Divagações sobre a “Declaração de Fé Congregacional da UIECB” – Parte 12

Minuta do DET: Art. 25, Parte 12

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Modo noturno

Das Ordenanças e do Culto Solene2⁵⁰

Artigo 25 – Cremos que as ordenanças do batismo com água, realizado em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e da Ceia do Senhor, as únicas instituídas por Jesus Cristo à Igreja na Nova Aliança2⁵1, são representações por meio das quais os benefícios do pacto da graça são visivelmente sinalizados à fé dos eleitos2⁵2, os quais, por sua vez, ao dessas participarem, professam sua fé e dedicam sua fidelidade a Deus2⁵3, e que devem ser administradas no contexto do culto público, isto é, no ajuntamento solene das igrejas para a adoração no primeiro dia da semana2⁵⁴, observando-se, conforme o ensino das Escrituras, as formas exteriores2⁵⁵, vedadas as inovações2⁵⁶, e aquela santa devoção2⁵⁷ que não se deve nem a homens nem a anjos2⁵⁸.

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250 A UIECB congrega fraternalmente igrejas e pastores que adotam concepções sacramentalistas e memorialistas com respeito ao batismo cristão e à Ceia do Senhor.

251 Mateus 26.26-28; 28.19; Marcos 14.22-24; 16.16; Lucas 22.19,20; 1Coríntios 11.23-25.

252 Romanos 6.3-11; 1Coríntios 10.16,17; 11.25,26; 12.13; Colossenses 2.11,12; Tito 3.5.

253 Atos 2.41,42,46; 8.36-38; 9.18; 10.47,48; 16.33; 19.5; 1Coríntios 11.26-29.

254 Atos 20.7; 1Corínti os 16.2; Apocalipse 1.10.

255 Malaquias 1.7-10,12,13; Mateus 28.19; Atos 2.42; 20.7,20,28; Efésios 5.19,20; Colossenses 3.16,17; 1Timóteo 2.8,9; 4.13; 2Timóteo 4.1,2.

256 Êxodo 20.4; 32; Levíti co 10.1,2; Deuteronômio 4.15,16; 5.8-10; Mateus 15.9.

257 Gênesis 24.52; 2Crônicas 7.3; 29.29; Mateus 2.2; Hebreus 12.28,29; Apocalipse 4.10.

258 Mateus 4.9,10; Atos 10.25, 26; 14.11-15; Apocalipse 22.8,9.

Encerraremos nossas digavagações sobre o art. 25 da Declaração tratando dos elementos formais do culto, conforme estabelecidos no Novo Testamento. O presente estudo pretende ser um início de orientações práticas a serem observadas por aqueles que acreditam que Deus revelou, de maneira clara, o modo como a Igreja deve servi-lo em adoração.

1. O povo do Senhor, em todos os tempos, foi redimido, liberto, salvo, com vistas à adoração. No Antigo Testamento, a libertação de Israel do Egito é dita inúmeras vezes como divisando a adoração corporativa da nação eleita. O anúncio invariável foi este: “depois de haverdes tirado o povo do Egito, servireis a Deus neste monte” (Ex 2.12; cf Ex 3.18; 5.1,3,8; 7.16; 8.1,20, 25-29; 9.1,13; 10.3,7-11, 24-27). Assim, sem sombra de dúvida, o propósito supremo da redenção de Israel da escravidão egípcia foi a adoração pública. No Novo Testamento, semelhantemente, o plano eterno da redenção da Igreja e a sua realização no tempo têm como finalidade “o louvor da glória da sua graça”, “a fim de sermos para o louvor da sua glória” e “em louvor da sua glória” (Ef1.6,12,14).

