A remissão dos pecados, a ressurreição da carne e a vida eterna. Amém! 

Lição 13/13

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Introdução

As palavras finais do Credo Apostólico são perdão, ressurreição e vida. Elas resumem o aperfeiçoamento levado a termo por Deus o Espírito da obra de Deus o Pai por meio de Deus o Filho. A sentença sumaria as conquistas da obra salvífica do Redentor, incluindo aquilo que os crentes já gozam no presente estado até a consumação de sua salvação, na eternidade. 

A esperança cristã, observa-se, não restará plenamente satisfeita até que, tendo recebido perdão de pecados e justificação, encontre-se na eternidade com corpos glorificados em um mundo restaurado.

A estrutura do Credo, como temos observado, é radicalmente trinitária. O Deus Trindade realiza a obra da criação, da providência e da redenção. Mas a cada pessoa da divindade é atribuída com certa proeminência uma obra específica. O Pai é o Criador e o Originador de toda a empreitada. O Filho é o Conquistador da redenção do povo de Deus, por meio de quem o Pai realiza todas as coisas. O Espírito é o Aplicador da obra que o Pai realiza por meio do Filho. 

É certo afirmar, portanto, que todas as obras de Deus são trinitárias, mas que, por outro lado, há operações divinas mais proeminentemente atribuídas a uma das Pessoas da Trindade, sendo correto dizer com Abraham Kuyper: “a operação pela qual todas as coisas se originam procede do Pai; que a operação pela qual elas receberam consistência procede do Filho; e que a operação pela qual elas foram levadas ao seu destino procede do Espírito Santo”. Nesse sentido, o Espírito Santo participa da salvação dos eleitos desde a regeneração até a glorificação (Jo 3.5; 2Ts 2.13; Rm 8.11). 

A remissão dos pecados

O “perdão de pecados” lembra-nos que Deus, através da morte de Jesus Cristo, tanto cancelou nossa dívida, remindo-nos da culpa e da condenação decorrente (Cl 1:14), como restaurou o relacionamento entre Ele e os crentes, operando a reconciliação (2Co 5.19). “Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras” (1Co 15:3). 

Perdão de pecados pressupõe culpa real. A culpa, por sua vez, pressupõe o relacionamento necessário que há entre o Criador e a humanidade. Trata-se de uma aliança entre Criador e criatura por meio da qual cada pessoa está envolvida em um relacionamento com Deus, atraindo como consequência responsabilidade moral para consigo, com o próximo, com o cosmos e, sobretudo, com o próprio Deus. 

Como governador moral do Universo e das criaturas racionais, Deus estabelece padrões de conduta baseados em suas próprias perfeições, sendo ele o Legislador e o padrão último dos preceitos que estabelece. Transgredir o mandamento do Criador é incorrer em culpa, conceito indissociável da noção de lei.  

A responsabilidade moral mencionada implica dizer que todas as vezes que ultrapassamos os limites do mandado de Deus, no que diz respeito a nós mesmos, à nossa relação com o meio ambiente (e com toda a ordem criada) e com os semelhantes, violamos a lei do Criador e nos tornamos culpados perante o seu Tribunal. O mais grave precisa ser dito agora: encontramo-nos todos incapazes por natureza de atender às exigências do Criador, e pecamos mesmo quando fazemos nossas melhores obras (Is 64.6). 

Explique-se. Conforme as Escrituras, o ser humano foi criado perfeito em seu estado original (Gn 1.31; Ec 7.29), mas desobedeceu ao mandado do Criador (Gn 2.16,17; 3.6) e decaiu ao estado de completa ruína e afastamento de Deus, tendo o seu pecado e sua consequência, a morte, passados a toda a humanidade (Rm 5.12). Eis a razão pela qual as Escrituras descrevem o homem em seu estado de corrupção e condenação (Ef 2.1-3; Jo 8.34). 

A condição pecaminosa da humanidade costuma ser expressa nas Escrituras por meio de três palavras: transgressão, iniquidade e pecado (Sl 51.1,2). “Transgressão” (heb. “pesha”; gr. “paraptoma”) denota o estado de rebelião e de insubordinação em que o homem se encontra em relação a Deus. A palavra é usada em 1Reis 12.19: Israel se insurgiu contra a autoridade da dinastia de Davia. “Iniquidade” (heb. “awon”; gr. “adikia”) traduz a ideia de perversidade e corrupção da natureza caída. “Pecado” (heb. “hatta”; gr. “hamartia”) significa errar o alvo, perder o caminho, um lapso que encerra o melhor do homem na mais completa insuficiência em agradar o Criador (ver a palavra em Jz 20.16). 

