O Sábado nas Epístolas e o “dia do Senhor”

Lição 9/15

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Introdução 

Em nosso terceiro e último estudo sobre o quarto mandamento, avançaremos para verificar o que ensinam as Epístolas e livro de Apocalipse sobre o tema. Desejamos conhecer como o “sábado” é tratado nas Cartas do Novo Testamento e se há uma relação entre ele e o “dia do Senhor”. Sigamos, pois.

Epístolas paulinas: o sábado e o “primeiro dia da semana” 

Em Gálatas 4.8-11, Paulo fez equivaler à guarda do sábado os elementos cerimoniais da lei citados no contexto da Carta (a circuncisão e a dieta), e desobrigou os cristãos gálatas de sua observância. À primeira vista, Paulo julgou errado impor aos cristãos gentios a observância do shabbath, considerando tal exigência um retorno à escravidão. 

Em Romanos 14.5,6, Paulo argumenta no contexto dos debates entre os “fortes” e os “fracos”. “Fortes” eram aqueles cuja consciência lhes permitia comer todos os alimentos sem quaisquer escrúpulos religiosos (“Um crê que de tudo pode comer” – v. 2a). “Fracos” eram os vegetarianos por motivos religiosos (“o débil come legumes” – v. 2b). Aos fortes, Paulo os exorta a “acolher” o débil, mas não com o propósito de censurá-lo (v. 1). Tampouco devem os fortes desprezar os frágeis (v. 3a). A atitude que o apóstolo deseja reprimir é a soberba dos fortes para com os débeis, que leva aqueles a uma atitude de desprezo pela opinião desses. 

Nos versículos 5 e 6, Paulo interpõe outra fonte de discursão entre os crentes “fortes” e “fracos”, qual seja, se certos dias possuem ou não alguma distinção religiosa especial. Para alguns, os preceitos referentes à guarda de dias, como o quarto mandamento, eram dotados de validade permanente e deveriam ser observados (“Um faz diferença entre dia e dia” – v. 5a). No caso de Roma, como não estava em jogo a mensagem do evangelho, Paulo não age com o mesmo rigor empregado em Gálatas e Colossenses e permite que, no tocante à dieta e à distinção de dias, haja diversidade de convicções vinculadas à devoção de cada um a Cristo (v. 6). 

Em Colossenses 2.16,17, o apóstolo havia dito que Cristo removeu, encravando-o na cruz, o escrito de dívida que constava de ordenanças e que era contra nós (Cl 2.14,15). Assim, como pessoas ressuscitadas em Cristo e perdoadas na base da sua obra (Cl 2.11-13) se sujeitariam a juízos condenatórios por não mais observarem a dieta e o calendário mosaicos?

A expressão “ninguém, pois, vos julgue” indica que Paulo não proibia a observância do shabbath por aqueles que desejavam guardá-lo à maneira judaica, mas também não transigia com uma atitude que fazia a sua observância obrigatória aos cristãos, sob quaisquer pretextos. O escritor inspirado acentua a incongruência dessa postura ao assinalar que “tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir” (v. 17). A sombra tinha o seu valor, qual seja, ela anunciava a vinda da substância e perfilhava um contorno do que estava por vir. Chegada a substância, todavia, quem permaneceria apegado à sombra? 

Por outro lado, 1Coríntios 16.2 é parte dos esforços paulinos de arrecadar donativos entre os gentios para a igreja empobrecida da Judéia. É razoável entender a oferta no primeiro dia da semana como parte do culto regular da igreja, sobretudo quando podemos afirmar com grande probabilidade que o principal culto das igrejas primitivas ocorria aos domingos desde os tempos apostólicos. 

O sábado em Hebreus

Para o fim de nossos estudos, importa relermos Hebreus 3.7-4.13, onde encontramos uma ampla discussão sobre o descanso como relacionado ao sétimo dia da criação e ao termo “sabbatismos”. Nesse texto, o escritor demonstra a superioridade de Cristo sobre Josué e, a partir da experiência dos judeus no passado, exorta seus leitores à perseverança. A exortação é dada a partir da citação do Salmos 95.7-11, passagem que relembra que aos israelenses que estavam à porta da Terra Prometida foi negada a entrada por causa de sua incredulidade.

