Introdução
Questão das mais pertinentes é saber se as igrejas cristãs deveriam ter articulado suas crenças em documentos formais – credos ou confissões -, ou se deveriam fazê-lo hoje. O ponto é relevante porque sempre houve (e ainda há) quem rejeitasse formulações credais, em geral argumentando que tais documentos emprestam à Igreja excessiva formalidade, além de “engessar” sua reflexão teológica. É de se inquirir, portanto, se tais alegações procedem, o que faremos tentando encontrar as razões pelas quais as igrejas de Jesus Cristo anteviram a necessidade, desde cedo, de articular e vocalizar sua fé por meio de documentos sucintos, objetivos e inteligentes.
A tradição hebraico-cristã
A tradição religiosa hebraico-cristã é certamente uma das razões da existência dos credos e confissões, por seu caráter marcadamente confessional. A fé dos hebreus e dos cristãos é uma fé professante, por assim dizer. Isso ocorre porque a revelação divina é proposicional. Deus revela-se proposicionalmente, isto é, comunicando máximas, assertivas, através de expressões verbais, que devem ser conhecidas, compreendidas, aceitas e obedecidas.
Como o meio revelacional divino é proposicional, os credos são, por outro lado, respostas de fé das igrejas, destinatárias por excelência da Revelação. É dizer, Deus revela-Se, pelo Seu Espírito, através das Escrituras, e as igrejas respondem com uma afirmação de fé, com uma confissão, com um “eu creio”.
Evidentemente, as primeiras palavras do Credo Apostólico, escrito originalmente em latim – Credo in Deum, creio em Deus -, significam para um professante inteligente muito mais do que mero assentimento intelectual a certos dogmas da religião cristã. “Creio em Deus” seria melhor traduzido, na verdade, por “confio em Deus” para denotar que tudo não pode se resumir a uma recitação mecânica, despida de conhecimento, reflexão e compromisso com a verdade professada. Nesse sentido, observemos os dizeres precisos de Franklin Ferreira:
Portanto, o Credo exige que eu, pessoalmente, confie de fato em Deus, que vem a nós como Pai, Filho e Espírito. O Credo pressupõe uma relação de confiança, de entrega àquele que é matéria de fé do próprio Credo. (…) quando eu coloco minha confiança naquilo que está sendo recitado e confessado no Credo, estou me comprometendo com aquelas doutrinas e ensinos bíblicos que não são negociáveis e são dignos de nossa obediência.
O certo é que esse compromisso pessoal à verdade revelada e sintetizada em formulações concisas já pode ser claramente visto nas páginas do Antigo Testamento, onde encontramos diversas confissões de fé do povo hebreu, nas quais se professa que há um só Deus, que Ele é singular, além da confissão quanto aos Seus poderosos feitos (Ex 15.1-18; Dt 6.20-24; 26.5-9; Js 24.2-13) e dos Seus atributos (Sl 136; Sl 40.9-10; 96.1-10; 147.1-7).
Semelhantemente, há não poucos protótipos credais no Novo Testamento. Alguns deles põem ênfase em Jesus Cristo (Mt 16.16; 1Co 15.3,4; Fp 2.5-11; 1Tm 3.16; 2Tm 2.8; 1Pe 3.18-22; 1Jo 4.2,15) – são unitários, no sentido de fazer menção a uma única pessoa da Trindade. Outros se referem ao Pai e ao Filho (1Co 8.6; Gl 1.1-5; 1Tm 2.5,6; 6.13-16; 2Tm 4.1) – são binitários. Há outros ainda que enfatizam as Pessoas da Trindade (Mt 28.19; Rm 9.1-4; 2Co 1.21,22; 13.13; 1Pe 1.2; Jd 20,21) – são trinitários.
No Novo Testamento, a palavra “homologia” (confissão) ocorre seis vezes (2Co 9.13; 1Tm 6.12,13; Hb 3.1; 4.14; 10.23) e os verbos correlatos outras tantas, com o mesmo sentido. Algumas vezes essa confissão dá-se de forma pública (Tt 1.16; Mt 10.32,33; Rm 10.9,10) e, noutras, de maneira comunitária (2Co 9.13), sem olvidar para o fato de que há um preço a ser suportado pela confissão proferida (Jo 9.22; 12.42).
Em síntese, as Escrituras do Antigo e do Novo Testamento exigem do povo de Deus que expresse sua fé de modo claro e inequívoco por meio de formulações credais.
Outras razões para a existência dos Credos
Além da razão já apontada a fundamentar a existência dos nossos Credos e Confissões, as seguintes devem ser seriamente consideradas.
Os Credos distinguem a ortodoxia do erro religioso
Os cristãos primitivos se preocuparam com a manutenção da tradição cristã conforme haviam recebido dos apóstolos. Tomaram emprestado um termo clássico, ortodoxia, para significar a postura bíblica e doutrinária harmônica com o Novo Testamento e o ensino apostólico, e decidiram preservá-la através de documentos credais.