2. Não por acaso, a consumação da salvação é descrita em termos de um grande banquete escatológico (Is 25.6; Lc 13.28-29; 14.15-24; 22.29-30), uma grande festa de casamento (Ap 19.7-9), um grande encontro (1Ts 4.16-17), um ajuntamento parmenente entre Cristo e o seu povo (Mt 24.31; Jo14.3; 2Ts 2.1), de sorte que as reuniões públicas da Igreja são antecipações reais daquele evento que está no centro da esperança cristã. Isso quer significar que, quando as igrejas se reúnem para a adoração, somos verdadeiramente levados a participar de uma assembleia eterna “já” inaugurada, embora “ainda não” consumada. Nesse sentido, o escritor aos Hebreus, fazendo nítido contraste entre o culto cristão e a adoração do Monte Sinai, adverte: “Mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e a incontáveis hostes de anjos, e à assembleia universal…” (Hb 12.22). Observe-se que no culto público há participação real nas realidades eternas. Mas não só. Relembre-se que a Ceia do Senhor contém uma expectativa de acontecimentos que se esperam, pois por ela anunciamos “a morte do Senhor, até que ele venha” (1Co 11.26). Em síntese, o culto público contém a realidade embrionária do que florescerá na eternidade. 

3. Uma compreensão biblicamente fundamentada a respeito do culto público nos conduzirá à conclusão que nada pode sobrepujá-lo em importância. Essa noção tem sido, entretanto, severamente desafiada por variados movimentos. Há uma tendência ao desigrejamento embalado na crítica à excessiva institucionalização da Igreja. Há também a simples neglicência, não raro decorrente de uma teologia insuficiente do culto, quando a participação no ajuntamento público da igreja é preterida a qualquer outro comprimisso banal e adiável. Não raro, os crentes também acreditam que podem escolher entre prestar culto reunidos como igreja e participar de salas de escola dominical, grupos familiares, células, pequenos grupos, grupos de discipulado etc., porque, na melhor das hipóteses, julgam estarem todos, esses e aquele, no mesmo nível de importância, sendo apenas uma questão de preferência pessoal. Não discutimos a importância desses pequenos encontros, mas advertimos que eles não podem ser vistos como finais, tampouco únicos, porque não são. São, em verdade, meios preparatórios (alguns deles muito maravilhosos, registre-se) e estão a serviço da beleza suprema daquele ajuntamento solene onde a presença de Deus e do seu Cristo, por meio do Espírito, é experimentada de maneira única (Sl 22.3; Mt 18.20; 1Co 3.16; 14.24-25; Hb 10.19-22).

4. A Igreja revelou claramente sua fragilidade quanto à Teologia do Culto no período da pandemia da COVID-19. Impedidos pelos riscos do contágio e por decisões estatais proibitivas (muitas delas excessivamente desproporcionais) de prestarmos culto público a Deus no período, não lamentamos nosso exílio, não choramos “às margens dos rios da Babilônia”, “lembrando-nos de Sião” (Sl 137.1), nem pergutamos atônitos: “Como entoaremos o cântico do Senhor em terra estranha?” (Sl 137.4; cf. Lm 1.4; 2.6-7; Sl 42.4). Julgamos que tudo seria uma questão de adaptarmo-nos ao “novo normal” e, lançando mão das tecnologias (graças a Deus por elas!), “congregarmos remotamente”. Então surgiram as “lives”, os cultos transmitidos em tempo real, e achamos que tudo estava bem porque, afinal, estávamos agora mais perto do que nunca da igreja, a apenas um “click” do culto. Surgiram também as “Ceias on line” para que tudo ficasse finalmente resolvido. O resultado dessa teologia prática vivenciada no período foi o não retorno pós-pandemia de um contigente considerável de crentes, que continuam prestando “culto” a Deus do sofá de casa, assistindo “lives” que, pelo visto, vieram para ficar. 

