Divagações sobre a “Declaração de Fé Congregacional da UIECB” (Minuta do DET): Art. 23, Parte 4
Artigo 23 – Cremos que a única Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo231 se manifesta na pluralidade das igrejas locais232, consistentes de uma comunhão pactual do povo escolhido de Deus operada pelo Espírito Santo233 e fundamentada na doutrina dos apóstolos23⁴, embora nelas eventualmente se imiscuam os réprobos e hipócritas23⁵, e que se distinguem pelas marcas da pura ministração da Palavra da Deus, da correta administração das ordenanças e do exercício fiel da disciplina236, cujos deveres supremos incluem os mandamentos do cuidado mútuo237, a prática dos dons espirituais238, o uso diligente dos meios de graça239, o culto público centrado nas Escrituras e por elas regulado2⁴0 e a missão ao mundo de pregar o evangelho, batizar os convertidos e discipulá-los2⁴1.
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231 1Coríntios 12.12-27; Efésios 1.22,23; 5.24-30. 232 1Coríntios 1.2; 11.18; 1Tessalonicenses 1.1; Apocalipse 2,3. 233 1Coríntios 3.16; Efésios 2.22; 4.3,4; Filipenses 2.1. 234 1Coríntios 3.10; Efésios 2.19-22; 2Timóteo 1.13. 235 1Timóteo 1.19,20; 2Timóteo 2.16-21; 2Pedro 2.1; 1João 2.19; Judas 18,19. 236 Mateus 18.15-18; 1Coríntios 5.12,13; 11.17-34; 14.37; 2Tessalonicenses 5.14,15. 237 João 13.34,35; Romanos 12.10; 13.8; 14.19; 15.14; 1Tessalonicenses 3.12; 4.9; 5.11,14; 2Tessalonicenses 1.3; Hebreus 10.24; Tiago 5.16; 1Pedro 1.22; 1João 3.11,23; 4.7,11; 2João 5. 238 Romanos 12.6-8; Efésios 4.11-16; 1Pedro 4.10. 239 Mateus 6.9-13; João 17.17; Atos 2.41,42,46; 19.3-5; 1Co 11.23-25; Efésios 6.18; 1Tessalonicenses 5.17; 2Tm 3.16,17; Hb 10.19-22; Tg 1.5-8; 5.15. 240 Lucas 4.16; Colossenses 4.16; 1Tessalonicenses 5.27; 1Timóteo 4.13; Apocalipse 1.3. 241 Mateus 28.18-20; Marcos 16.15,16; Lucas 24.46-49; João 20.21-23; Atos 1.8.
Ainda a propósito do tema relativo à natureza da Igreja, consideraremos neste estudo a sua unidade em ambas as dispensações, em contraponto à corrente teológica que se convencionou chamar de “dispensacionalismo”, bem como o imprescindível assunto correlato do significado do Pentecostes. Nas próximas divagações, levaremos a termo nossos comentários finais ao artigo 23 da Declaração, momento em que discorreremos sobre o que diz o texto confessional do DET sobre “os deveres supremos” de uma verdadeira igreja de Jesus Cristo.
- Entre os sistemas teológicos que procuram explicar a unidade da revelação bíblica, destacam-se a teologia do pacto e o dispensacionalismo. Ambos reconhecem a inspiração e a autoridade das Escrituras, a centralidade de Cristo na história da redenção e a salvação exclusivamente pela graça mediante a fé. Entretanto, divergem quanto à relação entre Israel e a Igreja. O dispensacionalismo compreende a história da redenção como organizada em diferentes dispensações, nas quais Deus administra seu propósito de maneiras distintas. Em sua forma clássica, sustenta que Israel e a Igreja são povos distintos no plano divino. Israel é o povo terreno das promessas feitas aos patriarcas, enquanto a Igreja é um povo celestial, iniciado no dia de Pentecostes (At 2), formado por judeus e gentios unidos em Cristo. Consequentemente, os santos do Antigo Testamento não são considerados parte da Igreja, embora sejam reconhecidos como verdadeiros salvos.