Martyn Lloyd-Jones, em palavras claras, afirmou que Deus conduziu a Igreja a concluir que “precisamos saber perfeitamente tanto o que devemos crer quanto o que não devemos crer”, porque “não é bastante que simplesmente apresentemos ao povo uma Bíblia aberta”, visto que “homens e mulheres perfeitamente sinceros, autênticos e capazes podem ler este livro e ainda dizer coisas que são completamente equivocadas”. Portanto, “é preciso que definamos nossas doutrinas – e as definições doutrinárias são o que chamamos credos”.
Em outras palavras, o texto bíblico pode ser (e tem sido ao longo da história) distorcido por meio de interpretações que desvinculam certas passagens do seu contexto. Isso se dá exatamente porque diversos intérpretes lhe atribuem sentidos e significados contrários à própria mensagem essencial das Escrituras. Por isso a Igreja não abriu mão de oferecer guias seguros por meio dos quais as verdades fundamentais da fé cristã fossem preservadas.
Os Credos são importante auxílio na instrução cristã
Outra razão indiscutível para que adotemos os credos é que os cristãos precisam estar “sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança” que possuem (1Pe 3.15). Todo cristão precisa saber defender a sua fé (Fp 1.16). Isso, segundo Pedro, é estar pronto para oferecer as “razões da esperança”. O cristão foi regenerado para uma “viva esperança” (1Pe 1.3) e essa esperança não é destituída de razão, não é desarrazoada. Cumpre-lhe conhecê-la e estar pronto para apresentá-la.
Os credos, nesse ponto, podem ser de grande valia. Nos primeiros séculos, eles certamente foram importante instrumento na preparação catequética, pontua Kelly, perante a qual sua recitação era o lógico estágio de conclusão.
Os Credos são instrumentos importantes para distinguir os verdadeiros crentes
Os credos eram usados pelos cristãos dos primeiros séculos como um teste de ortodoxia e como um ato de adoração no culto público. Importava saber quem deveria ser admitido ao batismo e qual confissão deveria ser requerida daqueles que se achegavam à comunidade da fé, uma vez que a Escritura exige uma confissão oral (Lc 12.8; Rm 10.9).
Ainda nas palavras de Ulisses Horta Simões,
Como se poderia afiançar que o cultuante, no meio da comunidade de cristãos, poderia estar em condições de participar da Ceia sem profaná-la? Como poderia esse, para tomar parte do sacramento, resumir adequadamente o conteúdo da fé? Aí temos diversas perguntas que propiciaram as razões iniciais para o surgimento das formulações confessionais que antecederam Niceia.
Os Credos imprimem senso de pertencimento à comunidade da fé
Esse ponto é lindamente acentuado por Alister MacGrath, para quem os credos são importantes tanto porque oferecem um breve resumo da fé cristã, permitindo o reconhecimento de versões incompletas do cristianismo, como porque ressaltam que crer é pertencer à comunidade da fé, ao corpo de Jesus Cristo, à Igreja. MacGrath afirma que
ao estudá-lo, você está se lembrando dos muitos homens e mulheres que o usaram antes de você. Ele lhe dá um senso de história e perspectiva. Enfatiza que você não é a única pessoa a depositar a confiança em Jesus Cristo. Imagine quantos mais ao longo dos séculos recitaram essas palavras quando foram batizados. Imagine quantos outros encontraram no Credo Apostólico uma confissão de uma fé pessoal. Você faz parte dessa fé e pode compartilhar as mesmas palavras que eles usaram para exprimi-la.
Conclusão
Os Credos e Confissões da Igreja Cristã, construídos ao longo dos séculos, não são um acréscimo às Escrituras; são, pois, um imperioso e necessário esforço, exigido por elas mesmas, por meio dos quais o cristianismo bíblico tem sido afirmado de forma fiel, coerente com sua mensagem central, em resposta à revelação.
A afirmação da fé por meio de textos confessionais é uma prática considerada importantíssima para a fé reformada. Essa tradição do protestantismo ofereceu à Igreja Cristã relevantes confissões de fé, a exemplo da Belga, da Confissão de Westminster e das que lhe seguiram (a exemplo de Savoy) e dos Cânones de Dort.
No Brasil não foi diferente. Os primeiros protestantes que aqui aportaram escreveram a Confissão de Fé de Guanabara. O doutor Robert Reid Kalley, médico missionário e pioneiro na evangelização pátria, também compreendia a importância das formulações de fé nos termos antes apresentados e de fato as escreveu em ocasiões oportunas, na Ilha da Madeira e no Brasil, deixando-nos, por fim, os 28 Artigos da Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo, documento em vias de completar 150 anos.