5. Ante o exposto, para ficar bem claro, eis algumas proposições que podem ser convincentemente extraídas das Escrituras: a) pode-se extrair da “sombra” do Antigo Testamento, como da realidade do Novo Testamento, que não há nada mais importante à vida da Igreja do que o culto público, posto que para isso ela foi redimida; b) o culto público é a razão final de todas as demais funções da Igreja e nenhuma atividade, reunião ou encontro pode ser preferido a ele, tudo devendo estar a seu serviço e com vistas ao seu aperfeiçoamento; c) o culto público é maior e mais excelente que os “encontros de edificação” do modo como a glória de Deus é o objetivo maior e mais excelente que a felicidade humana; d) as grandes promessas de Deus quanto à fruição da sua presença abençoadora estão invariavelmente relacionadas ao culto público, sendo superiores até mesmo àquelas destinadas à devoção privada; e) os crentes devem, portanto, desejar o culto público (que é necessariamente presencial, é preciso dizer!) mais que todas as coisas (Sl 27.4; 84.1-2).

6. Entretanto, o culto não pode ser oferecido de qualquer forma. Há um culto falso, que Deus não aceita (Cl 2.23). O culto autêntico, espiritualmente aceitável (1Pe 2.5), porque mediado por Jesus Cristo (Jo 14.6), é reverente (Hb12.28), inteligível e edificante (1Co 14.26), como também é ordenado (1Co 14.40). Essa última passagem (1Co 14.40) demonstra manifestamente que o culto deve seguir uma ordem: “Tudo, porém, seja feito com decência e ordem”. A liberdade cristã não elimina a necessidade de “decência” (gr. “euschemon”), que aponta a uma uma “boa forma”, a um “modo apropriado”, “decoroso” e “respeitável”. O contexto indica que “decência” não é apenas moralidade interna, mas postura visível adequada e digna da gravidade requerida para o culto público (cf. 1Co 7.35; 1Ts 4.12). Em outras palavras, deve-se evitar no culto comportamento impróprio e desordem visível, capazes de gerar escândalo. É preciso também prestar culto a Deus com “ordem” (gr. “táxis”), arranjo, sequência, estrutura organizada, inteligível e previamente planejada. A expressão completa do apóstolo é “kata táxis” (“segundo a ordem”), não apenas “com ordem”, porque pressupõe um padrão estabelecido. Essas palavras juntas (“decência” e “ordem”) reúnem as noções de um culto visivelmente apropriado e organizado na forma.

7. Não apenas de qualquer forma, o culto tampouco pode ser oferecido a Deus por qualquer forma. Quanto a esse aspecto, podemos dizer que os elementos fundamentais do culto são a leitura da Palavra, a oração, a exposição bíblica, o canto e a administração das ordenanças. Analisemos por partes os elementos formais do culto, sem a pretensão de estabelecer uma ordem fixa, começando pela leitura bíblica. Na adoração corporativa, devemos ler a Palavra (Lc 4.16; Ap 1.3), sobretudo para expressarmos que estamos dispostos a ouvi-la como Palavra de Deus e com o propósito de obedecê-la.Paulo exortou no sentido de que suas cartas fossem lidas nas reuniões públicas das igrejas (Cl 4.16; 1Ts 5.27; Fm 2). Em 1Tm 4.13, o apóstolo instruiu seu cooperador Timóteo quanto a uma das suas funções nos cultos públicos da igreja – “persiste em ler” (edição ARC) -, sendo para muitos a primeira alusão histórica ao emprego das Escrituras na liturgia da igreja. A porção bíblica da leitura não deve ser grande demais, sendo suficiente um capítulo ou parte dele, nem aleatória, sem propósito definido, mas estar relacionada ao tema do sermão ou, o que nos parece melhor, seguir porções sequenciadas de modo a contemplar livros e cartas inteiros.

