da tão sonhada “União”. Isso nos parece querer significar que os frutos foram colhidos por Telford e Souza a partir das sementes lançadas por Santos.
5. As edições do jornal O Cristão de maio e julho de 1911 publicaram a minuta do estatuto, cujo artigo inicial estebalecia o seguinte: “Artigo 1º. – As Egrejas evangelicas do Brazil e Portugal, que aceitam a “Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Christianismo”, estabelecem uma União cujos fins são estreitar os laços de amor fraternal entre as mesmas Egrejas, promover o desenvolvimento do seu trabalho e os interesses espirituais e temporaes das respectivas Egrejas”. Finalmente, em 6 de julho de 1913, ocorreu a abertura da primeira Convenção, ocasião em que se concretizou a União das EgrejasEvangelicas Indenominacionais. Estiveram representadas na Convenção treze igrejas brasileiras. As cinco igrejas portuguesas não se fizeram representar por dificuldade de deslocamento, mas subscreveram a decisão de criar a denominação. No sermão de abertura, o Rev. Telford pregou sobre o tema “A Proeminência de Cristo” e em suas palavras de saudação, disse: “Hoje, meus irmãos, marca uma nova era em nossa história eclesiástica. É o dia em que formalmente unimos as nossas forças, para, de comum acordo, trabalharmos em prol da obra do Senhor”.
6. O Rev. Hildebrando observa que nem todas as igrejas kalleyanasoptaram por unir-se à União, decisão que foi respeitada em homenagem ao princípio congregacionalista da independência das igrejas. O exemplo mais ilustrativo do ponto que o autor quis ressaltar foi a Igreja Evangélica de São José do Bom Jardim, no Rio de Janeiro, organizada em 9 de junho de 1901, cujo nome não ocorre nem na relação das organizadoras do estatuto, em 1910, nem na lista das igrejas que subscreveram a formação da União, em 1913. Por outro lado, concluiu nosso historiador: “As igrejas kalleyanas, pelo menos naquele momento, pareciam estar rompendo com a filosofia isolacionista que fundamentava a autonomia da igreja local levada aos extremos até então, e se uniram em torno das afinidades e em prol do bem comum do crescimento orgânico e da difusão do Reino de Deus por meio de igrejas de sistema de governo congregacionalista”.
7. Corroborando essa retrospectiva histórica, autores não menos recomendáveis enfatizam que Kalley, a despeito de jamais haver reivindicado vínculos institucionais com igrejas, denominações ou agências missionárias de quaisquer matizes, possuía “fortes convicções congregacionalistas” e que “ele se tornara um congregacionalista praticante”. Nesse sentido, o Rev. VanderliLima Carreiro afirma que Sarah certamente “exerceu influência sobre seu esposo, com o seu conhecimento dos princípios e do governo congregacionalista” e que, apesar de não haver ligação direta entre Kalley e o congregacionalismo inglês e americano, “não se pode negar que o fundamento teológico é o mesmo”. O Rev. Porto Filho ensinou em apostila datilografada, cuja cópia este escritor guarda carinhosamente, que “O sistema de governo das igrejas era congregacional e como congregacionais éramos conhecidos”. Afirmou que “O Rev. Álvaro Reis foi com essa designação que saudou os convencionais de 1913”, e que “O Rev. J. M. Gonçalves dos Santos, embora opositor ao uso oficial do nome, reconheceu que, na verdade ‘éramos congregacionais’, assim como o Dr. Henrique Jardim, o Rev. Leônidas Silva e, como eles, todos os seus companheiros de opinião semelhante”. É dizer, não havia quaisquer dúvidas a respeito da natureza eclesiológica congregacional das igrejas kalleyanas entre os fundadores da União das Igrejas Evangélicas Indenominacionais!
