O Pedido Tolo de Uma Mãe Amorosa

Valores do Reino de Deus vs. Valores do Mundo: Uma Lição para Mães

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Devemos todos reconhecer que a maternidade nos evoca os sentimentos mais doces, mais delicados, mais sacrificiais e mais fieis dentre todos os relacionamentos da experiência humana. A Escritura reconhece isso em mais de uma passagem. Leiamos este versículo do salmo de Davi: “Porque, se meu pai e minha mãe me desampararem, o Senhor me acolherá” (Sl 27.10). No profeta Isaías, encontramos esta pérola: “Acaso, pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti” (Is 49.15). 

Percebamos que a maternidade é o modelo máximo, dentre as relações humanas, todas falíveis por natureza, de amor fiel. Dito de outro modo, quando Deus quis falar do Seu próprio amor fiel, tomou a maternidade dentre todos os relacionamentos humanos.

Entretanto, é preciso dizer que há mães e mães. Há até mães diabólicas, a exemplo daquelas que são coniventes com o marido ou companheiro da violência física, sexual ou psicológica sofrida pelo próprio filho. Atalia é a filha de Acabe que quase destruiu a dinastia davídica para herdar o trono. Nessa tentativa, deve ter assassinado muito dos próprios descendentes (2Rs 11). Casos recentíssimos nesse sentido têm sido noticiados. Esse tipo de comportamento é frequente sobretudo em tempos irreligiosos, como os nossos, nos quais até a afeição natural é dissolvida no contexto do egoísmo e da luta pela própria felicidade a todo custo.

Por outro lado, há mães excepcionais, que tudo fazem para os filhos sejam servos de Deus e fazem disso o grande interesse da sua missão materna. Ana, v.g., foi uma mulher que desejou ter filho para Deus (1Sm 1,2). Mateus 19.13-15 narra sobre pessoas que levaram suas crianças a Jesus, enfrentando inclusive a oposição dos discípulos de Jesus.

E há ainda mães que são tão amorosas como tolas, destituídas de discernimento espiritual e sem valores cristãos sólidos definidos, por cuja conduta, amorosa que seja, terminam por fazer mais mal que bem aos filhos, para dizer o mínimo. 

Talvez o texto em epígrafe lance luz sobre esse tipo de mãe e sobre o modo como mães sábias devem orientar os filhos que tanto amam.

O contexto

O episódio narrado em nosso texto é parte de um tempo já avançado no ministério terreno de Jesus. Mateus 20.17 diz que o Senhor já havia determinado ir a Jerusalém, momento em que comunicou de modo claro pela terceira vez seu iminente sofrimento, que estava para acontecer naquela cidade (Mt 20.18,19). Estavam Jesus e os doze, pois, a caminho de Jerusalém pela estrada de Jericó quando se aproximou a mãe dos filhos de Zebedeu, com eles, Tiago e João, momento em que disse a Jesus que tinha um pedido a fazer (v. 20). 

Antes de analisar o pedido em si, vale destacar que de fato esse era o desejo de Tiago e João (e depois veremos que esse era o desejo dos doze!), tanto que no texto paralelo de Marcos (10.35-45) a mãe dos filhos de Zebedeu sequer é mencionada como intermediária do pedido e, em sua resposta, Jesus fala no plural (“não sabeis o que pedis” – nem a mãe nem os filhos sabiam o que pediam – v. 22).

Portanto, que esse era o desejo de Tiago e João, não temos nenhuma dúvida. Além disso podemos inferir que aquele pareceu o momento apropriado: Jesus decidiu ir a Jerusalém para se tornar o grande rei político, conforme pensavam, cenário que lhes fez parecer algo do tipo “é agora ou nunca”. Mas por que Tiago e João fizeram o pedido chegar a Jesus por meio da mãe? 

Primeiro, segundo Creig Keener, em seu comentário histórico-cultural do Novo Testamento, nos círculos judaicos e romanos se acreditava que a intercessão de uma mãe por seus filhos era mais eficaz, tinha mais poder de persuasão ou de sensibilização, do que o pedido direto de um homem. A ideia é a de uma mãe suplicando a um juiz pelo filho que está preso.