8. As orações são súplicas a Deus com toda a reverência, através das quais adoramos a Santa Trindade, confessando-lhe nossos pecados e rendendo-lhe ações de graças. Em Atos 2.42, Lucas menciona a prática perseverante da oração dos cristãos primitivos em suas reuniões públicas e o Novo Testamento está repleto de referências a orações desse tipo, tanto em Atos (13.1,2 etc.) como nas epístolas (Ef 2.15ss; Cl 1.9ss etc). O fato de que nosso Senhor ensinou seus discípulos a orar (Mt 6.9-15; Lc 11.2-4) já nos indica que orações não são palavras ditas sem quaisquer critérios. A melhor maneira de apresentarmos a Deus orações que o agradam é orar segundo a orientação da sua Pal.avra. Deus se agrada em ouvir palavras dirigidas a Ele nos termos da sua Palavra. O “Pai-nosso”, nesse sentido, é aquela oração abrangente que é tanto para ser dita como um modelo para as nossas orações expontâneas. É notável, por exemplo, que a oração de Atos 4.24-30 é moldada por citações das Escrituras (cf. Ex 20.11; Sl 146.6; 2.1, 2) e fatos do Evangelho (cf. Mt 27.1,2; Mc 15.1; Lc 23.1; Jo 18.28,29). Os nossos pedidos a Deus devem ser, sobretudo, aqueles que Ele mandou em sua Palavra que fossem feitos. Oremos, portanto, pela autoridades públicas (1Tm 2.1), pelos enfermos (Tg 5.14-16), pelo avanço da obra missionária (Mt 9.38; Cl 4.3-4; 2Ts 3.1-2), pelos pastores e missionários e para que cumpram sua missão (Rm 15.30-32; 2Co 1.10-11; Fp 1.19; 1Ts 5.25; Hb 13.18-19), pelo ministério da Palavra (Ef6.18-20; At 6.4) e pela santificação da Igreja (Jo 17.17,19; 1Ts 5.23; Fp 1.9-11; Cl 1.9-10; Ef 3.16-19).

9. A exposição bíblica deve ser o elemento central do culto. Por intermédio daqueles a quem Deus constituiu para apascentar o seu povo (At 20.7,20,28), nós ouvimos a exposição da Palavra. Os pastores não devem se sentir pressionados pelos modismos da época. Antes, que se mostrem firmes em ensinar tão somente o conselho de Deus e nada menos que todo o conselho de Deus (At 20.20; 2Tm 4.1-5). O povo cristão, por sua vez, deve ouvir a pregação da Palavra com toda a diligência e devoção, aplicando a si cada expressão como se “proferida por Deus, e não pelo homem (Is 2.3; At 10.33; Gl 4.14; 1Ts 2.13)”, e esforçando-se “não tanto para ouvir o som das palavras do pregador em seus ouvidos, mas, sim, para sentir a operação do Espírito agindo em seu coração” (Lewis Bayly). Portanto, quando estivermos ouvindo o sermão, devemos buscar a compreensão do texto e do tema que estão sendo explicados, atentar às divisões principais da passagem que está sendo exposta, destacar as doutrinas ensinadas por ela e compreender quais as suas exigências com vistas a uma mudança de comportamento. Em alguns momentos, fazer breves anotações poderá ser de grande valor. Também, e mais recomendável ainda, é a prática do líder da família de reunir após o cultotodos os membros que a compõem, no lar, ocasião propícia a que se verifique o que foi compreendido do sermão e para que a mensagem pregada seja confirmada na mente e no coração de toda a família.

10. O sermão só será últil à edificação da igreja e à glória de Deus se for bíblico, devendo ser lembrado que o povo de Deus se reuniu para ouvi-lo, e não os conselhos do pregador. Portanto, a primeira tarefa do pregador é escolher a porção das Escrituras que será exposta e preparar-se por meio de pesquisas lexicais, exegéticas, teológicas e devocionais, tudo em constante e intensa oração, para expô-la fielmente. O trabalho é hercúleo e extenuante. É altamente recomendável que o pastor decida fazer exposições bíblicas continuadas, pelas quais exponha parágrafo por parágrafo, na sequência, delivros e cartas inteiros. O sermão deve conter uma introdução, o desenvolvimento e a conclusão. A introdução é a elucidação, a contextualização bíblico-histórica e a declaração do ensino da passagem. É na introdução que o pregador diz o que Deus pretende ensinar ao seu povo por meio do texto. Esse ensino será desenvolvido à medida em que a passagem bíblica for apresentada por meio de pontos distinguíveis, observando-se a divisão natural do parágrafo. Esses pontos são, na prática, subtemas a seremexplicados com base em exegese sólida e na analogia das Escrituras, bem como ilustrados com exemplos preferencialmente retirados das próprias Escrituras. A conclusão deve conter um sumário da doutrina da passagem, seguida de advertências, exortações e encorajamentos práticos, inteligíveis, objetivos e executáveis.  