8. Isso não quer significar, por outro lado, que os princípios congregacionalistas não possam adequar-se e ser plenamente operantes em uma gama de variantes estruturais, mantendo-se, ainda assim, intactos. Eis, nesse sentido, as palavras lúcidas de Porto Filho: “Não limitamos qualquer grupo congregacional na sua maneira específica de organizar-se e de operar. Umas têm presbíteros, outras não têm; umas diaconisas, outras não; umas batizam por aspersão, outras por imersão, outras pelos dois modos; umas praticam batismo infantil, outras não; umas têm assembleias de membros mensalmente, outras não; umas usam o nome congregacional, outras não, assim como muitas de nossas igrejas brasileiras hoje e todas elas durante muito tempo”. Sendo esse o caso, de não havermos evitado o nome congregacional por nos termos negado como tais ou por quaisquer crises existenciais pertinentes ao tema, o que causou sua não adoção em 1913 e a resistência que verificamos nas décadas seguintes? O Rev. Porto Filho nos fornece duas razões. A primeira, é que não quisemos ser confundidos com as igrejas congregacionais da Inglaterra e Estados Unidos, como se tivéssemos vínculo de dependência com elas ou fôssemos extensões missionárias delas, por simplesmente não ser esse o caso. Também, porque não compartilhávamos com a teologia liberal e com o comportamento ético repreensível, ambos sabidamente predominantes entre os congregacionais americanos e ingleses.
9. Colocadas as raízes históricas do congregacionalismo das igrejas kalleyanas, voltamo-nos a tratar dos oficiais eclesiásticos, divisando compreender o quanto estabelecido na Declaração. Nessa senda, os ofícios da Igreja de Cristo podem ser classificados em “ofícios fundacionais” e, portanto, de existência transitória, e “ofícios permanentes”. Os primeiros são também chamados “gerais” e “extraordinários”; os últimos, “locais” e “ordinários”. No primeiro tipo se acham os “apóstolos”, os “profetas” e os “evangelistas”; no segundo, os “presbíteros” (ou “pastores”, ou “bispos”) e os “diáconos”. Os “apóstolos”, no sentido mais estrito do termo, foram os doze (incluindo Matias, o substituto de Judas) e Paulo. Foram homens escolhidos por Cristo para conhecer, interpretar e propagar os fatos do evangelho. Suas qualificações incluíam terem sido diretamente comissionados por Cristo, testemunhado a vida de Cristo, sobretudo a sua ressurreição, e haverem ensinado a palavra que recebiam diretamente de Deus, conscientes desse fato, além de terem realizado um ministério corroborado por sinais miraculosos (Mc 3.13-19; At 1.21-22; 2.43; 26.16-18; Gl 1.1, 11-17; 1Co 9.1; 15.7-9; 2Co 12.12). Os apóstolos são apresentados no Novo Testamento como o fundamento histórico da Igreja (Ef 2.20; 3.5), de modo que, nesse sentido estrito, o apostolado fundacional é irrepetível.
10. Os “profetas” do Novo Testamento eram homens e mulheres capacitados pelo Espírito a aplicarem as Escrituras carismaticamente em um dado momento e para, secundariamente, predizerem certos eventos (At 11.27-28; 21.10-11; 15.32; 21.9). Há aqueles que entendem que os profetas eram parte do fundamento da Igreja e, por isso, passaram, e que seu ministério encontrava lugar somente enquanto a Igreja não tinha ainda as Escrituras completas. Nesse sentido, os profetas do Novo Testamento teriam exercido ministério extraordinário semelhante aos do Antigo Testamento. Se esse é caso, aos profetas do Novo Testamento, como aos apóstolos, foi dada a revelação, sendo eles parte do fundamento da Igreja (Ef 2.20; 3.5). Noutra perspectiva, há autores que defendem que a profecia do Novo Testamento possui autoridade diferente da profecia do Antigo Testamento. Argumentam que aquilo que é dito no Novo Testamento sobre os profetas não pode ser dito sobre os profetas antigotestamentários, como, por exemplo, que aquelas profecias possuíam elementos falíveis e estavam submetidas à autoridade apostólica (1Co 14.29). Se esse é o caso, a profecia do Novo Testamento não possuiria a mesma autoridade canônica e infalível da ensinada pelos profetas do Antigo Testamento e, ainda, que seria possível a ocorrência de “pronunciamentos proféticos”, embora com valor secundário e aplicação local (para uma congregação) ou individual (para indivíduos), em uma espécie de revelação menor.
