Os odiados e perseguidos

Finalizando o Estudo das Bem-Aventuranças

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Revisitamos em textos anteriores sete (Mt 5.3-9) das oito bem-aventuranças proferidas por Jesus No Sermão do Monte. Observando-as dispostas no gráfico abaixo, quase conseguimos ver (a) um homem prostrando-se humilhado perante Deus e agindo gentilmente com o próximo após sérios consideração e lamento pela própria pobreza espiritual e (b) sendo soerguido na semelhança com Deus, crescendo em virtudes que o fazem refletir o caráter santo de Deus. 

Nas primeiras três bem-aventuranças ocorre crescimento na graça, “crescimento para baixo”; nas três últimas, crescimento no conhecimento de Deus, “crescimento para cima”, como diria J. I. Packer. O ponto de virada é a quarta bem-aventurança, quando os sedentos-famintos de justiça (imputada e comunicada) são apresentados. Com efeito, é somente pela justiça de Cristo imputada e a justiça do Espírito comunicada que alçamos as grandes alturas da semelhança e imagem de Deus.

Mas cuidemos para não nos enganarmos em um ponto: essas virtudes, embora pareçam ser apresentadas em uma ordem lógica (cf. Tg 3.17), coexistem concomitante e permanentemente no caráter dos discípulos de Jesus, nas quais estes crescem gradualmente. Isso quer significar que os genuínos cristãos são perene e progressivamente pobres em espírito, lacrimosos, humildes-mansos, sedento-famintos de justiça, misericordiosos, puros de coração e pacificadores. Noutras palavras, como é certo dizer que essas bem-aventuranças exprimem o caráter humano perfeito de Jesus Cristo, os discípulos do Salvador estão crescendo gradualmente na semelhança dEle, tal como apresentada nas bem-aventuranças.

Ditas essas coisas, avancemos para compreender a oitava bem-aventurança.

“Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus. Bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa os insultarem, perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês. Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a recompensa de vocês nos céus, pois da mesma forma perseguiram os profetas que viveram antes de vocês” (Mt 5.10-12).

De plano, observemos que a oitava bem-aventurança possui algumas características que a distingue das anteriores em boa medida. A uma, é a única bem-aventurança expandida, tanto em Mateus quanto em Lucas (Lc 6.22,23). Isso pode ser explicado pelo fato de os evangelhos terem sido escritos em um período de mais dura perseguição. A duas, enquanto as bem-aventuranças anteriores exprimem parte do caráter substancial dos discípulos de Jesus que, por isso, há de permanecer eternidade afora, a oitava traduz uma situação circunstancial, transitória, que deverá ser substituída. A três, é notável também que as sete bem-aventuranças vistas anteriormente trazem virtudes e que, por isso, são em si mesmas recomendáveis e dignas de serem buscadas. Esse não é o caso da oitava bem-aventurança, visto que a perseguição, em si mesma considerada, não pode ser avaliada como valor positivo.

Pois bem, na análise da oitava bem-aventurança, interessa-nos saber quem são e quem não são os bem-aventurados e por que as pessoas mencionadas são bem-aventuradas. Se não, vejamos: 

Pessoas odiadas-perseguidas-insultadas-caluniadas-excluídas

Bem-aventurados são os odiados, termo que ocorre em Lucas e traduz a razão imediata de tudo o mais que é dito. Essas pessoas odiadas são ativamente perseguidas, talvez o termo mais genérico que inclui os específicos atos de perseguição mencionados no texto. A Bíblia e a História da Igreja narram muito dessa perseguição ativa, que pode incluir confisco de bens, prisão, insulto, açoites, entrega aos algozes e a própria execução (Mt 10.21; 2 Co 11.23-27; Hb 10.33, 34; 11.36-38). 

Dos possíveis atos de perseguição são mencionados por Jesus o insulto (o lançamento de ofensa, de ultraje) e a calúnia. Em Mateus, a calúnia é dita em termos de se dizerem “todo o mal contra vós, mentindo”. Isto é, dirão todo o mal imaginável ou toda a sorte de perversidade contra os discípulos de Jesus, sem nenhum fundamento. Lucas traz essa ideia com a seguinte redação: “lancem fora o nome de vocês como mau”, ou seja, “o nome de vocês é eliminado como sendo mau”. Além disso, Lucas ainda registra que o ódio se manifesta em termos de exclusão, de excomunhão (da congregação e do convívio social), como se deu com o cego de nascença curado por Jesus (Jo 9.34) – coisa, aliás, muito temida pelos judeus (cf. Jo 12.42, 43).  

Portanto, na oitava bem-aventurança, a única expandida, abençoadas são as pessoas odiadas-perseguidas-insultadas-caluniadas-excluídas

Mas precisamos avançar.