- Apesar dessa distinção, o dispensacionalismo concorda com a teologia pactual em aspectos fundamentais da soteriologia. Ambos afirmam que ninguém jamais foi salvo pelas obras da Lei ou pelos sacrifícios do Antigo Testamento. A salvação, em todas as épocas, é exclusivamente pela graça de Deus, mediante a fé, tendo como único fundamento a obra redentora de Cristo (Rm 3.21-26; Ef 2.8-9; Hb 9.15). Os crentes do Antigo Testamento confiaram nas promessas divinas acerca do Redentor vindouro, enquanto os crentes do Novo Testamento depositam sua fé no Messias que já veio e consumou a redenção. A diferença, portanto, não reside no modo da salvação, mas na compreensão da identidade do povo de Deus. A teologia pactual, por sua vez, entende que existe apenas um povo de Deus ao longo de toda a história da redenção. As diversas alianças bíblicas do Antigo Testamento não constituem povos distintos, mas diferentes administrações da mesma aliança da graça (pactualismo pedobatista) ou meios pelos quais a aliança da graça, realizada em Cristo, foi proclamada (pactualismo credobatista). Assim, a Igreja não surge apenas em Pentecostes, mas existe desde o início da história da redenção, sendo composta por todos os eleitos de Deus, tanto antes quanto depois da encarnação de Cristo.
- Nesse último sentido, a unidade do povo de Deus decorre da unidade do próprio plano redentor. Desde a queda, Deus anunciou um único propósito salvador: a vitória da descendência da mulher sobre a serpente (Gn 3.15). Essa promessa é progressivamente desenvolvida na aliança com Abraão, na constituição de Israel, no ministério dos profetas e alcança seu cumprimento em Cristo. Em nenhum momento as Escrituras apresentam dois planos independentes de redenção ou dois povos distintos destinados a diferentes formas de comunhão com Deus. O Novo Testamento afirma repetidamente que Abraão é o pai de todos os que creem. Paulo declara que “os da fé é que são filhos de Abraão” (Gl 3.7) e conclui que “se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa” (Gl 3.29). A herança prometida a Abraão alcança todos os crentes, judeus e gentios, formando um único povo.
- Assim, uma das evidências mais significativas da unidade do povo de Deus é a maneira como o Novo Testamento aplica à Igreja promessas originalmente dirigidas a Israel. Essa constatação não significa, necessariamente, que todas as promessas nacionais, territoriais ou políticas feitas a Israel devam ser interpretadas da mesma forma. Esse ponto permanece objeto de divergência entre a teologia pactual e o dispensacionalismo. Contudo, é inegável que os autores do Novo Testamento identificam a Igreja como participante das promessas da aliança e como comunidade na qual muitas promessas veterotestamentárias encontram seu cumprimento em Cristo. O fundamento dessa interpretação está na própria pessoa de Jesus Cristo. Paulo afirma que “quantas são as promessas de Deus, tantas têm nele o sim; por isso também por meio dele é o amém para glória de Deus” (2Co 1.20). Antes de serem cumpridas na Igreja, as promessas convergem para Cristo. Ele é o verdadeiro descendente de Abraão (Gl 3.16), o Servo do Senhor anunciado pelos profetas (Is 42–53), o Filho de Davi (Lc 1.32-33) e o Mediador da nova aliança (Hb 8.6; 9.15). Em consequência, todos aqueles que estão unidos a Cristo tornam-se participantes das promessas feitas ao povo da aliança.
- Essa ideia é desenvolvida amplamente em Gálatas 3. Paulo combate a tese de que os gentios precisariam tornar-se judeus para participar das bênçãos prometidas a Abraão. Seu argumento é que a promessa foi feita, em última análise, à “descendência”, isto é, a Cristo (Gl 3.16). Assim, a união com Cristo torna os crentes participantes dessa promessa: “Se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa” (Gl 3.29). O apóstolo não afirma apenas que os cristãos recebem bênçãos semelhantes às de Abraão; afirma que eles próprios são considerados sua descendência e herdeiros da promessa. Trata-se de uma das declarações mais explícitas do Novo Testamento acerca da continuidade do povo de Deus. Também merece destaque a linguagem utilizada por Paulo em Gálatas 6.15-16. Após afirmar que nem circuncisão nem incircuncisão possuem valor, mas apenas a nova criação, ele pronuncia bênção sobre “o Israel de Deus”. A interpretação dessa expressão permanece debatida. Muitos dispensacionalistas entendem que ela se refere exclusivamente aos judeus cristãos; muitos intérpretes reformados sustentam que designa a própria Igreja como o verdadeiro Israel escatológico. Independentemente da solução adotada, o texto demonstra que Paulo não hesita em utilizar categorias veterotestamentárias para descrever a comunidade cristã.
