Ary Queiroz Jr. Anotações para o sermão pregado em 18 de dezembro de 2016, Na 1ª. Igreja de Caruaru.
Os acontecimentos do Natal estão muito bem sedimentados em nossa concepção de um determinado modo. Quase todos nós os descreveríamos da seguinte forma: José e Maria chegaram a Belém para o recenseamento quando a criança Jesus estava para nascer; eles procuraram na vila uma espécie de hospedaria comercial, mas suas acomodações já estavam todas ocupadas; então, a família santa se alojou de maneira improvisada em um estábulo (ou em uma gruta/caverna, noção mais afeita à Igreja Ortodoxa) e os trabalhos de parto tiveram início; Jesus nasceu sozinho e Maria o envolveu em panos e o deitou numa manjedoura. Nessa condição a família teria sido visitada pelos pastores.
Essa narrativa está tão enraizada que dificilmente permitimos uma revisão crítica dela. Mas é exatamente isso que proponho no presente texto. Responderemos, a propósito, sobretudo de olho em Lucas 2.7, o que é “hospedaria”, onde estava aquela “manjedoura”, onde a família santa foi visitada pelos pastores e pelos magos do Oriente. Vamos, enfim, rever essas questões e, por fim, colher lições proveitosas à nossa edificação.
Considerações iniciais
Antes, porém, algumas considerações devem ser percebidas. Senão, vejamos:
Em primeiro lugar, José voltou à sua cidade de origem, Belém. Em uma cultura com memória histórica extensa como a oriental, quando José se identificou como filho de Jacó, filho de Matã, filho de Eleazar, etc (ver a genealogia em Mateus 1), as portas da cidade de pronto se lhe abriram. É o que se pode razoavelmente esperar.
Em segundo lugar, José era um homem nobre. Ele não era apenas um judeu, isto é, da tribo de Judá. Ele era membro da família real, “da casa e linhagem de Davi”, sendo recebido na cidade que pelo menos localmente era chamada “cidade de Davi” (v. 4). Certamente, com essas credenciais, José teria sido recebido com alegria em qualquer lugar da cidade.
Em terceiro lugar, a família santa não chegou a Belém na mesma noite em que Maria estava para dar à luz. Atentemos ao que diz o Lucas 2.6: “Estando eles ali, aconteceu completarem-se-lhe os dias” (ARA) – ou, “Enquanto estavam lá, chegou o tempo de nascer o bebê” (NVI). Vejam que o texto sugere fortemente que pensemos que José já estava instalado em Belém quando chegou o dia de Jesus nascer. E, nesse caso, teria havido tempo suficiente para todos os preparativos. A família santa poderia até mesmo ter buscado refúgio na casa de Isabel e Zacarias, que moravam na “região montanhosa da Judéia”, sabendo nós que Belém ficava no centro da Judéia.
Em quarto lugar, há um problema de ordem cultural muito sério a ser considerado na versão popular do Natal, qual seja, ela transforma Belém no lugar menos hospitaleiro da face da terra, estando precisamente localizada em lugar e cultura cujo valor da hospitalidade é sagrado. Se mantivermos essa tradição, precisaremos imaginar uma cidade de portas fechadas para uma mulher em dores de parto. Isso não se encaixa com nada que conhecemos sobre a cultura do mundo oriental.
E Lucas 2.7?
“e ela deu à luz o seu filho primogênito, e enfaixou-o e o deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2.7).
Mas, a questão é: como entender Lc 2.7? O fato é que há um recém-nascido numa “manjedoura” porque não havia lugar na “hospedaria”. Bem, para entendermos como esses dizeres se adequam àquilo que Lucas realmente comunicou, precisamos conhecer uma casa típica de um camponês do primeiro século no Oriente, um modelo que perdurou desde a época de Davi até meados do século passado, segundo pesquisas acuradas de Kenneth Bailey. Atentemos, pois.
