Terceiro sermão natalino de 2020, Pregado na Primeira Igreja de Caruaru.
Estamos a tratar, nesta série de textos natalinos, sobre a dupla natureza do Salvador. Podemos sintetizar o que dissemos nos estudos anteriores com as seguintes proposições.
- A união entre as duas naturezas: desde a concepção, Maria foi mãe de uma pessoa completa, não apenas da natureza humana de Jesus. Dizendo de outro modo, Jesus possui duas naturezas desde a concepção: a divina, procedente da divindade, que é eternamente preexistente; e a humana, procedente de Maria, que é decorrente do milagre do Espírito no ventre da virgem;
- O contraste entre as naturezas: essas naturezas estão imutável e eternamente inseparáveis no único Ente Jesus Cristo e, ao mesmo tempo, elas são inconfundíveis de modo que uma natureza nunca se confunde com a outra nem nunca opera segundo a outra.
Em síntese, nada obstante as duas naturezas terem sido unidas para sempre na encarnação, cada uma conserva intactas as respectivas características, razão pela se pode dizer que Jesus é ao mesmo tempo infinito e finito, imutável e mutável, independente e dependente, soberano e submisso, poderoso e fraco, onisciente e carente de conhecimento, intentável e tentável etc.
Antes de tudo o mais, preciso esclarecer que esta doutrina não é uma sutileza acadêmica despida de interesse prático. Na verdade, nós estamos a falar daquilo que está no coração mesmo da fé cristã, daquele núcleo inegociável da piedade, sem a qual nem podemos nos reconhecer como cristãos. Isso quer significar que se não mantemos a fé no Cristo que é verdadeiro Deus e verdadeiro homem não somos cristãos, não é a fé cristã que professamos.
Veja-se, a propósito, 1João 4.1-3:
“Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora. Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo”.
1ª João 4.1-3
Note o leitor que João proíbe que os crentes continuem a dar guarida indiscriminada a qualquer pregador que alegue falar em nome de Deus, exortando-os a não darem crédito a todo espírito, isto é, a não ouvir credulamente a toda e qualquer mensagem. A razão dessa atitude vigilante é que muitos falsos profetas já estavam em plena atividade naquela época.
Em seguida, o escritor sagrado fornece aos crentes um teste de autenticidade para toda e qualquer pregação que ouvirem, qual seja: a confissão de que “Jesus Cristo veio em carne”. Notem que a confissão “Jesus Cristo veio em carne” afirma a divindade e a humanidade do Senhor: o apóstolo diz que Jesus Cristo “veio”, e isso só pode significar que Ele possui pré-existência eterna; mas diz ainda que Ele “veio em carne”, que o Cristo, na encarnação, adquiriu verdadeira natureza humana. O uso do tempo perfeito do verbo “veio” indica que a assunção da humanidade por Jesus ocorreu de uma vez por todas, como um evento no passado que perdura desde então. Ou seja: agora e por toda a eternidade Jesus Cristo possui natureza humana, além da divina.
Essa é de fato a pedra de toque da fé cristã, sem a qual não há fé em qualquer medida, tanto que João diz, no v. 3, que “todo espírito que não confessa a Jesus Cristo [isto é, que não confessa que “Jesus veio em carne”] não procede de Deus” (cf. 2.22,23). É dizer, qualquer negação da divindade ou da humanidade de Jesus, ou qualquer tentativa de separar as naturezas divina e humana do Salvador, ou de confundi-las, ou de suplantar uma em favor da outra, é doutrina que não procede de Deus, mas do espírito do anticristo que há de vir, mas que já operava no mundo (cf. 2.18).
A fundamentalidade do que estamos a falar pode ser vista em diversas outras passagens, dentre as quais destaco João 8.24:
“Por isso, eu vos disse que morrereis nos vossos pecados; porque se não credes que EU SOU, morrerei nos vossos pecados”.
João 8.24
A equivalência entre o “Eu Sou” e aquela revelação de Deus a Moisés parece inequívoca (“Disse Deus a Moisés: Eu Sou o que Sou. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: Eu Sou me enviou a vós outros” – Ex 3.14). No contexto de João (8.21-24), o significado parece ser este: “Vocês só poderão ir aonde eu vou se aceitarem a minha natureza divina eterna”.