- Em Romanos 4, Paulo utiliza Abraão como paradigma universal da justificação pela fé. Ele não é apenas o pai dos judeus circuncidados, mas também dos gentios que creem. A justificação recebida por Abraão é exatamente a mesma concedida aos cristãos, demonstrando que nunca houve dois métodos de salvação ou dois povos redimidos por princípios distintos. Romanos 4 reforça essa conclusão. Abraão é apresentado como “pai de todos os que creem” (Rm 4.11-12,16), tanto judeus quanto gentios. A promessa feita a ele não é restringida à descendência física, mas alcança todos os que possuem a mesma fé. O princípio da herança deixa de ser a genealogia e passa a ser a união pela fé com Cristo. Dessa forma, a promessa abraâmica torna-se patrimônio comum de toda a Igreja. A mesma verdade aparece em Efésios 2.11-22. Paulo afirma que Cristo derrubou o muro de separação entre judeus e gentios, criando “um só homem novo”. Ambos têm acesso ao Pai pelo mesmo Espírito e são edificados sobre o mesmo fundamento dos apóstolos e profetas. A linguagem utilizada pelo apóstolo enfatiza unidade, reconciliação e integração, e não a coexistência permanente de dois povos distintos. Observe-se que, na passagem, o apóstolo descreve a situação anterior dos gentios como estando “separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa” (v. 12). Entretanto, por meio da morte de Cristo, essa condição foi radicalmente alterada. Os gentios deixaram de ser estrangeiros e passaram a ser “concidadãos dos santos e membros da família de Deus” (v. 19). O texto não descreve a criação de uma comunidade paralela a Israel, mas a incorporação dos gentios ao povo da aliança, de modo que ambos constituem “um só homem novo” (v. 15) e “um só corpo” (v. 16). A expressão “alianças da promessa” mostra que as promessas anteriormente restritas ao povo da antiga aliança agora são compartilhadas pela Igreja.
- Romanos 11 oferece um dos argumentos mais fortes em favor da unidade do povo de Deus e da Igreja como beneficária das promessas feitas a Israel. Paulo descreve apenas uma oliveira, representando o povo da aliança. O texto não fala da criação de uma segunda oliveira, nem da substituição de Israel por outro povo, mas da continuidade do mesmo povo da aliança, agora ampliado pela inclusão dos gentios. A imagem pressupõe continuidade histórica, e não duas comunidades paralelas. A metáfora da oliveira possui extraordinária importância. Noutras palavras, há apenas uma oliveira cultivada, representando o povo da aliança ao longo da história. Alguns ramos naturais foram quebrados por causa da incredulidade, enquanto os gentios crentes foram enxertados na mesma árvore (Rm 11.17-24). O argumento depende da existência de uma única raiz, um único tronco e uma única árvore. Se Deus houvesse estabelecido dois povos completamente distintos, seria de esperar duas oliveiras. Em vez disso, Paulo ensina que os gentios participam “da raiz e da seiva da oliveira”. Isso significa participação nas bênçãos pactuais originalmente prometidas aos patriarcas.
- Jesus também ensina a realidade quanto à unidade do povo de Deus, ao declarar: “Haverá um rebanho e um pastor” (Jo 10.16). O contexto mostra que os gentios seriam incorporados ao povo já existente, formando um único rebanho sob um único Pastor. O texto não aponta para duas comunidades coexistentes, mas para uma só comunidade messiânica. O apóstolo Pedro, por suz vez, oferece uma das aplicações mais impressionantes das promessas feitas a Israel. Escrevendo a comunidades cristãs compostas em grande parte por gentios da Ásia Menor (1Pe 1.1; 4.3), Pedro aplica diretamente títulos que, no Antigo Testamento, descreviam Israel no Sinai: “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus” (1Pe 2.9). Essas expressões são retiradas principalmente de Êxodo 19.5-6 e Isaías 43.20-21. Pedro não afirma apenas que a Igreja possui privilégios semelhantes aos de Israel; ele utiliza exatamente os mesmos títulos pactuais para descrever a identidade da comunidade cristã. Em seguida, acrescenta: “Vós, sim, que antes não éreis povo, mas agora sois povo de Deus” (1Pe 2.10), citando Oséias 1.10 e 2.23, passagens originalmente relacionadas à futura restauração de Israel. O Novo Testamento entende que essas promessas encontram cumprimento na constituição da comunidade messiânica formada por judeus e gentios unidos em Cristo.
