Confiando na Bondade de Deus em Meio às Crises

“Eu sei que o meu Redentor vive, e que no fim se levantará sobre a terra” (Jó 19.25)

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O problema do sofrimento tem sido enfrentado pela teologia e pela filosofia, desde a antiguidade, e resultado em conclusões de variados matizes.Mas, em termos práticos, ele guarda relação especial com a gratidão e a fé dos crentes na bondade do Deus totalmente poderoso. A ordem apostólica para que demos graças em tudo deve ter relação com a certeza da presença graciosa de Deus a despeito do tamanho do sofrimento que experimentamos. Agratidão, o louvor, a adoração e o compromisso devem permanecer intactos apesar das dificuldades, porque estamos firmemente apegados ao Deus verdadeiro, vivo e pessoal, poderoso e cheio de bondade.

Entretanto, é exatamente aqui que reside o problema. Como Deus é poderoso, tem poder para evitar todo o mal possível e, porque é bondoso, por que quereria qualquer forma de mal no seu mundo? Para alguns, a maneira pela qual podemos salvar a fé é negando o poder de Deus, porque assim se poderia concluir que Deus é bondoso (e, por isso, não quereria nenhuma forma de mal), mas não é o Todo-poderoso, como querem os cristãos, porque seassim fosse realmente evitaria o mal.

A dificuldade é, de fato, ainda mais desafiadora quando o que está em vista é o sofrimento de uma pessoa “justa”. Não bastasse a dificuldade do sofrimento em si e a lida com o problema a partir da crença em um Deus pessoal, como é possível explicar satisfatoriamente o sofrimento do justo? E mais. Como o sofrimento pode ser experimentado ao extremo por um justo e este ainda assim se manter apegado à bondade de Deus e cheio de gratidão?

O livro grandioso de Jó lida precisamente com esse tema palpitante.

A perseguição se abateu sobre Jó, um justo

Jó era uma espécie de xeique árabe (ele teria em nossos dias um palácio magnífico em Dubai). Era pai de sete filhos e três filhas (1.2). Possuía 7.000 ovelhas, 3.000 camelos, 1.000 bois e 500 jumentos, além de um séquito interminável de servidores, “de maneira que este homem era o maior de todos os do Oriente” (1.3).

Além de muito rico, Jó era um homem justo com os semelhantes e diligente em seus compromissos para com Deus. Os versículos 4 e 5 do capítulo 1 mostram a preocupação de Jó em conduzir bem filhos no caminho da piedade. Jó, como se pode perceber, estava muito longe de ser um pai irresponsavelmente permissivo e despreocupado com a vida espiritual dos filhos, marcas que infelizmente caracterizam os pais das gerações contemporâneas. 

Por três vezes, se diz que ele era íntegro (sincero, sem máscaras, sem dubiedade de caráter), reto (justo nos relacionamentos com o semelhante), temente a Deus (piedoso) e que evitava fazer o mal (1.1,8; 2.3). Em 1.8 e 2.3, Deus mesmo chama Jó de “meu servo”.

Até que, em um dia fatídico, esse mesmo Jó, um servo de Deusíntegrojustopiedoso e que se desviava do mal, começou a receber uma série de notícias trágicas, uma após outra. Seus 1.000 bois e seus 500 jumentos foram levados pelos sabeus, que também mataram os vaqueiros, à exceção deum, que levou a notícia (1.14,15). Jó ficou sem bois e jumentos, mas pode ter pensado: “ainda tenho 7.000 ovelhas e 3.000 camelos”. Mas…

Suas 7.000 ovelhas foram queimadas por um “fogo de Deus”, que também destruiu os cuidadores do rebanho ovino (1.16). Jó ficou também sem ovelhas, mas pode ter pensado: “ainda tenho 3.000 camelos”. Mas…

Seus 3.000 camelos foram roubados pelos caldeus, que também mataram os empregados que cuidavam deles (1.17). Jó ficou também sem camelos, mas pode ter pensado, como um homem crente que era: “vão-se os anéis e ficam os dedos; o mais importante é a família”. Mas…

Seus 7 filhos e suas 3 filhas morreram soterrados debaixo dos escombros de suas casas derrubadas por um “vento muito forte” (1.18,19).

O homem mais rico do Oriente, em um só dia, tornou-se o mais miserável do Oriente! Um crente, pai de uma linda e feliz família, tinha agora que experimentar pobreza e luto! Um homem justo e piedoso, um servo de Deus! Como se explica isso? Seria possível que exsurgissem expressões de gratidão nesse contexto?

Não bastassem todas essas tragédias, Jó foi acometido por “feridas terríveis” (tumores ou úlceras malignas) – hebraico sherin ra (2.7). Roy B. Zuck acredita que a inflamação cutânea que acometeu Jó é uma doença chamada “penphigus foliaceus”, cujos sintomas são os seguintes: “inflamação, úlceras, coceira, degeneração das características faciais, perda de apetite, depressão, horrendas pústulas que atraem vermes, dificuldade de respirar, mau hálito, dor contínua, rápida perda de peso, pele escurecida, febre e descamação da pele”. 