Segundo, é possível que a mãe de Tiago e João fosse a mulher que aparece como Salomé em Marcos 15.40 (comparar com Mt 27.56 e João 19.25), que poderia ser a irmã de Maria. Então, dá até para imaginar aqui o que seria um caso clássico de nepotismo: Tiago e João conversando no sentido de que “vai dá tudo certo se nossa mãe, que ainda é a tia do Rei, falar com ele”. 

O pedido da mãe de Tiago e João

Pois bem, a mãe dos filhos de Zebedeu chegou a Jesus, pôs-se de joelhos, com toda a reverência, e disse: “Manda que, no teu reino, estes meus dois filhos (mãe é uma coisa linda, não é?) se assentem, um à tua direita, e o outro à tua esquerda” (v. 21). 

A ideia é a seguinte: segundo se pensava, Jesus estaria indo a Jerusalém para restaurar a glória de Israel e assentar no trono de Davi, seu pai; ele inclusive disse recentemente o seguinte: “Em verdade vos digo que vós, os que me seguistes, quando, na regeneração, o Filho do Homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel” (Mt 19.28); presumivelmente, Jesus lideraria um governo mundial e, como um grande líder político, cercar-se-ia de autoridades que o auxiliariam no comando de Israel, agora restaurada à semelhança daqueles tempos áureos de Davi e Salomão. Nesse contexto, que os homens mais importantes do reino fossem quem? “… estes meus dois filhos…”. 

Salomé queria que Tiago e João fossem para Jesus como foram Arão e Hur para Moisés na batalha contra Amaleque, quando um sustentou o libertador na mão direita e o outro na esquerda (Ex 17.12). Aquela mãe amorosa queria desejava ver seus filhos como dois superministros no governo de Jesus.  

O pedido é amoroso, sem sombra de dúvida. É também movido por fé. A mãe de Tiago e João realmente acreditou nas palavras recentes de Jesus, Mateus 19.28. Mas é um pedido tolo. É um pedido que leva em conta as próprias honra e felicidade. É um pedido por proeminência. É um pedido egoísta: “… estes meus dois filhos…”. É pedido mesquinho, por prestígio e poder; e uma reação totalmente inadequada a Jesus, que estava a caminho da cruz, não da revolução política. 

Tiago e João, e Salomé para eles, queriam que eles ocupassem os primeiros lugares. Não lhes bastavam estar entre os discípulos de Jesus, aqueles para os quais Jesus veio ao mundo; não lhes bastavam constar na lista dos doze apóstolos de Jesus Cristo e tomar parte no fundamento da igreja; não lhes era suficiente nem ser parte do círculo ainda mais íntimo do Salvador, que compartiam apenas com Pedro. Não há limites ao egoísmo humano!  

A resposta de Jesus

Nesse momento Jesus passou a lidar com o pedido de Salomé, mas já direcionando a resposta a Tiago e João também. Ele disse, no plural: “Não sabeis o que pedis” (v. 22). 

  • Primeiro, o pedido desconsidera um dado importante do reino de Deus: não há glória que não seja precedida de sofrimento

“Uma oração que pede glória é uma oração que pede sofrimento” (Hendriksen). “Podeis vós beber o cálice que estou para beber?”  “Beber o cálice” é tomar parte nos sofrimentos da vida cristã e que de fato lhes aguardavam. Tiago foi martirizado sob Herodes, segundo Atos 12.2, e João chegou a ser exilado na ilha de Patmos pelo testemunho da Palavra (Ap 1.9). Eles afirmaram: “Podemos”, embora naquele momento falando com excesso de autoconfiança. E Jesus confirma: “Bebereis o meu cálice”.

Não esqueçamos que há uma mãe ouvindo essa conversa. Ela deveria aprender também que não poderia lutar pela superioridade dos filhos, mas considerar como uma grande honra compartir dos sofrimentos dos Filho de Deus. Se o nosso cálice for o do Filho de Deus, participar dele é uma honra concedida pela graça de Deus. “Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo e não somente de crerdes nele” (Fp 1.29). 

  • Segundo, o pedido desconsidera que o decreto eterno de Deus, que não podem ser alterado, nem pelo Redentor

“Bebereis o meu cálice [essa graça eu concedo, como a todos os meus servos]; mas o assentar-se à minha direita e à minha esquerda não me compete concedê-lo; é, porém, para aqueles a quem está preparado por meu Pai” (v. 23). Jesus responde um pedido egoísta por superioridade com a Sua pronta submissão Pai. Não esqueçamos ainda que há uma mãe ali, ouvindo de Jesus que pedidos imprudentes não afetam os decretos de Deus, que Deus não ouve pedidos tolos. 

