A atitude do Antigo Testamento em relação às mulheres é bastante positiva, conforme se depreende de livros/passagens como Rute, Ester, Provérbios 31 e Juízes 4 e 5.
No entanto, pode ter havido um considerável retrocesso no período intertestamentário. Para Bem Siraque, por exemplo, as mulheres não são confiáveis, não se deve dar a elas escrituras de propriedades, elas são responsáveis pela entrada do pecado no mundo e ter filhas é uma fonte potencial de desastres e vergonha. Ele disse: “Não te sentes com as mulheres, pois assim como a traça sai das roupas, assim a maldade da mulher vem da mulher; o despeito de um homem é preferível à bondade de uma mulher; as mulheres causam vergonha e confusão” (Eclo 42.12-14).
Na sequência, o período histórico no qual se inseriu o Novo Testamento é marcado predominantemente por uma compreensão da mulher que a colocava em uma posição inferior aos homens, em todos os níveis. A nossa questão, entretanto, é como Jesus (e a fé cristã) lidou com esse estado de coisas? É o que desejamos investigar. O tema é atualíssimo. Sigamos.
1. Uma aproximação inicial.
Para uma abordagem inicial, observemos algumas passagens, das quais é possível extrair alguns detalhes sobre como Jesus, em particular, e o Novo Testamento como todo, lida com as mulheres.
- Em Atos 9.36 ocorre a palavra “discípulo” no feminino, uma referência a Tabita (Dorcas);
- Conforme Mateus 12.48-50, Jesus está se comunicando necessariamente a um auditório de homens e mulheres: “(…) Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? E, estendendo a mão para os discípulos, disse: Eis minha mãe e meus irmãos (…)”;
- Lucas (8.1-3) narra que Jesus viaja com grupos de homens e mulheres, inclusive passando noites e noites em vilas desconhecidas. Mulheres sustentavam o ministério de Jesus com recursos que elas mesmas administravam;
- Notável também Lucas 10.38,39, passagem que retrata Maria assentada aos pés do Senhor (cf. At 22.3 – “sentar aos pés” com significado de ser discípulo). Marta não concorda com a atitude de Maria (v. 40) – lugar de mulher é na cozinha, e não com um bando de homens. No v. 42, Jesus defende o direito de Maria de continuar seus “estudos teológicos” na “classe” dos homens.
2. As mulheres no ensino de Jesus.
Porque Jesus tinha discípulos homens e mulheres, seu ensino foi dirigido propositalmente para cativar a todos, indistintamente, como se pode observar nos seguintes exemplos:
- No discurso na sinagoga de Nazaré, os exemplos de gentios alcançados pela graça de Deus contemplam dois gentios, a mulher de Sarepta e Naamã, o sírio (Lc 4.25-27);
- Em resposta sobre a razão pela qual seus discípulos não estavam jejuando, Jesus conta as parábolas gêmeas do remendo da roupa (tarefa executada tipicamente pelas mulheres) e da fabricação de vinho (trabalho usual dos homens) (Lc 5.36-39);
- O ensino de Jesus sobre pecadores arrependidos e rejeitados pelos que se acham justos inclui passagens como a da pecadora que ungiu seus pés (Lc 7.36-50) e a parábola do publicano humilhado pelo fariseu (Lc 18.9-14);
- Quando Jesus adverte sobre as divisões em um lar que se dariam por sua causa, inclui desentendimentos entre “pai contra filho, filho contra pai; mãe contra filha, filha contra mãe; sogra contra nora, e nora contra sogra” (Lc 12.51-53);
- As parábolas de Jesus sobre a certeza das respostas às orações perseverantes dos discípulos consistem da importunação do amigo (Lc 11.5-8) e da importunação da viúva (Lc 18.1-8);
- Parábolas que pretendem ensinar lições sobre o reino Deus também divisam uma audiência mista, já que lançam mão dos exemplos de “um homem [que] plantou na sua horta” e do “fermento que uma mulher tomou” (Lc 13.18-21);
- Semelhantemente, familiares do sexo masculino e feminino não podem ter mais da nossa lealdade do que Jesus (Lc 14.26,27);
- Respondendo a crítica dos fariseus no sentido de que Jesus “recebe pecadores e come com eles”, as duas primeiras parábolas de Lucas 15 são sobre “o homem” que busca a ovelha perdida e “a mulher” que encontra a dracma perdida (Lc 15.3-11);
- Vale igualmente a consulta detida de Lucas 20.27-36, a partir da qual concluiremos pela igualdade absoluta entre homens e mulheres na ressurreição;
- Lucas 21.1-4 reporta a cena que envolve a viúva pobre e os ofertantes ricos.
