Introdução às Divagações sobre a “Declaração de Fé Congregacional da UIECB”

Vida e Teologia do Dr. Kalley

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Modo noturno

É preciso esclarecer que a intenção do Departamento de Educação Teológica (DET) da União das Igrejas Congregacionais do Brasil (UIECB), ao desincumbir-se da tarefa que lhe foi requisitada pela Junta Geral, escrevendo a minuta da Declaração de Fé Congregacional, fê-lo sempre divisando a melhor forma de explicar mais detalhadamente as posições teológicas e práticas pastorais consabidas do Dr. Kalley.
Os Conselheiros do DET envolvidos na empreitada estiveram imbuídos de promover, intencionalmente, um texto alinhado com o que se sabe, pelas obras escritas disponíveis, ter sido o pensamento doutrinário do Doutor, bem como as respectivas adaptações empreendidas pelo missionário escocês em terras brasileiras.
Assim, julgou-se imprescindível não olvidar dos fatos históricos mais relevantes a respeito da vida do Doutor, nem tampouco daquela que é a principal confissão de fé do pioneiro congregacional do Brasil, os 28 Artigos da Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo, considerações a respeito dos quais registramos na presente divagação e na seguinte.

A ordenação

Robert Reid Kalley nasceu e foi batizado no contexto da Igreja Escocesa. Após uma conversão dramática, tornou-se membro da Igreja da Escócia em 1833. Convicto de sua vocação missionária, Kalley requereu à Sociedade Missionária da Igreja da Escócia que o enviasse para servir na China, mas quando descobriu que essa agência não mantinha missionários naquele país, fez o mesmo pedido, em 1837, à London Missionary Society, formada por congregacionalistas em 1795, três anos após a fundação da Baptist Society (Sociedade Batista), de William Carey.
Seu noivado e casamento com Margareth Crawford, entretanto, levou o casal à Ilha da Madeira, onde Kalley exerceria ministério cristão profícuo, aliando-o a seus atendimentos médicos e a um amplo esforço de alfabetização dos nativos.
A descoberta da vocação para servir como ministro de Cristo em Madeira trouxe a necessidade de um ministério ordenado e reconhecido, e essa circunstância o fez buscar novamente a Sociedade Missionária dos congregacionais. Em carta escrita em 1º de fevereiro de 1839, ofereceu seus serviços como missionário e solicitou sua ordenação ao ministério. Em resposta, o Comitê resolveu opinar, em 25 de março de 1839, no sentido de que Madeira não era área de atuação da London Missionary Society, ao passo em que informou que “membros do Comitê, no exercício de sua autoridade pessoal”, estavam “prontos a ordenar Dr. Kalley um pregador do evangelho”.
Importa observar que Kalley, pensamos nós, poderia ter plantado igrejas congregacionais na Ilha da Madeira se seu pedido tivesse sido acatado pela Sociedade Missionária de Londres. Noutras palavras, é possível inferir que, caso a LMS tivesse acolhido a proposta de Kalley, sua obra na Madeira poderia ter assumido caráter institucional ligado ao congregacionalismo. De todo modo, Kalley foi ordenado em 18 de julho daquele ano, em Londres, na Capela do Reverendo James Bennett (1774-1862), um proeminente ministro e teólogo congregacionalista inglês, professor de teologia e figura importante do movimento congregacional, “por ministros de várias denominações, principalmente independentes”.

