Pintura clássica Disputa do Sacramento de Rafael representando a unidade entre a igreja visível e invisível, tema central da eclesiologia congregacional.

Os Deveres Supremos da Igreja: O Que Deus Espera de uma Congregação Fiel?

Cuidado mútuo através dos dons e meios de graça, e o anúncio do Evangelho até os confins da terra.

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Divagações sobre a “Declaração de Fé Congregacional da UIECB” (Minuta do DET): Art. 23, Parte 5


Artigo 23 – Cremos que a única Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo231 se manifesta na pluralidade das igrejas locais232, consistentes de uma comunhão pactual do povo escolhido de Deus operada pelo Espírito Santo233 e fundamentada na doutrina dos apóstolos23⁴, embora nelas eventualmente se imiscuam os réprobos e hipócritas23⁵, e que se distinguem pelas marcas da pura ministração da Palavra da Deus, da correta administração das ordenanças e do exercício fiel da disciplina236, cujos deveres supremos incluem os mandamentos do cuidado mútuo237, a prática dos dons espirituais238, o uso diligente dos meios de graça239, o culto público centrado nas Escrituras e por elas regulado2⁴0 e a missão ao mundo de pregar o evangelho, batizar os convertidos e discipulá-los2⁴1. 

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231 1Coríntios 12.12-27; Efésios 1.22,23; 5.24-30. 232 1Coríntios 1.2; 11.18; 1Tessalonicenses 1.1; Apocalipse 2,3. 233 1Coríntios 3.16; Efésios 2.22; 4.3,4; Filipenses 2.1.  234 1Coríntios 3.10; Efésios 2.19-22; 2Timóteo 1.13.  235 1Timóteo 1.19,20; 2Timóteo 2.16-21; 2Pedro 2.1; 1João 2.19; Judas 18,19.  236 Mateus   18.15-18;   1Coríntios   5.12,13; 11.17-34;   14.37; 2Tessalonicenses 5.14,15. 237 João   13.34,35;   Romanos   12.10;   13.8;   14.19;   15.14; 1Tessalonicenses 3.12; 4.9; 5.11,14; 2Tessalonicenses 1.3; Hebreus 10.24; Tiago 5.16; 1Pedro 1.22; 1João 3.11,23; 4.7,11; 2João 5. 238 Romanos 12.6-8; Efésios 4.11-16; 1Pedro 4.10. 239 Mateus 6.9-13; João 17.17; Atos 2.41,42,46; 19.3-5; 1Co 11.23-25; Efésios 6.18; 1Tessalonicenses 5.17; 2Tm 3.16,17; Hb 10.19-22; Tg 1.5-8; 5.15. 240 Lucas 4.16; Colossenses 4.16; 1Tessalonicenses 5.27; 1Timóteo 4.13;  Apocalipse 1.3. 241 Mateus 28.18-20; Marcos 16.15,16; Lucas 24.46-49; João 20.21-23; Atos 1.8.

Neste passo, devemos considerar detidamente o que envolve os “deveres supremos” de uma verdadeira igreja de Jesus Cristo. Noutras palavras, quais as responsabilidades e a missão de uma verdadeira comunhão de santos. A Declaração reconhece que a comunhão dos santos envolve deveres internos (“os mandamentos do cuidado mútuo, a prática dos dons espirituais, o uso diligente dos meios de graça, o culto público centrado nas Escrituras e por elas regulado”), quanto ao cuidado de si e ao culto a Deus, e “a missão ao mundo de pregar o evangelho, batizar os convertidos e discipulá-los”, a Grande Comissão, sendo ambos os deveres tarefas no serviço a Deus

  1. Os “mandamentos do cuidado mútuo” designam as tarefas que os santos devem fazer uns aos outros, como expressão do amor que o Espírito Santo derramou em seu coração (Rm 5.5). Jesus Cristo deu aos seus discípulos um “novo mandamento”: que eles se amassem como Ele mesmo os amou, e alertou que “nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13.34,35). Como reflexo desse amor mútuo (Rm 12.10; 13.8; 1Ts 3.12; 4.9; 2Ts 1.3; 1Pe 1.22; 1Jo 3.11,23; 4.7,11; 2Jo 5), e porque membros uns dos outros na unidade orgânica do corpo de Cristo (Rm 12.5; Ef 4.25), os cristãos não devem mais julgar temerariamente uns aos outros (Rm 14.13; Mt 7.1-5), mentir uns aos outros (Cl 3.9), nem tampouco falar mal uns dos outros, com queixas mútuas e linguagem torpe (Tg 4.11; 5.9; Ef 4.31). Paulo advertiu aos gálatas que toda a lei se cumpre no amor, para ao fim repreendê-los: “se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede que não sejais mutuamente destruídos”. Não se espera de uma “congregação” de cães, senão que arruíne a si mesma (Gl 5.14,15).
