Os gigantes também sentem

2Tm 4.6-18

Temas Gerais
18
min de leitura
Modo noturno
Sermão pregado na Igreja Congregacional Monte Sinai em 11 de junho de 2023,
por ocasião do culto de ação de graças pelo aniversário do seu pastor, o reverendo Maurílio Morais, e do batismo de Alícia Queiroz.

É impossível por demasiada ênfase à importância da vida e obra de Paulo ao cristianismo. Ele, em sua última carta, definiu-se vocacionalmente como “pregador, apóstolo e mestre” (2Tm 1.11). Falava sobre si em termos humildes. Via a si mesmo como o menor dos apóstolos (1Co 15.9), o menor de todos os crentes (Ef 3.8), chegando a afirmar ser o principal dos pecadores (1Tm 1.15).

Entretanto, Paulo é autor de quase metade do Novo Testamento. Dos vinte e sete livros dessa porção das Escrituras, pelo menos treze foram escritos por esse único homem, e, quanto aos quatorze livros restantes, Paulo tem grande influência sobre Lucas (que escreveu os dois volumes de Lucas-Atos, os escritos mais extensos do Novo Testamento) e de algum modo que desconhecemos sua presença é sentida na Epístola aos Hebreus. 

Foi o plantador de igrejas insuperável de todos os tempos. Sua vida inteira foi caracterizada por zelo intenso àquilo que cria ser a vontade de Deus. Aos presbíteros de Éfeso, ele disse: “em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus” (At 20.24). Estava sempre pronto ao serviço do seu Senhor e não via como pouca graça sua vocação para o apostolado, a despeito das vicissitudes que ela lhe trazia (1Tm 1.12-14). Mas, afinal, quem foi Paulo e o que realizou?

Infância e formação

Paulo foi um judeu da diáspora que nasceu por volta de 4 a.C., próximo ao nascimento de Jesus. Era natural de Tarso, na Cilícia, Ásia Menor (At 21.39), filho de judeu, da tribo de Benjamin (Fp 3.5), fariseu (At 23.6) e cidadão romano natural, direito herdado do pai (At 22.27,28). Tinha dois nomes: Paulus era o latino, que denotaria sua cidadania legal romana; e o nome hebraico, Saulo, era o usado na família e nos círculos judaicos. De sua família, sabe-se apenas que tinha uma irmã e um sobrinho morando em Jerusalém na ocasião da sua prisão por lá (At 23.16).

No círculo judaico (Fp 3.5), teria recebido suas primeiras instruções religiosas dos pais. Mais tarde, frequentou a escola da sinagoga local e, talvez, uma das universidades de Tarso. Sabe-se que em certa época foi enviado a Jerusalém para estudar a lei rabínica, sob a orientação do famoso Gamaliel (At 22.3). Isso dá a entender que Paulo estava em Jerusalém durante o ministério ativo e a crucificação do Senhor Jesus. No entanto, ele mesmo não nos dá certeza disso: “Assim que, nós, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne; e, se antes conhecemos a Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos deste modo” (2Co 5.16).

Paulo é mencionado pela primeira vez por Lucas em Atos 7.58, em conexão com a morte de Estevão. A palavra “jovem”, usada ali, pode se referir a qualquer pessoa do sexo masculino com até quarenta anos de idade. Seu zelo farisaico era a causa da sua revolta contra os discípulos de Jesus (Fp 3.5-9), perseguição que exercia com toda a sinceridade, imaginando prestar desse modo um serviço a Deus (At 8.1-3; 9.1,2; 22.3-5; 26.9-11; 1Tm 1.13). Sobre isso os discípulos de Jesus já tinham sido advertidos por ele quando da última páscoa: “… mas vem a hora em que todo o que vos matar julgará com isso tributar culto a Deus” (Jo 16.2). 

Conversão e primeiros anos de ministério

Paulo, provavelmente, se converteu em 33 d.C., quando se dirigia a Damasco, no calor da sua cruzada contra os cristãos. Esse foi um dos grandes acontecimentos do cristianismo primitivo, o que explica a tríplice narrativa lucana do mesmo episódio (At 9.3-18; 22.6-16; 16.12-18). 

