O Sábado no Antigo Testamento

Lição 7/15

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Introdução 

Em toda a cristandade, até entre aqueles cristãos ditos protestantes ou evangélicos e mesmo entre os reformados, há divergências quanto ao sentido em que o quarto mandamento deve ser compreendido. 

Aos cristãos reformados, sobretudo àqueles que advogam a doutrina puritana do shabbath cristão, o quarto mandamento é parte da lei moral de Deus e, portanto, de observância obrigatória para a Igreja cristã, nos moldes do Antigo Testamento e como vivido por Jesus, com uma diferença básica, qual seja: o sábado cristão é o domingo, o Dia do Senhor, celebrado no primeiro dia da semana em comemoração à ressurreição de Cristo dentre os mortos.

Outros estudiosos, não menos reformados, ensinam que, não obstante o quarto mandamento está elencado no catálogo da lei moral de Deus (é dizer, seja o quarto dos Dez Mandamentos), ele, na verdade, é parte da lei cerimonial conferida aos hebreus no pacto mosaico e, como tal, foi cumprido e extinto em Cristo, a substância para a qual apontava e diante da qual era apenas uma sombra, uma figura.

Em virtude das disputas que envolvem o quarto mandamento, tentaremos expor o ensino conforme o Antigo Testamento nesta lição para, somente nas lições seguintes, verificarmos o que nos diz o Novo Testamento a respeito.

O sábado e a criação

A palavra portuguesa “sábado” vem do hebraico Shabbath, substantivo correlato ao verbo que significa descansar, folgar, cessar, usado, por exemplo, em 2Samuel 16.14. Em Êxodo 20.8, ocorre a forma substantiva, enquanto em Deuteronômio 5.12, Êxodo 23.12 e 34.21, a forma verbal.

A primeira ocorrência ao sétimo dia como um dia de descanso, na Escritura, está em Gênesis 2.2. Ali se diz que Deus terminou a obra da criação e, no dia sétimo, “descansou” “de toda a obra que tinha feito”. O versículo 3 acrescenta que “abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou de toda a obra que, como Criador, fizera”.

A primeira observação a ser feita é que a fórmula que encerrou a narrativa de cada dia da criação (“houve tarde e manhã”) não ocorre no sétimo dia. O que significa dizer que o “descanso de Deus” não foi um dia de vinte e quatro horas, mas que, cessada a obra da criação, deixando Deus de criar novos tipos de coisas, mudou de atividade e deu início à obra da providência (Jo 5.17). Esse fato indica que o “descanso de Deus” é um tempo interminável, que teve início, mas jamais terá fim. Esse é o sentido teológico que envolve o “sábado”, cujo significado vai sendo ampliado na Escritura até ser completamente revelado no Novo Testamento.

Ademais, que Adão observou um dia em sete para cessar o trabalho, não nos é dito. Fato é que o trabalho exercido por Adão não o cansava, ou pelo menos não o levava a uma exaustão que ensejasse a necessidade de uma parada para a revitalização das forças, carência essa surgida após a Queda (Gn 3.17-19). Também digno de nota é que Deus não tinha um dia especial na semana para falar com Adão, uma vez que Moisés relata que o Senhor andava no jardim pela viração do dia (Gn 3.8). 

Assim, o “descanso de Deus” concedido a Adão era o estado em que se encontrava, livre de pecado e da fadiga que dele emanaria, após a Queda, como consequência. Portanto, se se quer dizer que Adão quebrou o quarto mandamento, o fez nos termos esposados por Edawrd Fisher, no sentido de não haver guardado o descanso e o estado em que Deus o colocou, pecando contra Deus.  

O sábado e a lei mosaica

No período patriarcal não temos notícia expressa sobre a guarda do dia de descanso, que só vem a ocorrer no Decálogo, como um componente do pacto estabelecido por Deus para a sua relação com Israel. Pouco antes, porém, em Êxodo 16.22-30, o povo de Deus parece ter sido treinado para guardar o shabbath – um dia em que não lhe seria necessária a tarefa diária de colher o maná -, como um descanso provido por Deus. Eis a primeira ocorrência do termo shabbath, desconhecido do povo de Israel, uma vez que este, no Egito, era familiarizado com uma “semana” de dez dias.

O quarto mandamento é o primeiro a ocorrer de forma positiva, fórmula que só se repetirá mais uma vez, no quinto mandamento (Ex 20.12). Enquanto a versão de Êxodo enfatiza o memorial (uma lembrança) do descanso de Deus (Ex 20.11), o texto deuteronômico destaca o dever de observar (a necessidade de guardar) o dia de descanso em virtude da libertação do Egito realizada por Deus (Dt 5.12-15). 

Em termos positivos, os judeus deveriam guardar os sábados de Deus (Lv 19.3), dever correlato com o de reverenciar o santuário (Lv 19.30; 26.11-13). Negativamente considerando, ficam proibidos todos os trabalhos – da família, dos forasteiros que habitassem com os hebreus e dos animais (Ex 20.10) -, inclusive o trabalho doméstico da esposa de cozinhar e assar (Ex 35.2,3). 

Isaías 58.13 faz referência à versão positiva (honrar o sábado) tanto quanto à negativa (não cuidar dos próprios interesses, não fazer a própria vontade, não falar palavras vãs). 

Posteriormente, quando Israel deixou de ser um povo nômade e se fixou na terra, a observância do shabbath passou a envolver a proibição de carregar mercadorias para pô-las à venda (Jr 17.21,22, Ne 13.15-22).