A palavra grega (“katalyma”), vertida para “hospedaria”, não foi usada por Lucas com sentido de “hospedaria comercial”. O evangelista usou outro vocábulo (“pandocheion”) na parábola do bom samaritano – ali, o leitor se recordará, o samaritano realmente levou o moribundo a uma hospedaria comercial, às suas expensas. Ademais, a palavra “katalyma” só ocorre outra vez no Evangelho, em Lucas 22.11, ocasião em que foi traduzida por “aposento” (na ARA) e por “salão de hóspede” (na NVI). À pena de Lucas, portanto, não resta dúvida que “katalyma” significa o quarto de hóspede que ficava anexo ao único “cômodo da família”.
E quanto à “manjedoura”? Onde ela se encaixa? Simples, o “cômodo da família” era o recinto principal da casa, onde a família cozinhava, comia, dormia, vivia. Na extremidade desse cômodo único o piso era rebaixado em cerca de meio metro em relação ao restante da casa. Todas as noites os animais da família (vaca, burro, ovelha) eram trazidos para dentro desse espaço (a extensão do cômodo mencionado). Aqui havia manjedouras, em geral escavadas no chão ou feitas de madeira, para que os animais se alimentassem durante a noite. Na aurora de cada dia, os animais eram levados para o estábulo, fora da casa, para que o espaço do interior da casa fosse limpo.
Assim, o que Lucas está dizendo em 2.7 é que a família santa se hospedou em Belém, em uma casa padrão de um camponês da época. José e Maria não ficaram no quarto de hóspedes (“katalyma”) porque a família já estava com outros hóspedes. No entanto, mesmo assim, seus anfitriões fizeram o melhor que puderam, acomodando-os no cômodo da família, onde a criança recém-nascida foi colocada carinhosamente no lugar mais confortável possível para um bebê – uma manjedoura acolchoada de palha.
E quanto aos pastores?
“O anjo, porém, lhes disse: Não temais; eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E isto vos servirá de sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em manjedoura” (Lc 2.10-12).
Os pastores, para dizer o mínimo, não eram gente querida na época. Eram pessoas pobres, de má reputação (não raro levavam ovelhas de outros porque “confundiam” com as próprias) e cuja profissão era considerada indigna, impura, notadamente por impedirem-nos de observar rigorosamente o sábado. Precisamente eles foram avisados por um anjo que a pessoa mais majestosa já esperada por este mundo havia nascido.
Do ponto de vista deles, é claro que se o bebê fosse realmente o Messias, os pais da criança os rejeitariam. Eles podem ter ponderado, então: “Sim, a notícia é boa, mas não é para o nosso bico!” Foi quando o anjo os acudiu e os estimulou com um “sinal” (v. 12): “encontrarão o bebê envolto em panos [“é como nós fazemos com os nossos bebês” – podem ter concluído (Ez 16.4)] e deitado numa manjedoura [“ele está em uma casa simples como a nossa”, também ponderaram]”. O “sinal” os estimulou a irem a Belém, apesar de serem “pastores”.
Conclusão
O Natal é deveras um evento extraordinariamente inspirador! Poderíamos extrair um sem número de lições profundamente impactantes, se o espaço nos permitisse. Afinal, você, leitor, não se sente bastante envergonhado por reclamar das suas condições de vida quando o Senhor da glória veio ao mundo em ambiente tão simples?
Não somos também levados a pensar naquela humildade espiritual que se apresenta diante de Deus sem credenciais (Mt 5.3)?
Não deveríamos rechaçar gastos astronômicos em templos cristãos?
Sim, e mais.
Devemos ponderar em todas essas coisas e perceber que o Natal já nos comunica que nosso Senhor não rejeita aqueles que se achegam a Ele. Ele recebe pobres (como os pastores) e ricos (como os magos) – e a uns e a outros no ambiente simples da mesma casa (Mt 2.11).

