Introdução
Nos séculos IV e V da era cristã surgiram, a partir dos chamados concílios ecumênicos, os credos aceitos por praticamente todos os ramos do cristianismo – os denominados credos ecumênicos. Foram ao todo sete grandes concílios ecumênicos, dos quais os mais importantes foram o 1ºConcílio de Niceia (325), o 1º Concílio de Constantinopla (381), o 1º Concílio de Éfeso (431) e o Concílio de Calcedônia (451). Destes, o primeiro de Niceia e os emanados dos Concílios de Éfeso e Calcedônia refletem a doutrina cristológica ortodoxa, a respeito dos quais teceremos alguns comentários.
O Concílio de Niceia (325)
O Concílio de Niceia refutou a doutrina de Ário, presbítero de Alexandria, segundo a qual Cristo não é da mesma substância do Pai, não gozando, portanto, da mesma divindade. O Credo elaborado na ocasião, após debates acalorados entre os 318 bispos que dele participaram, tem o seguinte teor:
Cremos em um só Deus, Pai onipotente, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis;
e em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, gerado pelo Pai, unigênito, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado não feito, de uma só substância com o Pai, pelo qual foram feitas todas as coisas, as que estão no céu e as que estão na terra; o qual, por nós homens e por nossa salvação, desceu, se encarnou e se fez homem, e sofreu e ressuscitou no terceiro dia, subiu ao céu, e novamente deve vir para julgar os vivos e os mortos;
e no Espírito Santo.
O Concílio de Constantinopla (381)
Ocorre, no entanto, que não apenas a heresia ariana não foi erradicada em 325, com o Credo de Niceia, mas também que as décadas seguintes testemunharam debates igualmente ferrenhos em torno da doutrina do Espírito Santo, não plenamente elaborada naquele Concílio. Nesse vão é que surge Macedônio, bispo de Constantinopla entre 341 e 360, ensinando que o Espírito Santo era subordinado ao Pai e ao Filho e que era um ser do mesmo nível dos anjos.
Sobretudo pela influência dos chamados “Pais Capadócios” – Basílio, o Grande (330-379), seu irmão Gregório de Nissa (331-395) e Gregório de Nazianzo (329-389) -, 150 bispos reunidos em Constantinopla condenaram outra vez o arianismo, ratificaram o Credo de Niceia e afirmaram a divindade do Espírito Santo nos seguintes termos:
…e no Espírito Santo, Senhor e vivificador, que procede do Pai, que com o Pai e o Filho conjuntamente é adorado e glorificado, que falou através dos profetas, e na Igreja una, santa, católica e apostólica; confessamos um só batismo para remissão dos pecados. Esperamos a ressurreição dos mortos e a vida do século vindouro (grifo nosso).
O Concílio de Éfeso (431)
O Concílio de Éfeso condenou a doutrina de Nestório, segundo a qual as duas naturezas de Cristo, a divina e a humana, coexistem não em uma verdadeira “união”, mas tão só em uma “conjunção” (grego “sunápheia”). Bettenson anotou que “aparentemente, Nestório aprendeu sua doutrina com Teodoro de Mopsuéstia [lugar próximo a Antioquia], que ilustrava a união das duas naturezas em Cristo com a união conjugal de marido e mulher, tornados uma só carne sem deixarem de ser duas pessoas e duas naturezas”.
No entanto, os debates em Éfeso não resolveram todas as controvérsias cristológicas, de modo que outras heresias eram difundidas. Apolinário, por exemplo, bispo de Laodicéia (falecido em 392), insistia em afirmar que o “Logos” divino substituiu a alma humana no corpo humano de Jesus, equivalendo a dizer, na prática, que Jesus não seria completamente humano, visto que da humanidade só teria o corpo. Êutiques, por sua vez, começou a ensinar que a natureza divina de Cristo absorveu a natureza humana e que após a encarnação Cristo teria somente natureza divina revestida de carne humana.
O Concílio de Calcedônia (451)
Coube ao Concílio de Calcedônia, que contou com a presença de mais de quinhentos bispos, condenar o apolinarianismo, o eutiquianismo e, outra vez, o nestorianismo, reafirmar os credos de Niceia e de Constantinopla e elaborar a denominada “Fórmula de Calcedônia”. Assim, um credo formal foi apresentado – a definição de Calcedônia – cujo teor é o que segue:
Fieis aos santos pais, todos nós, perfeitamente unânimes, ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade e perfeito quanto à humanidade, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, constando de alma racional e de corpo; consubstancial [homoousios] ao Pai, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade; ‘em todas as coisas semelhante a nós, excetuando o pecado’, gerado, segundo a divindade, antes dos séculos pelos Pai e, segundo a humanidade, por nós e para nossa salvação, gerado da Virgem Maria, mãe de Deus [theotókos].
Um só e mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar, em duas naturezas, inconfundíveis e imutáveis, conseparáveis e indivisíveis. A distinção de natureza de modo algum é anulada pela união, mas, pelo contrário, as propriedades de cada natureza permanecem intactas, concorrendo para formar uma só pessoa e subsistência (hipóstasis); não dividido ou separado em duas pessoas, mas um só e mesmo Filho Unigênito, Deus Verbo, Jesus Cristo Senhor, conforme os profetas outrora a seu respeito testemunharam, e o mesmo Jesus Cristo nos ensinou e o credo dos pais nos transmitiu.
