Um dos temas mais indispensáveis para a compreensão da doutrina bíblica da salvação é o “novo nascimento”, também denominado de “nova geração”, de “nova criação”, de “ressurreição” espiritual, de passar da morte para a vida etc.
Mesmo no Antigo Testamento a obra divina da regeneração está pressuposta nas experiências de conversão – arrependimento e fé -, prefigurada, v.g., em termos de purificação e no sinal da circuncisão, bem como dita em linguagem forte, como a referência de Ezequiel à troca de um coração de pedra por um coração de carne.
Pois bem, é sobre esse palpitante assunto que trataremos em 13 lições adaptadas a serem estudadas em pequenos grupos, células, grupos familiares e salas de escola dominical. Uma lição será disponibilizada a cada semana, de modo que em 13 encontros serão analisados o conceito e a natureza teológica da experiência de nascer de novo, seu autor e o modus operandi, os fundamentos, as implicações práticas e seu lugar na ordem da salvação, sem faltar uma consideração sobre as marcas produzidas por essa poderosa, transformadora e definitiva obra de Deus na redenção de pecadores na vida daqueles que a experimentam.
Sem mais, vamos à primeira lição.
Altamira, 3 de agosto de 2024.
Introdução
O capítulo 3 do Evangelho segundo João registra o diálogo de Jesus com Nicodemos, um fariseu e um dos principais dos judeus (v. 1). Embora João tenha narrado a conversa com Nicodemos, o teor do diálogo, entretanto, diz respeito a todos nós. É por isso que a maneira como Jesus falou (a Nicodemos) carrega um tom impessoal, todo inclusivo: “se alguém não nascer de novo…” (v. 3, com grifo nosso); “quem não nascer da água e do Espírito…” (v. 5, com grifo nosso); “importa-vos nascer de novo” (v. 7, com grifo nosso). A primeira e mais óbvia conclusão, portanto, é que aquela conversa com Nicodemos é para nós todos, para o nosso proveito, edificação e segurança.
Mas isso não é tudo.
Um tema crucial.
Verifiquemos, de plano, que o tema da conversa de Jesus com Nicodemos é de importância crucial: trata-se da grandiosa doutrina do novo nascimento. Isso quer significar que o teor do diálogo com o fariseu Nicodemos é questão de vida eterna ou morte eterna.
Notemos, por exemplo, o v. 3: “se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”; e o v. 5: “quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus” (com grifos nossos). Ver o “reino de Deus” ou “entrar no reino de Deus” é ingressar em uma esfera de relacionamento salvador com o Rei, é ser recebido no favor do Rei, é ser salvo, perdoado, justificado.
Ou seja, sem o novo nascimento não seremos salvos, nem parte da família de Deus, nem iremos para o céu e nem para os novos céus e nova terra. Se não nascermos de novo permaneceremos no inferno por toda a eternidade, sob a ira de Deus. É dizer, ou nos tornamos parte do reino de Deus ou colheremos a ira que Deus reserva aos Seus inimigos. É como Jesus disse: “sobre ele permanece a ira de Deus” (Jo 3.36).
O que o novo nascimento não é.
Ainda nesta lição, é de bom alvitre tecer alguns esclarecimentos sobre o que não é o novo nascimento, considerando, assim, o tema negativamente, a fim de limparmos o terreno, evitando más compreensões.
O novo nascimento não é a obtenção de um novo sistema religioso.
Nicodemos era um fariseu, um homem rigorosamente religioso e um dos principais dos judeus (Jo 3.1). Não lhe faltavam, portanto, religião (como sistema), estudo, disciplina e reconhecimento público. Mas Jesus lhe disse “importa-vos nascer de novo” (v. 7), porque o que Nicodemos realmente precisava era de uma vida nova. Isso porque, mesmo de posse de um sistema religioso, Nicodemos estava espiritualmente morto. Ele precisava de vida, mais do que de atividades ou zelo religiosos. E é exatamente isso que o novo nascimento faz: cria a nova vida! Assim, o novo nascimento não é a obtenção de um novo sistema religioso, embora isso não raro ocorra.
Crentes nominais, adaptados à confissão cristã protestante ortodoxa, muita vez experimenta o novo nascimento bem tardiamente, após longo período de contato com a igreja. Quando nascem de novo, sabem que ocorreu uma mudança fundamental na direção mais básica da vida, mas isso não implica em “mudança de religião”, mas vivência de coração da fé que já professavam. Por outro lado, o novo nascimento, porque redireciona a pessoa regenerada à Palavra de Deus, pode provocar “mudança de religião”. O nascido de novo é conduzido pelo Espírito a confessar a religião da Escritura e a pessoa assim agraciada tenderá a buscar outras pessoas que compartilhem daquilo que se tornou a grande alegria da sua existência.