A não observância do sábado era tratada em Israel com muito rigor. A morte era a pena aplicada àquele que profanasse o sábado, fazendo nele qualquer trabalho (Ex 31.14, 35.2), como ocorreu com um homem apanhando lenha em dia de sábado (Nm 15.32-36). Por outro lado, promessas foram proferidas através de Isaías aos que se guardassem de profanar o sábado, aos eunucos, aos estrangeiros e todo israelita (Is 56.2-14).

Correlatos dos sábados em Israel são as instituições dos anos sabáticos e do jubileu. O ano sabático é um sábado para a terra (Ex 23.10,11; Lv 25.3-7), preceito pelo qual os israelitas não podiam em um ano a cada sete trabalhar o campo para a colheita. Aquilo que a terra produzisse naturalmente seria, inclusive, dos pobres e dos animais. Nesse ano, os escravos deveriam ser libertos (Ex 21.2; Dt 15.12-15) e as dívidas perdoadas (Dt 15.1-4). O ano do jubileu era, a seu turno, o ano imediatamente após o sétimo ano sabático: o ano quinquagésimo, portanto, cujos mesmos preceitos do ano sabático deveriam ser observados (Lv 25.8-17). 

Caso essas instituições sabáticas não fossem observadas, a punição para Israel seria, dentre outras, o exílio, para que a terra gozasse os seus sábados (Lv 26.34,35). Esse pecado foi cobrado rigorosamente por Deus no exílio babilônico (2Cr 36.21; Jr 25.11).

Há, na verdade, um paralelo tão estreito entre esses anos sabáticos e os sábados semanais que não é possível separá-los. A correlação é mais que matemática e linguística (seis anos e seis dias: Ex 23.10,12); é, sobretudo, quanto ao fim humanístico (descanso, perdão de dívida e libertação: Ex 21.2; 23.12; Dt 15.2-4) e por obediência ao Senhor.    

A intenção teológica do sábado no Antigo Testamento

Deus fez Adão participar do Seu descanso. Mas, como anotamos acima, Adão não quis permanecer no descanso de Deus, no estado em que Deus o colocou. Se Adão tivesse sido obediente quando colocado sob teste, teria entrado no descanso eterno de Deus, sem nenhuma possibilidade de perdê-lo. Mas não o fez. E, porque não o fez, a promessa de um descanso é interposta como uma boa nova de salvação, e não como uma dádiva a ser gozada por toda a criação. 

Desse modo, quando o povo judeu é convocado a entrar no descanso de Deus, essa é uma oferta da graça ao povo com quem Deus fez um pacto. Por isso, esclarece Michael Honton: “Quando os judeus celebravam o sábado, eles antecipavam o fim de seu sofrimento e labor, sacrifícios e cerimônias, o descanso final. Deus viria ao fim da era (semana) e acertaria tudo”.

Com efeito, o shabbath foi um sinal do pacto da graça para Israel (Ex 31.17), conforme administrado no pacto mosaico (ou sinaítico). Assim, os “crentes” sob a antiga aliança o celebravam com ações de graças, cheios de regozijo e prontos ao louvor. É facilmente perceptível que, mesmo no Antigo Testamento, a ideia de provisão de descanso é muito mais ampla do que o provido pelos sábados (semanais ou anuais). Embora propósitos utilitários temporários sejam apontados (remissão de dívida, libertação da escravidão, provisão aos pobres, descanso, conhecimento da lei), o sábado antevia o dia em que Deus voltaria a dar ao seu povo entrada em seu descanso permanente.

Essa noção é evocada pelo poeta em Salmos 95. Ele relembrou a geração incrédula de Israel, a que foi liberta do Egito sob a liderança de Moisés. Refletiu sobre a dureza de coração daquele povo como evidenciado no episódio de Meribá e Massá (Ex 17.7; Nm 20.13) e retratou a recusa de Deus em deixar que entrassem na Terra Prometida (Nm 14.20-38) com as seguintes palavras: “Por isso, jurei na minha ira: não entrarão no meu descanso” (Sl 95.11).

Por óbvio que as implicações da recusa em crer que Deus iria lhes dar o descanso que careciam se estendia para além da incredulidade em realmente herdar uma nesga de terra na Palestina. A Terra Prometida é ainda uma pálida figura em comparação ao descanso definitivo de Deus em novos céus e nova terra, mas estão intimamente relacionadas em termos de sombra e substância, tipo e antítipo. 

Assim, quando se recusaram a crer no descanso de Deus em figura, no sentido de posse da Terra Prometida, estavam descrendo também que Deus poderia lhes dar descanso eterno. Nas palavras de Honton, a incredulidade dos israelitas está em que “recusaram-se a declarar que sua salvação estava inteiramente em suas mãos [de Deus] e recusaram-se a crer que existiam pela misericórdia de Deus e que Deus iria graciosamente prover. Eles tomaram as questões em suas próprias mãos e decidiram se salvar”.  

Conclusão

O resumo da ópera é que os sábados pretendem muito mais do que os fins imediatamente utilitários que proclamam. Eles são, em verdade, uma proclamação de boa nova – Deus anunciando ao povo do pacto que lhe daria entrada em seu descanso, isto é, naquele estado que foi perdido na Queda. 

A título de figura, os sábados anteviam a entrada no descanso na Terra Prometida. Mas isso é tudo? Foi por meio de Josué que Deus cumpriu sua promessa de voltar a dar seu descanso ao povo do pacto? É o que veremos na próxima lição.

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