Jesus Cristo, Seu único Filho, nosso Senhor

Lição 6/13

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Introdução 

O segundo artigo do Credo se dedica ao Deus Salvador. Por certo, duas realidades sobre o homem estão pressupostas, sem as quais não teríamos a razão subjacente desta cláusula em apreço, quais sejam: primeiro, que o homem foi criado por Deus, embora esse fato não tenha sido mencionado especificamente no artigo anterior. O motivo de tal omissão está no fato de que Deus tem a primazia na confissão cristã basilar, e não a humanidade.

Segundo, que o homem, tendo sido criado perfeito em seu estado original (Gn 1.31; Ec 7.29), desobedeceu ao mandado do Criador (Gn 2.16,17; 3.6) e decaiu à condição de completa ruína e afastamento de Deus, tendo o seu pecado e sua consequência, a corrupção da natureza e a morte, passados a todos os homens (Rm 5.12). Eis a razão pela qual as Escrituras descrevem o homem em seu estado de corrupção e condenação (Ef 2.1-3; Jo 8.34). 

A condição pecaminosa da humanidade costuma ser expressa nas Escrituras, sobretudo, por meio de três palavras: transgressão, iniquidade e pecado (Sl 51.1,2). “Transgressão” (heb. “pesha”; gr. “paraptoma”) denota o estado de rebelião e de insubordinação em que o homem se encontra em relação a Deus. A palavra é usada em 1Reis 12.19, quando se diz que Israel se rebelou contra a autoridade da dinastia de Davi. “Iniquidade” (heb. “awon”; gr. “adikia”) traduz a ideia de perversidade e corrupção interiores. “Pecado” (heb. “hatta”; gr. “hamartia”), por sua vez, significa errar o alvo, perder o caminho, um lapso que encerra o melhor do homem na mais completa incapacidade de agradar o Criador (vide o uso da palavra em Juízes 20.16). 

Reunidas, estas palavras comunicam que tudo o que o homem faz e é, e isto no que pode haver de melhor nele e em seus atos, torna-o objeto da ira e do desagrado de Deus. O pecado corrompeu todas as faculdades (Gn 6.5; 8.21) de todos os homens (Rm 3.9-18,23), tornando cada membro da espécie humana incapaz de fazer (Jr 13.23; Jo 15.4,5), de querer (Rm 8.6-8; Jo 3.3; 5.40; 6.44,65) e mesmo de entender algum bem espiritualmente útil (1Co 1.18-21; 2.6-8,14; 1Jo 4.5,6). 

Pois bem, de maneira breve, eis a condição de todos os seres humanos, que os faz absolutamente necessitados do Deus Redentor (Mt 1.21).

Jesus Cristo, o Unigênito do Pai 

Já tecemos alguns comentários sobre a relação paterno-filial entre Deus o Pai e Deus o Filho. O Credo fala de Jesus como o único Filho de Deus, o único gerado do Pai, querendo isso significar não que Ele foi criado em algum ponto da história, mas que Ele é da mesma substância do Pai. O Unigênito não é uma criatura, não foi criado, ainda que para ser uma criatura especial. Ele, no dizer do Credo de Niceia, é “gerado, não feito”. À objeção ariana que Jesus Cristo teria sido criado, porque gerado, a Igreja reagiu afirmando a sua geração eterna, estabelecendo a compreensão no Credo Niceno segundo a qual Ele é Deus verdadeiro do Deus verdadeiro, uma das pessoas divinas da Trindade Santa, coigual, consubstancial e coeterno com o Pai. 

Neste passo, ressaltaremos o fato de que aquela relação é eterna. É dizer, Deus o Pai é o eternamente Pai de Jesus Cristo e Deus o Filho é o eternamente gerado do Pai. Não houve um momento em que o Pai não tenha estado com o Filho, enquanto tal. Afirmar o inverso seria dizer que o Pai nem sempre foi Pai, isto é, que em Deus o Pai a paternidade é meramente acidental. 

A afirmação quanto à filiação eterna do Senhor Jesus importa em duas verdades indissociáveis: primeiro, que há uma subordinação funcional (ou “econômica”) na denominada “Trindade Econômica”. Por “Trindade Econômica”, entende-se a maneira como o Pai, o Filho e o Espírito Se manifestam em Suas operações extratrinitárias, para com o mundo criado, nas obras da criação, da providência e da redenção (opera ad extra). Nesse sentido (econômico, funcional), o Filho está subordinado ao Pai (Jo 14.28), é enviado pelo Pai (Jo 7.29), obedece a vontade do Pai (Jo 4.34; 14.31), fala as palavras do Pai (Jo 14.24), recebe herança do Pai (Jo 16.15), ora ao Pai (Jo 14.16) e realiza todas as coisas para a glória do Pai (Jo 17.1; 12.28), com a autoridade que recebeu do Pai (Jo 17.2) e que, por fim, devolverá ao Pai (1Co 15.28). 