  2. Por outro lado, considerando positivamente, os cristãos expressam a genuinidade do seu relacionamento com Cristo como seu Mestre quando demonstram amor uns pelos outros, notadamente quando se esforçam pela paz (Ef 4.1-6; Rm 12.18; 1Ts 5.13; Hb 12.14), quando se edificam mutuamente (Rm 14.19; 15.14; 1Ts 5.11; Hb 10.24; Tg 5.16), quando se expressam cordialmente uns com os outros (1Pe 5.5; Rm 12.10; 1Co 16.20; 2Co 13.12), quando consideram os outros superiores a si e se sujeitam reciprocamente (Ef 5.21; Fp 2.3), quando acolhem uns aos outros e suprem as necessidades mútuas (Rm 12.13; 15.7; 1Pe 4.9) e quando suportam uns aos outros a despeito de suas inúmeras fraquezas (Ef 4.2; Cl 3.13,14; Gl 6.2).
  3. Quanto à “prática dos dons espirituais”, em um sentido muito real, deve ser concebida como mais um dos “mandamentos do cuidado mútuo” acima analisados. Uma vez que somos servos uns dos outros (Gl 5.13) e a comunhão dos santos envolve o mandamento da edificação mútua (1Ts 5.11; Jd 20), o apóstolo Pedro exorta: “servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1Pe 4.10). Dentre os textos que listam dons espirituais, os mais importantes são 1Coríntios 12.8-10 e 12.28, Romanos 12.6-8, Efésios 4.11 e 1Pedro 4.11. A tabela abaixo nos fornece um panorama desses textos.
  1. Em 1Pedro, os dons espirituais estão inseridos no contexto dos serviços de amor que os cristãos devem uns aos outros: “tende amor intenso uns para com os outros” (1Pe 4.8). Os cristãos devem ser “mutuamente, hospitaleiros, sem murmurações” (1Pe 4.9) e servir “uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1Pe 4.10). Então, seguem dois tipos de dons (“Se alguém fala…; se alguém serve…”), que podem incluir em cada tipo variados dons. A tônica da passagem é que dons espirituais existem para o cumprimento do deveres de cuidado mútuo, para o serviço dos crentes “uns aos outros”, e não como forma de autosserviço.
  2. Em Efésios 4.11, esses serviços dos crentes “uns aos outros” visam o “aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4.12,13). Em outras palavras, os dons capacitam todos os crentes a exercerem sua vocação na igreja, com vistas à sua edificação, até que ela atinja a sua plena maturidade em Cristo. Essa maturidade é descrita como “unidade da fé”, “pleno conhecimento do Filho de Deus”, “perfeita varonilidade” e “medida da estatura da plenitude de Cristo”. Ora, se a plena maturidade em Cristo equivale a pleno conhecimento de Cristo, o fim último dos dons espirituais é comunicar Cristo, porque sem tal comunicação de Cristo não há edificação. Aqui se acentua mais uma vez o fato de que os dons espirituais não são um autosserviço e nem tampouco fins em si mesmos, mas um meio de proclamação de Cristo, sem a qual não se atinge a maturidade em Cristo.
  3. Em Romanos 12.6-8, a lista de dons e as exortações de como exercê-los é parte de um chamado a uma autoavaliação moderada: “digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um” (Rm 12.3). Nessa autoavaliação, devemos nos ver como “um só corpo em Cristo e membros uns dos outros”, razão pela qual possuímos diferentes dons e funções (Rm 12.4-6), devendo cada um exercer seus próprios dons e função com a máxima dedicação. É assim que uma pessoa transformada pela renovação da mente (Rm 12.2) exerce os dons que recebeu de Deus, no contexto do amor cristão.
