Chegamos ao nosso terceiro estudo sobre as “bem-aventuranças” – aquelas oito declarações que Jesus proferiu no Sermão do Monte. As três primeiras foram analisadas no primeiro texto (“Pobres em espírito, os que choram e os humildes…”), ocasião em que observamos seu conteúdo predominantemente negativo, relacionado com o aspecto da santificação denominado mortificação. Também já ressaltamos que estão dispostas em “uma progressão descendente, pela qual o cidadão do reino de Deus foi descobrindo sua pecaminosidade até achar-se prostrado perante Deus e lidando gentilmente com o próximo”.
O segundo estudo se concentrou na quarta bem-aventurança, a dos famintos/sedentos de justiça (vide “Os que têm fome e sede de justiça”). É somente quando o homem conhece a si mesmo que descobre o que realmente precisa. O homem da quarta declaração de Jesus está prostrado, ciente de quem é e do que tem falta. É desesperadamente sabedor que não pode produzir por si e em si mesmo aquilo do que imprescindivelmente carece, daquela justiça sem a qual não pode comparecer perante o Deus Justo e subsistir em sua doce comunhão. Esse é o ponto da virada, o que faz da quarta declaração uma bem-aventurança de transição, como observamos no texto anterior, “a partir da qual as bem-aventuranças quinta, sexta e sétima são galgadas como o resultado positivo da obra de Deus, talvez em termos ascendentes, como no gráfico abaixo”:

Vamos, pois, às afirmações nas quais Jesus Cristo declara abençoados os misericordiosos, os puros de coração e os pacificadores.
Os misericordiosos
“Bem-aventurados os misericordiosos, pois obterão misericórdia” (Mt 6.7).
Misericórdia é compaixão pelo sofredor, amor por quem vive em desgraça. Esse aspecto da misericórdia é vividamente ilustrado na parábola do bom samaritano (Lc 10.25-37). Mas certamente o maior modelo humano de misericórdia é o Senhor Jesus Cristo.
Mais que isso, misericórdia está também relacionada com o perdão. Devemos realmente esperar que alguém que recebeu em sua conta a justiça perfeita de Cristo, estando em total falência espiritual, reaja com misericórdia e esteja pronto a perdoar.
A segunda parte da bem-aventurança diz que os misericordiosos obterão misericórdia, não a demonstrada pelos homens, mas a de Deus.
Os puros de coração
“Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus” (Mt 6.8).
A sexta bem-aventurança avança em relação à anterior, porque misericórdia sem pureza de coração pode não passar de permissividade libertina.
“Coração” para a mentalidade hebraica não simboliza sentimentos, como em nossa cultura. “Coração” é toda a vida interior e envolve sentimentos, mente e vontade. Ser puro de coração é ser sincero; é o exato oposto do hipócrita. Mas não só isso, até porque é possível estar sinceramente equivocado. É dizer, quem não é hipócrita pode ser um feliz pecador autodeclarado ou um feliz pecador auto-enganado. Assim, pureza de coração é não apenas sinceridade, mas conformação com a vontade de Deus desde o íntimo, é santidade verdadeira.
Há uma perfeita retroalimentação entre ser puro e ver a Deus. Por um lado, só os puros podem ver a Deus – é preciso semelhança com Deus para andar com Deus (1Jo 1.5,6; 2.4). Por outro, ver a Deus produz pureza (2Co 3.18) e a visão beatífica de Jesus Cristo nos transformará na semelhança dEle (1Jo 3.2).
Os pacificadores
“Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus” (Mt 6.9).
Misericórdia e pureza de coração dizem muito sobre o caráter dos cidadãos do reino de Deus. Mas ainda não dizem tudo. A misericórdia precisa avançar ao nível da luta pela reformulação dos relacionamentos, com Deus e com o próximo. A pureza de coração deve produzir uma explosão interior que transborda e afeta o próximo.
Todavia, cuidemos para não confundir “pacificadores” com pacíficos, pacifistas ou passivos. Passivas são as pessoas sem iniciativa, indiferentes – tudo que os pacificadores não são. Pacifistas são os que se contentam com o cessar-fogo; fazem parte da turma do “deixa disso”.
Pacificadores são aqueles que, porque têm paz com Deus por meio da justiça recebida de Deus (Rm 5.1), dedicam-se a uma vida que promove maximamente a reconciliação entre Deus e os homens e entre os homens. Os pacificadores servem ao Deus da paz (1Ts 5.13), imitam o Príncipe da paz (Is 9.6), proclamam o evangelho da paz (Ef 6.15) e buscam a paz com todos os homens (Hb 12.14). Assim, quando se envolvem na dura tarefa da pacificação de Deus fazem a tarefa do seu Pai e, por isso, são reconhecidos como Filhos de Deus.
Conclusão
Para recordar o que vimos até aqui, antes de lidarmos com a última bem-aventurança.
- “Bem-aventuranças” são declarações quanto ao estado/condição dos cidadãos do reino de Deus;
- As três primeiras bem-aventuranças são negativas; parecem uma progressão descendente;
- A quarta bem-aventurança é uma transição do aspecto negativo ao positivo, da mortificação à vivificação. É também o ponto de partida da produção dos frutos da justiça;
- As bem-aventuranças quinta, sexta e sétima são resultados da obra de Deus, talvez em progressão ascendente;
- Misericórdia inclui compaixão e perdão;
- Pureza de coração é santidade genuína, desde o interior;
- Pacificadores não são pessoas passivas, nem pacifistas. Eles trabalham duro para ver os homens reconciliarem-se entre si e, sobretudo, com Deus.
Soli Deo gloria!