A segunda verdade decorrente da filiação eterna é a igualdade essencial que existe entre o Pai e o Filho na “Trindade Ontológica”, termo que designa o Ser essencial da Trindade, o que Deus é em essência e a maneira relacional intratrinitária. Nesse aspecto, o termo “Unigênito” (Jo 1.14,18; 3.16,18; 1Jo 4.9) sugere igualdade de essência entre o Pai e o Filho e a íntima relação entre Deus o Pai e Deus o Filho. Semelhantemente, a expressão “seu próprio Filho” (Rm 8.3,32) implica em uma filiação ímpar, peculiar, que ninguém mais possui, porque o Filho não deriva de um ato criador nem de uma adoção no tempo. Se o Filho tivesse sido “criado”, Ele possuiria necessariamente uma natureza diversa da do Pai. Daí afirmarem as Escrituras que Ele é o único gerado (o Unigênito, o Único Filho) do Pai, termo que remete à ideia de consubstancialidade, de identidade de essência e, portanto, aponta para a divindade do Senhor Jesus. 

Pelo exposto, conclui-se que a subordinação funcional (própria da “Trindade econômica”) não implica em subordinação de essência (ligada à “Trindade ontológica”), tanto que o próprio Senhor afirmou que “eu e o Pai somos um” (Jo 10.30) e que “quem vê a mim, vê o Pai” (Jo 14.9). Com efeito, Jesus Cristo só é o Verbo – a Pessoa da Divindade que comunica o Pai – por ser o Filho. Somente o “Unigênito”, Aquele único Ente que é da essência do Pai, “que está no seio do Pai”, poderia revelar o Pai (Jo 1.18). No dizer de F. F. Bruce, “somente alguém que conhece completamente o Pai pode torná-lo totalmente conhecido” (Mt 11.27; Lc 10.22).

Jesus Cristo

Jesus Cristo é o tema central das Escrituras (Jo 5.39; Lc 24.27,44). Todo o Antigo Testamento aponta para Cristo em perspectiva, em promessa (Rm 10.4); e todo o Novo Testamento remonta a Cristo, o cumprimento das promessas (2Co 1.20). Eis a razão pela qual o segundo artigo do Credo dos Apóstolos é o maior e o central, devido à indispensabilidade de Jesus Cristo para que haja comunhão real com Deus o Pai, o Criador, e com o Espírito Santificador (Jo 14.6; 1Tm 2.5). 

Dizendo de outro modo, é somente por meio da confiança pessoal em Jesus Cristo e sua missão redentora que o homem pecador é reconciliado com o Pai pelo poder santificador do Espírito (At 4.12). A importância dessa verdade não pode ser suficientemente explicada, tal é a sua essencialidade à fé cristã. Fato é que o elemento central da fé cristã assevera com a sua mais profunda e visceral convicção que somente em Jesus Cristo o Deus que é uma Trindade de pessoas santíssimas reconcilia pecadores consigo. À parte dessa certeza basilar declarada no Credo, nem começamos a pisar no solo amplíssimo do cristianismo bíblico. Mas quem é Jesus Cristo?  

As palavras “Jesus Cristo” reúnem um nome próprio (Jesus) e um título (Cristo). A nossa palavra portuguesa “Jesus” é uma transliteração da palavra latina, que se deriva da palavra grega “Iesous”, uma forma helenizada do nome hebraico “Ieshua” (“Yahweh salvará”), que, por sua vez, é uma abreviação do hebraico “Iehoshua” (“Yahweh é salvação”). Para facilitar: “Iehoshua” (“Yahweh é salvação”) – “Ieshua” (“Yahweh salvará”) – “Iesous” (palavra grega) – “Jesus” (palavra portuguesa, transliterada do latim). 

Tanto José (Mt 1.21) como Maria (Lc 1.31) receberam ordem específica quanto ao nome pessoal do Salvador, para ficar claro que Jesus é o agente do Deus Trindade que opera a salvação de pecadores. Ele é a “salvação de Yhaweh” e assim deverá ser chamado “porque ele salvará o seu povo dos pecados deles”.

Ao nome pessoal Jesus, acrescenta-se o título “Cristo”, a forma transliterada grega do hebraico transliterado “Messias”, palavras que significam “Ungido”. O título “Cristo” (“Ungido”) distingue Jesus como aquele que foi ungido (separado, habilitado) pelo Espírito Santo (Mt 3.16) para o exercício dos ofícios de Profeta (Dt 18.15; At 3.22; 7.37), Sacerdote (Sl 110.4; Hb 7.15-19,26-28) e Rei (Sl 2.6; Mt 21.5; Lc 1.33). 