Reunidas, estas palavras comunicam que tudo o que o homem faz e é, e isto no que pode haver de melhor nele e em seus atos, torna-o objeto da ira e do desagrado de Deus. O pecado corrompeu todas as faculdades (Gn 6.5; 8.21) de todos os homens (Rm 3.9-18,23), tornando todos os homens incapazes de fazer algum bem (Jr 13.23; Jo 15.4,5), de querer algum bem (Rm 8.6-8; Jo 3.3; 5.40; 6.44,65) e mesmo de entender algum bem (1Co 1.18-21; 2.6-8,14; 1Jo 4.5,6).

Estando assim, impossibilitada de agradar ao Criador e implicada moralmente perante o seu Tribunal, Deus oferece em Jesus o único “remédio” capaz de “curar” a “doença” do pecado: o perdão. A reversão do mal envolve a missão da Igreja em proclamar a toda criatura que Jesus Cristo é o Poderoso Redentor, Aquele único em quem podemos achar salvação (At 4.12; 1Tm 2.5), e comunicar que Deus “ordena a todas as pessoas em todos os lugares que se arrependam” (At 17.30).

O arrependimento é uma “mudança de mente” quanto à avaliação que fazemos a respeito de nós mesmos, de Deus e do nosso pecado. Envolve uma tristeza genuína por percebermos que em tudo o que pecamos ofendemos a Deus (Sl 51.4). Essa contrição não desemboca em desespero, mas consiste de uma tristeza segundo Deus que opera o arrependimento que nos conduz à bem-aventurança do perdão de Deus (2Co 7.10). 

O perdão é o fruto imediato colhido por todo aquele que se volta para Deus confiando em Jesus Cristo para a sua salvação e arrependido dos seus pecados. É o perdão de Deus que nos torna em paz com Deus, conosco mesmos e com o próximo. É a bênção da redenção por excelência que já deve ser fruída aqui e agora.  

A ressurreição do corpo e a vida eterna

A expressão “ressurreição do corpo” nos leva a contemplar a bendita e segura esperança cristã quanto ao futuro da Igreja de Jesus Cristo (Ef 1.18; 1Pe 1.3) e a consumação da nossa salvação – a glorificação -, por ocasião da segunda vinda do Salvador. Porque Cristo ressuscitou, temos mais do que uma mera expectativa quando à nossa própria ressurreição. Porque Cristo ressuscitou, eis a convicção cristã: nós também ressuscitaremos (Rm 8.11; 1Co 15.20-23). Por isso, cremos na “vida eterna”, não simplesmente no sentido de uma existência continuada, de uma vida interminável, mas de uma vida cuja marca indelével é a comunhão com Deus (Jo 10.10). 

Morte é separação de Deus; vida é comunhão com Deus. É possível ter vida física sem vida verdadeira. Por outro lado, nem a morte física pode ameaçar a verdadeira vida. As palavras de nosso Senhor esclarecem o ponto: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente” (Jo 11.25, 26). É dizer, porque Cristo é a ressurreição e a vida, a vida verdadeira que temos da parte dele não chega ao fim nem com a morte física. Noutras palavras, a morte não alcança aquele que está em Cristo, quer esteja vivo ou morto fisicamente.

Há um sentido muito real em que a vida verdadeira, a vida eterna, já começou a ser desfrutada pelos crentes aqui e agora. O Espírito de Deus em nós já corresponde a uma antecipação maravilhosa da parte de Deus (Rm 8.23; 2Co 1.22; Ef 1.13,14), por quem os cristãos já experimentam o gozo eterno. Entretanto, a vida que hoje temos é apenas o início. 

Nas palavras de Alister McGrath, “a vida eterna iniciou, mas não se completará em nossa vida atual de cristãos. Passar para a vida eterna não é experimentar algo totalmente estranho e desconhecido. Antes, é ampliar e aprofundar nossa experiência com a presença e o amor de Deus”. Somente após termos atravessado o rio da morte é que entraremos em uma vida supremamente mais rica (Fp 1.21; 2Co 5.8; Ap 14.13). A morte, pois, não aprisiona mais os cristãos nas garras frias do medo (Hb 2.14,15). 