- Paulo faz uso semelhante da profecia de Oséias em Romanos 9.24-26. Após tratar da inclusão dos gentios, cita Oséias para demonstrar que Deus chama para si aqueles que antes não eram seu povo. Embora haja debate entre os intérpretes acerca do alcance imediato da citação, é inegável que Paulo aplica à formação da Igreja palavras originalmente dirigidas ao Israel restaurado. Outro exemplo encontra-se em Atos 15. No Concílio de Jerusalém, Tiago enfrenta a questão da admissão dos gentios na Igreja. Para justificar essa inclusão, cita Amós 9.11-12, profecia sobre a restauração da tenda caída de Davi. Segundo Tiago, a conversão dos gentios não constitui um plano paralelo ao de Israel, mas o próprio cumprimento da promessa profética. A restauração davídica prometida por Amós realiza-se na formação da comunidade messiânica, na qual judeus e gentios buscam conjuntamente o Senhor.
- Semelhantemente, a Epístola aos Hebreus reforça essa compreensão de unidade, como também a de que à Igreja se aplicam inúmeras promessas feitas originalmente a Israel. Jeremias havia prometido uma nova aliança “com a casa de Israel e com a casa de Judá” (Jr 31.31-34). O autor de Hebreus cita integralmente essa passagem (Hb 8.8-12; 10.16-17) e a aplica diretamente à Igreja cristã. O benefício prometido — perdão definitivo dos pecados, lei escrita no coração e íntimo conhecimento de Deus — é apresentado como realidade experimentada pelos destinatários da epístola. A promessa feita a Israel alcança sua realização na comunidade daqueles que pertencem a Cristo. O capítulo 11, por suz vez, apresenta os santos do Antigo Testamento como exemplos da mesma fé que caracteriza os cristãos. Todos viveram pela fé nas promessas divinas e aguardaram o cumprimento da redenção. Em seguida, Hebreus 12.22-24 descreve a assembleia celestial composta pelos santos de todas as épocas, unidos em torno de Cristo. Não há qualquer distinção entre uma assembleia de Israel e outra da Igreja. Além disso, a eficácia da obra de Cristo estende-se igualmente aos crentes anteriores à cruz. Romanos 3.25-26 afirma que Deus, em sua paciência, deixou impunes os pecados anteriormente cometidos até que fossem plenamente expiados por Cristo. Hebreus 9.15 declara expressamente que a morte de Cristo redimiu também as transgressões praticadas sob a primeira aliança. Isso demonstra que todos os eleitos, independentemente da época em que viveram, foram salvos pela mesma obra expiatória. Finalmente, o livro do Apocalipse apresenta a consumação da história da redenção por meio de imagens que unem Israel e a Igreja em uma única realidade escatológica. A Nova Jerusalém possui doze portas com os nomes das doze tribos de Israel e doze fundamentos com os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro (Ap 21.12-14). A cidade não representa duas comunidades distintas, mas um único povo redimido cuja história abrange toda a antiga e a nova aliança.
- Teologicamente, seria difícil sustentar a existência de dois povos redimidos quando há um único Mediador (1Tm 2.5), uma única fé (Ef 4.5), uma única esperança (Ef 4.4), um único corpo (Ef 4.4), uma única videira (Jo 15.1-5), uma única oliveira (Rm 11.17-24), um único rebanho (Jo 10.16) e uma única Nova Jerusalém destinada a todos os redimidos (Ap 21.12-14). Toda a linguagem do Novo Testamento converge para a unidade da comunidade redimida. É verdade que a revelação progrediu ao longo da história. Os crentes do Antigo Testamento possuíam conhecimento menos pleno do Messias e aguardavam o cumprimento das promessas, enquanto os crentes do Novo Testamento contemplam sua realização histórica em Jesus Cristo. Contudo, essa diferença é de grau de revelação, não de identidade do povo de Deus. A fé dos antigos era prospectiva; a dos cristãos é retrospectiva. Em ambos os casos, a fé tem por objeto o mesmo Deus, repousa na mesma graça e encontra seu fundamento na mesma obra de Cristo. Essas passagens demonstram que o Novo Testamento interpreta as promessas feitas a Israel de maneira cristocêntrica. Cristo é o herdeiro das promessas, e todos os que estão unidos a ele tornam-se participantes da mesma herança. A Igreja não recebe essas promessas por substituir Israel, mas porque é incorporada ao povo da aliança mediante a união com o Messias prometido. Assim, as alianças, as promessas e os privilégios pactuais alcançam sua plenitude na comunidade formada por judeus e gentios reconciliados em Cristo.