  4. A analogia da igreja com o corpo é ainda mais explorada em 1Coríntios 12. Ali, Paulo pretendeu amainar os excessos em torno do dom de línguas. Afirmou, nesse contexto, que os dons do Espírito divisam o louvor da glória de Jesus Cristo (1Co 12.3); que o único Deus distribui, como quer, a cada crente, uma variedade de dons espirituais (1Co 12.4-11); e que a unidade do corpo de Cristo se fundamenta no batismo “em um só Espírito”, e não na manifestação de um único “superdom”, como pensavam, equivocadamente, os coríntios (1Co 12.12ss).
  5. À luz de 1Coríntios 14, percebe-se que o culto da igreja em Corinto era barulhento, desordeiro, que todos queriam exercer seus dons ao mesmo tempo e que havia muito falar em línguas em voz alta, sem que houvesse interpretação. Tudo isso trazia como resultado um saldo pequeníssimo, porque nem a igreja era edificada, nem os incrédulos presentes, evangelizados. Porque os dons pretendem a edificação da igreja com vistas à glória de Cristo (1Co 14.4,12,26), e porque não há edificação onde a inteligência é suprimida, Paulo destacou a superioridade da profecia sobre as línguas sem interpretação (1Co 14.5) e a importância de se falar na igreja palavras compreensíveis (1Co 14.6,9,19). Por fim, mesmo nos casos de haver línguas com interpretação e a tão indispensável profecia, Paulo racionaliza a participação dos irmãos (1Co 14.27-34) para que tudo fosse feito com decência e ordem (1Co 14.40).
  6. A partir dos textos supramencionados, podemos conceituar dom espiritual como a capacitação da graça de Deus por meio do Espírito Santo, concedida a todos os membros do corpo de Cristo, para que, no contexto da coletividade cristã, transmitam Cristo por meio de serviços e palavras com vistas à edificação da igreja e à glória de Deus. Do conceito, alguns destaques são de imperiosa consideração, o que fareos nos parágrafos seguintes.
  7. Em primeiro lugar, os dons espirituais são produto da graça de Deus e não aquisições dos méritos humanos. Notemos as palavras de Efésios 4.7,8: “E a graça foi concedida a cada um de nós segundo a proporção do dom [gr. dôrea] de Cristo. Por isso, diz: Quando ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro e concedeu dons [gr. domata] aos homens”. Em 1Corintios 12.4 ocorre o vocábulo “charismata”, palavra derivada de “charis” (graça), que igualmente ressalta a liberdade do doador.
  8. Em segundo lugar, os dons espirituais são capacitações do Espírito, não meramente habilidades naturais, para que os membros do corpo de Cristo sirvam no contexto da coletividade cristã. São, pois, uma obra divina no homem, não uma realização da capacidade humana. Em 1Coríntios 12.6, lê-se que “há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos”. A palavra “realizações” traduz o grego “energêmata”, que significa literalmente “operações eficazes” e denotam os dons como resultado da ação divina. A finalidade imediata desses dons é o serviço, noção evidente em várias passagens (1Co 12.5; 1Pe 4.10).
  9. Em terceiro lugar, os dons da graça de Deus são distribuídos pelo Espírito Santo soberanamente e a todos os membros do corpo de Cristo. Leiamos 1Coríntios 12.11: “Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um, individualmente”. A expressão “como lhe apraz” lembra que a dádiva de cada dom espiritual é uma decisão livre do Espírito Santo, cuja personalidade é pressuposta na passagem. A mesma ideia é reproduzida pelo escritor aos Hebreus, quando se refere às “distribuições do Espírito santo, segundo a sua vontade” (Hb 2.4). Essa distribuição soberana de dons alcança “a cada um”, termo que inclui cada membro do corpo de Cristo, que é tratado como indivíduo (“individualmente”). É dizer, nenhum cristão é falto de dom (1Co 12.7; Ef 4.7).
  10. Em quarto lugar, todos os possíveis dons espirituais podem ser classificados em dois tipos: serviços relacionados às atividades práticas e serviços relacionados ao uso da palavra. Essa classificação parece ter sido usada por Pedro (1Pe 4.10). Uma leitura rápida em Romanos 12.6-8 nos faz concluir que os dons se encaixam em um ou em outro desses tipos. Os dons de profecia, ensino e exortação são claramente dons exercidos por meio do uso da fala; por outro lado, os dons de ministério, contribuição, presidência e misericórdia são os exercidos por meio de serviços práticos.