11. Por fim, Paulo se refere em Efésios 4.11 aos “evangelistas”, sobre os quais repousam dúvidas sobre sua exata natureza, cujo vocábulo ocorre apenas três vezes no Novo Testamento: além de Efésios 4.11, Atos 21.8 se refere a Filipe, o evangelista; e, em 2Timóteo 4.5, Paulo ordena a Timóteo a fazer o trabalho de um evangelista. Como se pode perceber, o Novo Testamento não fornece uma definição clara do ofício, o que explica, em parte, a divergência. Para alguns, os evangelistas eram os delegados ou colaboradores itinerantes dos apóstolos, enviados por estes em missões especiais, tais como Timóteo e Tito. Nesse entido, os evangelistas poderiam anunciar o evangelho em regiões ainda não alcançadas e trabalhar na plantação e na consolidação de igrejas, mas sempre sob a autoridade delegada de um apóstolo. Como esse trabalho estaria diretamente ligado a um apóstolo, o ofício teria cessado com o fim da era apostólica. Segundo Calvino, os evangelistas ocupavam uma posição intermediária entre os apóstolos e os pastores. Para outros autores, em sentido diverso, os evangelistas seriam os portadores de um dom que capacita homens e mulheres à pregação evangelística mais eficaz e, para outros mais, os seriam os vocacionados para fortalecerem as igrejas locais, nas quais serviriam apenas por algum tempo. Escritores contemporâneos, entretanto, têm defendido que “evangelista” designa uma atividade a ser desempenhada por diferentes ministros, não um cargo eclesiástico. Observa-se, nesse sentido, que Timóteo não recebeu o título de evangelista, mas a ordem para fazer o trabalho de um evangelista.
12. A Declaração proposta pelo DET evitou responder as questões mais controvertidas e lidou com aquilo que pode ser recebido com razoável consenso pelas igrejas e pastores da UIECB. Nesse sentido, dispôs a respeitodos ofícios da igreja local (ofícios permanentes ou ordinários), como sendo de duas espécies: os presbíteros (ou pastores, ou bispos) e os diáconos e diaconisas. Quanto aos primeiros, devemos pontuar de plano que os termos “presbíteros” (anciãos), ”bispos” (supervisores) e “pastores” (os que apascentam) designam a mesma função e são atribuídos às mesmas pessoas, conforme o Novo Testamento. Às vezes, a palavra “bispos” é usada sozinha para reportar o ofício (Fp 1.1; 1Tm 3.1-7; Tt 1.7; At 20.28; cf. Cristo como “Bispo” em 1Pedro 2.25); noutras, a palavra usada é “presbíteros” (At 11.13; 14.23; 15.2, 4, 6, 22-23; 21.18; 1Tm 5.17, 19; Tt 1.5; Tg 5.14; 1 Pe 5.1); e ainda há o termo “pastor” em Efésios 4.11 (cf. Cristo como “Pastor” em João 10, Hebreus 13.20, 1Pedro 2.25 e 5.4). Noutras tantas, uma palavra é intercambiada por outra quando tem em vista o mesmo oficial: em Atos 20.17, 28, aparecem os três conceitos; em Tt 1.5, 7, aparecem “presbíteros” e “bispos”; em 1Pedro 5.1, 2, o apóstolo roga aos “presbíteros” que “pastoreem” (gr. “poimanate”, “pastoreai”, exercendo a supervisão (gr. “episkopountes”, verbo cognato de “episkopos”).
13. Observa-se ainda que as qualificações do presbítero e do bisbo, em Tito 1 e 1Timóteo 3, são praticamente idênticas, reforçando a ideia de que Paulo está tratando do mesmo ofício. O termo “Presbítero” é o título do ofício,remetendo às noções de idade ou, mais ainda, à seriedade, à matirudade e à sabedoria de tais homens. O termo “Bispo”, outra forma de se referir ao “Presbítero”, denota a tarefa de supervisão dos cristãos sob seu cuidado, enquanto “Pastor” designa o conjunto de dons que capacitam o presbítero a exercer o episcopado (a supervisão). Curiosamente, não existe um texto no Novo Testamento que diga que determinada pessoa era pastor, no sentido de ocupar um cargo eclesiástico. Com base nessas considerações, e sem nenhuma intenção de redirecionar títulos denominacionais formais, a Declaração afirma que esses oficiais, “presbíteros ou bispos”, são eleitos para supervisionar as igrejas “espiritualmente” (“… e que são supervisionadas por oficiais qualificados e por elas eleitos…). A supervisão espiritual dos “presbíteros ou bispos” está ligada ao ensino, ao cuidado pastoral e à liderança da igreja, não se tratando de uma autoridade meramente administrativa (At 20.28; 1Tm 3.2; Tt 1.9; Hb 13.17; 1Pe 5.2-3). Esses oficiais devem ser “qualificados”, isto é, devem atender aos requisitos biblicamente exigidos. Dos pastores se exige vida irrepreensível, que gozem de reputação ilibada no lar, na igreja e em todos os negócios da vida, que sejam firmes na doutrina e cristãos maduros no caráter e na conduta. Devem eles labutar incessantemente no ministério da Palavra e na oração pelo progresso da Igreja de Cristo no mundo, nada fazendo por motivos egoísticos.