O salmista adverte quanto ao perigo da incredulidade recordando o juramento registrado em Números 14.30: “não entrareis na terra a respeito da qual jurei que vos faria habitar nela” (grifei). Percebe-se, entretanto, que ele utilizou a palavra “meu descanso” (Sl 95.11) no lugar de “terra”, o que nos faz concluir que a “terra”, para o poeta, era uma figura de promessas superiores que ele pode referir no seu próprio tempo, embora Israel já estivesse na posse da Terra Prometida há séculos.

O escritor aos Hebreus capta a ideia do salmista com discernimento ímpar. É somente porque a promessa não se referia somente à entrada na terra (sombra de promessas maiores), que o salmista pode utilizar a palavra “Hoje”, que permanece igualmente relevante aos cristãos, tanto quanto atual a promessa do “descanso de Deus” (Hb 4.1).  

Em Hebreus 4.3, temos a assombrosa afirmação de que “Nós, porém, que cremos, entramos no descanso”, a partir da qual teceremos as seguintes considerações:

Em primeiro lugar, diz-se-nos que “entramos no descanso”, no presente, e não que “entraremos no descanso”, no futuro. Com isso, desejamos pontuar que embora o descanso de Deus não nos seja no presente estado experimentado em sua plenitude, ele já é uma realidade cristã atual.

Em segundo lugar, o escritor nos diz que a incredulidade é a causa da não fruição do descanso de Deus, no qual entramos somente pela fé: “Nós, porém, que cremos…”. “O verdadeiro descanso de Deus”, como ensina D. D. Turner, “é aquele que se experimenta através da fé. Não se limita à experiência depois da morte. É algo que todos podem desfrutar nesta vida. A essência da fé é o repouso sobre aquilo que outra Pessoa já fez e o fará a nosso favor. A fé repousa na suficiência de Cristo, que fez tudo o que era necessário para propiciar-nos a salvação”. 

Em terceiro lugar, o descanso de Deus é definido a partir de Gênesis 2.2, que o escritor cita no versículo 4. Deus descansou da obra da criação no final do sexto dia. Para os seis dias da criação, lemos que “houve tarde e manhã”, expressão ausente na descrição do sétimo, o que fez o autor de Hebreus compreender que o descanso de Deus é um estado, uma condição especial de existência, não um dia de 24 horas. 

Em quarto lugar, devemos admitir que o descanso de Deus e o descanso sabático têm natureza espiritual, porquanto excede a segurança gozada na Terra Prometida e sobrepuja a simples cessação semanal de trabalho. O descanso que permanece é o que agora é descrito pela palavra “sabbatismos” e enfatiza que o shabbath era simbólico do verdadeiro descanso que o povo de Deus já goza (v. 9), embora se realize plenamente somente no futuro. O versículo 10 traz a explicação do descanso sabático. Trata-se do descanso de Deus, que Ele compartilha com o seu povo, dando-lhe a experimentar da sua realidade, por meio de Cristo.

O “Dia do Senhor” em Apocalipse

O apóstolo João, exilado na Ilha de Patmos, “por causa da Palavra de Deus e do testemunho de Jesus” (Ap 1.9), recebeu revelações “no dia do Senhor” (Ap 1.10). Para alguns, “dia do Senhor” é “O Dia do Senhor” escatológico, como se João houvesse sido transportado em êxtase para presenciar os acontecimentos finais da história humana.

De fato, mais provável é que o primeiro dia da semana já estivesse conhecido em quase toda a cristandade, na última década do primeiro século, como o “dia do Senhor”, o dia escolhido pela Igreja para celebrar a ressurreição de Jesus dentre os mortos. Por outro lado, o shabbath judaico, tal como celebrado no sétimo dia da semana, jamais é chamado na Escritura de “dia do Senhor”.