11. Sermão não é só ensino, não é apenas a exposição de temas e doutrinas, mas não pode prescindir de ensino, temas e doutrinas, sob pena de nada mais fazer além de dar conselhos morais não distintivamente cristãos e não necessariamente decorrentes do evangelho de Jesus Cristo. O povo deverá saber, após o sermão, que os conselhos práticos que ouviram são o conselho de Deus porque decorrentes do Texto Sagrado. Demais disso, o sermão bíblico é necessariamente cristocêntrico. O pastor deve se preocupar menos com o refinamento da linguagem e mais com a fidelidade ao texto e ao cerne da mensagem cristã, qual seja, “Jesus Cristo e este crucificado” (1Co 2.1-2; 4.1-2). Seu trabalho estará tanto mais bem executado quanto melhor for compreendido pelos infantes, razão pela qual deve gastar tempo suficiente com a escolha das palavras pelas quais apresentará, com clareza, as ideias das Escrituras que pretende ensinar e aplicar à vida do povo. O “bom pregador” não é o que arranca risadas do público, nem o que ouve os mais rasgados elogios após o culto, nem o carrancudo que prega uma mensagem maçante de uma hora e dez minutos. O “bom pregador” é o pregador útil à santificação da igreja e à glória de Deus. Ele fala de maneira simples e acessível, mas profunda e com convicção e intensidade e, após, o povo é despedido sabendo o que Deus quis lhe falar.  

12. O canto é também um elemento formal de culto a ser considerado. De Efésios 5.19,20 e Colossenses 3.16,17, somos informados que os cristãos primitivos utilizavam “salmos, hinos e cânticos espirituais”. Embora não haja concordância entre os estudiosos a respeito do exato significado dessas palavras, uma das possibilidades é que “salmos” refiram-se ao Saltério do Antigo Testamentário; “hinos”, às composições primitivas distintivamente cristãs e cristocêntricas, cujos inúmeros exemplos se acham no Novo Testamento (Ef 5.14; 1Tm 3.16; Fp 2.6-11; Cl 1.15-20; Hb 1.3); e,“cânticos espirituais”, aos louvores carismáticos, a exemplo da experiência dos cristãos de Corinto mencionada em 1Coríntios 14.15. O Novo Testamento não regulou diversos aspectos do culto, tais como o estilo e o uso de instrumentos musicais, devendo esses elementos ser considerados com prudência para que não se tornem motivo de conflitos na comunidade. 

13. O Novo Testamento, semelhantemente, não indica a forma que o canto cultual deve assumir: se, por exemplo, utilizavam-se cantores, grupos ou corais. Em 1Coríntios 14.26, embora Paulo esteja tecendo crítica à desorganização do culto em Corinto, ele menciona alguém que participa daadoração pública com “salmo”. Entretanto, por razões mais que justificáveis, o canto congregacional (que envolve a participação de toda a congregação) deve ter preferência na solene adoração. Isso não significa que participações solos especiais e corais sejam “abominações” ou “práticas absurdas”, mas, certamente, o efeito de uma intensa e frequente ocorrência de “especiais”desestimulará a participação corporativa da igreja na música e poderá atenuara linha de separação entre adoração e espetáculo. Assim, quanto mais distante o aspecto formal do culto estiver do entretenimento, tanto mais fortalecida será a verdade que a igreja se reúne para adorar, para exercer o papel ativo na adoração, e não para ser mera expectadora de um “culto-show”. 