  11. Em quinto lugar, quer os dons espirituais se manifestem como serviços práticos, quer através da linguagem, eles sempre consistem de uma comunicação de Cristo. É como disse J. I. Packer: “um dom espiritual é uma capacidade de certa forma para expressar, celebrar, expor e, portanto, transmitir Cristo. Sabemos que os dons, corretamente usados, edificam os cristãos e as igrejas. Mas somente o conhecimento de Deus em Cristo edifica; portanto, cada charisma deve ser uma capacitação de Cristo para mostrar Cristo e participar dele de um modo diferente”.
  12. Em sexto lugar, os dons espirituais, evidentemente, visam um “fim proveitoso” (1Co 12.7), a edificação da igreja (1Co 14.4,5,12,26), com vistas à glória de Cristo, “para que, em todas as coisas, seja Deus glorificado, por meio de Jesus Cristo, a quem pertence a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém” (1Pe 4.10).
  13. Quanto ao “uso diligente dos meios de graça”, relembramos que “meios de graça” são os instrumentos utilizados por Deus, por meio do Espírito Santo, pelos quais comunica ordinária e constantemente as bênçãos de Jesus Cristo à Igreja com vistas ao seu fortalecimento e edificação, e consistem principalmente das ordenanças (batismo e Ceia), da ministração da Palavra e da oração. Sobre as ordenanças, cumpre-nos colocar de pronto que são uma concessão da graça de Deus aos homens e não, primariamente, um serviço dos homens a Deus. Às ordenanças tão somente nos submetemos. Não somos nós quem as instituímos ou produzimos. Não batizamos a nós mesmos, mas nos sujeitamos ao batismo. Tampouco administramos os elementos da Ceia, mas simplesmente os recebemos. Ademais, os fatores comuns à Ceia e ao batismo é que são sinais visíveis de graças invisíveis equivalentes. A palavra “sacramento” vem do latim “sacramentum”, vocábulo utilizado na Vulgata para traduzir o grego “mysterion”. Nos termos aceitos pelos reformadores, um “sacramento”, conceituou Berkhof, “é uma santa ordenança instituída por Cristo, na qual, mediante sinais perceptíveis, a graça de Deus em Cristo e os benefícios da aliança da graça são representados, selados e aplicados ao crente, e estes, por sua vez, expressam sua fé e sua fidelidade a Deus”. Para ler nossas divagações completas sobre as ordenanças, remeto o leitor às nossas divagações sobre o artigo 25 da Declaração.
  14. A ministração da Palavra e a oração são também meios de graça. A exposição da Palavra de Deus é o meio de graça do Espírito por excelência, além de ser a marca suprema de uma verdadeira igreja de Cristo (conforme abordamos alhures) e o eixo em torno do qual deve gravitar a adoração (sobre o que adiante comentaremos). O evangelho é o poder de Deus para a salvação (Rm 1.16; 1Co 1.18; Ef 1.13), por ser a Palavra de Deus (1Ts 2.13), que é viva, permanente e eficaz (1Pe 1.25; Hb 4.12) e uma luz que brilha nas trevas (2Pe 1.19). É por ela que o Espírito produz regeneração (Tg 1.18; 1Pe 1.23), fé (Rm 10.17), iluminação (2Co 4.3-6) e progresso na santidade (Jo 17.17). Por ser inspirada por Deus, a Escritura é útil para ensino, repreensão, correção e educação na justiça, a fim de conduzir os homens que nela creem à maturidade de conduta e de caráter, devendo ser reconhecida a centralidade da pregação na vida da igreja (2Tm 3.16,17).
  15. Finalmente, devemos considerar seriamente a oração como meio de graça do Espírito Santo. O acesso a Deus por meio da oração é uma conquista de Jesus Cristo na cruz do Calvário (Hb 10.19-22) e a maneira estabelecida por Deus para apresentarmos a Ele – em nome Jesus Cristo e no Espírito, com inteira devoção, confiança e consciência de Sua presença -, nossas petições. As nossas orações devem ser feitas em nome de Jesus, visto que não temos méritos próprios para comparecermos perante Deus (1Tm 2.5; Jo 14.6; Ef 3.11,12; Cl 3.17). Portanto, é absolutamente necessário que nos aproximemos de Deus confiantes nos méritos de Cristo e na eficácia da Sua obra (Hb 7.25) e completamente esvaziados de todo e qualquer senso de justiça própria. Dizendo de modo simples: as nossas orações não possuem qualquer poder em si mesmas. Embora, a princípio, possamos orar por quaisquer desejos e necessidades lícitos, sabendo que Deus nos responderá conforme a sua vontade (1Jo 5.14), devemos priorizar aqueles pedidos que redundam em maior reconhecimento da glória de Deus e promovem o avanço da manifestação do seu reino, lição que nosso Senhor nos ensinou com o Pai Nosso (Mt 6.9-13).
