Divagações sobre a “Declaração de Fé Congregacional da UIECB” (Minuta do DET): Art. 23, Parte 1
Artigo 23 – Cremos que a única Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo231 se manifesta na pluralidade das igrejas locais232, consistentes de uma comunhão pactual do povo escolhido de Deus operada pelo Espírito Santo233 e fundamentada na doutrina dos apóstolos23⁴, embora nelas eventualmente se imiscuam os réprobos e hipócritas23⁵, e que se distinguem pelas marcas da pura ministração da Palavra da Deus, da correta administração das ordenanças e do exercício fiel da disciplina236, cujos deveres supremos incluem os mandamentos do cuidado mútuo237, a prática dos dons espirituais238, o uso diligente dos meios de graça239, o culto público centrado nas Escrituras e por elas regulado2⁴0 e a missão ao mundo de pregar o evangelho, batizar os convertidos e discipulá-los2⁴1.
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231 1Coríntios 12.12-27; Efésios 1.22,23; 5.24-30. 232 1Coríntios 1.2; 11.18; 1Tessalonicenses 1.1; Apocalipse 2,3. 233 1Coríntios 3.16; Efésios 2.22; 4.3,4; Filipenses 2.1. 234 1Coríntios 3.10; Efésios 2.19-22; 2Timóteo 1.13. 235 1Timóteo 1.19,20; 2Timóteo 2.16-21; 2Pedro 2.1; 1João 2.19; Judas 18,19. 236 Mateus 18.15-18; 1Coríntios 5.12,13; 11.17-34; 14.37; 2Tessalonicenses 5.14,15. 237 João 13.34,35; Romanos 12.10; 13.8; 14.19; 15.14; 1Tessalonicenses 3.12; 4.9; 5.11,14; 2Tessalonicenses 1.3; Hebreus 10.24; Tiago 5.16; 1Pedro 1.22; 1João 3.11,23; 4.7,11; 2João 5. 238 Romanos 12.6-8; Efésios 4.11-16; 1Pedro 4.10. 239 Mateus 6.9-13; João 17.17; Atos 2.41,42,46; 19.3-5; 1Co 11.23-25; Efésios 6.18; 1Tessalonicenses 5.17; 2Tm 3.16,17; Hb 10.19-22; Tg 1.5-8; 5.15. 240 Lucas 4.16; Colossenses 4.16; 1Tessalonicenses 5.27; 1Timóteo 4.13; Apocalipse 1.3. 241 Mateus 28.18-20; Marcos 16.15,16; Lucas 24.46-49; João 20.21-23; Atos 1.8.
Departamento de Educação Teológica (DET) da UIECB que laboraram na formulação da minuta, os artigos sintetizam a tradição das igrejas kalleyanas e suprem uma lacuna normativa sobre o tema.
O artigo em epígrafe (“Das verdadeiras Igrejas de Jesus Cristo”) menciona o atributo da unidade da Igreja de Jesus Cristo, pressupondo seus aspectos universal e invisível, e enfatiza sua manifestação na pluridade das igrejas locais. Conceitua a igreja local como uma “comunhão pactual do povo escolhido de Deus”, discorre sobre as suas marcas distintivas e esclarece seus deveres.
1. O artigo em comento principia atestando que há uma “única Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef 1.22,23; 5.24-30; 1Co 12.12-31). Essa Igreja una é, a princípio, invisível, formada pelo conjunto dos eleitos de Deus, e essa unidade é espiritual e se refere à unidade orgânica entre os crentes no corpo místico de Cristo, do qual Ele é a cabeça. Isso quer significar que a Igreja como organismo designa o vínculo espiritual entre os crentes, ligados mística e vitalmente a Cristo, a cabeça do corpo. Essa Igreja una, acresça-se, é também dotada de santidade, catolicidade, apostolicidade e infalibilidade, conceitos sobre os quais faremos registros sucintos na sequência.