14. Mas nem todos aqueles que foram eleitos “presbíteros ou bispos” exercem essa supervisão com o mesmo nível de decicação, os quais“desempenham as funções de pastor e mestre em variados graus de responsabilidade”. Com efeito, as funções de “pastor e mestre” estão umbilicalmente associadas, e talvez descrevam o mesmo grupo de pessoas, de modo que o pastor exerce também, necessariamente, o ministério de ensino (1Tm 3.2; Tt 1.9). Mas esses misteres, pastoral e de ensino, ocorrem em “variados graus de responsabilidade”, afirmação que pode ser extraída do Novo Testamento. Essa diferenciação funcional é vista, por exemplo, em 1Timóteo 5.17, onde Paulo distingue presbíteros que se dedicam especialmente à pregação e ao ensino. De modo semelhante, líderes do Novo Testamentoexercem papel mais destacado, a exemplo de Tiago, irmão do Senhor, em Jerusalém (At 15). Esses textos sugerem diferenças de dedicação, ou no modo, ou no nível em que o ofício é desenvolvido. Esta síntese trazida pela Declaração está também de acordo com o arranjo denominacional, nos seguintes termos: chamamos de “pastor” o presbítero sobre quem recai o maior peso de responsabilidade na supervisão da igreja, e, de “presbítero”, o “pastor” que auxilia. O equívoco aconteceria se víssemos o “presbítero” como figura absolutamente alheia à supervisão espiritual do povo, confinado ao papel meramente administrativo, como um presbítero simplesmente “regente”.
15. A Declaração continua afirmando que as igrejas também elegem, para a sua supervisão, “quanto às necessidades temporais”, “diáconos e diaconisas”. Esse é o segundo tipo de oficiais permanentes ou ordinários,eleitos pela igreja local. Embora não haja consenso absoluto, a maioria dos intérpretes entende os diáconos surgiram no episódio da contenda entre as viúvas dos gregos e as judias, no episódio narrado em Atos 6.1-6. Nos tempos antigos, isso foi afirmado por Irineu. Calvino, também ensinou nesse sentido: “Lucas declara aqui em que circunstâncias, com que finalidade, e também por meio de que rito foram estabelecidos os primeiros diáconos” (citado por Anglada). Conforme Bavinck, “toda a evidência favorece a ideia de que, em Atos 6, temos diante de nós a instituição daquilo que foi posteriormente chamado diaconato”. Berkhof também, no mesmo sentido, acrescentou: “Muito pouco se pode dizer em favor da acariciada ideia de alguns críticos de que o diaconato só foi desenvolvido mais tarde…”.
16. Os diáconos foram eleitos para o desempenho de um serviço que até então era realizado pelos apóstolos. Embora o substantivo “diakonos” não ocorra no texto, a forma verbal “diakonein” (“servir”) é usada em Atos 6.2: “Não é razoável que abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas”. O verbo significa, na passagem, servir na condição de diácono. O substantivo “diakonia” ocorre no primeiro versículo, traduzido por “distribuição” (“… as viúvas deles estavam sendo esquecidas na distribuição diária”), para se referir a uma atividade eminentemente diaconal. o substantivo “diakonia” ocorre também no versículo 4, onde é traduzida para “ministério” (“… nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra”). Notemos que há um paralelo entre o “ministério” das mesas (vs. 1,2) e o “ministério da palavra” (v. 4). Portanto, se o ministério da Palavra é um ofício, inclusive de caráter permanente, continuado pelos presbíteros, há de se concluir que o ministério diaconal é igualmente um ofício, que foi, como o ofício do presbítero, a princípio exercido pelos apóstolos. Veja-se também que, ao que tudo indica, aqueles sete homens foram “ordenados” pelos apóstolos, isto é, investidos no cargo pela oração e imposição de mãos: “orando, lhes impuseram as mãos” (v. 6). A prática era um rito característico de ordenação a um ofício eclesiástico no Novo Testamento (1Tm 4.14; 2Tm 1.6). Por todas essas razões, é possível concluir que o texto registra o momento em que surgiu o ofício diaconal.
