Teologia, para nós, cristãos, em síntese apertada e em termos mais simples possíveis, é o conjunto de ensinos ou doutrinas (supostamente) extraídos da Bíblia. A segunda constatação relevante ao nosso interesse consiste em afirmar que todos temos alguma teologia, algum pensamento, estruturado ou não, a partir da nossa compreensão da Bíblia. Mesmo a postura discretamente teológica de alguns (refiro-me àqueles tantos líderes que não permitem que conheçamos o que creem) e até a “antiteológica” de outros (que negam a importância de formulações doutrinárias e até as julgam perniciosas) não deixam de ser uma forma de teologia.
A questão crucial, portanto, não é ter ou não ter teologia, mas o tipo de teologia que se tem. O ponto realmente essencial é se a teologia que abraçamos é “saudável”, considerando como tal a construção doutrinária afinada com a Escritura, correspondente a ela, que advém dela e nela se fundamenta.
Com base nas premissas já lançadas, tratarei a seguir sobre a importância de uma teologia “saudável” (leia-se “fiel às Escrituras”) para a “saúde” da igreja (leia-se “fidelidade da igreja a Deus”) e a maneira como o pastor nutre para si mesmo uma teologia “saudável” e como a proclama ao rebanho de modo que nela o alicerce.
A importância de uma teologia “saudável”
Uma teologia “saudável”, ressalte-se, é a que emana da Bíblia e encontra na Bíblia sua autoridade. Quando uma teologia assim é ensinada na igreja com clareza, simplicidade, profundidade e no poder do Espírito, a autoridade de Deus e o senhorio de Cristo são maximamente contemplados. O contrário também é verdadeiro. Quando substituímos as verdades bíblicas por qualquer outra coisa, mensagem, estratégia ou evento, a autoridade de Deus é usurpada e o senhorio de Cristo, questionado. Trata-se, em verdade, de uma abominável arrogância a atitude de quem discute sobre quem tem o direito de falar à igreja.
Além disso, manter as verdades de Deus como centrais no ministério pastoral é a única forma de vermos o Espírito realizar a Sua obra em nosso meio. Deus condenou a sabedoria humana como meio de O conhecermos salvadoramente (1Co 1.21), razão pela qual o apóstolo Paulo decidiu não atender aos apetites dos homens irregenerados (1Co 1.22), mas ministrar-lhes tão somente o “Cristo crucificado” (1Co 1.23; 2.2). A Palavra de Deus é o instrumento do Espírito tanto na regeneração (1Pe 1.23; Tg 1.18) como na santificação (Jo 17.17). Assim, quando negligenciamos a teologia “saudável”, comprometemos a obra do Espírito e produzimos falsas conversões.
É imperioso, ademais, reconhecer que uma teologia “saudável”, somente ela, produz adoração verdadeira. Se considerarmos que adoração é o ato de contemplação dAquele que é Alto e Sublime e que habita em um alto e sublime trono (Is 6.1; 57.15), pensamentos sublimes sobre Deus não podem ser provocados por música barulhenta, jogos de luzes e apelos emocionais, mas somente pela clara exposição das verdades de Deus. Numa sentença: a adoração é uma reação da alma ao conhecimento de Deus.
Como o pastor adquire uma teologia “saudável”
Não é fácil nem simples nutrir uma teologia “saudável”. Exige-se do pastor, para tanto, sólidos conhecimentos de teologias bíblica e sistemática e mesmo da história do pensamento cristão, aliados a uma constante busca pelo crescente domínio dos idiomas originais da Bíblia e a leituras exaustivas de comentadores e estudiosos.
Mais que isso. Uma teologia “saudável” não é, na maioria dos casos, anticredal, avessa a Credos e Confissões; antes, anda em diálogo constante com as formulações doutrinais históricas. A Igreja cristã tem produzido ao longo dos séculos Credos e Confissões cuja importância não pode ser negada, sob pena de criar-se um indesejado vácuo teológico. Os denominados Credos Ecumênicos, sobretudo os dos séculos IV e V, são aceitos ainda hoje por toda a cristandade e compõem aquilo que se tem denominado “Ortodoxia”. Lidam com os temas mais basilares da fé cristã, a exemplo do dogma trinitário e da dupla natureza do Salvador. São, pois, de conhecimento e domínio obrigatórios para o pastor.
Nessa esteira, convém ao pastor não olvidar igualmente as grandes Confissões Protestantes, surgidas nos séculos XVI e XVII, a exemplo da “Confissão de Augsburgo” (luterana, de 1530), dos “39 Artigos da Religião” (anglicanos, de 1563) e da “Confissão de Westminster” (reformada, de 1648). Dentre os congregacionais, destacam-se a “Plataforma de Cambridge” (uma reação à adoção do presbiterianismo em Westminster, de 1648), a “Declaração de Savoy” (de 1658) e, no Brasil, os nossos amados “28 Artigos da Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo” (de 1876).
Como antes adverti, teologia saudável custa caro aos pastores. Não é possível adquiri-la em posts de redes sociais, bebericando aqui e ali, sem séria atenção à longa produção da Igreja de Jesus Cristo dos últimos dois mil anos e sem exaustivas pesquisas bíblicas e teológicas.
Como fundamentar o rebanho sobre uma teologia “saudável”
De plano, convém observar a nítida fraqueza da maioria dos púlpitos da Igreja evangélica brasileira, situação diretamente relacionada à crise teológica vigente. O Culto a Deus foi entulhado de entretenimento banal. Muitos templos se tornaram palcos de apresentações de música, dança e teatro, regadas a luzes e gelo seco. Os sermões (termo considerado ultrapassado), quando os há, não passam de “breves reflexões” baseadas nas percepções do pregador e no que ele pode recolher em alguma psicologia popular. Seus temas lidam com questões não distintiva ou necessariamente bíblico-cristãs, até porque o texto lido a princípio nada tem a ver, nem de longe, com o que é dito após a leitura. Nesse estado de coisas, o importante, pensa-se, é que tudo seja feito para agradar os ouvintes e promover um ambiente do tipo terapêutico e que promova na maior medida possível o bem-estar e o alívio das tensões daqueles que já têm uma semana cansativa demais para, no domingo, ouvirem um longo sermão.
Por outro lado, se o pastor deseja nutrir o rebanho com teologia “saudável”, lamento dizer, também não será fácil, tanto pelas marcas do nosso próprio tempo, com sua forte tendência à rejeição das doutrinas bíblicas mais importantes (2Tm 4.1-4), como pelo trabalho que se requer do pastor para tão sublime tarefa (2Tm 2.15). Exigir-se-á dele que pregue expositivamente, preferencialmente através de livros inteiros das Escrituras, isto é, que leia e explique o texto, que ensine os pontos de doutrina colhidos no texto e que o aplique à vida prática do povo.
Nem é possível exagerar a importância da pregação expositiva à fundamentação espiritual, moral e doutrinária das igrejas de Jesus Cristo. O pregador expositivo firma, nele mesmo, a mente de Cristo. Pelo exemplo, ensina ao povo a fundamentalidade do estudo da Bíblia para sabermos a vontade de Deus para todos os assuntos da vida. A pregação expositiva, por fim, desenvolve uma igreja saudável, isto é, uma congregação forte, ansiosa pela glória de Deus e ciente do que realmente precisa e da missão que deve realizar no mundo.
Soli Deo Gloria!