2. O atributo da “santidade” da Igreja deve ser observado em sentidos absoluto e relativo. Por um ângulo, a Igreja é absolutamente santa, quando percebida do ponto de vista da justificação, sendo ela considerada por Deus como “justa” pela imputação da santidade humana de Jesus Cristo por meio da fé somente. Por outro, a Igreja é relativa e subjetivamente santa, face à mudança do princípio interior da vida dos crentes na regeneração e do processo de santificação que se segue. Por essa razão, em sentido ético, ela difere do mundo que a cerca na medida em que cresce em semelhança com o seu Senhor e em obediência a Deus. “A igreja é santa porque é uma comunhão de santos”. A luta da Igreja pela santidade prática é sempre um esforço para ser aquilo que Deus já a considera (1Co 1.2). Sobre a santidade dos santos, voltaremos ainda a falar.
3. A Igreja também é dotada de “catolicidade”, termo que em geral remete à ideia de universalidade do cristianismo e ao seu caráter de religião internacional. Por “apostolicidade”, entende-se a concordância do seu ensino com a doutrina dos apóstolos como elemento distintivo da verdadeira Igreja. Sua “infalibilidade”, por fim, remonta à promessa de nosso Senhor no sentido de que as portas do inferno não prevalecerão contra a sua Igreja. Bavinck explica a infalibilidade ou indefectibilidade do seguinte modo: “é, de fato, uma garantia de que sempre haverá um ajuntamento de crentes sobre a terra (…), mas não implica, de forma nenhuma, que uma igreja específica, em um país específico, sempre continuará a existir e será conhecida por todos por causa de seu testemunho e de sua glória”.
4. A unidade da Igreja até aqui referera, a qual, a priori, é interior, se expande e ganha expressão visível na “comunhão dos santos”. É nesse sentido que a Declaração afirma que “a única Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo se manifesta na pluralidade das igrejas locais”, sendo que cada uma destas “é um microcosmo, uma especializada localização no corpo universal da Igreja”, conforme percepção de Porto Filho. Para esse ministro congregacional, as igrejas locais “não são unidades que, somadas, formam a Unidade Maior, mas pontos em que a Igreja se manifesta em Sua plenitude de significado, natureza e missão (1Co 1.2; 1Ts 1.1)”. Nas palavras de Herman Bavinck, “cada igreja local é o povo de Deus, o corpo de Cristo, edificada sobre o fundamento de Cristo (1Co 3.11,16; 12.27), porque nessa localidade ela é a mesma coisa que a Igreja é em sua inteireza, e Cristo é, para essa igreja local, aquilo que é para a Igreja universal”.
5. Esse aspecto exterior da Igreja guarda relação com o conceito de Igreja visível, denotando o fato de que ela se expressa em sua organização externa, seu governo, suas ordenanças e por meio do ministério da Palavra, como também retrata a Igreja como instituição. Enquanto a Igreja como organismo designa o vínculo espiritual entre os crentes, ligados mística e vitalmente a Cristo, a cabeça do corpo, conforme antes anotado, a Igreja como instituição se expressa através dos ofícios, do governo, da disciplina e dos meios de graça (ordenanças e ministério da Palavra). A relação entre esses modos de ser Igreja é explicada por Berkhof em termos de “meio” e “fim”, in verbis: “A Igreja como instituição ou organização (mater fidelium) é um meio para um fim, e este fim se acha na Igreja como organismo, a comunidade dos crentes (coetus fidelium)”. Ademais, essa distinção avulta em importância quando nos lembra que nem toda reunião de cristãos (conquanto haja um vínculo orgânico) é Igreja, no sentido de estar cumprindo sua missão como tal. Nesse sentido, Kevin DeYoung e Greg Gilbert ensinam que “quando um grupo de cristãos decide se tornar uma igreja, eles se comprometem juntos a assumir certas responsabilidades. Assumem, por exemplo, a responsabilidade de garantir que a Palavra está sendo pregada regularmente entre eles, de garantir que as ordenanças – batismo e Ceia do Senhor – estão sendo praticadas com regularidade, de garantir que a disciplina está sendo praticada entre eles, até ao ponto de entregar um de seus membros a Satanás, por excluí-lo da comunhão da igreja (1Co 5.5)”.