O Paulo convertido passou algum tempo em Damasco (At 9.19-22), foi para a Arábia (Gl 1.17,18), retornou a Damasco e depois de três anos fez sua primeira visita como cristão a Jerusalém, por volta do ano 40 d.C. (At 9.26). Nessa visita, Paulo foi recebido com suspeita, até ser introduzido no círculo apostólico por Barnabé (At 9.26,27). 

Ele deixou Jerusalém por causa de uma trama dos judeus contra a sua vida (At 9.28-30) e rumou à sua terra natal, Tarso (Gl 1.21), onde permaneceu até ser chamado por Barnabé para um ministério frutífero em Antioquia da Síria (At 11.25,26), em cerca de 46 d.C. Após um ano de ensino em Antioquia, Paulo e Barnabé foram enviados a Jerusalém, momento em que levaram uma oferta daquela igreja aos pobres da Palestina (At 11.26-30). Essa foi sua segunda visita a Jerusalém, como cristão, por volta de 47 d.C. (Gl 2.1), durante o período de fome ocorrido nos dias do imperador Cláudio César (c. 41-54 d.C.). 

As viagens missionárias de Atos

Ao retornarem para Antioquia, Paulo e Barnabé foram enviados para aquela que costuma ser chamada primeira viagem missionária (At 13.1-14.28), entre os anos de 48 e 49 d.C., pela ilha de Chipre e nas regiões da Panfília, Pisídia, Licaônia e Lícia. Nessa viagem, ele plantou igrejas em Antioquia da Pisídia, Icônio e Listra, onde foi apedrejado até pensarem que estava morto. 

De volta a Antioquia, Paulo se defrontou com o problema que o levou à assembleia da igreja de Jerusalém (At 15), em 50 d.C., sua terceira visita àquela cidade como cristão, e que o fez escrever a carta aos Gálatas, de Antioquia, pouco antes da assembleia de Jerusalém, sendo essa sua primeira epístola. 

Após aquela assembleia e breve ministério em Antioquia (At 15.35), ocorreu a contenda entre Paulo e Barnabé acerca de João Marcos (At 15.36-39; cf. 13.13) e o início da segunda viagem missionária, dessa vez com Silas (At 15.40-18.22). Nessa viagem, os missionários visitaram as igrejas estabelecidas anteriormente e, impedidos pelo Espírito Santo de evangelizarem a Ásia Menor naquela ocasião, foram à Europa e fundaram igrejas na Macedônia e Acaia, entre os anos 50 a 53 d.C. De Corinto, na Acaia, onde Paulo ficou por cerca de dois anos, escreveu suas duas cartas aos tessalonicenses. 

Em Atos 18.23-21.16, lemos a narrativa da terceira viagem missionária, com especial ênfase aos três anos de ministério em Éfeso (At 19), de onde Paulo escreveu pelo menos três cartas aos coríntios (dentre elas, temos somente a nossa 1Coríntios). De Éfeso, Paulo foi à Macedônia (At 20.1). Lá, escreveu a nossa 2Coríntios (a quarta epístola àquela igreja). Prosseguiu a Corinto (At 20.2,3), onde escreveu a magnífica Carta aos Romanos. Essa viagem ocorreu entre os anos de 53 e 57 d.C.

Por volta do ano 57 d.C., foi aprisionado em Jerusalém (At 21.17ss) e enviado a Cesaréia, onde permaneceu preso por dois anos (At 23.23ss; 24.27), entre os anos de 57 e 59 d.C. De Cesaréia, foi conduzido preso a Roma, onde, nessa condição, ficou por dois anos, entre 59 e 61 d.C. Lucas não relatou o resultado do confinamento em Roma, perante Nero, mas deu a entender que após essa prisão Paulo foi posto em liberdade: “Por dois anos, permaneceu Paulo na sua própria casa, que alugara, onde recebia todos que o procuravam, pragando o reino de Deus, e, com toda a intrepidez, sem impedimento algum, ensinava as coisas referentes ao Senhor Jesus Cristo” (At 28.30,31). Durante essa primeira prisão em Roma, Paulo escreveu as “Epístolas da prisão”: Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemon.

Missões após a primeira prisão em Roma

Em liberdade, Paulo empreendeu as viagens registradas nas Epístolas 1Timóteo e Tito, cartas que escreveu entre os anos 62 e 64 d.C. Clemente de Roma (c. 96 d.C.) disse que Paulo foi solto (daquela prisão romana narrada por Lucas em Atos 28) e pregou até “as extremidades do Ocidente”. Para um romano, isso só poderia significar a Espanha, a Península Ibérica (Rm 15.24). 