Esses ofícios prefiguravam o Messias que haveria de vir, conforme profetizado no Antigo Testamento, e se cumpriram cabalmente nele. Como Profeta, Jesus fala em nome de Deus ao povo, sendo Ele o “Verbo” (Jo 1.1), em quem Deus se revela de maneira exaustiva e conclusiva (Jo 1.18; Cl 1.19; Hb 1.3). Como Sacerdote, Jesus representa o povo diante de Deus, por quem ofereceu a oferta de si mesmo e intercede (Hb 10.12,14; Jo 17.9; Rm 8.32-34). Como Rei, Jesus já inaugurou o Reino de Deus, que será consumado no fim dos séculos, pelo qual exerce governo soberano sobre todo o universo para o benefício da Igreja e para a glória do Deus Trindade (Jo 18.36).

A princípio, o nome pessoal “Jesus” estava relacionado com o título “Cristo” em termos de uma confissão basilar e inegociável da Igreja – “Jesus é o Cristo” (Mt 16.16; Jo 20.30,31; At 5.42; 1Jo 2.22), para, em seguida, tornarem-se, o nome e o título, um nome confessional, “um só e glorioso nome dado ao nosso Salvador”. 

Assim, quando confessamos que cremos em Jesus Cristo, afirmamos confiadamente que Ele é o Rei soberano que exerce domínio absoluto e benevolente sobre o seu povo, o Profeta que ensina o seu povo e o Sacerdote que garante, por meio do sacrifício de si e da sua intercessão, que seu povo viverá eternamente em comunhão com o Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo.

Nosso Senhor

O título “Senhor” (gr. “Kyrios”) é altamente significativo, visto ser ele utilizado em muitas ocorrências no Novo Testamento como uma tradução do nome pessoal de Deus tal qual revelado a Moisés, o tetragrama YHWH (Yahweh), nas quais é aplicado a Jesus Cristo. A título de exemplos, considere o leitor comparar agora mesmo Joel 2.31,32 com Atos 2.20,21 e  Romanos 10.13, e Isaías 8.13 com 1Pedro 3.15. 

Com efeito, o núcleo do Credo está na confissão “Jesus Cristo, nosso Senhor”. A confissão de Jesus como Senhor é o fruto perene da fé (Rm 10.9,10), visto que ninguém pode crer com o coração sem confessar com a boca. 

Essa confissão (“Jesus é o Senhor”), segundo o apóstolo Paulo, ninguém pode fazê-la, senão “no Espírito Santo” (1Co 12.3). É somente pelas operações do Espírito que uma pessoa pode genuinamente confessar a Cristo como Senhor, sem que tal confissão não seja mera palavra vazia ou pura leviandade (Mt 7.21-23; Lc 6.46), mas fruto de uma fé genuína, a ponto de ser mantida mesmo diante de atrozes perseguições (Mt 10.16-20,32,33; 1Pe 3.13-16). 

Por ora, somente os salvos são capazes de reconhecer e confessar que Jesus Cristo governa todas as coisas para o interesse do Seu povo. Mas haverá um dia, quando do Seu regresso em glória, que todo o joelho se dobrará perante Ele e toda língua confessará que Ele é “Senhor” (Fp 2.10,11). Todavia, devemos observar com Hendriksen que estas confissões terão naturezas distintas: “Os anjos e os seres humanos redimidos farão isso com intenso regozijo; os condenados farão isso com profunda tristeza e profundo remorso (não com genuíno arrependimento)… Mas tão intensa será sua glória [do Cristo] que todos se sentirão impelidos a render-lhe homenagem”.

Conclusão

O antigo Credo lida com questão crucial quando nos oferece um quadro em que podemos contemplar a divindade do Redentor e Sua relação com Deus o Pai antes mesmo de nos conduzir à apreciação da Sua obra de redenção. 

Quando o Credo atribui a obra da criação a Deus o Pai e a obra da redenção a Jesus Cristo, é forçoso concluir que está a ensinar a coigualdade eterna e essencial entre o Pai e o Filho, uma vez que ambas as obras, a criação e a redenção, são atividade que somente Deus poderia exercer. A obra da redenção não é menos carecedora da onipotência divina do que a obra da criação. Se Cristo pode nos salvar completamente, através da carreira que haveremos de estudar nas lições seguintes, isso se deve a quem Ele é, tão divino quanto o Pai. Se Ele não é quem afirmou ser, tampouco pode nos salvar.

Demais disso, negar a divindade de Jesus Cristo não é apenas negar a possibilidade da salvação e concluir que ainda estamos condenados e mortos em nossos delitos e pecados. Também, mas não só. Se Jesus Cristo é inferior a Deus, em qualquer medida, a Igreja de todos os séculos, desde os apóstolos, não passa de uma instituição mergulhada na mais abjeta e incurável idolatria pagã. Como, todavia, Jesus é o Cristo, e não apenas o Senhor soberano do universo, mas o “nosso Senhor”, porque depositamos nossa confiança pessoal nele, em sua pessoa divina, podemos descansar na eficácia da sua obra redentora e viver para o louvor da sua glória excelsa.

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