Não compreenderemos a mensagem do Evangelho – palavra que significa “boas novas” – a menos que conheçamos suficientemente sobre o perfeitíssimo Ser de Deus e, por outro lado, sobre a extensão da pecaminosidade humana. Sem esse indispensável conhecimento, não veremos razão para a cruz de Cristo. De posse dele, concluiremos que a realização da salvação do homem é resultado de “decisões” e “necessidades” divinas eternas, nos termos que passamos a esclarecer.
A Santidade de Deus
Antes de tudo, demos especial atenção ao que a Escritura ensina sobre a santidade moral de Deus. Esse aspecto da perfeição divina informa que Deus:
- É totalmente separado do mal moral. Deus é totalmente isento de fraqueza, de fragilidade ética. Deus não pode ser acusado de cometer qualquer pecado, nem pode ser responsabilizado pelo pecado das Suas criaturas racionais. “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta” (Tg 1.13). Percebamos que o escritor bíblico nos diz tanto que Deus não é atraído pelo pecado, como que não leva ninguém a pecar.
- Não pode conviver com o pecado. A santidade de Deus indica a total indisposição e impossibilidade de Ele suportar o mal em Sua presença. Da mesma forma que Ele é perfeito, também não aceitará nada menos que a perfeição absoluta diante do Seu Trono. “Tu [Deus] és tão puro de olhos, que não podes ver o mal…” (Hc 1.13). Nas palavras de Davi, em Salmos 5.4,5, a santidade de Deus está assim declarada: “Porque Tu não és um Deus que tenha prazer na iniquidade, nem contigo habitará o mal. Os loucos não pararão à tua vista; odeias a todos os que praticam a maldade”.
- Julga com base em Sua própria perfeição. Noutras palavras, a perfeição moral de Deus é Seu próprio PADRÃO de aceitação e julgamento. Por isso, quando o profeta Isaías viu os serafins clamando uns aos outros, dizendo “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos…” (Is 6.3-5), sua reação não poderia ter sido outra: “Então disse eu: Ai de mim! Pois estou perdido; porque sou um homem de lábios impuros e habito no meio dum povo de impuros lábios; os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos exércitos”. O profeta Naum disse que “O Senhor é tardio em irar-se, mas grande em poder, e ao culpado não tem por inocente…” (Na 1.3).
Se bem estamos compreendendo, esses textos da Palavra de Deus estão nos ensinando que seremos aceitos à Sua presença somente se formos aprovados segundo o Seu PADRÃO. E Deus é Seu próprio PADRÃO de santidade. Assim, a maneira certa de sabermos quem realmente somos perante Deus não é nos comparando uns com os outros, muito menos com os piores homens da espécie humana.
A Lei de Deus como PADRÃO de julgamento
Nesse passo, poderíamos perguntar da seguinte maneira: Qual o PADRÃO da santidade de Deus declarado à humanidade para que esta o cumpra fielmente, e, assim, seja aceita em Sua presença? Eis a resposta: o PADRÃO de Deus está expresso em Sua Lei. “A Lei do Senhor é perfeita… O mandamento do Senhor é puro…” (SL 19.7,8). “E assim a Lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom” (Rm 7.12).
A Lei de Deus é a revelação da Sua própria santidade. Ela, a Lei, é o PADRÃO de aceitação. Por isso, “o homem, que fizer estas coisas [que cumprir a Lei], por elas viverá” (Gl 3.12). Ou seja, o caminho do cumprimento da Lei de Deus para a salvação seria aceitável, mas somente se o homem fosse capaz de cumpri-la perfeitamente, uma vez que, como antes afirmado, o padrão de Deus para o julgamento é a perfeição absoluta!
A incapacidade humana para alcançar o PADRÃO divino
Entretanto, aqui reside um problema a princípio insolúvel. O homem está impossibilitado, por natureza, desde a concepção, de cumprir perfeitamente a Lei de Deus. A tendência natural do coração humano é sempre no sentido de desagradar o Criador. “Por isso, o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar” (Rm 8.7).
Não custa ressaltar que já nascemos com essa tendência contrária a Deus: “Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl 51.5). É necessário também lembrarmos que esse “problema” é de TODA A RAÇA HUMANA, sem nenhuma exceção, conforme podemos deduzir das palavras do apóstolo Paulo: “(…) Não há justo, nem um sequer; não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, a uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer” (Rm 3.10-12).
Considerando que o homem não pode cumprir a Lei de Deus perfeitamente, devemos ainda esclarecer que se ele pudesse cumprir parte da Lei, isso ainda não bastaria, porque está escrito: “(…) maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da Lei, para fazê-las” (Gl 3.10). Notemos que, para não sermos “malditos” (ou condenados pela Lei), seria necessário fazermos “todas as coisas”. Cumprir a Lei de Deus apenas em parte não resolveria! Por quê? Mais uma vez: o PADRÃO de Deus é a perfeição absoluta! Nas palavras de Tiago, “(…) qualquer que guardar toda a Lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos” (Tg 2.10). Portanto, mesmo que o homem pudesse cumprir parcialmente a Lei de Deus, isso não o tornaria aceito no favor de Deus.
Contudo, o problema é ainda mais sério! A gravidade do mal inerente à natureza humana impede-nos de cumprir qualquer ponto da lei perfeitamente. Tudo que fazemos está contaminado com o pecado. Mesmo quando praticamos boas ações, nossas motivações e sentimentos interiores permanecem manchados pelo pecado. Isso não quer dizer que não sejam louváveis as atividades de ajuda humanitária, às quais tantas pessoas dedicam a vida inteira. O que a Bíblia nos ensina a respeito é que mesmo estas ações, por mais nobres e necessárias que sejam, não são aceitas pelo Deus Santo para efeito de justificar o homem, ante à presença contaminadora do pecado em todas elas. Como disse o profeta Isaías: “Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades, como um vento, nos arrebatam” (Is 64.6).
Que se conclui? Que “É evidente que pela Lei ninguém será justificado diante de Deus (…)” (Gl 3.11). Dizendo de outro modo, se Deus não houvesse providenciado outro caminho, ninguém se salvaria, todos seríamos sumariamente banidos de Sua presença graciosa, eternamente.
Portanto, descartemos, de uma vez por todas, o caminho do cumprimento da Lei, ou, noutros termos, a salvação pelas obras, pois por ele ninguém chegará a Deus. As palavras do apóstolo Paulo não confundem: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8,9).
Não sendo possível o acesso a Deus pela obediência à Lei, acaso existiria outro caminho? É o que veremos nos próximos estudos.
Perguntas para Reflexão
- Na forma como aprendemos, o que significa dizer que Deus é Santo?
- Qual é o PADRÃO da santidade de Deus, segundo o qual seríamos hipoteticamente aceitos?
- O que impede o homem de cumprir qualquer ponto da Lei perfeitamente?
- O que aconteceria à raça humana se o único caminho para Deus fosse através do cumprimento da Sua Lei?
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