Introdução
A partir do que estudamos na lição anterior, já é possível perceber um padrão, um jeito recorrente de Deus lidar com a humanidade. Primeiro, observa-se a contínua coexistência de dois povos, sendo um o desdobramento da semente da mulher e, paralelamente, o outro, o da semente de Satanás – isso, vale repetir, é graça, porque não fosse a decisão divina de interpor essa inimizade, haveria somente um povo, a semente de Satanás.
Também já ficou claro que Deus, porque lidando com um povo por meio de pactos, está sempre interessado em redimir famílias, não apenas indivíduos. Note-se que Deus fez uma aliança com Abraão que envolveu a sua descendência e o sinal e selo dessa aliança foi a circuncisão. A descendência do patriarca, conforme Deus já o havia advertido, seria “peregrina em terra alheia”, “reduzida à escravidão” e “afligida por quatrocentos anos” (Gn 15.13), mas chegaria o tempo em que sairia da terra da sua aflição “com grandes riquezas” (Gn 15.14).
Saltaremos na história cerca de quatrocentos anos para ver como Deus cumpriu a promessa feita ao patriarca.
Os preparativos para o Êxodo
Chegado o momento da libertação e preparado o libertador (Ex 3,4), tiveram início as negociações com faraó. Moisés deveria dizer a ele que o Senhor ordenou ao rei do Egito que deixasse Israel sair para servi-lo no deserto: “Dirás a Faraó: Assim diz o Senhor: Israel é meu filho, meu primogênito. Digo-te, pois, deixa ir meu filho, para que me sirva; mas, se recusares deixá-lo ir, eis que eu matarei teu filho, teu primogênito” (Ex 4.22,23). Notemos que a nação é tomada como indivisível, uma numerosa multidão é dita como o filho primogênito de Deus. Já no primeiro encontro com Faraó, foi dito: “Deixa ir o meu povo, para que me celebre uma festa no deserto” (Ex 5.1).
À medida em que as pragas foram sendo realizadas, faraó esteve disposto a fazer concessões, notadamente quando, a partir da terceira praga (a dos piolhos), os magos do Egito não puderam fazer nada semelhante ao que Moisés fizera (Ex 8.18,19). A primeira concessão veio após a quarta praga (a das moscas), momento em que Faraó consentiu que Israel adorasse a Deus, mas no Egito (Ex 8.25), com o que Moisés não consentiu.
Entre a sétima (a praga da chuva de pedras) e a oitava praga (a de gafanhotos), os oficiais de faraó tentaram persuadi-lo a deixar a nação eleita sair para servir a Deus (Ex 10.7), até que Moisés foi levado à sua presença e Faraó lhe perguntou “quais são os que hão de ir” (Ex 10.8). Moisés respondeu: “Havemos de ir com os nossos jovens, e com os nossos velhos, e com os filhos, e com as filhas, e com os nossos rebanhos, e com os nossos gados…” (Ex 10.9). A isso Faraó respondeu que jamais permitiria que fossem as crianças e decidiu: “ide somente vós, os homens, e servi ao Senhor” (Ex 10.11). As crianças receberam permissão após a nona praga (Ex 10.24), mas uma contenda em torno da permissão para a saída de rebanhos e gado encerrou as negociações e o cenário para a décima praga ficou armado.
Sob outra perspectiva, Deus já vinha fazendo distinção entre israelitas e egípcios desde a quarta praga (a das moscas), tendo separado a terra de Gósen, onde habitavam os filhos de Israel, para não receber os enxames de moscas (Ex 8.22,23). O mesmo ocorreu com as pragas quinta (a de peste nos animais – Ex 9.4), sexta (a de úlceras – Ex 9.11), sétima (a de chuva de pedras – Ex 9.26), oitava (a de gafanhotos – Ex 10.15) e nona (a das trevas – Ex 10.23).
À toda evidência, temos aqui a continuação da antiga distinção entre a semente da mulher e a semente de Satanás, quando em mais uma etapa da história da salvação Deus separa para si um povo, constituído de famílias, e não simplesmente indivíduos.
A Páscoa
Até que chegou a hora da décima praga! Antes dela, foi instituída a Páscoa e a festa dos Pães Asmos. Aos dez dias do primeiro mês (Abib ou Nisã), os filhos de Israel deveriam tomar um cordeiro ou um cabrito de tamanho conforme o número de membros das respectivas famílias (Ex 12.3,5). O cordeiro, ou o cabrito, deveria ser guardado para ser sacrificado no dia 14 do mês, ao final da tarde (Ex 12.6). Imolado o cordeiro pascal, o sangue deveria ser borrifado na verga e ombreiras das portas de todas as casas dos filhos de Israel (Ex 12.7,22) e a carne comida assada com pães asmos e ervas amargas (Ex 12.8), estando todos prontos para a partida (Ex 12.11).