17. Ainda sobre Atos 6, duas considerações merecem a nossa atenção. A primeira diz respeito ao número de “sete” diáconos. Segundo Marshall, “A escolha de sete homens estava em consonância com a praxe judaica de nomear juntas de sete homens para deveres específicos” (p. 123). Para outros estudiosos, o número é apenas significativo, rico em simbolismo, e, para outros mais, a razão pode ter sido simplesmente de ordem prática. Nesse último sentido, Bavinck: “Por que precisamente sete homens foram escolhidos em Jerusalém é algo que não sabemos – talvez porque essa grande congregação se reunisse em sete localidades diferentes, [e] cada uma das quais precisava de um diácono” (p. 351). A razão, penso eu, foi simplesmente casuística, motivada por algum detalhe que desconhecemos e que, por isso, as igrejas cristãs não ficaram obrigadas a eleger sempre “sete diáconos”.
18. A segunda consideração precisa observar o fato de que hátambém intérpretes que põem excessiva relevância no fato de que os apóstolos sugerem a eleição de sete “homens”, afirmando, a partir daí, que o diaconato, como o presbiterato, é exclusivo para homens, não havendo a possibilidade de existirem mulheres dentre os diáconos, as “diaconisas”. Essa posição, entretanto, merece a nossa discordância pacífica, respeitosa, pelo que nos filiamos à posição adotada pela Declaração, a qual reafirma a práxis denominacional. Herman Bavinck, por exemplo, ao examinar passagens que mencionam a “diakonia”, fala ainda “em todos os lugares onde o ofício de diáconos e diaconisas é mencionado” (p. 351). Na página seguinte da sua obra, ele diz: “Em 1Timóteo 3, Paulo resume suas qualificações [dos presbíteros] e, em Romanos 16.1,2; 1Tm 3.11; 5.9,10, há menção de diaconisas” (p. 352). Dos textos citados por Bavinck, Romanos 16.1 faz expressa menção a uma “diaconisa”, como chamamos hoje, a irmã “Febe”. O texto diz literalmente: “… Febe, a nossa irmã, sendo também diácono da igreja em Cencréia”. O Novo Testamento interlinear de Waldyr Carvalho Luz tem a seguinte tradução: “… Febe… sendo também diaconisa da igreja a em Cencréia”. Não tenho dúvida alguma: Febe era “diákonos” da igreja de Cencréia. Em 1Timóteo 3.11, também há evidente referência a diaconisas, em que pese a resistência por parte de alguns intérpretes. Com efeito, não faz sentido entender que Paulo exige certas qualificações somente das “esposasdos diáconos” (conforme a interpetração que alguns fazem das “mulheres” mencionadas na passagem), não fazendo o mesmo em ralação às esposasdos presbíteros. Em síntese, em Atos 6 nascem os “diáconos”, não sendo, entretanto, de reprodução obrigatória o número “sete”, nem a ordenação exclusivamente masculina.
19. Posteriormente, Paulo já podia destacar esse oficialato ao escrever aos irmãos filipenses. Observe-se que em Filipenses 1.1 Paulo reconhece apenas dois grupos de oficiais locais, “bispos e diáconos”, o que corresponde a uma forte evidência de que o diaconato já era um ofício estabelecido. Após tratar dos requisitos dos bispos (1Tm 3.1-7), Paulo passa a lidar com os exigidos para os diáconos, os quais devem ser dignos, não de língia dobre, não dados ao vinho, não gananciosos, guardando a fé com boa consciência, primeiro provados, irrepenensiveis, marido de uma só mulher(1Tm 3.8-10, 12; cf. At 6.3). Também menciona as “mulheres”, as diaconisas, conforme defendemos acima (1Tm 3.11). Dessarte, enquanto os presbíteros (ou pastores, ou bispos) cuidam dos deveres e supervisão espirituais da igreja, os diáconos e diaconisas se concentram nos deveres temporais, auxiliando os presbíteros nessa imprescindível tarefa.
Soli Deo Gloria