Com efeito, em poucos dias, Jó deve ter ficado tão completamente desfigurado que quando seus amigos o viram em visita de condolência mal puderam reconhecê-lo, rasgaram as vestes e puseram terra sobre a cabeça e jejuaram no mais absoluto silêncio por sete dias (2.12,13).

No entanto, as dificuldades teológico-filosóficas não param por aí!

O sofrimento do justo causado por um Deus pessoal e soberano

O sofrimento já é uma dificuldade em si mesmo e o problema se agrava para quem crê em um Deus pessoal e quando quem sofre é um justo. 

Todavia, o que dizer do sofrimento de um justo causado por umDeus soberano – que não apenas permite e assiste passivamente os eventos ocorrerem à Sua revelia, e não apenas que Se assusta diante do caos em Sua volta -, mas que decide sobre todos os eventos, bons e maus, que ocorrem em Seu grande universo, e os determina? Como conciliar o fato de que justos sofrem com a realidade da soberania de Deus? 

• Os sabeus roubaram 1.000 bois e 500 jumentos de Jó. Mas quem manda nos sabeus? Os caldeus roubaram 3.000 camelos de Jó. Mas quem manda nos caldeus? Quem manda, pensemos, nos sabeus e nos caldeus? Quem manda nas nações? 

O salmista nos responde: “Deus é o Rei de toda a terra” (Sl 47.7). E Jeremias pergunta: “Quem te não temerá a ti, ó Rei das nações?” (Jr 10.7). 

Na profecia de Isaías, os assírios são chamados de “vara do furor” de Deus e um “machado” manejado por Ele. Os assírios, diz o profeta, são enviados por Deus para punição de Israel (Is 10.5,6,15).

Na mesma senda, está dito na profecia de Habacuque o seguinte: “Pois eis que suscito os caldeus, nação amarga e impetuosa, que marchampela largura da terra, para apoderar-se de moradas que não são suas” (Hc 1.6). Deus revelou ao profeta que puniria a iniquidade do Seu próprio povo através dos caldeus.

Volto a perguntar: quem manda nos sabeus e nos caldeus, senão Deus?

• O fogo consumiu 7.000 ovelhas de Jó. Mas, quem manda no fogo?

Certamente, quem manda no fogo é Aquele que respondeu a oração singela de Elias e enviou fogo para consumir o altar preparado pelo profeta: “Então, caiu fogo do SENHOR, e consumiu o holocausto, e a lenha, e as pedras, e a terra, e ainda lambeu a água que estava no rego” (1Rs 18.38).

Quem manda no fogo é somente Aquele que pode impedir que o fogo arda, que ele queime; e que pode dizer que “quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti” (Is 43.2); e que pode realizar o prodígio de Daniel 3.25: “andam passeando dentro do fogo, sem nenhum dano”. Quem manda no fogo é aquele que controla os efeitos do fogo, que aparece em forma de fogo em uma sarça ardente no deserto (Ex 3.2,3) ou como línguas “como de fogo” no Pentecostes (At 2.3), que responde ao pedido por fogo dos profetas e que poderia, caso desejasse, ter atendido ao pedido dos discípulos e permitido que fizessem descer fogo sobre samaritanos (Lc 9.54).

Volto a perguntar: quem manda no fogo, senão Deus?

• Um forte vento do deserto matou soterrados debaixo dos escombros os 7 filhos e as 3 filhas de Jó. Mas, quem manda no vento? 

Jó sabia aquilo que o profeta Jonas também descobriu, que Deus manda no vento. Por duas ocasiões no livro de Jonas vemos Deus mandando o vento: “o SENHOR lançou sobre o mar um forte vento…” (Jn 1.4); “Deus mandou um vento calmoso oriental” 4.8.

Segundo Êxodo 14.21, um vento forte abriu o mar vermelho e, é claro, não poderíamos esquecer aquela exclamação dos discípulos de nosso Senhor: “Que homem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem?” (Mt 8.27).

Volto a perguntar: quem manda no vento, senão Deus?

• Finalmente, quem manda em Satanás? 

Deus sabe que quem manda em Satanás é Deus. É Deus quem entrega os bens e a família de Jó nas mãos de Satanás (1.12: “Eis que tudo quanto ele tem está em teu poder”) e é Deus quem entrega a pessoa de Jó nas mãos de Satanás (2.6: “Eis que ele está em teu poder”), embora, em um e outro caso, restringindo e delimitando a ação satânica (“somente contra ele não estendas a mão”; “mas poupa-lhe a vida”).