A primeira declaração de fé

Por ocasião dos preparativos à sua ordenação, Kalley fez um conjunto de declarações prestado à Sociedade Missionária de Londres, em 1839. Nessas declarações, confessou crer que o Deus de Israel é o eterno e imutável Deus que trouxe a matéria da inexistência à existência e que Ele governa todo o universo (declarações 1, 2 e 3). Na declaração 4, confessou que as Escrituras do Antigo e do Novo Testamento são a revelação de Deus para o homem, sendo o “único guia infalível, autorizado por Jeová, sobre o que devemos tanto acreditar como fazer”. Declarou também estar convencido que essas mesmas Escrituras ensinam tanto a unidade do Ser divino como a existência da Trindade de pessoas (declaração 5).
Nas declarações 6 e 7, Kalley professou que o Deus Trindade criou o homem para ser uma unidade de corpo e alma e livre de qualquer tendência para o mal moral, mas que a Queda o tornou merecedor da “ira do Todo Poderoso” e da justa e eterna condenação da parte de Deus. Na declaração 8, afirmou que os descendentes de Adão são por natureza inclinados ao mal moral e mortos em delitos e pecados.
Com efeito, asseverou na declaração 9 que, pela gravidade das consequências da Queda, “tem que haver uma solução poderosa. Que deve haver uma nova criação – um novo nascimento (…) ressurreição deste estado de morte (…) tal mudança sendo tão completamente além das possibilidades de qualquer poder criado como a ressurreição de um cadáver”. Na declaração 10, professou sua crença de que as pessoas da Trindade se deleitam e são honradas com a libertação e transporte das almas da poluição para a santidade.
As declarações 11 a 14 são dedicadas à obra da salvação. Pela declaração 11, apesar da escassa redação sobrevivente, somos levados a concluir que o pecado do homem ensejou a necessidade de plena satisfação das reivindicações da justiça de Deus. Para tanto, conforme a declaração 12, o Verbo eterno se fez homem, tornando-se “Deus e homem” e, segundo a declaração 13, sofreu a morte, foi feito uma maldição e suportou a ira que não era devida a Ele. Aqui, Kalley assevera: “Eu creio que Jesus voluntariamente expôs sua alma às chamas ferozes do inferno para que, tendo removido, tendo satisfeito (…) por nossa culpa aquilo que estava entre nós e Deus, que obstruiu as bondades que a Bondade queria nos dar”. Kalley, como se pode ver, estava convicto que Cristo, na cruz do Calvário, experimentou o inferno no lugar do Seu povo e, ali, redimiu-o cabalmente, tendo completado Sua obra.
A declaração 14 merece comentários apartados por três razões: ela nos informa o exato significado da doutrina da expiação limitada; diz-nos como um calvinista relaciona a expiação limitada com a evangelização; e esclarece-nos sobre o conteúdo e a forma do que poderíamos denominar de “evangelização reformada”. Atentemos às considerações a seguir tecidas.
