As Três Grandes Influências na Formação do Caráter Cristão

A Criação, A Conversão e A Comunhão

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Modo noturno
Texto-base do sermão pregado na 1ª. Igreja de Caruaru, 
Em 10 de maio de 2020

A propósito do dia das mães, lidaremos com um tema que toca a missão dos pais, no ambiente doméstico, na formação da mentalidade cristã dos filhos. Tenciono demonstrar a importância da influência de uma mãe e de uma avó na formação de um dos homens mais mencionados no Novo Testamento, Timóteo.

Nesse sentido, discorrerei sobre “as três grandes influências na formação do caráter cristão”, a partir da vida de Timóteo, quais sejam: a criação a conversão e a comunhão. A rima pretende favorecer a assimilação.

Leiamos Filipenses 2.19-23: 

Espero, porém, no Senhor Jesus, mandar-vos Timóteo, o mais breve possível, a fim de que eu me sinta animado também, tendo conhecimento da vossa situação. Porque a ninguém tenho de igual sentimento que, sinceramente, cuide dos vossos interesses;pois todos eles buscam o que é seu próprio, não o que é de Cristo Jesus. E conheceis o seu caráter provado, pois serviu ao evangelho, junto comigo, como filho ao pai. Este, com efeito, é quem espero enviar, tão logo tenha eu visto a minha situação.

Considerações iniciais

Antes de tudo, duas considerações devem chamar a nossa atenção. A primeira é que, embora possamos ver a criação (no lar), a conversão (pela regeneração) e a comunhão (da igreja) como os grandes fatores que contribuem à piedade cristã, jamais negaremos que de acordo com o governo soberano de Deus um conjunto muito mais abrangente de experiências e influências contribui para sermos quem viemos e o que viremos a ser. 

Paulo, por exemplo, certamente se tornou o Paulo que conhecemos como o grande apóstolo dos gentios a partir de fatores que o influenciaram desde a infância em Tarso da Cilícia até seu contato com Gamaliel, o grande rabino, em Jerusalém. Assim, não negamos a importância de um professor cristão (ou não cristão), na escola ou na faculdade, à formação de quem somos como pessoa integral. Entretanto, sem negar a importância dessa influência mais abrangente, insistimos nisso: “as três grandes influências na formação do caráter cristão” são, sem dúvida, “a criação, a conversão e a comunhão”.

A segunda consideração preliminar é que das três grandes influências sobre o nosso caráter (a criação, a conversão e a comunhão), a única influência fundamental é a conversão. Eu e vocês conhecemos cristãos piedosos que não tiveram a melhor das influências no lar, mas a conversão deles marcou uma profunda, evidente e definitiva transformação. Também sabemos haver pessoas que, embora tenham conhecido Jesus Cristo salvadoramente, não tiveram oportunidade de viver na comunhão de uma comunidade da fé. O exemplo fácil de lembrar é o ladrão arrependido da cruz. Nada obstante, pessoas desse tipo foram profundamente impactadas pela conversão e passaram a amar a Deus progressivamente. 

Feitas essas considerações, dediquemo-nos agora a demonstrar, a partir da vida de Timóteo, que as três grandes influências na formação do caráter cristão são a criação, a conversão e a comunhão.

O caráter de Timóteo

Timóteo é dos companheiros de Paulo o citado com mais frequência nas Cartas do apóstolo. Pelo que podemos deduzir a partir dessas Epístolas, ele era bem mais novo que Paulo, de temperamento tímido, de personalidade pouco cativante, talvez constantemente carente de estímulos para prosseguir na jornada, mas profundamente comprometido com a causa do evangelho. A respeito dele, Paulo escreveu em Filipenses 2.19-23, o texto em epígrafe.

Paulo escreveu Filipenses de uma prisão domiciliar em Roma. Ele estava somente esperando saber mais sobre o possível destino da sua situação processual para enviar Timóteo aos filipenses (v. 23). Em Filipos, Timóteo deveria informar aos irmãos daquela cidade a situação de Paulo, como também se inteirar da vida da igreja a fim de retornar com tais informações a Paulo. O apóstolo desejava, com o envio de Timóteo, tanto animar os filipenses com notícias encorajadoras sobre si como também ser animado com notícias dos filipenses trazidas por Timóteo (v. 19).