6. Em consonância com as noções apresentadas, a Declaração define as igrejas locais como “uma comunhão pactual do povo escolhido de Deus”. Com efeito, o congregacionalismo é uma eclesiologia de regenerados, razão pela qual o artigo pressupõe que as igrejas locais são formadas por eleitos professantes da fé. Nesse contexto, os princípios 1 e 3 da eclesiologia congregacional, tais como ensinados pelo Dr. Dale, merecem especial consideração, os quais estabelecem, respectivamente: “É vontade de Cristo que todos os que nele creem se organizem em Igrejas” e “Todos os membros da Igreja devem ser cristãos, isto é, pessoas convertidas, regeneradas”. Conjugando-se esses princípios, conclui-se que a organização e existência das igrejas apostólicas surgiram em decorrência da vontade de Cristo, o qual também estabeleceu que as igrejas cristãs se componham somente por aqueles que professam fé nEle, sendo dever de todos os crentes genuínos ser parte de uma igreja cristã. É preciso, portanto, em um primeiro momento, fixar o marco irremovível de que a organização da igreja institucionalizada, nos moldes do Novo Testamento, decorre indubitavelmente da vontade de Jesus Cristo, o qual requer que todos aqueles que nEle creem sejam parte dela. Essa noção pode ser suficientemente demonstrada quando consideramos a ordem de Cristo quanto à forma de disciplina do ofensor (Mt 18.15-20), a atuação sancionadora do Espírito Santo na organização eclesiástica (At 20.28), o ministério ordenado (Ef 4.11-14) e a Ceia do Senhor (1Co 11.23-26). É o que veremos na sequência.
7. Observemos a ordem de Cristo quanto à forma de disciplina do ofensor – o cristão faltoso para com o seu irmão (Mt 18.15-20). O Senhor Jesus previu que nas igrejas haveria inúmeras situações em que um irmão viria a ofender o outro, razão pela qual deu instruções específicas sobre como o ofendido deveria proceder. Tudo poderia ser resolvido em uma simples abordagem pessoal, que, em caso de resultar infrutífera, o ofendido ainda poderia ser auxiliado por uma ou duas pessoas no tratamento do caso (vs. 15,16). Se, todavia, tais ações não lograssem alcançar o arrependimento do ofensor e a reconciliação pretendidos, a igreja deveria exortar o crente faltoso e, caso ele não atendesse nem a igreja, deveria ser considerado gentio e publicano (v. 17). Naturalmente, isso pressupõe uma igreja organizada, a quem o Cristo deu a atribuição de sanar a divergência entre seus membros e de exercer a disciplina, inclusive até ao ponto da expulsão do seu meio daqueles que perseverarem no erro. Isso quer significar que tais atribuições só podem ser exercidas quando se sabe com precisão quais são os membros da comunidade da fé e quais não são. Por inferência lógica, todo o processo de saber quem é membro da comunidade pressupõe a existência de assembleias que conhecem as regras e princípios que devem nortear a conduta dos seus membros. Pressupõe também uma autoridade que convoca as assembleias e preside-as, tanto quanto um procedimento de admissão, por mais informal que seja, visto que só será excluído quem um dia foi admitido.
8. Na sequência, nosso Senhor ensinou que as decisões de uma igreja organizada são sancionadas pela presença de Cristo (v. 20) e refletem decisões divinas precedentes (v.18). Essas palavras não podem nos levar a outra conclusão, senão que foi o próprio Cristo ordenou a organização dos cristãos em igrejas, por menores e mais informais que elas sejam, uma vez que as revestiu da autoridade da sua presença para tomarem decisões que já foram objeto de deliberações no céu. O ato de ligar e desligar implica exercício de autoridade que é próprio de governos legalmente constituídos, aviva Vanderli Lima Carreiro. E nosso Senhor declarou que os atos da igreja em ligar e desligar são repercussões de decisões celestiais. “Onde quer, pois, que se reúna em nome de Cristo uma Igreja, Ele está presente e, sendo assim, as decisões tanto são da Igreja como do próprio Cristo, pois são confirmadas pela Sua autoridade” (Vanderli).