Foi nesse período em que Paulo esteve em liberdade que explodiu a perseguição aos cristãos movida por Nero. Houve rumores que o próprio Nero havia sido o responsável pelo grande incêndio de Roma (em 19 de julho de 64), fato que o levou a achar nos cristãos os “culpados ideais”. Embora a perseguição neroniana tenha se circunscrito a Roma e arredores, milhares de cristãos foram torturados e mortos. 

O historiador Tácito nos dá conta da barbárie a que foram os cristãos submetidos nesses tempos de enormes dificuldades: “Assim, para abafar o rumor, Nero pôs como culpados [os cristãos], que puniu com crueldade mais refinada… Sua execução acabou sendo um esporte: alguns foram costurados dentro da pele de animais selvagens e jogados aos cães para serem despedaçados, outros foram amarrados em cruzes e transformados em tochas vivas, para iluminar a cidade quando o dia acabava. Nero abriu os jardins do seu palácio para o espetáculo e organizava jogos no circo, misturando-se à multidão ou pondo-se em pé sobre uma biga, vestido de condutor… o povo começou a sentir pena delas [das pessoas cristãs], porque pareceu que estavam sendo sacrificadas para satisfazer a paixão por crueldade de um homem…”. 

Nova prisão em Roma e martírio

Paulo foi preso nessa terrível perseguição neroniana, entre os anos 64 e 65. Foi durante esse segundo aprisionamento que escreveu 2Timóteo, sua última carta. Uma antiga tradição afirma que Paulo foi decapitado na Via Óstia, talvez no ano 65, um ano após o incêndio de Roma. Tinha por volta de 70 anos. 

As últimas palavras

Paulo, dentre as suas últimas palavras que temos registradas, disse a Timóteo que ele deveria “pregar a palavra” por causa da apostasia característica do tempo presente (4.1-5), mas também porque Paulo sabia estar prestes a partir (4.6-8): “Quanto a mim, estou sendo já oferecido por libação, e o tempo da minha partida é chegado. Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda”. 

Paulo foi um gigante! Ele não tinha mais dúvidas quanto à sua morte iminente, mas a descreve como uma “oferta de libação”. A libação era o derramamento de uma porção de vinho sobre o altar dos holocaustos como o ato final do sacrifício. Isso quer significar que sua vida cristã inteira foi um “sacrifício vivo” a Deus e que sua morte seria o ato final daquele sacrifício, o coroamento de toda a sua jornada. 

Mais ainda. A morte ainda é vista por ele como “o tempo da minha partida”. Havia chegado o tempo da soltura das cordas e do levantar da âncora para que o navio partisse. Tudo isso após uma vida inteiramente dedicada a Deus, resumida no v. 7: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé”. 

Percebamos que seu passado fora uma vida de serviço, após o qual o presente o coroou com uma oferta de libação. Mas qual futuro esperaria o grande apóstolo? Ele diz que uma “coroa da justiça” está reservada para ele, aguardando por ele: um galardão que pertence a ele por direito, conquistada para ele pela justiça de Cristo.

As palavras da sequência também merecem atenção especial. Primeiro, Paulo fala da sua necessidade de pessoas e coisas (9-13); segundo, sente a dor da maldade gratuita de Alexandre, o latoeiro (14,15); terceiro, Paulo se apega à assistência divina em meio ao abandono humano como fonte de esperança (16-18).

Analisemos por partes.

Saudades e necessidades 

“Procura vir ter comigo depressa. Porque Demas, tendo amado o presente século, me abandonou e se foi para Tessalônica; Crescente foi para a Galácia, Tito, para a Dalmácia. Somente Lucas está comigo. Toma contigo Marcos e traze-o, pois me é útil para o ministério. Quanto a Tíquico, mandei-o até Éfeso. Quando vieres, traze a capa que deixei em Trôade, em casa de Carpo, bem como os livros, especialmente os pergaminhos” (4.9-13).

Paulo escreveu de uma masmorra fria e solitária em Roma. Ele quer que seu amado filho Timóteo chegue depressa (v. 9) porque ele está somente com Lucas. Demas esteve com ele na primeira prisão em Roma (Cl 4.14; Fl 24,25), mas o abandonou, deixando-o em situação de desamparo quando mais precisava, por ter “amado o presente século” (v. 10), em franco contraste com aqueles que amam a segunda vinda (v. 8). Por motivos diversos, Paulo não podia contar com Crescente, nem com Tito (v. 10b) e nem com Tíquico (v. 12), mas somente com Lucas (v. 11a). 