Conclusão

Sentimo-nos mais aptos a, nesse passo de nossos estudos, chegarmos a algumas conclusões, a partir dos textos analisados nesta e nas lições anteriores. Senão, vejamos:

Em primeiro lugar, embora não concordemos que o primeiro dia da semana fosse o único dia de culto da Igreja primitiva, é quase certo afirmarmos que era o dia regular e o mais importante na sua adoração (At 20.7; 1Co 16.2). Assim, a prática foi paulatinamente se estabelecendo nas igrejas primitivas e não demorou até o “primeiro dia da semana” ser reconhecido como o “dia do Senhor” (Ap 1.10), o único comum a toda cristandade quando o culto congregacional era praticado, em comemoração à ressurreição do Senhor.

Em segundo lugar, não vislumbramos no Novo Testamento uma correlação entre o shabbath e o “dia do Senhor” como um shabbath cristão. Com efeito, ausente está qualquer teologia de transferência do sétimo para o primeiro dia da semana, o que explica a completa ausência de conflito com os judeus a respeito. Concluímos, em consequência, que as severas exigências relacionadas ao mandamento do sábado não guardam relação com o “dia do Senhor”, nem foram transferidas para esse os preceitos daquele. 

Em terceiro lugar, Paulo era capaz de transigir com a observância do shabbath, mas jamais permitir sua imposição aos cristãos como forma de aceitação na igreja, o que explica a exatidão das palavras de Hans Ulrich Heifler: “Com exceção do quarto mandamento, que se refere à observância do sábado, encontramos todos os dez mandamentos em suas formas inibidora (ou negativa) e positiva (ou construtiva) no Novo Testamento”.

Em quarto lugar, é certo que as epístolas do Novo Testamento não trataram o quarto mandamento como parte da lei moral e natural de Deus e, por isso, imutável. Antes, por todo o exposto supra, a lei do shabbath foi tratada como parte daquilo que é considerado lei cerimonial, que, como tal, era sombra de promessas superiores cumpridas em Cristo e, por essa mesma razão, não obriga os cristãos, conforme anotado no ponto anterior.

Em quinto lugar, vale salientar outra vez que o shabbath apontava para Cristo, em quem encontramos verdadeiramente a entrada no descanso de Deus, uma vez identificados e unidos a Ele pela fé. Por outro prisma, o sábado anunciava a salvação pela fé como descanso no trabalho do Outro, e não pelo próprio trabalho, o que pode explicar o rigor com que Deus protegeu o quarto mandamento de violação na antiga aliança. 

Finalmente, aos cristãos, não a guarda de um único dia na semana, está ordenado que andem “como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus” (Ef 5.15b,16). Na vida cristã, o que é central é a mordomia do tempo, e não a distinção religiosa de dias. “Remir” ou “redimir” (grego agorazo) é comprar de novo. No caso, o que deve ser comprado mediante preço é o tempo (kairos, o conjunto de oportunidades propiciadas por Deus). A implicação é que sábios são aqueles que se assenhoreiam de tal modo do tempo que o aproveitam ao máximo, sem perder uma única oportunidade de demonstrar o poder e a glória do evangelho.

1 TURNER, D. D. Exposição da Epístola aos Hebreus: A-XIII. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1987. p. 43

 2 “Se deveríamos continuar a observar o aspecto cerimonial do sábado”, pondera Horton, “por que não deveríamos praticar os outros sábados exigidos: o sábado a cada sete anos para a terra e um Ano Sabático a cada cinquenta anos, quando os prisioneiros seriam libertados e todos os débitos cancelados?” HORTON, Michael. A Lei da Perfeita Liberdade: A Ética Bíblica a Partir dos Dez Mandamentos. São Paulo: Cultura Cristã, 2000. p. 108

3 REIFLER, Hans Ulrich. A Ética dos dez Mandamentos. São Paulo: Edições Vida Nova, 1992. p. 47

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