A razão do rito era a seguinte: o Senhor passaria para ferir os primogênitos dos egípcios, mas quando passasse, as famílias dos filhos de Israel, todas elas, estariam distinguidas das famílias dos egípcios e resguardadas pelo sinal do sangue do cordeiro, motivo pelo qual não receberiam contra si a matança dos primogênitos, a décima praga (Ex 12.12-13, 22-23).
Mas atenção para isso! Esse mesmo rito deveria permanecer sendo observado a cada ano. “Este dia vos será por memorial”, é dia para ser celebrado “por estatuto perpétuo” (Ex 12.14). O dia 14, o da Páscoa, seria seguido por uma semana de celebrações denominada festa dos Pães Asmos, dos dias 15 ao 21 do mês de Abib. Nestes sete dias não poderia haver fermento em nenhuma das casas dos filhos de Israel (Ex 12.15-20).
A questão importante agora é: para quem essas instituições foram dadas? Por que manter a celebração da Páscoa pelas futuras gerações? Por tudo o que já estamos observando, a resposta é a esperada: “Guardai, pois, isto por estatuto para vós outros e para vossos filhos, para sempre” (Ex 12.24). O memorial da Páscoa e a festa dos Asmos eram para famílias! Por quê? Porque Deus está interessado em redimir famílias, não apenas indivíduos.
Por isso, quando, mais tarde, a nação estivesse em sua própria terra, e chegasse o momento da Páscoa, seria apenas natural que as crianças, os adolescentes e os jovens da nação indagassem aos pais sobre a razão de observarem aquele rito ano após ano, caso em que estes deveriam responder: “É o sacrifício da Páscoa ao Senhor, que passou por cima das casas dos filhos de Israel no Egito, quando feriu os egípcios e livrou as nossas casas…” (Ex 12.25-27).
Moisés determinou e predisse, por mandado de Deus, que a festa da Páscoa seria uma oportunidade para o discipulado dos filhos. Imaginemos a cena: “Pai, mãe, por que um cordeiro? Qual a razão da festa da Páscoa? De onde vem isso?” Os pais respondem: “Meus filhos, nós éramos escravos, mas Deus já havia predito que no tempo oportuno nos libertaria da escravidão. Chegado o tempo da libertação, quando o Destruidor passava para ferir aqueles que nos escravizavam, Deus nos poupou da destruição, protegendo-nos sob o sangue do cordeiro pascal e foi desta maneira que nos libertou”.
Conclusão
A conclusão a que podemos chegar é que o padrão divino permanece. Há a permanente coexistência de duas sementes, a da mulher e a da serpente, que, nos eventos do Êxodo, são representadas pelos filhos de Israel e pelos egípcios. Deus se deleita em salvar e separar para si famílias: a nação, o povo de Deus, consistente de famílias da descendência étnica do patriarca, são o objeto da libertação e do Êxodo.
Em mais um passo na história da salvação, os crentes de hoje aprendem a preciosa lição de que devem nutrir uma firme confiança que sua descendência pertence a Deus!
Mas não só. Na ocasião do Êxodo e a partir dele existe um mandamento para a realização de uma celebração que não poderia ser negligenciada. É aqui que surge o cenário dos pais celebrando a Páscoa e explicando seu sentido aos filhos. Note-se, entretanto, que essa cena nada tem a ver simplesmente com aquele pai doce e presente que ler conto de fadas para o filho dormir. As histórias da Bíblia não são contos de fadas e não estão registradas para encantar e entreter. As histórias da Bíblia são histórias especializadas da salvação. Elas têm um sentido mais essencial e um propósito último, e obstinadamente apontam para Jesus Cristo como o Libertador e o Cordeiro que tira o pecado do mundo.
A finalidade dos pais israelitas que, segundo Moisés, deveriam explicar o sentido da Páscoa para os filhos, não era contar histórias apenas por contar, ou para exercer uma espécie de fascínio imaginativo nas crianças por meio das pragas do Egito ou da passagem pelo mar vermelho.
O propósito último era dizer aos filhos o modo como Deus salvou o povo que escolheu para ser sua propriedade peculiar. Por que falar sobre pragas, sobre a praga dos primogênitos, sobre o sangue do cordeiro nas ombreiras das portas? Para dizer o seguinte: éramos escravos, mas Deus nos libertou pelo sangue do cordeiro. É somente assim que tudo faz sentido!
Cuidemos, pois, porque é possível ensinar histórias bíblicas e, ainda assim, não ensinar a Bíblia. E mais. É possível até mesmo usar a Bíblia contra a Bíblia.