- Conclui-se, portanto, que a unidade da Igreja não é apenas uma construção sistemática da teologia reformada, mas decorre naturalmente do testemunho das Escrituras. Existe um único propósito eterno de Deus, uma única aliança da graça (sua promessa no Antigo Testamento e sua consumação do Novo Testamento), um único Mediador, uma única obra redentora e um único povo formado por todos aqueles que, em qualquer época da história, foram chamados pela graça e responderam com fé às promessas de Deus. Nesse sentido, a Igreja compreende todos os verdadeiros crentes, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, unidos em Cristo, o Cabeça de um só corpo, para a glória de Deus. Portanto, a afirmação de que a Igreja é una em ambas as dispensações e composta pelos verdadeiros crentes de todas as épocas exsurge das Escrituras, representa a posição reformada e congregacional históricas e é estabelecida pela Declaração proposta pelo DET.
- Nesse contexto, urge ainda ponderar sobre o significado e o impacto do Pentecostes à continuidade do povo de Deus. Decerto, o evento do Pentecostes (At 2) ocupa lugar central na história da redenção. Entretanto, seu significado deve ser compreendido à luz de toda a revelação bíblica. Embora o dispensacionalismo clássico sustente que a Igreja teve início em Pentecostes, a teologia pactual entende que esse evento não representa o nascimento da Igreja, mas a inauguração de uma nova fase da economia da redenção na vida da Igreja. A Igreja já existia antes de Pentecostes, pois o povo de Deus sempre foi constituído pelos verdadeiros crentes reunidos em torno das promessas divinas. Estêvão, por exemplo, refere-se à congregação de Israel no deserto utilizando o termo grego “ekklesia” (At 7.38), palavra normalmente traduzida por “igreja” no Novo Testamento. Embora o uso da mesma palavra, por si só, não prove identidade absoluta entre Israel e a Igreja, ele demonstra que o conceito de “assembleia” para se referir ao povo de Deus antecede o Pentecostes. Durante o ministério terreno de Jesus, já existia uma comunidade de discípulos. Cristo escolheu os doze apóstolos, instituiu oficiais, estabeleceu disciplina eclesiástica (Mt 18.15-20), celebrou a Ceia do Senhor (Lc 22.19-20) e chamou seus seguidores de “pequeno rebanho” (Lc 12.32). Esses elementos revelam que a comunidade messiânica já estava sendo formada antes da descida do Espírito Santo.
- O Pentecostes, portanto, não criou um novo povo de Deus, mas inaugurou uma nova etapa da vida desse mesmo povo. O grande acontecimento consistiu no cumprimento da promessa da nova aliança acerca do derramamento universal e intensamente mais profuso do Espírito Santo (Jl 2.28-32; Ez 36.25-27; At 2.16-21). Aquilo que anteriormente era experimentado de forma mais restrita e episódica tornou-se a experiência permanente da comunidade redimida na nova aliança. A descida do Espírito conferiu à Igreja poder para testemunhar Cristo até os confins da terra (At 1.8), confirmou a entronização de Jesus à direita do Pai (At 2.32-36), universalizou a missão entre todas as nações e tornou evidente a inclusão dos gentios no mesmo povo da aliança. O Pentecostes também marcou o início da expansão missionária da Igreja em escala mundial, cumprindo a promessa feita a Abraão de que todas as famílias da terra seriam benditas em sua descendência (Gn 12.3; Gl 3.8). Além disso, Pentecostes representou uma mudança na administração das bênçãos do evangelho, no âmbito da aliança da graça consumada. A antiga economia, caracterizada por tipos, sombras e instituições provisórias, deu lugar à realidade inaugurada por Cristo. Os sacrifícios cessaram porque o verdadeiro Cordeiro havia sido oferecido; o sacerdócio levítico foi superado pelo sacerdócio eterno de Cristo; e o Espírito Santo passou a capacitar permanentemente todos os crentes para a Grande Comissão, tornando-os, ademais, membros do corpo de Cristo e templo de Deus (1Co 3.16; 6.19; 12.12-13, 27; Rm 12.5).
