A cruz de Cristo é mesmo crucial à compreensão de todo o drama que envolve a redenção de pecadores e suas variadas implicações, cujos diversos pontos de vista podem ser sumariados a partir dos tópicos a seguir apresentados. O que se pretende, pois, com o presente artigo, é pontuar sucintamente o sentido essencial da cruz de Cristo no plano eterno do Deus Trino e sua centralidade na obra redentora de pecadores.
A cruz e Deus o Pai
Em relação a Deus o Pai, a cruz pode ser também compreendida a partir da doutrina propiciação (Rm 3.25; Hb 2.17; 1Jo 2.2; 4.10). Propiciar significa aplacar, pacificar, satisfazer, conciliar. A noção de propiciação pressupõe a situação de ira divina em face da malignidade do pecado. A ira é uma justa reação da santidade de Deus para com o desprezo do pecador por Suas palavras, glória e obras, como também para com sua obstinada sede de independência em relação ao Criador. Frente a essa rebeldia deliberada, Deus não seria coerente consigo mesmo se simples e indiferentemente, sem considerar princípios de justiça, apenas perdoasse o pecador e ponto. Fazendo isso, estaria negando a Si mesmo, Suas perfeições gloriosas e, sobretudo, Sua justiça.
Por isso, o grande amor de Deus proveu uma solução justa para o problema do pecado. Ele enviou Seu Filho amado como propiciação pelos nossos pecados, isto é, para por meio da cruz de nosso Senhor Jesus Cristo satisfazer a própria justiça, aplacar a Si mesmo, remover a ira que impedia a plena fruição da Sua misericórdia.
A propiciação, portanto, pressupõe que Deus ao mesmo tempo nos amou e nos odiou, que nos amou mesmo quando nos odiava.
A mais clara explicação da propiciação se encontra em Romanos 3.25-26: “a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus”. A passagem insiste que a propiciação é uma demonstração da justiça de Deus, a fim de que Ele seja não apenas o que justifica o pecador, mas também justo quando o faz.
Tomemos cuidado, entretanto, para não assumirmos posições não esposadas pelas Escrituras no que diz respeito à doutrina tão essencial. Por ela, não se ensina que Deus e Cristo estão em papeis antagônicos, como se o Filho amoroso estivesse em oposição ao Pai irado com o propósito de aplacar Sua a ira. A cruz não é Jesus Cristo contra Deus o Pai, é, ao contrário, Deus o Pai em Jesus Cristo. Também, propiciação não é a noção de que o Deus irado Se tornou amoroso, não é conversão de ira em amor. A cruz é a obra amorosa do Deus irado, é a provisão do Seu amor para aplacar a Sua ira.
A cruz e Deus o Filho
Sob a ótica de Deus o Filho, a cruz foi um ato de obediência. Sabemos a partir de Isaías 53 que a justificação seria o fruto da obediência do Servo sofredor. “Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do SENHOR prosperará nas suas mãos. Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito; o meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si” (Is 53.10,11).
Nosso Senhor, em muitas ocasiões e de diversos modos, afirmou Seu interesse e concentração máximos em fazer a vontade dAquele que o enviou e realizar a obra dele (Jo 4.34). “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, e sim a vontade daquele que me enviou” (Jo 6.38). O Filho sabia, ao vir ao mundo, que tinha sido enviado para uma certa hora e em cujas ações glorificaria o Pai obedecendo aos exatos termos da comissão: “Eu te glorifiquei na terra, consumando a obra que me confiaste para fazer” (Jo 17.4).
O ato de obediência do Filho consistiu em resgatar todos quantos o Pai Lhe deu antes da fundação dos séculos, com o sacrifício penal e vicário de Si mesmo na cruz. Foi deveras um estupendo ato de obediência, destacado em cores vívidas nas palavras de Paulo: “a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2.8).
A cruz e Deus o Espírito
Para Deus o Espírito Santo, a cruz foi a condição realizada para o cumprimento da promessa quanto ao Seu envio. O Espírito é, pois, a síntese de todas as conquistas da cruz de Cristo. Todos os dons graciosos advindos da cruz nos são continuamente aplicados pelas operações poderosas e transformadoras do Espírito.
Entretanto, perceba-se que a condição do envio do Espírito era a aceitação por Deus o Pai da obediência de Deus o Filho. Com a obediência consumada e recebida pelo Pai como totalmente capaz de justificar multidão incontável de pecadores, nosso Senhor ressuscitou e, exaltado, cumpriu a promessa do Pai quanto à dádiva do Espírito. “Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis” (At 2.33).
Em síntese, a perspectiva da Trindade com relação à cruz é a seguinte: o Filho disse: “obedeci ao Pai, realizando toda a obra que Ele me confiou”; o Pai disse: “o sacrifício do meu Filho satisfez a minha justiça e tornou-me propício ao meu povo”; o Espírito disse: “a condição necessária para o meu envio, a fim de que Eu aplique a salvação ao povo de Deus, foi cumprida”. A contrario sensu, sem cruz não haveria o único ato de obediência que poderia remover a ira e garantir o envio do Consolador.
A cruz e os remidos
Em relação aos remidos, a cruz possui implicações fundamentais variadas, que passamos a analisar.
A vitória sobre o pecado
A cruz, no que diz respeito aos remidos, é a causa eficiente da vitória sobre a culpa, o poder e a presença do pecado. Quando o pecado é considerado uma dívida, a cruz é o meio pelo qual a dívida foi paga: “tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz” (Cl 2.14).