Todos quantos estamos em Cristo podemos desafiar a morte com o apóstolo Paulo: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1Co 15.55). Como afirma Hoekema: “Nosso oponente mais temível veio a ser para nós o servo que abre as portas para a felicidade celestial. A morte para o cristão, portanto, não é o fim, mas um glorioso novo início”. 

Entretanto, a felicidade final e completa dos crentes não se concretizará até que Cristo volte e realize a ressurreição dos corpos. Nem a vida espiritual (no Espírito) que temos hoje, nem as glórias sobremodo superiores que os crentes que partiram já gozam são todo o conjunto da bem-aventurança que nos aguarda. Nós só estaremos completamente salvos na segunda vinda do Senhor, quando ocorrerá a ressurreição dos corpos dos crentes que já partiram e a transformação dos corpos dos crentes que estiverem vivos nessa bendita ocasião, e recebermos como morada a eterna os novos céus e nova terra. 

A ressurreição dos corpos será uma obra proeminentemente realizada pelo Espírito Santo (Rm 8.11) e concederá aos crentes um corpo glorioso, semelhante ao corpo ressurreto do Senhor Jesus (Fp 3.20,21). O tratamento mais completo acerca da ressurreição dos corpos é o que encontramos em 1Coríntios 15.35-55. Nesse texto, Paulo ensina a absoluta necessidade de corpos adequados para recebermos a herança que nos está reservada (15.50), tanto que os crentes que estiverem mortos terão que ressuscitar em corpo e os crentes que estiverem vivos deverão ser transformados (15.51-55). 

Aprendemos igualmente com a citada passagem que na ressurreição dos corpos haverá continuidades e descontinuidades em relação ao que somos e o que temos hoje. Por um lado, a própria linguagem de uma ressurreição, de uma semente (15.36-38) e de uma semeadura (15.42-44) nos remete à ideia de continuidade, razão pela qual devemos concluir que seremos nós, quem somos hoje, com o que temos, inclusive autoconsciência e memória, que ou ressuscitaremos ou seremos transformados. Por outro, sabemos também que haverá descontinuidades, a exemplo da cessação de casamentos (Mt 22.30) e, conforme sugere Hoekema, das funções digestivas (1Co 6.13).

Os crentes gozarão o estado eterno, a vida eterna em sua completude, nos novos céus e nova terra (Is 65.17-25; 66.22, 23; 2Pe 3.13; Ap 21.1-22:5), um universo que é a continuação do presente cosmos, mas gloriosa e completamente renovado. A linguagem paulina é no sentido de que a presente criação será “redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8.20, 21). 

É, portanto, somente na vinda do Senhor, evento que desencadeará a ressurreição dos corpos e a renovação da criação, que os crentes viverão a vida eterna em plenitude, vida com Deus como nunca foi experimentada até então. Verdadeiramente, “nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1Co 2.9).

Conclusão

O Credo encerra com o“Amém”, uma transliteração da palavra hebraica “amen”, cuja origem significa “fiel”, “firme”, “digno de confiança”. Nos evangelhos, a palavra foi usada somente por Jesus, com o propósito de ressaltar a autoridade com que ensinava palavras absolutamente confiáveis e obrigatórias. Nas epístolas, “amém” ocorre ao final das orações e doxologias, com o fim de confirmá-las (Rm 11.36; Ef 3.21; Jd 24,25). 

O vocábulo era, portanto, parte da liturgia do culto público, pronunciado após as orações e expressões de louvor, razão pela qual toda linguagem empregada deveria ser compreensível (1Co 14.16).

O “amém” em nosso Credo revela que ele foi compilado para ser uma afirmação da nossa fé, dada a Deus em resposta à sua doce e poderosa auto-revelação, no contexto do culto público. É uma declaração e uma oração. Tanto professamos nossa crença no Deus Trino como rogamos que as verdades que confessamos se tornem em vida. Revelamos, ao declará-lo publicamente, que pertencemos às fileiras das multidões que nos últimos dois milênios o confessaram e o tiveram como uma expressão concisa da sua convicção. 

É verdade, porém, que muitos não conhecem o significado das cláusulas que confessam e outros tantos apenas o confessam, mas não vivem vidas dignas da confissão que fazem. Todavia, o Credo nos lembra que é preciso conhecer, adorar, confessar, ensinar, viver e obedecer (2Co 9.13).

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