  16. As Escrituras nos ensinam sobre as atitudes e os motivos que não devem concorrer com nossas orações, tanto quanto aqueles que lhes devem acompanhar. As nossas petições devem ser oferecidas a Deus com fé (Tg 1.5-8; 5.15), aquela atitude que sabe que Deus é poderoso para fazer inclusive muito mais além daquilo que pedimos e pensamos (Ef 3.20). Por outro lado, há atitudes que obstaculizam a resposta do Senhor às nossas orações, a exemplo da falta de perdão, dos maus tratos para com a esposa, do mundanismo e do egoísmo, da hipocrisia e dos pecados ocultos (Mt 5.23,24; 1Pe 3.7; Tg 4.1-3; Mt 6.5; Is 59.1,2).
  17. Ademais, a Bíblia ensina que há tipos variados de oração que se adequam às diversas situações e necessidades da vida. Em 1Timóteo 2.1, Paulo menciona quatro expressões para designar as orações que a igreja deve fazer em favor daqueles inclusive que se acham em posição de autoridade, quais sejam: “súplicas”, “orações”, “intercessões” e “ações de graças”. A palavra “orações” tem sentido mais geral e engloba todas as demais formas pelas quais nos dirigimos a Deus. “Súplicas” são orações por certas necessidades profundamente sentidas; são, no dizer de Hendriksen, “solicitações humildes que alguém expressa verbalmente à luz dessa ou daquela situação concreta em que Deus, tão somente ele, pode fornecer o auxílio de que se necessita”. Quanto a “intercessões”, Hendriksen observa que a palavra só ocorre em 1Timóteo 2.1 e 4.5, aduzindo que enfatiza a ideia de “livre acesso”, para concluir que na passagem em apreço assume o sentido de “entrevista confidente que visa aos interesses de outrem. Daí assumir o sentido de intercessão”. “Ações de graças”, por sua vez, são a oração que reconhece que as bênçãos vieram e só podem vir de Deus e devem retornar a Ele em forma de gratidão.
  18. Portanto, oremos sem cessar (1Ts 5.17) pelas autoridades constituídas (1Tm 2.1), pelo progresso da obra missionária (At 4.24-30; Ef 6.18,19), inclusive para que Deus mande obreiros para a sua seara (Mt 9.37,38) e pelo bem-estar e crescimento espiritual de todos os santos (Ef 6.18; Cl 1.9-12), e o façamos na devoção solitária de todos os dias (Mt 6.6), como também na reunião com os santos, para a glória de Deus. Sobre o dever de prestar “o culto público centrado nas Escrituras e por elas regulado”, remeto o leitor às nossas divagações sobre o artigo 25 da Declaração.
  19. Por fim, para além desses “deveres supremos” que classificamos como internos, uma verdadeira igreja de Jesus Cristo tem “a missão ao mundo de pregar o evangelho, batizar os convertidos e discipulá-los”. Trata-se da Grande Comissão dada pelo Senhor Jesus Cristo a todos os membros da sua Igreja militante para que, no poder do Espírito Santo, envolvam-se com a pregação do evangelho, com o discipulado que é próprio dos conversos e com a comunhão de uma igreja local. Sua importância se vê em que cada Evangelho contém uma variação dela e que estas ordens representam as palavras finais de Jesus Cristo (Mt 28.18-20; Mc 16.15; Lc 24.46-49; Jo 20.21), como também pelo fato de os seus comandos estarem no início do livro de Atos dos Apóstolos, fundamentando a missão aos confins da terra que se seguiria (At 1.8). Com efeito, a ordem de Jesus começou a ser cumprida à medida em que a igreja passou a pregar o evangelho em Jerusalém, na Judeia e Samaria e até aos confins do mundo de então, sobretudo após a conversão e as missões paulinas (At 2-7,8-12,13-28). A Grande Comissão é, pois, a atividade mais indispensável da Igreja em favor do mundo. As demais atividades são preparatórias ou instrumentais em ralação aos deveres cardeais do culto público a Deus e da missão intransferível, que somente a ela foi entregue e que ninguém mais poderá fazer, de pregar o evangelho a todas as nações.

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