9. Mas não só. Que a organização dos crentes em igrejas resulta da ordem de nosso Senhor Jesus Cristo, vê-se também no fato de que as igrejas organizadas também o foram para prestar culto a Deus (vs. 19, 20). Notemos que a mesma assembleia que disciplina o membro faltoso é a que presta culto a Deus. Portanto, tanto o culto como o exercício da disciplina pressupõem a existência de uma igreja organizada. Isto é, por menor que a igreja seja, composta de “duas ou três pessoas”, as decisões da igreja são reflexos de decisões celestiais e confirmadas pela presença de Cristo, tanto quanto suas orações são ouvidas e respondidas por Deus. “A Igreja é uma sociedade divina, porque Cristo está presente, quer na ocasião em que ela toma deliberações e decisões quanto à recepção de membros e quanto à disciplina, quer quando ora e suplica ao Senhor, apresentando-lhe suas necessidades espirituais e temporais” (Vanderli). “Mas”, poder-se-ia objetar, “a presença sancionadora de Cristo nas assembleias cristãs, confirmando o exercício da admissão e disciplina dos membros e o culto que era prestado a Deus não ocorria somente nos dias dos apóstolos?”. De fato, nada há no texto que corrobore com essa noção. As palavras de Cristo de que estaria com os crentes organizados como igreja são tão verdadeiras e válidas hoje quanto o foram na era apostólica.
10. Isso significa que algumas bênçãos do evangelho só podem ser fruídas por quem está envolvido em uma igreja organizada e, por outro lado, significa também que não ser parte de uma igreja organizada é um ato de desobediência à vontade do Cristo que determinou sua organização. Vamos por partes. Quais as bênçãos que só fruímos quando fazemo-nos parte de uma igreja organizada? Em primeiro lugar, quando reunidos como igreja, fruímos do poder e da sanção da presença de Cristo nas assembleias cristãs de um modo como não os fruímos em nossos momentos de devoção privada. É verdade que somos abençoados naqueles momentos em que nos trancamos em nosso quarto e falamos com o nosso Pai, “mas quando a igreja está reunida, goza de mais íntima comunhão com o seu cabeça e Salvador: suas preces tornam-se mais verdadeiramente as preces de Cristo e, com muito mais segurança, obterá ela a resposta”. Em segundo lugar, crescemos espiritualmente quando estamos envolvidos na comunhão da igreja e, sem tal envolvimento, não deveríamos aguardar qualquer progresso na fé. Nas palavras de Vanderli, “nenhuma transformação essencial ocorre na vida espiritual do salvo por Cristo fora da Igreja”. É o Espírito que suscita no coração dos salvos o desejo pela comunhão com Deus e com o povo de Deus, e é o mesmo Espírito que mantém a comunhão dos santos, satisfazendo os desejos que Ele mesmo infundiu nos salvos. Quando perdemos o zelo pela comunhão, isso é sinal de que corremos o risco de apostatar do próprio evangelho (Hb 10.24,25). Em terceiro lugar, é no convívio dos santos que desenvolvemos o amor mútuo (Jo 13.34) e usamos os meios de graça do Espírito, a exemplo da Ceia do Senhor. A Ceia do Senhor deve ser realizada regularmente em uma igreja organizada, até que Cristo volte.
11. Conforme adiantamos, a organização eclesiástica também é sancionada pela atuação do Espírito Santo (At 20.28). Paulo afirmou que foi o Espírito Santo quem constituiu os bispos que apascentam as igrejas, fato a determinar que as igrejas existem por sua expressa vontade. Não esquecer que o processo de eleição de líderes no Novo Testamento era por participação de toda a comunidade (cf. At 14.23), o que nos leva a concluir que Paulo afirmou que o condutor por excelência das assembleias cristãs, quando escolhem seus líderes, é o Espírito Santo. Ademais, 1Coríntios 3.16 traz afirmação categórica de que a igreja organizada em Corinto é casa de Deus e habitação do Espírito. Isso quer significar que a presença do Espírito pressupõe uma igreja organizada.