Ditas essas coisas, preciso prosseguir para falar sobre a necessidade da dupla natureza do Salvador para a obra da redenção. E, com esse propósito, exporei neste estudo a necessidade da natureza divina do Redentor para a obra da redenção. Em outras palavras, discorrerei sobre as razões pelas quais Jesus só fez o que fez por Seu povo por ser também divino. Observemos juntos as razões da assertiva.
Jesus Cristo sequer poderia ser chamado de Salvador se não fosse Deus.
A Escritura apresenta duas verdades paralelas. Pela primeira, diz que a obra da salvação é uma obra divina, que somente Deus poderia realizar, que se trata de uma obra que requer a onipotência que é própria somente da divindade. Do ventre do grande peixe, por exemplo, Jonas entendeu que “ao Senhor pertence a salvação” (Jn 2.9). Em Isaías 43.11,12, o Senhor diz que somente Ele é Salvador, nos termos mais inequívocos possíveis:
“Eu, eu sou o Senhor, e fora de mim não há salvador. Eu anunciei a salvação, realizei-a e a fiz ouvir; deus estranho não houve entre vós, pois vós sois as minhas testemunhas, diz o Senhor Deus; eu sou Deus”.
Isaías 43.11,12,
A partir dessas referências, a conclusão mais evidente é que não pode haver um salvador simplesmente humano ou, dizendo de outro modo, aquele que é apenas e simplesmente humano não pode salvar ninguém, nem a si mesmo. E, desse modo, chamar alguém que é apenas humano de salvador seria uma idolatria blasfêmia.
Com efeito, a grandeza da obra da salvação exige nada que seja menor que a onipotência divina, porque a Bíblia diz que o Salvador…
- Destruiu, por Sua morte, aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo (Hb 2.14) e que Ele se manifestou para destruir as obras do diabo (1Jo 3.8);
- Livrou a todos que, pelo pavor da morte, estava sujeito à escravidão (Hb 2.15);
- Por seu sangue, purifica a nossa consciência de obras mortas para servirmos ao Deus vivo (Hb 9.14);
- Com uma única oferta pelo pecado através de um único sacrifício, tirou os pecados de muitos e se assentou à destra de Deus, tendo aperfeiçoado para sempre quantos estão sendo santificados (Hb 9.28;10.12,14).
Quem poderia realizar essas coisas senão Deus?!
Mas, por outro lado, a Bíblia chama Jesus de Salvador. O nome Jesus já indica que Ele é Salvador (“porque ele salvará o seu povo dos pecados deles” – Mt 1.21, disse o anjo a José). Pedro diz que não há possibilidade de haver salvação à parte de Jesus:
“E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos”.
Paulo, em Romanos 10.13, citando Joel 2.32, diz que “Todo aquele que invocar o nome do Senhor [Jesus] será salvo”, sendo de relevo anotar que em Joel o nome que deve ser invocado para a salvação é o de Yahweh.
Então, a Bíblia é coerente. Ela diz basicamente o seguinte:
- Somente Deus pode salvar;
- Jesus é Deus;
- Logo, Jesus é o Salvador.
Por outro lado, há incoerência inaceitável pela Escritura em se afirmar beneficiário da salvação de Jesus e negar Sua divindade.
O Salvador deveria ser divino a fim de se submeter à ira onipotente de Deus e se sobressair vitorioso.
A Bíblia declara em termos claros a absoluta impossibilidade de qualquer criatura subsistir ante a fúria do Deus todo poderoso: “Tu, sim, tu és terrível; se te iras, quem pode subsistir à tua vista?” (Sl 76.7). O profeta Jeremias diz que nem as nações podem suportar a Sua indignação (Jr 10.10). O salmista diz que a ira de Deus extrapola os limites da compreensão humana: “Quem conhece o poder da tua ira? E a tua cólera, segundo o temor que te é devido?” (Sl 90.11). Por isso, teria sido impossível a um simples homem ser submetido à ira do todo poderoso e resistir ileso a ponto de dela exsurgir com um povo liberto.