Satanás sabe que quem manda em Satanás é Deus. Ele sabe que não pode nada fazer sem que Deus o ordene (1.11; 2.2,4,5).

 também sabe que quem manda em Satanás é Deus. Quando todas as agruras lhe abateram, Jó reagiu do seguinte modo: “O SENHOR o deu e o SENHOR o tomou; bendito seja o nome do SENHOR” (1.21b); “temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal?” (2.10b).

Conclusão e aplicação

O sofrimento em si mesmo já é um sério problema. Mas, temos observado que o problema se agrava quando ele é considerado à luz da crença no teísmo, na existência de um Deus pessoal. Agrava-se mais ainda quando consideramos que pessoas justas sofrem e sofrem pela decisão soberana do Deus soberano. É ainda possível manter-se apegado à bondade de Deus e cheio de ação de graças?

É nesse sentido que o livro de Jó muito nos ajuda. Um homem de caráter íntegro, justo com os semelhantes e piedoso sofre a perda repentina de tudo e de todos, exceto da esposa, que ficou para aconselhá-lo como “qualquer doida” (2.9,10)! 

Passo a destacar algumas lições mais evidentes que se podem extrair do texto:

Em primeiro lugar, nesta vida, todos os homens e todas as mulheres e todos os idosos e todas as crianças, bons e maus, justos e injustos,sofremos. E todos sofremos porque habitamos em um mundo caído e somos parte de uma criação ainda sob a maldição de Deus. Por isso, do sofrimento, no lado de cá da existência, ninguém escapa! E os cristãos não deveriam achar que estão imunes aos sofrimentos comuns à humanidade. Em um país mergulhado na crise de integridade, econômico-social e, sobretudo, política, cristãos falem, perdem dinheiro, investimentos, promoções, emprego, filhos e familiares para a violência urbana. E, não importa quanto se possa dizer da maldade dos nossos tempos, em um mundo decaído sofrimentos sempre surgem também a partir de causas não provocadas pela ação direta do semelhante. De uma hora para outra, pessoas perdem a saúde, catástrofes naturais destroem suas casas, lojas, gado e plantações etc.

Em segundo lugar, toda a questão da dor e sofrimento humanos ganha uma nova perspectiva quando consideramos que “Não há justo, nem um sequer… todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nenhum sequer… Não há temor de Deus diante de seus olhos” (Rm 2.10-18). Então, colocadas as coisas em seu devido lugar, a conclusão a que devemos chegar é que todos os seres humanos se encontram em estado de corrupção e condenação e tudo quanto merecem é o desagrado do Criador.Em uma sentença simples, quando olhamos a questão sob a superfície, não há um único justo sobre quem se possa dizer que sofreu provações imerecidas, senão um só, Jesus Cristo.

Quando, por outro lado, tornamo-nos modelos diferenciados de piedade (o que se espera de todos os cristãos), isso não nos torna merecedores de benesses ou livramentos divinos, porque até a piedade que temos (se é que temos) veio das Suas mãos, é dom de Deus, que nos recriou para andarmos nas boas obras que Ele preparou de antemão para que andássemos nelas (Ef 2.10; 2Co 5.17). 

Então, a partir de uma perspectiva mais esclarecida, preciso enfatizar, somente a um homem verdadeira e inerentemente bom e justo aconteceu coisas terríveis: Jesus Cristo. E aqui está o cerne do evangelho. O evangelho não é sobre por que tantas pessoas boas (como se as houvesse – cf. Mc 10.18; Mt 7.11) sofrem injustamente. O evangelho é sobre o Cristo que morreu, “uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-nos a Deus” (1Pe 3.18). E ali, na cruz, pela primeira e única vez na história da humanidade, um homem inteira, inerente e verdadeiramente justo (contra quem não se poderia pesar nenhuma justa acusação) sofreu por coisas que Ele mesmo não praticou. 

Em terceiro lugar, se somos cristãos, ainda temos razão adicional para enfrentar perseguições por causa da nossa associação com Jesus Cristo. Ele nos alertou que nossa relação com Ele e com Sua Palavra nos renderia não louros, homenagens, aplausos, mas o fogo do sofrimento, da provação(1Pe 4.12-14).

Por fim, insta registrar que não precisamos que Deus nos dêexplicações sobre os “porquês” dos nossos sofrimentos, a fim de que os enfrentemos adequadamente, como cristãos, mas confiar na bondade e no poder de Deus. Jó disse: “eu sei nada ou muito pouco sobre o meu próprio sofrimento, mas isso sei, que o meu Redentor vive e, por fim, se levantará por sobre a terra!”

Eis, pois, a razão mais poderosa para nos mantermos esperançosos e confiantes na bondade e no pode de Deus: é que o nosso Redentor já se levantou da terra! Já venceu a morte! Ele esteve morto, mas hoje vive e vive pelos séculos dos séculos. Nosso Redentor morreu e ressuscitou para a nossajustificação. “O justo, até na sua morte tem esperança” (Pv 14.32).

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