- Nada disso, porém, exige concluir que Deus tenha iniciado um novo povo distinto daquele existente no Antigo Testamento. Ao contrário, o próprio Novo Testamento apresenta Pentecostes como o cumprimento das promessas feitas anteriormente, e não como a substituição de um povo por outro. O mesmo Espírito prometido pelos profetas é derramado sobre o mesmo povo da aliança, agora ampliado pela incorporação dos gentios em Cristo (Ef 2.11-22). Assim, Pentecostes deve ser compreendido como um acontecimento de enorme importância histórica e teológica: ele marca a entronização pública do Cristo ressuscitado, o derramamento definitivo do Espírito Santo, o início da missão universal da Igreja e a inauguração da administração plena da nova aliança. Contudo, esses acontecimentos pressupõem a continuidade do povo de Deus ao longo da história da redenção, e não a criação de uma Igreja absolutamente nova ou separada dos santos do Antigo Testamento. Para deixar ainda mais claro o que pretendemos defender, urge ainda acrescentar breve divagação sobre a verdadeira novidade do Pentecostes, nos seguintes termos: a novidade não reside em ser o marco inicial da presença salvadora do Espírito, mas o derramamento universal para a missão da Igreja. É o que faremos nos parágrafos seguintes.
- Uma das questões mais importantes da teologia bíblica consiste em identificar corretamente a novidade inaugurada no dia de Pentecostes. Frequentemente se afirma que, antes de Atos 2, o Espírito Santo não habitava os crentes ou não exercia uma obra permanente de regeneração e santificação. Todavia, essa conclusão dificilmente se harmoniza com o testemunho global das Escrituras. A leitura cuidadosa do Antigo e do Novo Testamento demonstra que a verdadeira novidade do Pentecostes não foi o início da atuação salvadora do Espírito Santo, mas a inauguração da era messiânica mediante seu derramamento universal e intensificado sobre todo o povo de Deus, capacitando a Igreja para sua missão mundial. A primeira razão para essa conclusão é que ninguém jamais foi salvo sem a atuação do Espírito Santo. A regeneração, a fé e a santificação sempre foram obras divinas. Se os santos do Antigo Testamento foram verdadeiramente regenerados e viveram em comunhão com Deus, necessariamente o fizeram pela operação do Espírito. As Escrituras apresentam numerosos exemplos dessa realidade.
- Moisés fala da necessidade de uma circuncisão do coração, obra que somente Deus poderia realizar (Dt 30.6). Davi, após seu pecado, clama: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalábel”, e acrescenta: “Restitui-me a alegria da salvação e sustenta-me com um espírito inabalável” (Sl 51.10, 12). Ezequiel anuncia que Deus daria ao seu povo um novo coração e colocaria dentro dele o seu Espírito, produzindo verdadeira obediência (Ez 36.26-27). Esses textos revelam que a transformação interior sempre dependeu da ação do Espírito Santo. O Novo Testamento confirma essa continuidade. Em Hebreus 11, todos os santos do Antigo Testamento são apresentados como exemplos de fé salvadora. Entretanto, a própria Escritura ensina que a fé é dom de Deus (Ef 2.8) e fruto de sua operação graciosa. Consequentemente, a fé de Abel, Enoque, Noé, Abraão, Moisés e dos profetas pressupõe a atuação regeneradora do Espírito. Sem essa atuação, seria impossível explicar sua perseverança, santidade e comunhão com Deus. O próprio Senhor Jesus confirma esse princípio ao dialogar com Nicodemos. Ao afirmar que “importa-vos nascer de novo” (Jo 3.7), Cristo censura Nicodemos por não compreender essa verdade (Jo 3.10). Essa repreensão somente faz sentido se o novo nascimento já estivesse anunciado nas Escrituras do Antigo Testamento, especialmente em passagens como Ezequiel 36.25-27 e Deuteronômio 30.6. Jesus não apresenta a regeneração como uma novidade da nova aliança, mas como uma realidade que um mestre de Israel deveria conhecer. Além disso, o Espírito Santo atuava amplamente na história veterotestamentária. Ele capacitava profetas (Nm 11.25; Mq 3.8), inspirava as Escrituras (2Pe 1.21), fortalecia juízes (Jz 3.10; 6.34; 14.6), ungia reis (1Sm 16.13), concedia sabedoria para o serviço (Êx 31.3) e produzia verdadeira piedade entre os fiéis. Portanto, não é possível sustentar que o Espírito estivesse ausente ou que sua atuação salvífica fosse inexistente antes de Pentecostes.
