Vivendo para a glória de Deus

Assim, quer vocês comam, bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus.

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A igreja em Corinto era bastante problemática. É o que podemos deduzir da correspondência do apóstolo Paulo com ela e, ainda em fins do século primeira, da carta a essa igreja escrita por Clemente de Romano. 

A Carta 1Coríntios foi escrita por pelos menos três razões: primeiro, para tratar dos problemas das constantes divisões da igreja e da formação de partidos em torno dos líderes cristãos famosos (capítulos 1-4); segundo, para tratar da heresia que pregava a negação da ressurreição dos corpos (capítulo 15); terceiro, para responder a questões e dúvidas enviadas por carta pela própria igreja ao apóstolo (capítulos 7, 8-10, 12-14).

1Coríntios e a carne sacrificada aos ídolos 

Uma das questões levantadas pela igreja e que seria urgente que Paulo que respondesse foi a problemática em torno da carne sacrificada aos ídolos. 

Corinto era uma cidade fortemente pagã. Em seus templos eram sacrificados animais aos ídolos, cuja carne era levada para ser vendida no açougue público. Era praticamente impossível comer uma carne em Corinto de um animal que não tivesse sido sacrificado nesses templos.

Então surgiu a seguinte questão na igreja: ao cristão é dado comer da carne de um animal que havia sido sacrificado aos ídolos? E mais: um cristão poderia livremente sentar à mesa em um templo pagão e comer daquilo que lhe oferecessem?

A controvérsia dividiu a igreja e fez nascer dois partidos. Vou chamar o primeiro de “partido mente fechada” (PMF), e o segundo de “partido mente aberta” (PMA). 

O PMF respondia com um retumbante “não”: “É claro que um cristão não pode comer de uma carne que foi sacrificada a ídolos e muito menos participar de uma festividade pagã em um templo idólatra. Quando ele faz isso, ele realmente se desvia da fé e blasfema contra Deus, coisa aceitável somente por esses crentes modernex do PMA”.

O PMA, no extremo oposto, respondia a questão com um sonoro “sim”: “É claro que um cristão pode comer da carne sacrificada a ídolos e até mesmo participar de uma festividade pagã, porque um ídolo nada é no mundo e só existe um Deus e um Senhor. Portanto, quando estamos comendo uma carninha lá com nossos amigos do templo da deusa Afrodite, isso não significa absolutamente nada. Um ídolo é apenas um pedaço de barro, e só esses crentes cafonas do PMF não sabem disso”.

Paulo desejou solver a celeuma e lançar luz sobre o tema, porque cria que a verdade é que nos une. Não há unidade sem verdade! E, como verdadeiro mediador, ele tem muitas coisas a dizer a ambos os partidos da igreja.

Ao PMF ele diz que de fato um ídolo nada é (8.4) e que só existe um Deus e um Senhor (1Co 8.6). Que esse partido pare de recriminar os irmãos do PMA, porque quem come de carne sacrificada a ídolos não é inferior e quem não come não é superior (1Co 8.8). 

Mas ele também tem uma reprimenda ao PMA. Para esse partido também o apóstolo volta sua metralhadora e diz-lhe que o saber desses irmãos é oportuno. De fato, o ídolo nada é e só existe um Deus e um Senhor. Entretanto, esses irmãos não podem usar o conhecimento que têm para esmagar a consciência dos fracos (1Co 8.9), porque um fraco pode ser levado de volta aos ídolos ao ver um crente comendo carne sacrificada em templos pagãos (1Co 8.10).

E tem mais. Os irmãos “mente aberta” precisam também entender que, embora os ídolos nada sejam e só exista um Deus e um Senhor, a adoração pagã não é de todo destituída de consequências espirituais. Na verdade, adoração a ídolos é adoração a demônios e quem participa desses sacrifícios está de uma maneira muito real entrando em uma comunhão com demônios (1Co 10.19, 20). E não é possível sentar à mesa do Senhor e à mesa dos demônios (1Co 10.21). Isso é provocar o ciúme de Deus, coisa que jamais devemos fazer (1Co 10.22)!

Entendendo a vontade do Senhor de acordo com 1Coríntios

Percebam que o dilema em Corinto abriu portas para o apóstolo oferecer orientações à Igreja de todos os tempos e lugares acerca da vontade de Deus! Como conhecer a vontade de Deus? Como saber se fazemos a vontade de Deus em certa circunstância? Paulo nos oferece uma espécie de passo a passo nesse processo complexo de fazer a vontade de Deus, notadamente em situações limítrofes. Vejamos.

