A Nossa União com Cristo

Morte, Ressurreição e Vida Nova

Temas Gerais
11
min de leitura
Modo noturno

Toda a obra de Jesus Cristo foi por Ele realizada em prol do povo que veio salvar. Nesse sentido, o Novo Testamento é claro ao nos dizer que tudo quanto Jesus fez, Ele o fez “por nós”, “em nosso lugar”, “pelos nossos pecados”. “Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras” (1Co 15.3). “… um morreu por todos; logo, todos morreram. E ele morreu por todos…” (2Co 5.14-15). “… e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl 2.20). “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar…” (Gl 3.13). “Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos…” (1Pe 3.18). A ideia de Jesus Cristo agindo como substituto é evidente nas passagens citadas, pelas quais podemos concluir que aquilo que Cristo realizou, nós o realizamos. 

O Novo Testamento afirma a mesma verdade ainda de outra maneira, quando insiste em que os crentes participaram da morte e da ressurreição de Jesus. Diz-nos que quando Cristo morreu, morremos com Ele; quando ressuscitou, ressuscitamos com Ele; quando ascendeu, ascendemos com Ele às regiões celestiais. “Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição” (Rm 6.5). “… Estou crucificado com Cristo” (Gl 2.19). “e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, – pela graça sois salvos, e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus” (Ef 2.5-6).

Cumpre-nos, no primeiro momento, compreender o que essa linguagem pretende comunicar.

O significado da nossa união com Cristo

Todas essas passagens nos ensinam a respeito da nossa união com Cristo, doutrina segundo a qual Jesus Cristo, atendendo ao plano estabelecido pela Trindade na eternidade, agiu como Representante-Substituto do povo eleito, sofrendo os castigos merecidos por ele e, por Seus méritos, adquirindo todas as bênçãos da salvação para ele. 

Esse plano de unir a Igreja toda a Jesus Cristo foi estabelecido no denominado Conselho da Redenção, quando na eternidade Jesus Cristo Se incumbiu de ser a Cabeça e o Penhor do povo que Deus decidiu que salvaria dentre a humanidade caída. Ficou posta nessa aliança eterna aquela troca graciosa em que Cristo assumiria o pecado do povo eleito e este, a justiça de Cristo. 

No segundo momento, a nossa união com Cristo foi realizada objetivamente, quando Cristo encarnou como Substituto do Seu povo e adquiriu os merecimentos de todas as bênçãos da salvação que a ele concederia. Ele pode fazer toda a Sua obra de obediência por nós porque estávamos incluídos nEle como a cabeça do Seu corpo, que é a Igreja. Assim, fomos crucificados com Ele, ressurgimos com Ele e ascendemos com Ele. Considerando objetivamente, todos os eleitos, inclusive aqueles que ainda não sabem disso e não desfrutam as consequências dessa realidade, morreram e ressuscitaram com Cristo. 

Por fim, todas as bênçãos adquiridas por Jesus Cristo para o Seu povo nos são aplicadas pela união subjetiva com Cristo realizada pelo Espírito Santo. É somente quando o Espírito realiza essa união subjetiva dos crentes com Cristo que Cristo passa a habitar os crentes e os crentes se tornam um com Cristo em uma unidade que é orgânica e vital. Orgânica, no sentido de que os crentes e Cristo formam um corpo, como partes que se servem reciprocamente em uma união indissolúvel: “Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor” (Ef 4.15-16). Também vital, porque Cristo é a vida que energiza ou vitaliza os crentes: “Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5).

Que essa união é de fato íntima se percebe pelas imagens escriturísticas que a descrevem. Em João 15.5, ela é descrita em termos da videira e seus ramos: “Eu sou a videira, vós, os ramos”. Em Efésios 1.22-23, a união é comparada à ligação entre a cabeça e os membros do corpo: “E pôs todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo…”. Em Efésios 5.23-32, a união entre Cristo e a Igreja é figurada na relação entre esposo e esposa: “Eis por que deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, e se tornarão os dois uma só carne. Grande é este mistério, mas eu me refiro a Cristo e à igreja” (Ef 5.31-32). Em 1Pedro 2.4-5, a união é inferida a partir do elo inseparável entre o alicerce e o edifício sobre ele construído: “Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo”. 

Assim, estando em Cristo, os crentes agora compartilham todas as bênçãos que Ele mereceu para o Seu povo, porquanto Cristo Se lhes torna a fonte de vida e bem-aventurança eternas, o que nos conduz a falar sobre os efeitos da nossa união com Cristo.

Os efeitos da nossa união com Cristo

Como tudo que Cristo realizou na morte e ressurreição nos é aplicado, os efeitos práticos e concretos da união com Ele hão de se manifestar. São esses efeitos que passarei a destacar: primeiro, os resultantes da nossa união com Cristo em Sua morte; depois, os decorrentes da nossa união com Ele em Sua ressurreição.

Decorrências da nossa união com Cristo em Sua morte

Em primeiro lugar, como nós morremos quando Cristo morreu, nós morremos para a Lei: “Porque eu, mediante a própria lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo” (Gl 2.19). Paulo aprendeu com a Lei a morrer para a Lei. Isto é, o apóstolo concluiu a partir da Lei que não poderia cumpri-la e, por isso, não a buscaria mais como meio de justificação. Também, como a Lei foi cabalmente cumprida por seu Representante, que também pagou pelas suas desobediências a ela, a Lei não pode mais lhe condenar. Nós éramos de fato devedores da Lei e merecedores da sua justa condenação. No entanto, frente às suas demandas impossíveis, podemos dizer que estamos mortos para ela porque já cumprimos sua sentença por meio do Representante, razão pela qual ela já não mais nos aterroriza. O texto revela que a morte para a Lei ocorreu no fato de termos sido crucificados com Cristo.