A doutrina da expiação limitada assevera firmemente o valor infinito do sacrifício de Cristo. No dizer da declaração kalleyana, Cristo “fez uma expiação suficiente para satisfazer a justiça pelos pecados de todos os homens em todas as épocas e em todas as partes do mundo”. Expiação limitada, portanto, não quer significar expiação insuficiente. De fato, o valor do sacrifício de Cristo é “sem limites”. Caso fosse essa a vontade de Deus, todos os homens, sem exceção alguma, seriam salvos, em razão do valor imensurável da vida de Cristo sacrificada na cruz. Entretanto, disse o Doutor, “Eu creio que Jesus em Sua morte tinha em mente todos aqueles para os quais Ele tornou-Se substituto, todos aqueles que serão finalmente salvos. Essa me parece ser a doutrina da Bíblia”. Assim explica-nos Kalley a expiação limitada: a morte de Cristo é suficiente para todos, mas eficaz somente aos eleitos.
Por outro lado, a doutrina da expiação limitada não impede o cristão “calvinista” de ser um dinâmico e criativo evangelista. Esse ponto é-nos ensinado por Kalley e ilustrado por sua vida inteiramente comprometida com missões. Eis algumas de suas palavras na declaração em comento: “Eu não creio que ela [a doutrina da expiação limitada] de qualquer forma (…) nos impede de oferecer de maneira plena e gratuita a salvação. Me parece [sic] que isso me deixa com tanta liberdade neste pormenor que o adepto mais fervoroso da expiação universal (…)”. Kalley era um calvinista, mas não era um hipercalvinista. Deus de fato faz toda a Sua vontade, mas o faz através de meios soberanamente vocacionados e capacitados. Ademais, o Doutor entendia corretamente como o convite/chamado/ordem do evangelho é uma proclamação universal.
Por fim, Kalley também nos ensina como um cristão reformado, que aceita a expiação limitada, evangeliza. Ele não se sentia confortável em dizer “a um homem que está vivendo em pecado aberto e terrível”: “Fulano, Cristo o SENHOR da glória morreu por seu pecado”. Mas se sabia plenamente livre para se aproximar do “sujeito mais abjeto de Londres, dizendo-lhe que ele está caminhando para o Inferno e que, se continuar como inimigo do Deus vivo, um rebelde atrevido contra o Altíssimo, deverá perecer eternamente – e, ao mesmo momento, expondo-lhe a natureza incomensurável do amor do Pai na dádiva do Seu Filho, assumindo nossa natureza para que morresse o Justo pelos injustos, e do Espírito Santo aplicando essa redenção graciosa às almas dos homens. E convidando-o a abandonar as armas de sua rebelião e confiar na suficiência perfeita do sangue de Cristo para fazer expiação de todo o pecado, e na suficiência de Seu poder de sustentar e proteger … e assegurando-lhe que, em Jesus – olhando para Ele como seu Salvador nunca perecerá – ninguém pode arrebatá-lo da mão do Seu Pai… Nós o encorajaríamos a regozijar-se, a expressar sua alegria, e a descansar com confiança humilde na capacidade do Salvador”.
Vê-se que Kalley não evangelizava dizendo: “Fulano, Cristo morreu pelo seu pecado”. Mas oferecia Cristo livremente e convidava os pecadores a cofiarem na suficiência da obra do Redentor Todo-Poderoso se quisessem escapar da condenação eterna. Isso porque a fé por meio da qual um pecador é justificado, a fé salvadora, não é a fé pela qual confessa que sempre esteve salvo (implícita na afirmação “Cristo morreu pelo meu pecado”), mas a fé em Cristo para que seja salvo (a fé que abraça o próprio Salvador). O pecador deve confiar em Cristo não porque crer que é salvo – ou que é objeto especial do amor de Deus ou um eleito -, mas deve confiar como pecador que é, que precisa do Redentor para escapar da ira vindoura.
Finalmente, a declaração 15 da primeira confissão kalleyana professa a fé na “Segunda Vinda de Cristo”.

