Introdução
O novo nascimento nos insere em um novo relacionamento com o Deus Trino. Esse novo relacionamento gera resultados na maneira como passamos a lidar com os irmãos e com o mundo. O amor a Deus reflete no amor pelos irmãos. A fé em Jesus vence o mundo, vitória esta que nos libera para amarmos uns aos outros. Foi o que aprendemos nas últimas lições.
Nesta lição, devemos acrescentar que aqueles que nasceram de novo praticam a justiça com notável prevalência: “Se sabei que ele é justo, reconhecei também que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele” (1Jo 2.29). Dizendo de outro modo, quem nasceu de novo não vive na prática habitual do pecado: “Todo aquele que permanece nele não vive pecando…” (1Jo 3.6a).
Em suma, o novo nascimento é evidenciado também pela prevalência da santidade prática, realidade que a regeneração espiritual conecta à fé em Jesus e à habitação do Espírito. Atentemos, pois, ao ensino do apóstolo João a respeito.
A heresia que João queria afastar das igrejas
A heresia dos falsos mestres que assediavam as igrejas cristãs dizia basicamente que Jesus Cristo, o Filho eterno de Deus, não tinha vindo em carne, não tinha assumido verdadeira humanidade. Contra isso, João disse que “todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus” (vide 1Jo 4.1-3).
Além disso, a negação da encarnação de Cristo pelos falsos mestres afetava sua maneira de avaliar a vida cristã prática. Assim como afastavam a pessoa de Cristo da vida física humana, negavam que a nova criação realizada em Cristo, no novo nascimento, mantinha relação com a vida física do cristão.
Em outras palavras, nem a carne era importante para o Cristo eterno nem o que se faz na carne é importante para o cristão, ideia que levava os falsos mestres a concluir que ao crente é indiferente se ele pratica o pecado ou a justiça. Nesse sentido, diziam, é possível ser justo de modo “espiritual”, sem que isso se traduza em prática da justiça.
A primeira resposta do apóstolo: justo é quem pratica a justiça
Foi contra aquela heresia que João escreveu: “Filhinhos, não vos deixeis enganar por ninguém [ele se referia aos falsos mestres]; aquele que pratica a justiça é justo, assim como ele é justo” (1Jo 3.7). Podemos parafrasear João da seguinte forma: “os falsos mestres mentem quando dizem que vocês podem ser justos de alguma maneira espiritual, sem a prática da justiça”.
Isto é, para João, a espiritualidade é comprovada pela vida cristã prática. “Quem pratica a justiça é justo”. São as nossas ações que dizem quem somos e confirmam se nascemos de novo ou não. Quem nasceu de novo pratica necessariamente a justiça!
A segunda resposta do apóstolo: a permanência da divina semente
João acrescentou que quem nasceu de novo não vive na prática habitual do pecado, “pois o que permanece nele é a divina semente” (1Jo 3.9). Quem possui em si a “divina semente” não pode viver pecando. A “divina semente” pode se referir, alternativamente, à Palavra de Deus, à natureza de Deus (a nova vida gerada por Deus) ou ao Espírito Santo, Aquele que habita permanentemente os crentes.
Ainda que não possamos ser dogmáticos em relação ao significado de “divina semente”, é certo dizer que por meio do novo nascimento Deus opera de modo tão transformador que Sua presença em nós impede que vivamos permanente e habitualmente na prática do pecado. “Ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus” (1Jo 3.9b).
A terceira resposta do apóstolo: quem vive pecando é filho do Diabo
Eis a terceira resposta do apóstolo: quem vive na prática habitual do pecado procede do Diabo, é filho do Diabo. “Aquele que pratica o pecado procede do diabo, porque o diabo vive pecando desde o princípio…” (1Jo 3.8). O Diabo é quem vive pecando desde o princípio, isto é, desde quando caiu (Jo 8.44; 6.70; 1Jo 3.12). Os filhos de Deus, por outro lado, são justos, como ele é justo (1Jo 3.7). Por isso aquele que vive na prática habitual do pecado não procede de Deus, não é filho de Deus, não nasceu de novo: “Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo: todo aquele que não pratica justiça não procede de Deus…” (1Jo 3.10).
João explica como aqueles que foram filhos do Diabo, que neles operava por meio do pecado, se tornaram filhos de Deus: Jesus Cristo se manifestou para destruir as obras do Diabo (1Jo 3.8b). Com efeito, o Diabo era para os cristãos genuínos um senhor muito cruel, que usava as correntes do pecado para escraviza-los. À medida que o Filho de Deus “destruiu as obras do diabo” – o pecado -, em Sua encarnação, morte e ressurreição, as cadeias foram quebradas e os filhos de Deus, pela regeneração, foram libertos para praticarem a justiça.
Conclusão
Em resumo, João nos dá três razões pelas quais pretende demonstrar que aqueles que nasceram de novo não podem continuar na prática do pecado: primeiro, afirma que somente aquele que pratica a justiça é justo, porque (sendo propositalmente redundante) não é possível ser justo sem praticar a justiça; segundo, a “divina semente” permanece naquele que nasceu de novo; terceiro, Jesus destruiu o pecado, o instrumento que Satanás usa para aprisionar aqueles que não nasceram de novo.
Por fim, cabe um alerta final em relação ao que João afirmou em 1João 3.9 (“Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática do pecado”). Essa afirmação deve ser usada por nós para fugirmos da hipocrisia e da falsa segurança. Ninguém pode dizer-se nascido de novo a menos que observe em sua caminhada uma prática prevalecente da justiça. Por outro lado, João não escreveu para promover desespero entre os crentes ou defender alguma espécie de perfeccionismo cristão. O apóstolo sabia que os cristãos pecam (1Jo 1.8) e que o pecado é sempre uma possibilidade, razão pela qual somos por ele remetidos à confiança constante naquele que é o Advogado e a Propiciação dos filhos de Deus (1Jo 2.1; 4.10).