Em segundo lugar, como nós morremos quando Cristo morreu, nós morremos para o pecado. “Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos? Ou, porventura, ignorais que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte?” (Rm 6.1-3). Morrer para o pecado não significa que os cristãos não sejam mais por ele tentados, mas que o pecado não exerce mais sobre eles aquele domínio absoluto que exercia antes de se converterem. Em consequência dessa morte para o pecado, não podemos mais continuar a viver como se ainda fôssemos seus escravos, de cuja tirania fomos libertos. Romanos 6.3-5 deixa-nos evidente que nós morremos para o pecado mediante a união com Jesus em Sua morte. 

Em terceiro lugar, como nós morremos quando Cristo morreu, nós morremos para a morte. O pecado opera pela Lei (Rm 7.7-8) e a morte, pelo pecado (Rm 5.12). Como estamos mortos para a Lei, morremos para o pecado; como morremos para o pecado, morremos para a morte. Com efeito, o que o nosso pecado realmente merece é a morte: “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23). Mas se Cristo morreu pelo nosso pecado, morreu também a nossa morte, de modo que Jesus matou a morte em Sua morte. Essas reflexões levaram John Owen a escrever a sua obra “A morte da morte na morte de Cristo” (The death of death in the death of Christ), já traduzida ao português e à qual remeto o leitor. 

Decorrências da nossa união com Cristo em Sua ressurreição

A nossa participação na morte de Cristo implica também a participação em Sua ressurreição: “Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição… Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos” (Rm 6.5,8). 

Assim, podemos concluir, em primeiro lugar, que como nós ressuscitamos quando Cristo ressuscitou, o poder da ressurreição opera em nós de modo que podemos subjugar o poder do pecado. Se a nossa união com Cristo em Sua morte significa morte para o pecado, estarmos unidos a Ele em Sua ressurreição indica a experiência de podermos impedir o domínio do pecado em nossa vida. Do mesmo modo como Cristo morreu para o pecado uma vez por todas e, ressuscitado, vive para Deus, aqueles que com Ele ressuscitaram estão mortos para o pecado e vivos para Deus (Rm 6.9-10).

Em segundo lugar, como nós ressuscitamos quando Cristo ressuscitou, agora vivemos com um objetivo radicalmente diferente daquele que nos orientava: hoje, vivemos para Deus: Porque eu, mediante a própria lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus…” (Gl 2.19). Note que a nossa união com Cristo em Sua ressurreição nos confere um novo direcionamento. Um novo princípio foi implantado naquele que foi unido a Cristo. Quem antes vivia para a própria satisfação, para a realização dos desejos do ego, em uma forma odiosa de autoidolatria, passou a viver orientado pelo desejo sincero de agradar a Deus. 

Em terceiro lugar, como nós ressuscitamos quando Cristo ressuscitou, a vida de Cristo passou a se manifestar em nossa vida: “logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20). Esta é outra maneira de o Novo Testamento se referir à novidade de vida em que fomos colocados pela união mística com Jesus Cristo. À medida que vamos dominando o pecado e crescentemente vivendo de modo a agradar a Deus, a vida de Cristo vai sendo revelada em nosso viver, porque passamos a andar como Cristo andou. 

Conclusão e implicações da nossa união com Cristo

A compreensão da nossa união com Cristo nos ajuda em diversos aspectos, alguns dos quais não poderia deixar de mencionar. Em primeiro lugar, a doutrina que ora anunciamos é um poderoso antídoto contra o orgulho espiritual. Ela, com efeito, nos conduz necessariamente à humildade, visto que nos ensina que não temos nada da parte de Deus à parte de Jesus Cristo. É somente quando unidos a Ele que participamos das riquezas que possui. Ele é a Videira, cheio da vida de Deus. Desligados dEle, nada temos. Enxertados nEle, tudo o que é Seu é nosso.

Em segundo lugar, a nossa união com Cristo nos lembra poderosamente sobre a necessidade que temos de Jesus Cristo e nos faz sentir com intensidade o quanto dependemos dEle, porque Ele disse: “sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5). 

Em terceiro lugar, da união com Cristo decorre a nossa comunhão com Cristo e com o povo de Cristo. Se estivermos unidos a Cristo, temos aí o firme alicerce para vivermos uma vida cristã cheia de louvores alegres ao Redentor. Também, ademais, reside em nossa união com Ele a realidade da comunhão dos santos, uma vez que todos fomos enxertados em Seu corpo, a Igreja, e feitos membros uns dos outros.  

Por fim, se morremos e ressuscitamos com Cristo, esse fato nos remete ao dever de diligência quanto a buscar intensamente objetivos espirituais. “Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra” (Cl 3.1-2). Porque compartilhamos a vida ressurreta de Jesus Cristo, devemos voltar todos os nossos objetivos, ambições e atenções para o céu, onde Cristo exerce Seu reinado soberano. Esse reino que é lá de cima deve ser buscado com diligência máxima, porque é lá que Cristo, a quem estamos unidos, está assentado em lugar de honra. 

“Em Cristo” é, sem dúvida, a expressão mais extraordinariamente espetacular das Escrituras.

*Somos uma marca de teologia reformada comprometida em transmitir a mensagem da fé de forma clara, direta e eficaz para um mundo que precisa do amor e da graça de Deus.

Saiba mais