  • Terceiro, o pedido desconsidera que o reino de Deus não é como os reinos deste mundo. 

Jesus já havia dito que o maior no reino é o que se humilha como uma criança (Mt 18.1-4). Em Mateus 19.14, Ele disse que o salvo, o súdito do reino de Deus, é semelhante em muitos aspectos a crianças, capaz de uma dependência humilde e confiante. Ao jovem rico, e aos discípulos no contexto da conversa com o jovem rico, Jesus tinha recentemente colocado as coisas nos devidos lugares: que para nós mais importante é dá que receber (Mt 19.21,29,30). A parábola dos trabalhadores na vinha (Mt 20.1-16) também já havia pontuado que “os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos” (v. 16). Essas lições já deveriam ter envergonhado Salomé, Tiago, João e os demais discípulos. Mas não o fizeram, tanto que os demais discípulos se iraram contra Tiago e João (v. 24), decerto porque também almejavam para si as mesmas posições desejadas por eles. 

É nesse ponto que Jesus volta a falar sobre os valores do reino de Deus em confronto com os reinos deste mundo (vs. 25-27). Diz, noutras palavras, o seguinte: “dentre os governos humanos, os homens fazem tudo para alcançar posições de autoridade para, então, oprimir os súditos; não é assim no reino de Deus, onde a grandeza está no serviço e a honra, na humildade”.

Tudo essa nobilíssima conduta, por fim, é inspirada e ao mesmo tempo um reflexo da atitude do Rei: “tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (v. 28). Jesus Cristo é o Deus Eterno, que comparte a glória da divindade com o Pai e o Espírito Santo, mas que, no entanto, humilhou-se, encarnando-se, com o propósito de servir. Seu serviço consistiu em dar a própria vida (“no lugar de”) como preço de resgate do povo que veio salvar. 

Mas, por favor, não esqueçamos que há ali uma mãe aprendendo que o reino de Deus não é como os reinos terrenos, como espero aqui contribuir para que pais e mães aprendam a mesma lição. 

Conclusão e aplicação

A minha conclusão é que mães, mesmo em tempos tão caóticos como o nosso, continuam sendo modelo de amor fiel, mas que, ainda assim, é possível que mães sejam amorosamente tolas na lida com os filhos, sobretudo quando desconhecem os valores do reino de Deus ou simplesmente não os priorizam.

Por outro lado, mães piedosas, em primeiro lugar, sabem que os filhos costumam fazer pedidos inadequados e elas e, de pronto, porque dotadas de discernimento espiritual, também sabem dizer “não”. 

Em segundo lugar, mães sábias, dotadas de discernimento espiritual, pensarão mais na bem aventurança eterna dos filhos do que em seu bem estar transitório. Essas mães levarão a sério decisões que envolvam o discipulado cristão dos filhos e agirão com a firmeza necessária quanto ao assunto da vida cristã. 

Essa atitude não se vê em uma mãe sem discernimento. Quando é esse o caso, se a escolha é quanto à escola, ela quer a melhor possível, mas quando a questão é a igreja, ela diz: “que pelo menos esteja em alguma”. 

Os filhos adolescentes, dependentes financeiramente dos pais, não escolhem a escola e tampouco se permanecerão ou não estudando. Os filhos não têm autonomia para chegar em casa e dizer: “mudarei de escola” ou “não irei mais à escola”. Mas dizem confiantes a mães sem discernimento: “a partir de hoje não irei à igreja” ou “a partir de hoje vou para a igreja Tal”, e as coisas ficam por isso mesmo, lamentavelmente.

Quando o compromisso é com a escola, não é possível faltar. Às vezes vai até doente, cansado. Tanto é assim que os aniversários não podem ocorrer na semana, porque atrapalham as aulas. Então o aniversário será feito no domingo, porque, não há aula, e o serviço a Deus é a coisa que simplesmente pode ser não realizado.

Assim, a vida vai nessa direção: mães tolas, amorosamente, seguem lutando para que seus filhos ocupem os lugares proeminentes pela proeminência, não para servirem a Deus neste mundo.

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