Em um primeiro momento, devemos de pronto saber se há uma lei explícita, um preceito revelado sobre a vontade de Deus para a questão específica. A primeira pergunta a ser feita quanto à tomada de um determinado curso de ação é esta: “É licito?” (1Co 6.12; 10.23). Tudo quanto é ilícito deve ser automaticamente descartado pelo cristão. Nesse sentido, Paulo proibiu aos cristãos a participação em cultos pagãos (1Co 10.14-22).

O problema maior, entretanto, ocorre quando estamos transitando em uma zona intermediária, ou talvez até moralmente neutra. São inúmeros os casos em que a regra não é clara. O que fazer nesses casos? Embora a princípio moralmente neutras, essas questões não são irrelevantes e podem se tornar moralmente impactantes, positiva ou negativamente. Por outro lado, nem podemos buscar conhecer uma resposta específica através de meios pagãos (cartomantes, adivinhos, astrologia etc.), e, nem ainda por meios “cristãos” (sonhos ou algo do tipo “ouvir” Deus falar ao nosso coração etc.). O caminho a ser seguido é orar, pedir a Deus sabedoria e atentar às orientações da Palavra de Deus, que passo a destacar.

Primeiro, sendo lícito determinado comportamento, deve-se arguir: “Edifica?” “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm (…)” (1Co 6.12). “(…) todas [as coisas] são lícitas, mas nem todas edificam” (10.23). Existem atitudes que não são ilícitas, mas prejudicam; no mínimo, não promovem edificação. Assim, não é possível passar pelas questões controversas simplesmente dizendo que a Bíblia não proíbe. É necessário verificar quais as consequências dos nossos atos à vida das pessoas.

Segundo, imaginemos que determinado comportamento nem é ilícito nem prejudicial a outrem, mas prejudica a quem o pratica, a minha relação com Deus, minha vida devocional etc. Estou pensando, a título de exemplo, em um solteiro viciado em trabalho. A princípio, realizar um trabalho lícito não é tarefa ilícita. Sendo solteiro, não haveria em nossa hipótese pessoas diretamente afetadas pela ausência do viciado. Mas também precisamos perguntar se tal postura “convém” ou se “escraviza”. “Todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm” (1Co 10.23). “Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas” (1Co 6.12).

Terceiro, sendo lícito e não manifestamente inconveniente ou escravizante, eis a pergunta crucial: “Glorifica a Deus?” Leiamos o apóstolo: “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31). Essa última pergunta nos ensina a testar todas as decisões sob o crivo do amor a Deus e nos lembra que muitas ações não pecaminosas em si mesmas têm por base motivos pecaminosos.

Conclusão 

O que glorifica a Deus? O que devemos fazer para a glória de Deus? Quem pode glorificar a Deus e como? 1Co 10.31 é maravilhoso para nos fornecer a resposta a todas essas questões:

Primeiro, nós devemos glorificar a Deus em tudo, em todo o nosso viver. Não apenas “tentando grandes coisas para Deus e esperando grandes coisas de Deus”. Toda a nossa vida deve ser um louvor ao nosso Deus! Isso inclui decisões de grande e de pequeno impacto, conforme passamos a detalhar.

Segundo, nós devemos glorificar a Deus quando os olhos do público não estão postos sobre nós e… dentro da nossa casa! Quem primeiro precisa nos ver glorificando a Deus é quem mora conosco.

Terceiro, nós devemos glorificar a Deus diariamente, e não através de surtos de “crentice” – aos domingos, nas viagens missionárias e nos congressos etc. A vida madura é resultado de perseverança. É assim em tudo na vida.

Quarto, nós devemos glorificar a Deus tendo prazer em Deus nas coisas mais simples, como também contemplando Sua boa mão conduzir todas as coisas. A providência do Soberano inclui tanto a manutenção do seu imenso universo como a dádiva diária do pão que chega à nossa mesa diariamente.   

Quinto, nós devemos glorificar a Deus com aquilo que podemos fazer, e não viver de sonhos por um serviço que jamais viremos a realizar. “Florescer onde está plantado” é a regra da vida, que inclui florescer nos limites que dispomos, como e quando os dispomos.

Há tanto a dizer sobre viver para a glória de Deus. Espero que o leitor encontre no textinho que leu uma orientação segura para prosseguir…

SDG

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