Ressalte-se que as passagens selecionadas fazem-nos concluir que Jesus, pelo modo como ensinou, pela escolha das figuras, metáforas e cenas do cotidiano, desejou alcançar a todos, a homens e a mulheres.
3. A mulher samaritana (Jo 4).
O encontro com a mulher samaritana é sintomático do modo como Jesus lidou com as mulheres. Ele conversa com uma mulher em público, em lugar desabitado; sendo judeu, conversa com uma samaritana; Ele inicia o contato “precisando da mulher” e topa beber do balde “contaminado” de uma samaritana (Jo 4.7-9). Remeto o leitor, pela importância da passagem ao nosso tema, ao estudo minucioso do encontro entre Jesus e a mulher samaritana.
Por ora, deter-nos-emos a uma observação mais detalhada do encontro de Jesus com a mulher sírio-fenícia. É o que faremos no próximo tópico.
4. A mulher sírio-fenícia (Mt 15.21-28).
Esse é um texto preocupante para muitos, talvez assustador às expectativas modernas e aparentemente discrepante em relação a outros textos que descrevem o contato de Jesus com as mulheres.
Aqui, uma mulher estrangeira sincera busca a ajuda de Jesus. A princípio, Ele a ignora; depois, demonstra aparentes preconceito e insensibilidade aos sofrimentos dela; e, só após humilhá-la publicamente, finalmente cura sua filha da possessão demoníaca. Precisamos entender o texto, portanto.
4.1 Elucidação da passagem.
É quase certo que Jesus falava três idiomas – o hebraico (uma língua mais restrita à sinagoga e ao estudo do AT), o aramaico (o idioma cotidiano na Palestina, sobretudo na Judeia) e o grego, muito mais popular na Galileia. Quando Jesus ia a outras províncias, como ocorre aqui, ele poderia se comunicar em aramaico ou em grego. Ademais, Marcos 3.7,8 registra que Jesus tornou-se conhecido na região de Tiro e Sidom. Aquela mulher já sabia sobre Jesus o suficiente ao menos para concluir que Ele atendia a todos os que O buscavam.
De todo modo, quando a cananeia se aproximou de Jesus, ela o fez rompendo pelo menos três barreiras: a de gênero, a étnica e a social. Era uma mulher gentia fazendo uma solicitação pública a um homem judeu.
Digno de nota também é o modo como ela solicitou a ajuda do Senhor (v. 22): primeiro, notemos a combinação dos títulos “Senhor” e “Filho de Davi” sugere influência judaica – ela, aparentemente, aceitava a esperança messiânica e reconhecia o messianado de Jesus. Segundo, ela iniciou o contato com o lamento tradicional dos mendigos: “tem misericórdia de mim”. Terceiro, observemos também o clamor de uma mãe em desespero: ela não pede que Jesus tenha misericórdia da sua filha, mas dela. Os filhos não costumam ter noção do sofrimento dos pais por causa deles.
Em resposta, Jesus submeteu a pobre mulher a três testes, mas não percamos de vista que os discípulos estão na mira do Seu ensino. É o que veremos nos próximos tópicos.
4.2 O primeiro teste: o silêncio.
A princípio, Jesus simplesmente reagiu com aparente indiferença – “Mas Jesus não lhe deu resposta” (v. 23a).
Para os discípulos (porque homens não falavam com mulheres em público; judeus não falavam com gentios; rabinos respeitáveis não falavam com mulheres), Jesus está agindo adequadamente. Eles apenas consentiram que Jesus não tem tempo para mulheres, e ainda mais para mulheres gentias, por isso eles pedem a Jesus que a mande embora: “Despede-a, pois vem clamando atrás de nós” (v. 23b).
Dito de outro modo, a aparente indiferença de Jesus não incomodou os discípulos. Ao contrário, o que uma vez lhes surpreendeu foi a ocasião em que Jesus conversou com uma mulher samaritana (Jo 4.27). Aqui, com a cananeia, está tudo certo!
Todavia, a mulher passa no teste. Ela permanece insistindo com Jesus. Por outro lado, os discípulos estão numa posição confortável – tudo sai como o esperado.