12. Demais disso, o ministério ordenado também pressupõe a organização dos crentes em igrejas. Os homens-dons de Efésios 4.11-14 foram dados para o aperfeiçoamento dos santos e para a edificação do corpo de Cristo. Os que criam em Cristo eram ensinados por Deus mesmo (Is 54.13; Jo 6.45), mas nem por isso desprezavam as instruções dos mestres ordenados na igreja (1Tm 5.17). O Novo Testamento possui inúmeras informações sobre a ordenação de líderes na Igreja Apostólica. O ato litúrgico de imposição de mãos ocorreu na ordenação dos diáconos em Atos 6.6, bem como na separação de Barnabé e Saulo para envio ao campo missionário (At 13.3). Timóteo, semelhantemente, foi consagrado por um grupo de anciãos, que Paulo denominou “presbitério” (1Tm 4.14). A fundação das igrejas por Paulo incluía a promoção de eleição de presbíteros (At 14.23). A importância que as igrejas primitivas davam aos ministros ordenados está registrada em todos os lugares do Novo Testamento. Havia uma série de marcas de caráter que deveriam ser verificadas nos líderes (1Tm 3.1-7). Seus direitos e suas responsabilidades também estão registradas (1Tm 5.17-22). Paulo concedeu honra e reconhecimento aos presbíteros de Éfeso quando se reuniu com eles (At 20.17-38), ou quando os mencionou ao escrever aos filipenses (Fp 1.1). Por fim, o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, instituiu a Ceia do Senhor, ordenança que deveria ser observada não apenas entre os apóstolos em Jerusalém, mas em todos os lugares e em todos os tempos, até que Ele volte (1Co 11.23-26). Para esse tipo de ajuntamento, um grupo cristão deve existir com alguma espécie de organização (1Co 11.18), por mais informal que seja. Assim, por essa ordenança, vê-se que nosso Senhor exige a organização de igrejas.
13. Tendo demonstrado que é da vontade de Cristo que todos os crentes genuínos se organizem em igrejas, é preciso avançar para destacar que é da vontade de nosso Senhor que somente os crentes genuínos, “pessoas convertidas, regeneradas”, sejam membros das igrejas. Não custa pontuar que não há cristãos em termos bíblicos fora da fé pessoal em Cristo. Sem fé, não há pessoa realmente salva, regenerada. “Julgamos, pois, que, para uma pessoa fazer parte acertadamente da comunidade cristã, deve exercer fé pessoal em tudo que Cristo revelou concernente ao ideal divino da retidão humana; em tudo que Cristo revelou concernente ao ideal divino da bem-aventurança humana; em tudo que Ele revelou a respeito de Deus e a respeito do homem, em Sua encarnação, ensino, milagres, morte, ressurreição e ascensão ao céu” (Vanderli). Quais as verdades das Escrituras que demonstram, acima de qualquer dúvida, que somente pessoas regeneradas devem ser membros das igrejas? É o que veremos.