Ressalte-se, pois, que quando o novo nascimento ocorre, mais que uma tradição religiosa, aquilo que realmente ganha importância é a vida que deve ser vivida para Deus. Portanto, permanece o fato que novo nascimento não é a obtenção de um novo sistema religioso, embora isso possa vir a ocorrer.
O novo nascimento não é a mera percepção do caráter divino do ministério de um operador de milagres.
Nicodemos atestou que no ministério de Jesus havia genuína atividade divina: “Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele” (3.2). Mas a reação de Jesus a essa percepção não foi algo do tipo “ó, como seria bom se todos concluíssem como você!” ou “que conclusão fundamental!” A resposta de Jesus foi mais semelhante a esta: “Veja bem, Nicodemos, não é essa conclusão que lhe fará ver e entrar no reino de Deus; você precisa nascer de novo” (3.3).
Com efeito, mesmo os não salvos podem se encantar com sinais e maravilhas e dar crédito a um operador de milagres. A velha natureza humana também se deslumbra com milagres e essa mesma natureza caída é propensa a acreditar que aquele que realiza milagres vem de Deus. Aliás, essa é a razão pela qual os falsos profetas tanto conquistam seguidores. Notemos estas palavras de Jesus: “Então, se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo! Ou: Ei-lo ali! Não acrediteis; porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos” (Mt 24.23,24). Segundo o apóstolo Paulo, o não acolhimento da verdade abre as portas para o erro religioso ratificado por prodígios diabólicos: “Ora, o aparecimento do iníquo é segundo a eficácia de Satanás, com todo poder, e sinais, e prodígios da mentira, e com todo engano de injustiça aos que perecem, porque não acolheram o amor da verdade para serem salvos” (1Ts 2.9,10).
Pois bem, Nicodemos reconheceu o caráter sobrenatural do ministério de Jesus, mas isso pode não ser nada porque até mesmo o Diabo conhece a origem divina do Salvador: “Não tardou que aparecesse na sinagoga um homem possesso de espírito imundo, o qual bradou: Que temos nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste para perder-nos? Bem sei quem és: o Santo de Deus!” (Mc 1.23,24). Nicodemos necessitava experimentar, em si, o poder da operação sobrenatural do novo nascimento (3.6,8).
O novo nascimento não é o mero aperfeiçoamento ou reforma da velha natureza.
Novo nascimento também não é uma mera reforma moral e comportamental, e isso já deveria ficar bastante evidente a partir da forma como Escritura nomeia essa operação do Espírito. A experiência de nascer de novo ou do alto, em João 3, é também ddenominada de “lavar regenerador e renovador do Espírito Santo” (Tt 3.5), de concepção ou geração espiritual (Tg 1.18), de regeneração (1Pe 1.3,23), de nova criação (2Co 5.17), de nascer de Deus (1Jo 4.7), de ressurreição espiritual (Ef 2.4,5), de passar da morte para a vida (1Jo 3.14). Todos esses termos apontam para uma operação radical, dando a entender que algo totalmente novo deve surgir, não meramente um conserto da velha natureza.
Por que a necessidade de uma operação assim, tão radical? A razão é esta: a queda da humanidade em pecado foi tão catastrófica que nada sobrou que pudesse ser aproveitado, emendado ou remediado. Paulo o diz: “… o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar” (Rm 8.7). Tudo que sobrou não passa de ruína, trapos imundos e morte. Por isso, nada que seja menos radical que o novo nascimento reverte os efeitos do pecado. Carecemos, então, de uma natureza totalmente nova, do surgimento de um tipo de vida até então inexistente, formada em nós pelo Espírito Santo que em nós, após regenerar-nos, passa a habitar.
Conclusão
Já deu para perceber a importância dos estudos ora iniciados. Estivemos debruçados sobre aquela conversa de Jesus com o fariseu Nicodemos. Vimos que a conversa nos diz respeito e seu teor é de importância crucial. É sobre nascer de novo.
Compreendemos, por fim, que novo nascimento não é a obtenção de um novo sistema religioso, nem a mera percepção do caráter divino do ministério de um operador de milagres, nem tampouco simples e superficial aperfeiçoamento ou reforma da velha natureza.O que é, então, o novo nascimento? É o que veremos na próxima lição.