Às vezes, o pecado é visto como um crime, caso em que a cruz foi a penalidade merecidamente sofrida: “Cristo nos resgatou da maldição [ou condenação] da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro)” (Gl 3.13).
Também, o pecado é tratado como uma sujeira removida pela cruz: “Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado… Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.7,9).
Por fim, o pecado é observado também como um senhor tirano que nos escravizava, do qual a cruz foi o pagamento da liberdade: “sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo” (1Pe 1.18-19).
Quer como dívida, crime, sujeira ou escravidão, a cruz se apresenta como a solução definitiva, visto que é nela que Deus remove, cancela, expia o pecado que contra Ele cometemos, e suas consequências.
A vitória sobre Satanás
A cruz, no que diz respeito aos remidos, é também a causa eficiente da vitória sobre as obras de Satanás. Na cruz, a cabeça da serpente foi esmagada (Gn 3.15), o valente foi manietado pelo mais valente (Mc 3.27), o príncipe deste mundo foi expulso, julgado (Jo 12.31; 16.11) e publicamente humilhado (Cl 2.14-15), e as obras de Satanás foram destruídas (1Jo 3.8).
Toda essa linguagem ganha um colorido especial em Apocalipse 12. Ali, o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, acha-se enfurecido porque não conseguiu destruir Jesus Cristo e por haver sido expulso do céu. Essa ira desesperada é, então, concentrada sobre a Igreja. Satanás, então, aparece como “o acusador dos nossos irmãos”, que os acusa diuturnamente diante de Deus (v. 10), e mesmo desferindo acusações contra o próprio Deus por haver perdoado e aceito em Seu favor gente tão ignóbil.
A resposta a toda e qualquer acusação está na cruz. “Eles, pois, o venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa do testemunho que deram…” (v. 11). Claro está que os crentes tanto vencem as acusações que Satanás lança contra eles em sua própria mente, quanto as acusações que faz perante o tribunal de Deus. Assim, apresentada a cruz, Satanás não tem mais nada a alegar!
O modelo do discipulado
A cruz, no que diz respeito aos remidos, representa um modelo de comportamento a ser seguido. O tema, sem dúvida, aparece de maneira mais marcante em Pedro: “Porquanto para isto mesmo fostes chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos” (1Pe 2.21). Notemos que a passagem nos mostra a cruz como o modelo de amor sacrificial a ser imitado. Nosso Senhor, quando insultado, não revidou, mas confiou naquele que julga retamente (1Pe 2.23), reagindo à nossa rejeição com a obediência que nos trouxe a bem-aventurança eterna.
Eis o modelo de discipulado cristão para Pedro. As mulheres devem agir para com o marido de “semelhante modo” (1Pe 3.1), ou seja, seguindo o modelo da cruz. Todos devemos responder à rejeição com a prática do bem (1Pe 3.13-17), “Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus…” (1Pe 3.18).
Entretanto, a cruz como o modelo para a vida cristã não está ausente em Paulo. Muito longe disso! Apenas concentrados em Filipenses, vemos que a “comunhão” que está no centro das ações de graças é a cooperação dos filipenses na causa evangélica (1.5). Suas algemas não são vistas como um estorvo, porque contribuem para o progresso do evangelho (1.12). A pregação ortodoxa, ainda que realizada por razões questionáveis, não entristece a Paulo, porque o que lhe importa é que Cristo esteja sendo pregado (1.17,18). Ele também estaria pronto a sacrificar seu desejo de partir e estar com Cristo, pelo bem dos filipenses (1.23,24).
Paulo também deseja que o modelo da cruz, seguido tão de perto por ele, seja também o caminho seguido pelos filipenses. Ele queria achá-los lutando juntos pela fé evangélica (1.27) e ver cada cristão não pensando somente nos seus interesses, mas também nos dos demais (2.4). Que é no princípio da cruz como modelo de comportamento que Paulo tem mente, em todo o tempo, fica mais claro com esta exortação: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (2.5).
Conclusão
A cruz está no centro do plano eterno de Deus. Ela sintetiza o propósito originador de Deus o Pai, a obra expiatória de Deus o Filho e o trabalho aperfeiçoador de Deus o Espírito.
Nada há nas Escrituras que não aponte para a cruz de Cristo ou não exsurja dela. O Antigo Testamento converge para a cruz e, o Novo, parte dela como implicação necessária dela.
Nada há na vida dos crentes em Jesus Cristo que não tenha sido, não seja ou não venha a ser uma conquista da cruz de Cristo. Diga o leitor um benefício, qualquer que seja, da experiência da verdadeira vida cristã (chamado, ou regeneração, ou perdão de pecados e justificação, ou adoção, ou santificação, ou glorificação), e eu responderei que é um fruto colhido na árvore frutífera do madeiro.
Um pregador nada tem a dizer de relevante se não partir da cruz e um crente não pode estar de joelhos perante Deus senão à sombra da cruz. A única pregação que importa é a do Cristo, e este crucificado, e a única comunhão real com Deus só é possível pelo caminho aberto pela cruz.
E mais: qualquer ponto, mínimo que seja, de uma ética que se possa considerar distintivamente cristã, é um mandamento da cruz de Cristo. O que segue a Jesus toma a sua própria cruz porque segue o Crucificado.
A cruz, em suma, é o centro da vida, da devoção privada e do culto.
Solus Christus!