Pessoas odiadas-perseguidas-insultadas-caluniadas-excluídas por causa da justiça-por causa de Jesus

Ainda não teremos entendido quem são os bem-aventurados referidos por Jesus se não qualificarmos esse “ódio”. De logo, assentamos que a perseguição sofrida por causas sociais, raciais, econômicas ou políticas, por mais nobres que sejam, não nos parece inclusa na bem-aventurança. 

Pessoas podem ser perseguidas injustamente por suas opiniões filosóficas e políticas ou por promoverem de modo legal e pacífico a reforma agrária ou a redistribuição de renda no país. Outras ainda poderão padecer opressão por se engajarem na luta contra a pedofilia ou contra a corrupção, ou na defesa das mulheres vítimas de violência doméstica. Não estou dizendo que essas causas e outras tantas não sejam necessárias e justas, e nem tampouco que não atraiam a si boa medida de hostilidade (consabidos os riscos e as incompreensões que correm, por exemplo, os defensores de direitos humanos), mas somente que não são parte da perseguição que se nos afigura distintivamente cristã, que é a referida por Jesus aqui, como veremos.

Ademais, também não nos parece que toda a sorte de sofrimento esteja contemplada na bem-aventurança em comento. Pessoas enfermas, que se descobrem repentinamente com câncer, rejeitadas pelo cônjuge, enlutadas, etc, podem ter a experiência maravilhosa com o poder do conforto que Deus concede aos aflitos e, nesse sentido, serem poderosamente abençoadas em tempos de maior aflição. Mas a oitava bem-aventurança não se refere a aflições de todo gênero, salvo melhor juízo.

Por razão muito maior, bem-aventurados não são os odiados por serem promotores de contendas, devassos, cruéis, presunçosos, desrespeitosos, atrevidos e enfatuados, simplesmente porque esses odiados declarados “abençoados” por Jesus são pacificadores, puros de coração, misericordiosos, mansos-humildes, lacrimosos e pobres em espírito. Também esses abençoados não são tais por serem desonestos, péssimos pagadores e maus cumpridores dos seus deveres. “Se algum de vocês sofre, que não seja como assassino, ladrão, criminoso, ou como quem se intromete em negócios alheios” (1Pe 4.15). Assim, quem é demitido do emprego por causa de sua atitude morosa, contraproducente, irresponsável ou negligente não deve achar-se um “bem-aventurado perseguido”. Nem mesmo aquele que gasta as horas do expediente lendo ou pregando a Bíblia e é por isso despedido deve achar-se abençoado nos termos da oitava bem-aventurança.        

Para a oitava bem-aventurança, bem-aventurados são os perseguidos “por causa da justiça”, segundo Mateus. Já tivemos oportunidade de dizer que a justiça é pelo menos de dois tipos, a imputada (de Cristo) e a comunicada (pelo Espírito). Ambas as justiças atraem ódio, perseguição, insulto, calúnia e excomunhão. Quanto à justiça imputada, os homens em geral não conseguem conceber a noção de um pecador ser justo aos olhos de Deus pela fé somente. Essa justiça da graça é extremamente ofensiva e atraiu os anátemas de Roma no Concílio de Trento:

Se alguém disser que a culpa é perdoada a todo pecador depois de ter recebida a graça da justificação, e que a dívida do castigo eterno é de tal maneira apagada que não fica nenhuma dívida de castigo temporal para ser descontada, seja nesse mundo, seja no próximo ou no Purgatório, antes que a entrada no reino dos céus possa ser aberta – que seja ele anátema.
Se alguém disser que os homens são justificados seja pela imputação da justiça de Cristo somente, seja pela remissão de pecados somente...; ou mesmo que a graça pela qual somos justificados é somente o favor de Deus – que seja ele anátema.

Quanto à justiça comunicada, o comportamento ético diferenciado dos cristãos pode tornar-se deveras perturbador aos demais homens, por ser uma espécie de denúncia da devassidão reinante na sociedade. “Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, temendo que as suas obras sejam manifestas” (Jo 3.20; cf. Jo 15.19). Notemos que aquilo que somos exortados a buscar (Mt 6.33) e que constitui em alguma medida a nossa paixão mais consumidora, consoante a quarta bem-aventurança (Mt 5.6), é precisamente a causa da perseguição que devemos suportar.

Os evangelistas Mateus e Lucas, ademais, dizem que o ódio sofrido pelos discípulos de Jesus ocorre por causa dEle – “por minha causa” ou “por causa do Filho do Homem”. “Todos odiarão vocês por minha causa…” (Mt 10.22). Se o mundo odeia a Jesus, seria apenas natural esperar que quanto mais crescêssemos na semelhança dEle tanto mais atraíssemos o ódio do mundo contra nós. “Se o mundo os odeia, tenham em mente que antes me odiou” (Jo 15.18). 