J. N. D. Kelly sintetiza a Declaração de Calcedônia com as seguintes palavras: “lado a lado com a unidade, a definição declara que, enquanto encarnada, a Palavra existe ‘em duas naturezas’, cada uma completa e cada uma retendo intatas, na união, suas propriedades e operações distintivas”.
Os debates cristológicos do 5º século foram bem resumidos por Bruce L. Shelley, quando afirmou:
Portanto, contra Ário, a igreja afirmou que Jesus era verdadeiramente Deus, e contra Apolinário afirmou que era verdadeiramente homem. Contra Êutiques, professou que a humanidade e divindade de Jesus não podiam se transformar em qualquer outra coisa, e contra Nestório, a igreja professou que Jesus não era dividido, mas sim uma só pessoa”.
O Credo dos Apóstolos
Além dos credos conciliares, há pelo menos mais dois credos historicamente importantes – o Credo Atanasiano e o Credo Apostólico -, dos quais o segundo é sem dúvida o mais universalmente aceito e, nas palavras de Earle E. Cairns, “o mais antigo sumário das doutrinas essenciais da Escritura que possuímos”.
O Credo dos Apóstolos foi também chamado de “regra de fé”, “regra da verdade”, “tradição apostólica” e, mais tarde, de “símbolo de fé”. Justo L. González explica o último termo em conexão com a função do Credo com as seguintes palavras:
A palavra “símbolo” não tinha então o sentido que tem para nós hoje, mas se referia a um meio de reconhecimento. Por exemplo, se dois generais iam se separar, tomavam uma peça de barro, a quebravam e cada um deles levava consigo um pedaço. Se mais tarde um dos generais quisesse enviar mensagem ao seu colega entregava o pedaço de barro ao mensageiro, que então podia identificar-se porque seu pedaço de barro encaixava perfeitamente com o que tinha o outro general. A esse meio de reconhecimento dava-se o nome de “símbolo”. Logo, o “símbolo de fé” era um meio para reconhecer aqueles cristãos que sustentavam a verdadeira fé, em meio de toda a sorte de doutrinas que pretendiam ser verdadeiras.
Origens e Desenvolvimento do Credo dos Apóstolos
As origens do Credo dos Apóstolos deitam raízes nas lutas das igrejas cristãs antigas em meados do segundo século. Cairns afirma que “Irineu e Tertuliano desenvolveram Regras de Fé para serem usadas na distinção entre Cristianismo e Gnosticismo” e funcionavam como sumários das principais doutrinas da Bíblia. Com efeito, no segundo século, homens como Irineu, Tertuliano e Hipólito já ofereciam confissões de fé semelhantes ao Credo. Todavia, a formulação original parece ter surgido em Roma por volta de 340 d.C., tendo sido Ambrósio o primeiro a dar ao documento o título de Credo dos Apóstolos.
A declaração usada no batismo por Rufino de Aquiléia, em c. de 390 d.C., já contém praticamente todos os artigos do Credo que recebemos. Nos séculos VII e VIII, o Credo já era usado amplamente pelas igrejas da Gália (atual França) e Espanha, lugares de onde nos advém a versão final, cuja dicção é a que segue:
“Creio em Deus, o Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra.
E em Jesus Cristo, seu único filho, nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia; subiu aos céus; está assentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos.
Creio no Espírito Santo, a santa Igreja católica, a comunhão dos santos, a remissão dos pecados, a ressurreição da carne e a vida eterna. Amém.”
A autoria do Credo dos Apóstolos
Até metade do século XVII, era corrente a crença de que o Credohavia sido composto pelos apóstolos em Jerusalém, pela época do Pentecostes, antes de se separarem, havendo cada um contribuído com uma cláusula. Essa lenda é vista pela primeira vez na Exposição do Credo(Expositio Symboli) de Rufino de Aquiléia, no fim do século IV, no que foi seguido, com modificações, por Ambrósio de Milão (c. 400), João Cassiano (c. 424) e por toda a tradição católica romana.
Entre os protestantes, a lenda encontrou defensores, foi questionada por Calvino e em seguida desmentida definitivamente por diversos estudiosos.Calvino estava ciente que de longa data havia certa crença que o Credo tinhasido escrito pelos apóstolos, com a finalidade de conceder-lhe autoridade. Para o reformador, entretanto, o que está fora de dúvida é que o Credo foi recebido “desde o início da igreja” “como uma confissão pública e válida da fé cristã” e que “toda a história da nossa fé está nele contida em resumo e em excelente ordem, e que não há nada nele que não seja comprovado por diversos testemunhos da Escritura”.
Conclusão
É notável que as igrejas cristãs de todos os tempos tenham sentido a necessidade de explicitar suas crenças em documentos formais. Nos séculos 4º e 5º, sobretudo, essas declarações assumiram a forma de “credos”. “Credo” é uma declaração concisa, composta de afirmações consistentes daquilo que o cristão deve crer e confessar; é, em geral, destinada ao uso público. Os credos sempre começam com expressões do tipo “credo” ou “credemus” (“eu creio” ou “nós cremos”), porquanto representam a resposta humana à revelação divina, conforme veremos.
Na próxima lição, estudaremos as razões pelas quais a fé cristã sempre foi articulada através de fórmulas credais ou confessionais.