14. Primeiro, observemos que a Igreja em Jerusalém prova que as igrejas devem compostas somente por pessoas convertidas: a Igreja em Jerusalém consistia dos apóstolos e dos crentes em Cristo que, juntos, esperaram o cumprimento da promessa da vinda do Espírito. No dia de Pentecostes, três mil pessoas creram no Senhor Jesus e se arrependeram dos seus pecados, razão pela qual foram batizadas e agregadas à igreja original. Aqueles novos membros eram adicionados pelo Senhor na medida em que os salvava através da pregação do evangelho (At 2.47). Segundo, o conteúdo das Epístolas apostólicas prova que as igrejas devem compostas somente por pessoas convertidas: o conteúdo das Epístolas do Novo Testamento pressupõe que as assembleias que as recebiam eram compostas de cristãos. Essa conclusão é evidente pelo modo como os membros das igrejas eram chamados: santos, fieis, irmãos, santificados em Cristo, chamados para serem de Jesus Cristo, amados de Deus, templo de Deus, corpo de Cristo (Rm 1.6; 12.5; 1Co 1.2; 3.16; 12. 27; 2Co 1.2; Ef 1.2; Fp 1.1; Cl 1.2). As ações de graças do apóstolo Paulo testemunham sobre como as igrejas cresciam em graça e em conhecimento da vontade de Deus e pressupõem que faziam referência a assembleias cristãs, compostas por pessoas regeneradas, em franco processo de santificação. O ensino doutrinário e moral das Epístolas também pressupõe que as pessoas que as receberam eram cristãs. Terceiro, a natureza e a finalidade das igrejas provam que elas devem ser compostas somente por pessoas convertidas: igreja é uma associação cristã, fundada por Cristo e à qual a vontade do Redentor é suprema. Por sua natureza mesma, não faria sentido se as pessoas que a componham não fossem cristãs. Também os fins da igreja fazem supor que a fé é indispensável para ser parte dela, sob pena de ela não ser habilitada a cumprir sua missão no mundo e ao mundo. Sobre esses deveres, ainda teremos oportunidade de comentar.
15. Considerando o exposto, as seguintes advertências devem ficar registradas: é da vontade de Cristo que os crentes, e somente eles, sejam parte das igrejas cristãs; negar-se a congregar em uma genuína igreja cristã é desobediência explícita à vontade de Cristo; as únicas condições a serem exigidas para que uma pessoa seja admitida na igreja são o arrependimento dos pecados e a fé pessoal em Cristo, corroborados pela vida prática coerente com a fé professada – ninguém, portanto, pode exigir mais do que Cristo exige, sob pena de incorrer em desobediência ao Redentor; por outro lado, ninguém pode alterar essas condições, tampouco atenuá-las.
16. Em conclusão, salienta-se que a Eclesiologia Congregacional é uma Eclesiologia de crentes, querendo isso significar que a substância da Igreja consiste de pessoas regeneradas. Em outras palavras, os membros das igrejas verdadeiras de Jesus Cristo são os membros do seu corpo e somente os membros de Cristo compõem, ou devem compor, as igrejas. Essas pessoas foram chamadas eficazmente pelo Espírito Santo para serem santas e é exatamente a distinção entre elas e os membros da sociedade em geral que faz de uma igreja de Jesus Cristo uma comunidade diferente, separada, com valores e propósitos diferentes, com comportamento diferente, eticamente superior. Dizendo de forma diversa, é a substância da igreja, consistente de pessoas santificadas pelo Espírito, que reforça e indica com clareza os limites entre o reino de Deus e os reinos deste mundo (At 2.47; 5.12-14). É dizer, o reino de Jesus Cristo é também diferente dos reinos deste mundo por causa da vida dos súditos do reino. Assim, é imperioso conhecermos quais as características que as pessoas devem apresentar para que sejam aceitas na comunhão de uma igreja. Queremos saber, pois, quem são os verdadeiros membros de uma igreja de Jesus Cristo, que tipo de vida devem apresentar e o que devem abraçar como condição dessa participação na comunidade. Quais as exigências da membresia?
17. Requer-se dos membros de uma igreja de Jesus Cristo que conheçam suficientemente o evangelho, sua necessidade, seu poder, suas exigências e, especialmente, em que ele consiste (Rm 1.16-17; 1Co 15.3-4). Isso não é outra coisa senão exigir que os crentes saibam que servem ao Deus Trindade; que saibam o que Jesus Cristo fez ao morrer e ressuscitar; que saibam que o Espírito Santo, que é adorado e glorificado com o Pai e com Filho, é quem aplica as conquistas de Cristo e apeifeiçoa a santificação dos crentes. Os membros da igreja devem saber suficientemente sobre as ordenanças de Cristo às igrejas, a fim de que participem dos meios de graça com reverência e diligência. Exige-se também que os membros da igreja se sujeitem publicamente e de coração à autoridade de Jesus Cristo, como escravos perante seu Senhor (Mt 28.18-20; At 2.36). Que se reconheçam a si mesmos como servos de Deus e de Jesus Cristo (Rm 1.1; Fp 1.1; Tt 1.1; Tg 1.1; 2Pe 1.1; Jd 1), comprometidos com a sua Palavra e tudo fazendo para serem achados dignos do Senhor (Cl 1.10).