Portanto, na oitava bem-aventurança, a única expandida, abençoadas são as pessoas odiadas-perseguidas-insultadas-caluniadas-excluídas por causa da justiça-por causa de Jesus

A posse do reino, a recompensa celestial e a identificação com a comunidade profética

Por fim, devemos entender porque esses odiados-perseguidos-insultados-caluniados-excluídos não são homens e mulheres dignos de dó, mas, muito ao contrário, são os mais absurdamente abençoados da espécie humana. Isso é esplêndido! Não faz muito tempo fomos chocados com um vídeo que mostrava homens cristãos sendo degolados, por sua fé, por adeptos de movimentos radicais do Islã. No século passado ocorreram mais mortes de cristãos, por sua fé, em países como Armênia, Sudão e Rússia, do que nos primeiros três séculos da era cristã. No entanto, embora a nossa reação natural seja de pena dos homens que passam por esses infortúnios, Jesus Cristo, o Senhor da glória, declara-os “abençoados”. 

Mais do que isso. Jesus diz que quando os discípulos viessem a passar por essas experiências, eles deveriam reagir com alegria, com exultação, saltando de júbilo – o que de fato fizeram (At 5.41; 16.23-25). Isso não poderia querer significar que os discípulos deveriam suscitar perseguição contra si mesmos ou que estariam impedidos de evitá-la, quando possível (Mt 10.23; At 9.23-25; 22.25-28), mas que deveriam reagir altaneiramente frente a ela quando tivessem que suportá-la, sem murmurações e queixumes, nem tampouco com espírito vingativo. 

“Ah, como Deus permitiu que tal coisa me ocorresse, justamente quando eu estava servindo-o?”, perguntarão alguns. Mas o ponto é que “tal perseguição lhe abateu, nobre cristão, exatamente por você ter sido encontrado servindo a Deus”, devemos responder, sem delongas. “Eu, João, irmão e companheiro de vocês no sofrimento, no Reino e na perseverança em Jesus, estava na ilha de Patmos por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus” (cf. Ap 1.9, com destaque).

Assim, por que são bem-aventurados os odiados por causa da justiça, por causa de Jesus? Primeiro, porque “deles é o Reino dos céus”, uma bênção já declarada como sendo dos pobres em espírito; segundo, porque há uma recompensa nos céus; terceiro, porque a realidade da perseguição alinha os discípulos de Jesus com a comunidade de profetas do Antigo Testamento, visto que estes foram tratados do modo como aqueles viriam a ser. O apóstolo Pedro talvez tenha resumido essas bênçãos com a síntese de todas as bênçãos: “Se vocês são insultados por causa do nome de Cristo, felizes são vocês, pois o Espírito da glória, o Espírito de Deus, repousa sobre vocês” (1 Pe 4.14).

Não devemos deixar de notar que embora Jesus também deva ser imitado no tocante à oitava bem-aventurança (o Salvador perseguido deverá ser seguido por discípulos perseguidos, o Crucificado pelos crucificados – Mt 10.24,25; Lc 9.23), Ele não Se alinha com os profetas, mas com Deus. Assim como os profetas foram perseguidos por sua fidelidade a Yahweh, os discípulos o seriam por sua fidelidade a Cristo – “por minha causa”. Desse modo, é certo dizer que Jesus se afirma em pé de igualdade com Deus, estando os discípulos em pé de igualdade com os profetas.

Conclusão

  • As sete primeiras bem-aventuranças refletem a perfeição humana de Jesus, enquanto a oitava revela as consequências da imitação de Jesus;
  • As sete primeiras bem-aventuranças são substanciais, da essência, do caráter dos discípulos, virtudes recomendáveis em si mesmas e eternas. A oitava bem-aventurança, por outro lado, traz uma circunstância transitória e despida, em si mesma, de valor;
  • A perseguição não é algo que devemos buscar, mas que não podemos estranhar (porque é apenas natural que em um mundo alienado de Deus a fidelidade a Deus traga seu preço), nem tampouco reagir com queixumes e vingança;
  • A perseguição dos bem-aventurados não resulta de causas políticas, sociais, raciais, econômicas ou filosóficas, mas está radicada na piedade, na justiça do reino e na lealdade ao Rei – “por causa da justiça”, “por minha causa”;
  • A reação jubilosa frente à perseguição está claramente justificada – a posse do reino, a recompensa celestial e a identificação com a comunidade profética.

Soli Deo gloria!

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