O ministério itinerante após Madeira e um (credo)batismo em Beirute

Quando recrudesceu a perseguição em Madeira, os Kalley decidiram passar uma temporada em Lisboa, como forma de aliviar a pressão sobre os crentes madeirenses. Na capital portuguesa, foram surpreendidos ao encontrar o reverendo William Hepburn Hewitson, quando, somente então, souberam que ele havia sido enviado pela Igreja da Escócia para cuidar dos crentes madeirenses e organizá-los como igreja. Sobre o episódio, Forsyth observa que o “Dr. Kalley não fora consultado a respeito da nomeação do Sr. Hewitson para este cargo, visto que o Doutor era totalmente independente, nem sequer tinha recebido qualquer ajuda da Igreja na Escócia ou até mesmo da Igreja Presbiteriana em Funchal”, mas que, nada obstante, “deu as boas-vindas a seu novo colega e juntos retornaram para Madeira”. O episódio explica o fato de os crentes evangelizados por Kalley terem se tornado uma igreja presbiteriana sob a jurisdição do presbitério de Edimburgo, da Igreja Livre da Escócia, e não em igrejas independentes.
Após a perseguição que culminou no “Dia de São Bartolomeu em Madeira” – 9 de agosto de 1846 -, tratativas lograram retirar centenas de crentes madeirenses da ilha. Enquanto isso, Kalley e Margareth fizeram ministério itinerante. Passaram por Cork, Irlanda, Malta e depois rumaram a Beirute, Líbano, onde o Doutor Kalley se dedicou sobretudo aos cuidados com a saúde da esposa. Nesse período, Margareth manifestou desejo antigo de se batizar segundo o que julgava ser os padrões do Novo Testamento. Para ela, o batismo na infância não refletia a realidade neotestamentária. Ela pretendia ser batizada em um ato público, mas como sua saúde se deteriorava espantosamente, contentou-se em ser batizada em uma cerimônia mais privada, em sua própria casa. Kalley a batizou em 7 de janeiro de 1851. Alguns meses depois, em 15 de setembro, ela faleceu e foi enterrada em Beirute.
Em 1852, quando já estava pronto a deixar Beirute e retornar à Escócia, conheceu Sarah Poulton Wilson, nascida em 25 de maio de 1825, filha de William Wilson (1801-1866) e Sarah Poulton Morley (1802-1825). Sarah tinha personalidade vibrante e jovial que a acompanhou por toda a vida, mas a sua característica mais marcante era a sua profunda espiritualidade. Kalley e Sarah se tornaram cada vez mais próximos e, em 14 de dezembro de 1852, casaram-se na Igreja Congregacional de Albany Road (ou de Abbey Road, a depender da fonte, originalmente conhecida como Rock Meeting House e depois Independent ou Congregational Chapel), em Torquay. Sólida pesquisa histórica confirma que William Wilson construiu, com recursos próprios, esse templo congregacional em Torquay, inaugurado em 1847, com capacidade para cerca de 800 pessoas.
Nos dois primeiros anos de casados, Kalley e Sarah visitaram os madeirenses do Caribe e Estados Unidos. Foi durante a estadia em Illinois que Kalley leu o livro do missionário metodista Daniel Parish Kidder, Sketches of Residence and Travels in Brazil (“Reminiscências de Viagens e Permanências nas Províncias do Sul do Brasil”). Essa leitura fez Kalley imaginar que o Brasil poderia ser seu próximo campo missionário. De volta ao solo inglês, ele e Sarah sopesaram a grande necessidade espiritual dos brasileiros e ponderaram que as experiências e aprendizados na Ilha da Madeira, dentre os quais certamente se inclui a fluência no idioma, foram uma preparação para o trabalho no Brasil.