4.3 O segundo teste: a precedência étnica.
Em sentido muito real, o tempo da universalização do evangelho ainda não havia chegado. A “Grande Comissão” foi delegada apenas após a ressurreição de Cristo (Mt 28.18-20). Em outro sentido, Jesus continua se colocando aparentemente a favor de todos os preconceitos que permeavam a mente dos discípulos, como a dizer: “Sim, o melhor a fazer é mandá-la embora, porque o meu mandato inclui apenas as ovelhas perdidas de Israel” (v. 24).
Para a mulher, as palavras de Jesus soaram assim: “Você não é parte da minha prioridade; você é cananeia e eu sou, como você bem disse, o “Filho de Davi”. Mas ela não foi embora, não desistiu. Também não desmentiu as palavras de Jesus, não contra-argumentou nem questionou a justiça de tais palavras. Apenas se humilhou ainda mais, ajoelhando-se e dizendo “Senhor, ajuda-me” (v. 25).
Ante esse pedido de uma mãe aflita, será que Jesus a atenderia? Ainda não.
4.4 O terceiro teste: o preconceito racial.
Por um lado, Jesus levou as convicções teológicas dos discípulos às últimas consequências. Jesus verbalizou tudo aquilo que eles acreditavam e do que mais se gabavam: “Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos” (v. 26). Os discípulos aplaudem, intimamente, as palavras de Jesus lançadas no rosto de uma mãe ajoelhada e de alma alquebrada pela insanidade da filha.
Por outro lado, para a mulher cananeia, o teste é agudo, porque na cultura da época os cães só eram um pouco menos desprezíveis do que os porcos. Aqui chegamos ao teste mais difícil. É o Monte Moriá da cananeia! Como ela reagirá? Ela retorquirá com outro ultraje ou sua fé a fará compreender o único quase imperceptível indício de graça naquela resposta tão aparentemente dura? Sim, porque há um único toque de delicadeza na história. Jesus usa a palavra “kynarion”, o diminutivo de “kyon”, “cachorrinho”.
A resposta da cananeia está no v. 27: “Sim, Senhor, porém os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos”.
Pronto. Isso é suficiente. Aprovada.
A mulher relevou o insulto. Percebeu a grande e a suficiência da graça manifesta ainda que em luz muito tênue, graça que ela sabia não merecer. Usou inclusive o aparente insulto para renovar o pedido: “Eu sei que somos cachorrinhos. Nada merecemos. Mas os cachorrinhos se beneficiam do pão da mesa dos donos. Sou cananeia, mas Tu és o meu Senhor e eu confio que Tu tens misericórdia de todos e para todos. Acaso terias uma migalha caindo da mesa para a minha filha?”
Jesus reconhece Sua grande fé. Cura sua filha.
Lições do texto.
- Jesus demonstrou aos discípulos e nos ensina hoje como uma teologia equivocada, não importa quão enraizada esteja, pode tornar-se cruel e brutal. É como se Jesus tivesse lhes dito: “Vejam, na prática, o que acontece quando eu levo as convicções de vocês às últimas consequências!” Lutar contra convicções enraizadas não é fácil. Esse episódio não resolveu todas as questões na mente dos discípulos. Eles ainda seriam levados a toda verdade.
- O episódio ilustra bem qual o exato conteúdo da fé salvífica, e como a fé e a graça se completam. A fé que salva é uma completa descrença em si para satisfazer-se plenamente na dádiva imerecida. É por isso que bem-aventurados são os “mendigos de espíritos”, dos quais é o reino dos céus. Ademais, a graça é incompatível com qualquer forma de justiça própria – “Se é pela graça, já não é mais pelas obras; se fosse, a graça não seria graça” (Rm 11.6). Mas a graça é totalmente compatível com a fé – “Vocês são salvos pela graça, por meio da fé…” (Ef 2.8). A graça concede a dádiva imerecida, a fé a recebe.
- O texto é altamente encorajador no sentido de nos estimular às orações pelos filhos em tempos tão difíceis, de tanta insanidade, rebeldia e esfacelamento da instituição familiar.
- Por fim, a passagem em nada contraria a atitude positiva e inclusiva de Jesus para com as mulheres em geral. Ela apenas reforça que o Senhor, contrariando todas barreiras de sexo/gênero, étnicas e sociais, lidou graciosamente com mulheres, com mulheres gentias, com mulheres gentias publicamente.
A Ele a glória!