18. É também necessário que os membros da igreja conheçam o preço do discipulado, a necessidade de mortificação diária e a absoluta necessidade de tomar a própria cruz para seguirmos a Jesus Cristo (Lc 9.23; 14.26-27, 33). Especialmente em nossos tempos, quando um falso evangelho é popularizado largamente afirmando que a fé nos dá direito à saúde física, às bênçãos materiais, à prosperidade financeira, a uma vida sem preocupações, torna-se ainda mais necessário que os membros das nossas igrejas conheçam a alegria de ser “considerado dignos de sofrer afrontas por esse Nome” (At 5.41). Não poucos, porque não estão devidamente instruídos quanto a isso, são como aquele solo solo rochoso, que “não tem raiz em si mesmo” e, “em lhe chegando a angústia ou a perseguição por causa da palavra, logo se escandaliza” (Mt 13.21). Exige-se dos membros da igreja que manifestem visivelmente sinais de arrependimento e de fé autêntica. Arrependimento e fé são os elementos que compõem a conversão cristã e sem conversão cristã não há vida cristã. “Arrependei-vos e crede no evangelho” foi a ordem de Jesus Cristo e dos apóstolos (Mc 1.15; At 3.19). Jesus Cristo falou solenemente sobre a necessidade absoluta de arrependimento (Lc 13.3, 5). Com efeito, somos salvos pela fé somente, mas é fato bíblico incontestável que a fé que salva é penitente, é uma fé que se arrepende. Essa fé compungida permanece ao longo da caminhada cristã, por isso espera-se que os membros de uma verdadeira igreja de Jesus Cristo se arrependam diariamente dos pecados conscientes, confessem-nos e os abandonem, a fim de não se tornarem motivo de escândalo à igreja (1Co 10.32).
19. É igualmente necessário que os membros da igreja se submetam humildemente à disciplina eclesiástica e à supervisão espiritual dos líderes quando ensinam, exortam, corrigem, admoestam, repreendem, desde que, naturalmente, façam o seu trabalho conforme a Palavra de Deus (2Tm 3.16-17). Devemos fugir de líderes cruéis, mundanos, avarentos, egoístas e distorcedores do evangelho de Jesus Cristo. Mas, por outro lado, devemos acatar os verdadeiros pastores, pois foram postos como dons de Deus para nos edificar no evangelho, zelar por nossa alma, lutar ao nosso lado as batalhas pela santificação, orar conosco nos piores momentos e, porque se afadigam no estudo das Escrituras, instruir-nos na verdade (Ef 4.11-16; Fp 5.12-13; 1Tm 5.17; Tg 5.14; Hb 13.17). Por fim, mas não menos importante, requer-se da membresia de uma igreja de Jesus Cristo dedicação diligente à prática da verdadeira piedade. Isso inclui o culto público e as disciplinas privadas da oração e da leitura das Escrituras, a participação digna na Ceia do Senhor e a observância daqueles denominados “mandamentos da mutualidade”, quando aos crentes é ordenado que cuidem uns dos outros em amor sincero (Rm 12.9-10; Gl 6.1-2; Fp 5.14). É imperioso que os crentes demonstrem a sua fé pela prática das obras, tornando-se praticante da Palavra, e não somente ouvinte (Tg 1.22, 26-27; 2.18).
20. Ficam assim, pois, introduzidas nossas divagaçõies sobre a Eclesiologia da Declaração do DET.
Soli Deo Gloria