A Eclesiologia em terras brasileiras

Em 10 de maio de 1855 o casal Kalley desembarcou na Baía de Guanabara, dando início a uma permanência no Brasil por vinte e um anos. No dia 11 de julho de 1858, o Doutor organizou a primeira igreja evangélica genuinamente nacional – a Igreja (Evangélica) Fluminense.
Quanto à Eclesiologia de Kalley praticada no Brasil, é de relevo anotar que o Doutor, de origem presbiteriana, em constante contato com congregacionais e estando casado com uma congregacionalista, todos pedobatistas, foi ele mesmo um pedobatista na Ilha da Madeira. No entanto, jamais batizou recém-nascidos em terras brasileiras, mas somente os crentes – e por aspersão -, prática seguida pelas igrejas por ele fundadas e pelas filhas dessas.
É difícil definir, entretanto, quando a opção credobatista kalleyana se fixou, devendo ser lembrado nesse passo que o Doutor rebatizou a D. Margareth Crawford pelos idos de 1851, em Beirute, conforme antes registrado. O que teria causado a mudança? O rompimento de Kalley com o pedobatismo teria implicado o rompimento com o aliancismo do seu ambiente teológico? Em uma carta escrita ao Sr. John Morley, tio da Sra. Kalley, em 7 de junho de 1865, Kalley disse o seguinte: “Quanto ao batismo de crianças, a Bíblia guarda silêncio a respeito. A circuncisão era um rito limitado aos machos, no oitavo dia de nascimento, e era aplicada pelo pai, pela parteira ou por qualquer outra pessoa habilitada. Assim – Abraão aplicou-a em Isaque (Gn 21.3 e 4); a mulher de Moisés, Séfora, em seu filho (Ex 4.25); Paulo em Timóteo (At 16.1-3). As condições essenciais para o batismo eram duas: a) entender claramente a mensagem e b) de coração aberto aceitá-la. Fé em exercício e alegria inteligente eram os pré-requisitos deste rito cristão – totalmente nulos aos recém-nascidos”.
Quanto à forma de batismo, Kalley não a considerava da essência do rito, nem que houvesse um modo inexoravelmente estabelecido no Novo Testamento, razão pela qual não concordava que o imersionismo pudesse ser declarado como o único válido. Na mesma carta a Morley, sua posição fica bastante clara, ao afirmar que “o rito do batismo não está limitado na Bíblia a uma só forma: não há instruções a respeito do tempo, do local, da idade, do sexo do celebrante e do que recebe o batismo, da temperatura ou da quantidade da água, etc. Se esses pontos fossem de importância, Deus teria, sem dúvida, fixado o que era essencial: logo nenhum indivíduo tem autoridade para afirmar que o modo que ele emprega é o verdadeiro e todos os outros são falsos”.
No entanto, Kalley estava resoluto quanto a manter o aspersionismo nas igrejas brasileiras, fato que pode ser vislumbrado nos termos acordados com dois obreiros que enviou à Igreja Pernambucana, os Reverendos William Bowers, em 1878, e James Fanstone, no ano seguinte, que substituiu o primeiro. Ambos eram batistas de origem, mas foram enviados por Kalley sob a condição de que não inovariam quanto à forma de batismo. Assim, por tudo que apontamos, Kalley, embora não considerasse a forma de batismo essencial, realmente pretendia que as igrejas por ele fundadas permanecessem aspersionistas.
Segundo o Rev. Vanderli, “O procedimento dele era aspergir água sobre a cabeça do candidato, após responder em pé, perante toda a congregação um questionário”. Para o nosso propósito, a pergunta “5” é digna de observação: “Credes que tendes o grande benefício que decorre do grande sacrifício da expiação consumado por Nosso Senhor Jesus Cristo e que participais de sua intercessão, agora que Ele está na glória celeste?” A pergunta kalleyana pressupõe que são beneficiários do Pacto da Graça somente os crentes e que, conforme escreveu, “Fé em exercício e alegria inteligente eram os pré-requisitos deste rito cristão – totalmente nulos aos recém-nascidos”.
A pergunta “10”, por sua vez, espera como resposta um retumbante “sim”: “Quereis ser batizado, para significar que concordais com a aliança, pela qual Deus assegura ao crente o pleno proveito do sacrifício expiatório de Jesus, e que, portanto, decidis, com o auxílio divino, servi-lo sempre durante o resto de vossa vida aqui na terra?”. Com efeito, o batismo é a profissão de fé, consistente na manifestação pública do batizando de que é beneficiário do Pacto da Graça, da Nova Aliança, que é dele “o pleno proveito do sacrifício expiatório de Jesus”.
Quanto à forma de governo eclesiástico, Kalley fundou igrejas independentes ou congregacionais. Tanto as igrejas por ele implantadas eram independentes, uma em relação às outras, como todos os membros da igreja tomavam as decisões mais relevantes democraticamente, reunidos em assembleias. Timóteo Klen Cardoso, na obra “De Westminster aos 28 Artigos: Um estudo comparativo da Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo (28 Artigos) e a Confissão de Fé de Westminster”, concluiu pelo congregacionalismo de Kalley a partir do modo como ele conduziu a congregação a avaliar o texto original da Breve Exposição. Disse, a propósito: “O fato dos artigos serem apresentados à igreja demonstra que o intuito de Kalley era o de os membros da igreja participarem de sua formulação e estabelecimento, através da discussão dos artigos e até mesmo com sugestão de mudanças”. Acrescentou, na sequência, que, “a despeito de sua origem presbiteriana, nitidamente Kalley visava implantar uma igreja de sistema de governo congregacional, ao não impor os artigos, mas sim levar à aprovação da igreja”.
Socorremo-nos de Forsyth outra vez quando aviva que Kalley, de berço presbiteriano, “se tornara um congregacionalista praticante” por pelo menos três razões: Kalley era um “independente declarado”, que negava ser presbiteriano e se dizia um membro da Igreja de Cristo; sempre esteve em estreita associação com ministros congregacionais, inclusive tendo sido indicado à Sociedade Missionária de Londres – cujos membros eram majoritariamente congregacionais – por um congregacional; também porque casou-se com Sarah, de família tradicionalmente congregacional.