14. Por isso, todo o planejamento musical para o culto deve ser pensado entendendo-se a participação dos músicos e cantores como estando a serviço da adoração que será prestada a Deus pela igreja, e não somente pelos integrantes do “conjunto musical”. Em consequência, os instrumentos musicais e vozes do conjunto devem ser apenas levemente amplificados, de modo que a voz que há de sobressair seja a da igreja. A ênfase deve ser dada à letra que está sendo cantada e não aos arranjos melódicos e ao ritmo. Os músicos devem compreender nitidamente que estão apenas a serviço da igreja e não apresentando números musicais para que ela, a igreja, aprecie passivamente. O repertório deve ser composto de músicas que exponham as doutrinas bíblicas de maneira inequívoca, sem ambiguidades. As músicas mais adequadas ao culto público são basicamente estas: a) aquelas que enfatizam as verdades objetivas do evangelho, e não as experiências subjetivas dos crentes; b) as que se concentram no Deus Trindade, suas perfeições, seu Ser e suas obras, e não no homem e nas suas necessidades temporais; c) as que se utilizam prioritariamente dos pronomes na primeira pessoa do plural, e não no singular, para que se evidencie o aspecto corporativo da adoração; e d) as que possuem uma progressão lógica compreensível de ideias, e não mera combinação desconexa de frases e versículos que nada comunica.

15. Não menos importantes, as ordenanças são as formas biblicamente autorizadas pelas quais as realidades do evanhelho podem ser “vistas”. Elas são o evangelho para os olhos. Percebe-se claramente como Deus deseja a participação ativa de toda a igreja no culto quando consideramos as ordenanças. Frise-se, elas são as formas únicas autorizadas e permitidas para “vermos” a Palavra de Deus no culto. Todavia, observe-seque nelas não há meros expectadores. No batismo, recebemos o selo visível da graça invisível e professamos publicamente a nossa fé e submissão a Cristo como Senhor. Na Ceia, somos nutridos espiritualmente enquanto professamos e anunciamos que Cristo morreu para recebermos o perdão de pecados (1Co 11.26). No Novo Testamento, a participação nas ordenanças não é opcional ao discipulado cristão (Mt 28.19; 1Co 11.23-25). O batismo seguia invariavelmente a fé (At 2.41; 8.12,36,37; 9.18; 22.16) e a Ceia deveria ser partilhada com a santidade que a ordenança exige (1Co 11.27-29), sob pena do julgamento divino (1Co 11.30-32).

16. Por último, a Declaração aviva que o culto é o “ajuntamentosolene das igrejas para a adoração no primeiro dia da semana”. Não obstante o mandamento quanto à guarda do sábado não tenha sido ratificado no Novo Testamento (Gl 4.8-11; Rm 14.5,6; Cl 2.16,17), desde o período apostólico a Igreja estabeleceu a observância do primeiro dia da semana para o seu dia principal de culto (1Co 16.1,2; At 20.7; Ap 1.10). Isso se deu naturalmente, em consequência da ressurreição de Cristo (Jo 20.1) e porque foi sempre no primeiro dia da semana que o Senhor ressurreto apareceu aos discípulos (Jo20.19,26; Lc 24.13), como também porque o Espírito Santo foi enviado no Pentecostes (At 2), que ocorreu em um domingo. A prática da observância do domingo foi seguida pela Igreja dos primeiros séculos da era cristã, conforme o testemunho unânime dos Pais. Segundo Clemente, “de acordo com o evangelho, um cristão observa ‘o dia do Senhor’, glorificando desta maneira a ressurreição de Cristo”. Irineu afirmou que “no dia do Senhor, todos nós, os cristãos, guardamos o dia de repouso, meditando na lei e regozijando-nos nas obras de Deus”. Justino, o mártir, escreveu: “Ora, o domingo é o dia em que todos nós temos nossa assembleia comum”. Eusébio, o historiador da Igreja, registrou que “o dia da ressurreição, ou seja, o dia do Senhor era observado em todo o mundo” (citações de Hans Ulrich Reifler, em A Ética dos Dez Mandamentos). Esses fatos ratificam que o primeiro dia da semana deve ser destacado pela Igreja para o seu dia principal de culto.

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