Nesse contexto, Paulo quer com urgência a presença de Timóteo e quer que este traga Marcos, por sua utilidade ao ministério (v. 11b), a capa (porque o inverno se avizinhava), os livros (rolos de papiro) e os pergaminhos, provavelmente contendo porções das Escrituras Sagradas.  

A maldade gratuita de Alexandre

“Alexandre, o latoeiro, causou-me muitos males; o Senhor lhe dará a paga segundo as suas obras. Tu, guarda-te também dele, porque resistiu fortemente às nossas palavras” (4.14,15).

É provável que a oposição de Alexandre tenha ocorrido no processo em Roma no qual Paulo figurava como réu e aguardava julgamento. Talvez Alexandre fosse o acusador de Paulo, ou uma testemunha de acusação, com potencial inclusive para prejudicar Timóteo, motivo da advertência do v. 15. De todo modo, o nobre pregador, embora se ressinta da maldade gratuita de Alexandre, não toma para si a vingança, apenas entrega a questão ao Senhor.

A assistência divina em meio ao abandono humano 

“Na minha primeira defesa, ninguém foi a meu favor; antes, todos me abandonaram. Que isto não lhes seja posto em conta! Mas o Senhor me assistiu e me revestiu de forças, para que, por meu intermédio, a pregação fosse plenamente cumprida, e todos os gentios a ouvissem; e fui libertado da boca do leão. O Senhor me livrará também de toda obra maligna e me levará salvo para o seu reino celestial. A ele, glória pelos séculos dos séculos. Amém!” (4.16-18).

Nessa passagem Paulo relembra os primeiros processo, prisão e defesa em Roma. Ele recorda que quando foi acusado naquela ocasião não conseguiu nenhuma pessoa que se dispusesse a ser testemunha de defesa. Ele lamenta: “todos me abandonaram”. Mas não guarda mágoa: “Que isto não lhes seja posto em conta”. 

Em meio ao abandono, porém, o bandeirante da fé teve a maravilhosa experiência de ter contado com a assistência do Senhor para que ele cumprisse a missão que lhe foi designada de pregar aos gentios. Sua conclusão só poderia ser esta: o mesmo Senhor que o havia assistido não o abandonaria agora. Pelo contrário, se antes Deus o havia “libertado da boca do leão”, por breve tempo, para ainda voltar a ser preso, agora Deus o libertaria de toda a obra de Satanás e o levaria para o seu reino celestial.

Conclusão

Isso nos faz concluir que mesmo os gigantes da envergadura de Paulo, e mesmo depois de terem feito tudo (combatido o bom combate, completado a carreira e guardado a fé), ainda continuam tendo profundas necessidades, emocionais, materiais e espirituais. Permitam-me falar a respeito.

Em primeiro lugar, mesmo os gigantes sentem a falta de pessoas em volta, lamentam o abandono de pessoas, sentem saudade de pessoas e desejam a assistência e a visita de pessoas, porque pessoas, e pessoas certas, ajudam a satisfazer aquelas necessidades emocionais que todos temos, de afeto e de encorajamento, sobretudo nos momentos mais difíceis da vida. Ali está o gigante Paulo, para quem Lucas é pouco, querendo Timóteo, querendo Marcos, lamentando o abandono de Demas e de todos na sua “primeira defesa”. 

Mas não nos enganemos. Aquele missionário, preso em uma masmorra fétida, escura e fria de Roma, não está pensando somente nele. Suas necessidades não são tudo o que importa, nem o que mais importa, nem a coisa única a requerer sua atenção. Não esqueçamos que estamos falando de um gigante. Ele quer Marcos porque este é útil ao ministério. Ao custo da solidão, ele envia Tíquico e não reclama da ausência de Crescente e Tito, mas do abandono apóstata de Demas. 

Contudo, uma coisa é certa, gigantes setentões e experientes têm necessidades emocionais que, quanto possível, devem ser supridas pela presença de pessoas amadas. 