Os desafios do Dispensacionalismo

Em uma viagem de volta ao Brasil, quando o navio aportou em Salvador, em setembro de 1863, os Kalley conheceram o escocês Richard Holden, de origem episcopal. O encontro se revelou frutífero, a ponto de Holden vir a tornar-se o pastor auxiliar de Kalley na Igreja Fluminense. Entretanto, os missionários precisaram fazer nova viagem a Europa e de fato embarcaram em 2 de dezembro de 1868, quando, por meio de correspondências com Holden, perceberam que o pastror auxiliar não pretendia permanecer no pastorado da Igreja Fluminense por muito tempo. Mas qual teria sido o problema? Forsyth esclarece: “Como muitos bons homens de seus dias, ele foi grandemente influenciado pelas doutrinas dos Irmãos de Plymouth e sentiu que não poderia mais servir como pastor nos atuais termos e receber salário mensal da igreja”. Holden estava sofrendo as influências de John Nelson Darby e do movimento dos Irmãos de Plymouth.
O darbysmo, alegando a pretensão de retornar ao cristianismo simples do Novo Testamento, insistia no compartilhar semanal do pão eucarístico, em rejeitar o ministério cristão ordenado e as formulações credais, em fugir das liturgias fixas e em enfatizar a iminente volta de Jesus. Em nome do sacerdócio dos crentes, todos os ministérios formais deveriam ser rejeitados e todos os credos, abolidos, uma vez que é o Espírito Santo quem guia todos os verdadeiros crentes e os une na fé e no culto. Darby também não aceitava a noção de igreja visível, além de ensinar que os cristãos participavam da natureza divina e de ser o maior expositor e sistematizador do Dispensacionalismo. Kalley não pode concordar com diversos pontos de vista de Nelson Darby.
Em junho de 1871, foi a vez do Reverendo Holden seguir viagem para a Inglaterra. De lá, em uma carta a Kalley datada de dezembro daquele ano, informou que não retornaria à Igreja Fluminense, tanto por diferenças doutrinárias com o Doutor como por julgar que um pastor não deveria receber remuneração por seus serviços. Finalmente, nova carta de Holden a Kalley trouxe o comunicado de que ele havia se encontrado com Darby e Kelly e abraçado as doutrinas e práticas dos Irmãos de Plymouth.
Nesse período, a Igreja Fluminense continuava atuante e crescente. A Escola Bíblica Dominical, com novo formato – agora produzindo lições adequadas para adultos, jovens e crianças -, foi inaugurada em 16 de julho de 1871, com cerca de duzentos alunos matriculados. Também nessa época, D. Sarah organizou uma Sociedade de Senhoras, iniciada em dia 11 de julho de 1871. Ademais, Kalley não tardou em providenciar o preparo de outro pastor para a Igreja Fluminense e, depois de corresponder-se com Charles Haddon Spurgeon (1834-1892), enviou para a escola do Príncipe dos Pregadores João Manoel Gonçalves dos Santos, que viajou para Londres em 8 de agosto de 1872, com trinta anos de idade.
Nada obstante, enquanto esteve na liderança da Igreja Fluminense, Holden levou muitos dos seus membros ao darbysmo, tanto que após sete anos da sua saída houve um movimento cismático, segundo registra Nassif, do qual saíram vinte e seis membros da Igreja para formarem a Igreja dos Irmãos Unidos do Rio de Janeiro. Os prejuízos haviam sido plantados e teriam que ser colhidos.
Kalley, é de rigor que frisemos, jamais aderiu ao darbysmo, nem tampouco ao Dispensacionalismo. Escrevendo a James Fanstone, em 30 de novembro de 1878, Kalley respondeu a pergunta se pertencia ao grupo dos Irmãos Unidos com as seguintes palavras: “Graças a Deus, não pertenço aos tais irmãos! Uma de suas práticas é recusarem-se a publicar uma declaração fiel das doutrinas que, conforme ensinam, estão estabelecidas na Palavra de Deus: uma tal recusa deixa a porta aberta à disseminação de qualquer heresia! A Igreja Evangélica Fluminense tem uma Exposição das Doutrinas Fundamentais, que ela aceita e subscreve…”.
Um dos pontos nos quais Kalley e Holden discordaram foi quanto à ideia darbysta de que o crente pode vir a ser participante da natureza divina. Holden argumentava a favor de tal noção comparando o crente com uma mula, que, segundo ele, tem duas naturezas, a do cavalo e a da jumenta. Kalley, de seu turno, retrucava dizendo que tal doutrina muito se assemelhava ao panteísmo e que somente Jesus tem duas naturezas – “a natureza do eterno e invisível Deus e a natureza de perfeito homem, criado pelo poder do Espírito Santo, no ventre da Virgem Maria, descendente do Rei Davi”. Também o Dispensacionalismo introduzido por Holden na Igreja Fluminense foi fortemente resistido por Kalley, inclusive em seu aspecto escatológico.