Ocorre que para realizar a salvação do povo de Deus Jesus assumiu os nossos pecados, tornando-se maldição em nosso lugar e, suportando a ira de Deus que deveria recair sobre nós e nos aprisionar para sempre, sobressaiu vitorioso. E a Bíblia diz que Ele não apenas suportou essa ira, mas também que a esgotou e dela exsurgiu triunfante, após haver realizado verdadeira propiciação. Tanto é assim que Sua última palavra na cruz foi: “Está pago”.
Vamos racionar da seguinte forma:
- Não há como um simples homem escapar da condenação eterna sob o peso da ira de Deus. O pagamento meramente humano do preço do pecado não produz libertação, eternamente;
- Jesus é Deus;
- Logo, Jesus recebeu a justa maldição devida pelo pecado e se sobressaiu vitorioso.
O Salvador deveria ser divino a fim de satisfazer, com um único sacrifício e de uma vez por todas, as demandas da justiça divina.
Um ser que fosse simplesmente humano e que vivesse absolutamente sem pecado (hipótese impossível, que se aventa para efeito da argumentação), os frutos de tal perfeito padrão só aproveitariam a ele mesmo; jamais compensariam pecados de outros. Entretanto, a Bíblia diz que a vida e a morte de Jesus Cristo geraram méritos tão excelentes que são capazes de, imputados a milhares de milhões de pecadores, libertá-los e justificá-los por toda a eternidade.
É o que nos diz o profeta Isaías:
“Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si… Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados… mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos… Ele foi oprimido e humilhado… por causa da transgressão do meu povo, foi ele ferido… Todavia… quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do Senhor prosperará nas suas mãos. Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito; o meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si. Por isso, eu lhe darei muitos como a sua parte…” (Is 53.4-12).
Então, a questão é: como, Jesus, com uma vida tão curta e apenas em algumas horas na cruz pagou um preço capaz de satisfazer a justiça de Deus de modo tão cabal a ponto de esse sacrifício ser suficiente para compensar os efeitos nefastos de uma infinidade de pecados de uma multidão incontável? A resposta só pode ser uma: em virtude da união das naturezas na encarnação, a divindade de Jesus conferiu valor infinito à Sua humanidade, cujo sacrifício foi suficiente para prover a libertação eterna de todo o Seu povo.
Dizendo de outro modo, o preço do nosso resgate foi nada menos que “o precioso sangue, como de Cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo” (1Pe 1.19). Aquele sacrifício não era o sacrifício de um mero homem. Quem morreu por nós foi o Deus-Homem (At 20.28)!
Assim, nosso próximo silogismo é este:
- Não há como um simples homem oferecer a Deus um sacrifício de valor infinito, capaz de prover a libertação eterna de uma incontável multidão;
- Jesus é Deus;
- Logo, Jesus ofereceu a Deus um sacrifício de valor infinito, capaz de nos salvar eternamente.
Conclusão
À guisa de conclusão, asseveramos que somente Deus pode salvar (uma vez que a salvação é uma obra divina); somente Deus pode resistir incólume após se submeter à ira do Todo-poderoso; e somente Deus pode realizar uma oferta com valor suficiente para libertar eternamente uma multidão incontável de pecadores.
Se Jesus não é Deus, Ele também não é Salvador em qualquer sentido. Se Jesus não é Deus, Ele jamais poderia se fazer pecado e maldição por nós e tomar sobre Si o nosso pecado e, ainda assim, sair-se vitorioso. Ainda que fosse um homem perfeito, mas um simples homem, Sua perfeição aproveitaria apenas a Si mesmo e Seu sacrifício, se admitido, seria apenas uma permuta por outra vida. Vida por vida. Um homem por outro. Nada mais. Ou temos um Salvador divino ou não temos Salvador algum. Ou Jesus é Deus ou não Ele não pode salvar ninguém, ainda que tenha sido um homem perfeito.
Mas, Ele é Deus! Ele é o Verbo eterno, o Filho Unigênito. Daí se poder dizer que Ele veio, que Ele foi enviado pelo Pai, que Ele se fez carne e habitou entre nós… Por isso Ele é o Salvador do mundo, que se sujeitou à ira do Todo-poderoso, sagrou-se vencedor e compensou a justiça divina com Sua vida e Sua morte.
Solus Christus!