Em segundo lugar, mesmo os gigantes continuam tendo necessidade de assistência material, de cuidado com o corpo. Paulo quer a sua capa. Ele é um gigante da fé, mas não tem pele de jacaré. Ele também não estava em um polo de confecção. Não era apenas uma questão de mandar alguém logo ali, na feira da sulanca. Capas eram peças caras e raras. Talvez a maioria dos habitantes do império na época não pudesse ter mais de uma por vez. Essa realidade torna especialmente significativa a ordem de Jesus: “ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa” (Mt 5.40). A de Paulo, ele havia deixado na casa de Carpo, em Trôade, e o inverno já estava mostrando a cara. “Traga a capa”. 

Em terceiro lugar, até os gigantes da envergadura de Paulo se ressentem daquela maldade gratuita que sofrem, como daquele abandono quando mais precisam. 

Sim, eles são gigantes. Eles não se vingam com as próprias mãos. Seja lá o que Paulo poderia fazer contra Alexandre naquelas circunstâncias, ele não faria, mas entregaria tudo a Deus. Em relação àqueles que o abandonaram na primeira defesa, rogou por eles: “Que isto não lhes seja posto em conta!”. Ele já tinha escrito aos Romanos: “Não torneis mal por mal… não vos vingueis a vós mesmos… Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber… Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12.17-21). 

Mas Paulo era um gigante na fé, não uma pedra de gelo, nem uma lasca de metal (a matéria prima de Alexandre). Ele sofre com a maldade gratuita daquele de quem nada esperou, nada de bom e nada de mal. E sente a dor do abandono daqueles que esperou que estariam com ele. 

Aplicação

Ditas essas coisas, sinto-me autorizado pela Palavra de Deus a dizer aos irmãos que fazem a Igreja Monte Sinai a tomar as seguintes providências:

Primeiro, cuidem do pastor que está chegando, mas não esqueçam do que está saindo. Uma visão excludente, do tipo um ou outro, deve ser evitada a todo custo. Não receber quem está chegando por causa daquele que está saindo é um equívoco. Não cuidar de que está saindo para pensar somente naquele que está chegando é outro. 

Os pastores têm o seu devido lugar. Eles foram colocados por Deus para laborarem de acordo com a sua vocação própria, e cada um realizará aquilo para o que foram comissionados. “Eu plantei, Apolo regou, mas o crescimento veio de Deus”. Por isso não pode haver lugar para as carnalidades do culto à personalidade de uns e menoscabo por outros. 

Em síntese, recebam o pastor Roger com amor, mas não esqueçam de demonstrar gratidão pelo perseverante trabalho do nobre pastor Maurílio.

Em segundo lugar, peçam perdão ao pastor Maurílio por aquela maldade gratuita, como também por aquele abandono sentido por ele exatamente quando ele mais precisou. Pedidos de perdão são uma humilhação impensável somente para os arrogantes, não para os crentes. 

Eu não estive aqui, mas sei que o pastor Maurílio eventualmente pode ter sido vítima de uma maldade gratuita ou de um abandono inesperado. O que estou chamando de maldade gratuita é aquela inexplicável sob qualquer ponto de vista e injustificável do ponto de vista cristão. O abandono inesperado é aquela atitude de ausência de quem ele pensou que poderia contar. 

O irmão que se recorda ter feito ou dito isso ou aquilo deve pedir perdão e, se o fizer e quando o fizer, vai perceber que pedidos de perdão não arrancam pedaços. O irmão vai pedir perdão e não vai sair sem mão, sem braço, sem perna. Vai, ao contrário, sair mais completo porque, afinal, somos membros uns dos outros, e vai trazer grande conforto ao coração do pastor.

Em terceiro lugar, por fim, peço ao pastor Maurílio que entregue a Deus a maldade gratuita e rogue por aqueles que o abandonaram ao longo desses muitos anos de ministério. Há uma coroa de justiça reservada a homens laboriosos, que deram ao reino de Deus o bem mais precioso que fruímos nesta terra, qual seja, o tempo, aquele único bem irrecuperável. Se nem sequer um único irmão sentir gratidão pelo constante labor de um obreiro cristão na seara do Senhor, saibamos que Deus não é injusto para esquecer-se desse trabalho e do amor a Ele, manifesto no serviço aos santos (Hb 6.10). 

Soli Deo Gloria!

*Somos uma marca de teologia reformada comprometida em transmitir a mensagem da fé de forma clara, direta e eficaz para um mundo que precisa do amor e da graça de Deus.

Saiba mais