O retorno à Escócia e as tensões em relação às igrejas brasileiras

De volta à Escócia, Kalley contribuiu com diversas sociedades missionárias, tais como a Sociedade da Reforma Escocesa, a Sociedade Bíblica da Escócia e a Missão Médica de Edimburgo. No aspecto institucional, permaneceu formalmente ligado à Igreja Estatal da Escócia.
Boa parte do tempo de Kalley foi dedicada à ampla correspondência com Rio de Janeiro e Recife, onde havia estabelecido trabalhos no Brasil. Oito longas cartas foram escritas para tratar da influência do darbysmo entre os membros da Igreja Fluminense. A questão se tornou tão urgente que Kalley pediu ajuda a Charles Spurgeon, o qual o atendeu enviando literatura ao pastor João dos Santos a fim de auxiliá-lo a remover a influência darbysta da igreja. Forsyth informa que os esforços foram bem sucedidos e um bom número de crentes desviados retornou à igreja, “desiludidos com os resultados práticos das doutrinas de Darby”.
Quanto ao mais, o Reverendo João dos Santos estava muito bem no pastorado da Igreja Fluminense. Com efeito, as preocupações de Kalley concentravam-se em prover um obreiro qualificado para Recife, uma vez que dois estudantes de lá, Aderito e Leônides, ainda não haviam concluído seus estudos no East London Training Institute. Em resposta a essa premente necessidade, William Bowers, que havia sido ordenado por um grupo de pastores no Tabernáculo Batista, em Londres, foi enviado a Recife.
Bowers chegou a Pernambuco no dia 14 de março de 1878. Uma semana depois, foi eleito pastor da Igreja Pernambucana, mas logo foi acometido por uma febre amarela que o levou a falecer em apenas dois dias, na madrugada de 3 de abril, tendo sido sepultado na tarde do mesmo dia. Mas a notícia da perda do obreiro chegou ao East London Training Institute e outro colega de Bowers, James Fanstone, também veementemente recomendado pelo Dr. Grattan Guinness, diretor da faculdade, sentiu-se chamado à seara pernambucana.
A saúde do Doutor Kalley declinava em fins de 1887 e ele veio a falecer no dia 17 de janeiro de 1888, mas não sem tomar ciência de como as igrejas Fluminense e Pernambucana estavam desenvolvendo trabalhos primorosos. No Rio de Janeiro o trabalho prosperava. O pastor João dos Santos se tornou um dos líderes evangélicos mais respeitados da capital – “o principal pastor do Rio de Janeiro”. A Igreja Fluminense, que ele pastoreou até 21 de abril de 1911, logo atingiu o número de duzentos membros, além dos muitos congregados. No mesmo período, a Dra. Joyce Every-Clayton observou, a Igreja Pernambucana “continuou a crescer, e, durante sua primeira temporada de seis anos no Recife, Fanstone dirigiu um grupo cada vez maior e mais amadurecido”.

Conclusão

A conclusão, por ora, é provisória, e com base nos fatos que julgamos imprescindíveis destacar ao propósito de compreendermos a teologia do Dr. Kalley. Mas já é possível inferir que kalley, de origem presbiteriana, manteve constante contato com ministros e igrejas congregacionais, casou-se com uma congregacionalista e, no Brasil, plantou igrejas independentes.
É verossível também a afirmação de que Kalley manteve-se fiel à sua tradição teológica e que as eventuais adaptações ocorreram sobretudo no campo da eclesiologia (sistema de governo e credobatismo), mas, conforme veremos notadamente quando divagarmos sobre o art. 16 da Declaração do DET, com impactos no modo como o próprio aliancismo poderia ser revisado.
No próximo texto abordaremos outros aspectos relevantes da teologia de Kalley, momento em que nos debruçaremos sobre os 28 Artigos da Breve Exposição.

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