Em nosso primeiro estudo (aqui), aprendemos verdades valiosas à nossa compreensão da necessidade do Evangelho. Sem aquelas verdades pressupostas, não conseguiríamos discernir sequer o motivo de Jesus Cristo ter vindo à terra, tampouco à cruz. Relembremos as verdades já aprendidas:
- Porque Deus é Santo, Ele está inteiramente livre de se contaminar com o mal, Sua natureza aborrece o mal e Ele exige a perfeição absoluta das Suas criaturas morais;
- O PADRÃO da santidade de Deus é o próprio Deus e Sua Lei;
- A natureza humana, por nascimento, está contaminada com o pecado e impossibilitada de alcançar o PADRÃO divino. Em verdade, está incapacitada de cumprir qualquer ponto da Lei de Deus perfeitamente. O melhor da raça humana não passa de “trapos da imundícia”;
- Se o único caminho para Deus fosse através do cumprimento da Sua Lei, não haveria salvação. Ninguém se salvaria!
Agora, o que nos resta? Fazermos como Davi que, na continuação do Salmo 5, citado no estudo anterior, disse:“Porém eu entrarei em Tua casa pela grandeza da Tua misericórdia” (Sl 5.7). Não nos sobra mais nada, senão atentarmos para a graça redentora de Deus e ver que providência Ele tomou quanto à salvação dos pecadores, dentre os quais estamos nós, eu e o leitor.
Recordemos, pois, onde ficamos: “Todos aqueles, pois, que são das obras da Lei estão debaixo da maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da Lei, para fazê-las” (Gl 3.10). O homem está debaixo da MALDIÇÃO DA LEI. Quem está debaixo da maldição? Todos os homens, sem exceção alguma! “(…) Já dantes demonstramos que (…) todos estão debaixo do pecado” (Rm 3.9). “A Escritura encerrou tudo debaixo do pecado (…)” (Gl 3.22).
A função da Lei de Deus
No tempo em que estamos sem o conhecimento salvador do Evangelho de Jesus Cristo, a Escritura (a Lei) cumpre perfeitamente o seu papel de evidenciar o quanto nós somos pecadores, pois é “pelo mandamento que o pecado se faz excessivamente maligno” (Rm 7.13). “Sobreveio a lei para que avultasse a ofensa” (Rm 5.20a).
Em outras palavras, Deus não faz exigências aos homens, em Sua Lei, por haver acreditado que eles seriam capazes de cumpri-las. As exigências da Lei de Deus são usadas por Ele para tornar evidente a rebeldia da nossa natureza, sempre disposta a desagradar o Criador, e para que corramos para Jesus Cristo e nos refugiemos nEle, em Quem temos socorro, como ensina o apóstolo Paulo: “De maneira que a lei nos serviu de aio [condutor de crianças] para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé” (Gl 3.24).
Os homens estão dispostos a ter uma religião e a confessar e ouvir “coisas bonitas” sobre Deus. Entretanto, não suportam Suas proibições e Seus mandamentos positivos. O efeito normal das exigências da Lei de Deus no homem pecador não é levá-lo à obediência, mas estimulá-lo ao pecado. Não porque haja qualquer “problema” na Lei! O problema está na natureza humana, como diz o apóstolo: “Que diremos, pois? É a lei pecado? De modo nenhum! Mas eu não teria conhecido o pecado, senão por intermédio da lei; pois não teria eu conhecido a cobiça, se a lei não dissera: Não cobiçarás” (Rm 7.7). A Lei, frisemos isso, não nos foi dada porque somos capazes de cumpri-la. Muito ao contrário, ela nos torna réus por desobedecermos constantemente seus mandamentos positivos e proibições, e dignos do castigo nela prescrito. Portanto, malditos!
Essa compreensão nos torna aptos a considerarmos atentamente o que Deus fez através da vida, morte e ressurreição do Seu único Filho, Jesus Cristo. Sigamos, pois.
A obra de Deus através da vida e da morte de Jesus Cristo
A vida terrena de Jesus Cristo foi marcada pela perfeita obediência à Lei de Deus. “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, vim para cumprir” (Mt 5.17). Em mais de uma ocasião, Ele desafiou os homens à sua volta a Lhe acusar de algum pecado, caso encontrassem, ocasião em que se calaram: “Quem dentre vós me convence do pecado?” (Jo 8.46a). Mesmo acusado pelos judeus, que pediam a Sua crucificação, Pilatos e sua esposa O reconheciam como “justo” (Mt 27.19,24). O centurião romano que O crucificou reconheceu que verdadeiramente Ele era o Filho de Deus (Mt 27.54). Em Sua vida perfeitamente obediente ao Pai, Jesus Cristo estava adquirindo uma santidade humana, uma justiça perfeita (ativa e passiva), que seria atribuída a pecadores. “(…) foi Ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado” (Hb 4.15b). Ele foi “obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2.8b).
Em Sua morte, “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro” (Gl 3.13). Nesse versículo esclarecedor se encontram muitas informações preciosas. Nele, temos o Salvador se compadecendo de pecadores indignos e malditos e se colocando no lugar deles para receber o justo castigo divino que lhes era devido. Deus o Pai considerou os feitos pecaminosos de uma multidão incontável de pecadores como se Jesus Cristo os tivesse praticado.
Somente sobre esse fundamento, na base da morte penal e substitutiva de Jesus Cristo, é que pecadores podem ser “resgatados” da “maldição [isto é, da condenação] da lei”. Sim, a morte de Cristo na cruz é penal, porque Ele estava sendo punido, recebendo as penalidades que o pecado merece. E é também substitutiva, visto que Ele estava sendo punido pelos pecados que nós cometemos, e não porque Ele houvesse cometido algum pecado.