- Todavia, reconhecer essa continuidade não significa negar a profunda novidade inaugurada em Atos 2. O próprio Novo Testamento afirma que algo extraordinário ocorreu naquele dia. A questão, portanto, não é se houve novidade, mas qual foi essa novidade. A primeira característica da novidade pentecostal foi a universalidade do derramamento do Espírito. Joel havia profetizado: “Derramarei o meu Espírito sobre toda carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão… até sobre os servos e sobre as servas derramarei o meu Espírito” (Jl 2.28-29). Pedro declara explicitamente que essa profecia se cumpriu em Pentecostes (At 2.16-21). No Antigo Testamento, manifestações especiais do Espírito eram frequentemente associadas a indivíduos escolhidos para funções específicas — reis, sacerdotes, profetas, juízes e alguns artesãos. Agora, porém, o Espírito é derramado sobre toda a comunidade da nova aliança. Jovens e idosos, homens e mulheres, servos e livres tornam-se participantes desse mesmo dom. A promessa deixa de caracterizar apenas indivíduos especialmente vocacionados e passa a distinguir todo o povo messiânico.
- A segunda novidade consiste na intensidade da presença do Espírito. João afirma que “o Espírito ainda não havia sido dado, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado” (Jo 7.39). Essa declaração não pode significar inexistência da atuação do Espírito antes da cruz, pois o próprio Evangelho de João descreve o Espírito operando anteriormente (Jo 1.32-33; 3.5-8). O sentido é que o dom escatológico prometido pelos profetas ainda não havia sido concedido em sua plenitude, porque a obra redentora de Cristo ainda não estava consumada. Somente após sua morte, ressurreição e exaltação o Espírito seria derramado com a plenitude própria da nova aliança. Pedro interpreta precisamente dessa forma o acontecimento de Pentecostes: “Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis” (At 2.33). O Pentecostes, portanto, não inaugura a presença e as operações do Espírito na história da salvação, mas manifesta a consequência da entronização do Cristo ressuscitado. O derramamento do Espírito constitui a evidência pública de que o Messias foi coroado à direita do Pai e iniciou seu reinado.
- A terceira novidade, e talvez a mais importante para a vida da Igreja, consiste em sua capacitação para a missão universal. Antes da ascensão, Jesus declarou: “Recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra” (At 1.8). Essa promessa estabelece a finalidade imediata do Pentecostes. O Espírito é derramado para revestir a Igreja de poder a fim de testemunhar Cristo em todas as nações. O foco principal do relato de Atos não é explicar a origem da regeneração, mas mostrar como Deus equipa sua Igreja para a expansão do evangelho. Essa perspectiva é confirmada por toda a narrativa de Atos. O Espírito conduz a pregação apostólica (At 4.31), envia missionários (At 13.2-4), dirige a expansão da Igreja (At 16.6-10), confirma a inclusão dos gentios (At 10.44-48; 11.15-18) e distribui dons para a edificação do corpo de Cristo (1Co 12.4-11). A ênfase constante recai sobre capacitação, testemunho e missão.
- Essa compreensão harmoniza-se perfeitamente com as promessas veterotestamentárias da nova aliança. Jeremias anuncia uma lei escrita no coração (Jr 31.31-34), enquanto Ezequiel promete um novo coração e o Espírito habitando no povo (Ez 36.26-27). Essas promessas alcançam em Pentecostes sua manifestação histórica plena. O mesmo Espírito que regenerava e santificava anteriormente passa agora a habitar toda a comunidade messiânica de forma universal, permanente e intensificada, formando um povo preparado para anunciar o evangelho até os confins da terra. Portanto, a novidade de Pentecostes não deve ser buscada no início da atuação salvadora do Espírito Santo, pois essa realidade permeia toda a história da redenção. Desde Abel até João Batista, todos os santos viveram, creram e perseveraram mediante sua operação graciosa. A verdadeira novidade consiste no cumprimento das promessas escatológicas mediante o derramamento universal do Espírito sobre todo o povo da nova aliança, em razão da exaltação de Cristo, para constituir uma Igreja revestida de poder, dotada de dons espirituais e enviada em missão a todas as nações. Desse modo, Pentecostes representa uma mudança profunda na administração do evangelho sob a aliança da graça consumada, mas preserva a continuidade da obra salvadora do Espírito ao longo de toda a história da redenção.
Soli Deo Gloria