A palavra “resgatar” era própria do comércio no mercado de escravos. “Resgatar” um escravo era libertá-lo, mediante pagamento de preço, do domínio de um senhor. Isso quer significar que o homem natural é escravo da “maldição da lei”! A Lei, para o homem natural, é uma senhora tirana e cruel, porque, ao passo que lhe promete vida caso ele a cumpra, na prática, apenas revela a malignidade do pecado e o condena. A Lei revela ao homem o quanto ele é pecador e quão digno do castigo eterno ele é, mas, por conta da sua natureza pecaminosa, é incapaz de se tornar um caminho possível de autorresgate.
Contudo, Jesus Cristo assume o lugar de pecadores. Notemos as palavras do apóstolo Paulo: “fazendo-se maldição por nós”. Jesus Cristo, o bendito de Deus, tomou sobre Si a maldição dos malditos, a justa e certa condenação dos réus. O homem sem pecado morreu no lugar de pecadores. Jesus Cristo colocou em Si as algemas que nos prendiam para que viéssemos à liberdade. Como disse o profeta: “Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si (…) Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades” (Is 53.4a,5a).
A justificação pela fé
Demos mais um passo em nossa compreensão. Atentemos para mais um versículo da Carta de Paulo aos Gálatas: “Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da Lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pelas obras da Lei; porquanto pelas obras da Lei nenhuma carne será justificada” (Gl 2:16).
O versículo é inequivocamente claro. Por três vezes se diz que nem um único homem (“nenhuma carne”) será justificado pela obediência à Lei (“pelas obras da Lei”). Semelhantemente, por três vezes se diz que o homem (qualquer homem) só pode ser justificado através da fé (somente!).
Assim, a fonte da salvação de qualquer homem é a graça (favor imerecido) de Deus. A base única da salvação de qualquer homem é a morte de Jesus Cristo em seu lugar. Lembremos: Ele se fez maldito para libertar pecadores da maldição da Lei. Mas, atentemos a isso: a instrumentalidade com que (ou o meio através do qual) a salvação de Cristo é aplicada ao pecador é a fé. Observemos esta sentença de Paulo: “pela graça sois salvos, por meio da fé (…)” (Ef 2.8).
Em síntese, se a fonte da nossa salvação é graça de Deus e a base dela é a morte de Jesus Cristo na cruz, por nós ou em nosso lugar, a fé é o meio pelo qual os benefícios da cruz de Cristo nos são aplicados e apropriados.
De sorte que na cruz houve uma real NEGOCIAÇÃO, ou, como alguém sugeriu, uma “troca gloriosa”:
- Nela, a justa maldição imposta pela Lei a uma multidão incontável de pecadores que a violaram foi imputada a Jesus Cristo – Ele se fez maldição por/no lugar de pecadores! Ele sofreu na cruz o que era devido a todo pecador: a justa e santa indignação do Todo-Poderoso. Ele sofreu o inferno, a ira de Deus, durante as horas tenebrosas da cruz!
- Por outro lado, a Sua perfeita obediência à Lei – pois Ele veio “para cumprir a Lei” (Mt 5.17) e viveu como um homem “sem pecado” (Hb 4.15) – adquiriu uma justiça humana perfeita que é imputada a pecadores no tempo oportuno, pela exclusiva instrumentalidade da fé, operada pelas atuações secretas e poderosas do Espírito Santo.
Noutros dizeres, o Cristo sem pecado foi feito pecador (por meio da imputação a Ele da culpa do nosso pecado) para que, pela fé nEle, fôssemos considerados justos (pela imputação a nós da justiça perfeita dEle). Essa súmula do Evangelho foi enunciada pelo apóstolo Paulo da seguinte forma: “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2Co 5.21).
Portanto, eis o único caminho para a aceitação de pecadores no favor divino: a morte penal e substitutiva de Jesus Cristo e a Sua perfeição humana, a Sua santidade humana, atribuída ao pecador, por meio da fé. Mais uma vez: “é evidente que pela Lei ninguém será justificado diante de Deus, PORQUE O JUSTO VIVERÁ PELA FÉ” (Gl 3.11).
A justificação é pela fé somente (não custa enfatizar)
Alguém poderia sugerir (como muitos fizeram e continuam a fazer) uma forma de conciliação entre a salvação pelas obras da Lei e, por outro lado, pela graça, mediante a fé. Diriam alguns (como muitos disseram e continuam a dizer): “Não creio que somente a fé seja suficiente como o único meio para a salvação. A fé, sem dúvida, mas somada à nossa obediência à Lei”.
Esse parece um argumento razoável, mas não resiste ao teste do confronto com o ensino apostólico. Sem maiores delongas, tentar acrescentar à pura fé as obras da Lei seria como duvidar da suficiência da obra de Jesus Cristo na cruz. Seria uma aniquilação da graça de Deus, pois “se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça” (Rm 11.6).
Foi combatendo esse absurdo que o apóstolo Paulo reagiu com a seguinte assertiva: “Não aniquilo a graça de Deus [como fonte da salvação]; porque, se a justiça provém da Lei [isto é, se a justiça com que podemos comparecer perante Deus e somos perdoados decorre da nossa obediência, em qualquer medida], segue-se que Cristo morreu debalde [em vão, inutilmente]” (Gl 3.21).
Perguntas para Reflexão
- O que Jesus Cristo adquiriu para pecadores em Sua perfeita obediência ao Pai?
- O que Jesus Cristo fez por pecadores na Sua morte de cruz?
- Quando cremos – exercemos fé exclusivamente em Jesus Cristo e Sua obra para a nossa salvação -, o que acontece?
- Isso acontece pela fé somente? Por quê?