Neste contexto e nesta passagem, Paulo informa duas características de Timóteo que dizem muito sobre o seu caráter cristão. Primeiro, ele diz que dentre aqueles que estavam com ele, com Paulo, Timóteo era o único que considerava como mais importantes os interesses da igreja, que se confundem com os interesses de Jesus Cristo, do que os próprios interesses (vs. 20,21). Segundo, que os filipenses já conheciam o “caráter provado” de Timóteo, companheiro de Paulo na causa do evangelho. Timóteo já tinha sido suficientemente experimentado nas missões cristãs e sua aprovação já era conhecida das igrejas ao tempo em que Paulo escreveu Filipenses, durante a primeira prisão em Roma (talvez em 61 d.C.).

De fato, Timóteo se uniu a Paulo e Silas no início da segunda viagem missionária (At 16.3). Já naquele tempo, Lucas diz que os irmãos de Listra e Icônio davam bom testemunho dele (At 16.2). É provável que naquele momento tenha ocorrido a ordenação de Timóteo ao ministério, com a imposição de mãos do presbitério da igreja em Listra (1Tm 4.14) e com a participação do próprio Paulo (2Tm 1.6).

A partir de então, Timóteo esteve com Paulo em Filipos, Tessalônica, Bereia, Atenas e Corinto, cidades visitadas na segunda viagem missionária. Na terceira viagem missionária, Timóteo acompanhou o apóstolo no ministério em Éfeso e, após uma viagem por ordem de Paulo à Macedonia e Corinto, reencontrou o apóstolo e seguiu com ele rumo a Jerusalém, onde Paulo foi preso. Sabe-se ainda que Timóteo esteve próximo de Paulo na primeira prisão em Roma e, ao tempo em que o apóstolo escreveu 1Timóteo, já liberto da primeira prisão, Timóteo estava em Éfeso.

Meses depois, Timóteo recebeu 2Timóteo, escrita por Paulo em sua segunda prisão em Roma, quando o apóstolo já esperava a morte. Paulo pede a Timóteo que faça o possível para ir vê-lo antes do inverno (2Tm 4.9,21), sendo esta a última notícia que temos dele. 

Quer ao lado do apóstolo, quer viajando como emissário do apóstolo, a fidelidade de Timóteo à causa do evangelho fê-lo vencer a timidez natural e o capacitou a jamais dizer “não” a algum pedido do apóstolo quando o que estava em jogo era um interesse do reino de Deus. 

As três influências

A nossa questão é: quais as grandes influências que contribuíram à formação do caráter cristão de Timóteo? Quais os fatores mais importantes que, somados, fizeram de Timóteo quem ele se tornou, tão capaz de contribuir relevantemente à obra missionária, a despeito de suas limitações naturais? A resposta é esta: a criação (no lar), a conversão (pela regeneração do Espírito) e a comunhão (com a igreja). Senão, vejamos.

A criação (no lar)

Embora Timóteo fosse filho de pai grego, pagão (At 16.1), ele sofreu a influência decisiva da piedade da sua avó, Loide, e da sua mãe, Eunice

Paulo destaca a influência dessas mulheres na vida de Timóeo em dois lugares. Em 2Timóteo 1.5, Paulo diz que a “fé sem fingimento” de Timóteo se encontrava primeiro na avó e na mãe: “pela recordação que guardo da tua fé sem fingimento, a mesma que, primeiramente, habitou em tua avó Loide e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também, em ti”. Esse versículo comunica que a fé cristã havia chegado primeiro ao coração delas; somente depois, ao coração dele. 

Lucas, em Atos 16.1, já introduz Timóteo como sendo filho de uma “crente judia”, talvez membro da igreja de Listra, convertida anteriormente, na primeira viagem missionária do apóstolo, em 47 d.C. Se Paulo chegou em Listra outra vez em 51 d.C., e já encontrou Timóteo convertido, é possível concluir que sua conversão passou pela influência da avó e da mãe.

Além disso, 2Timóteo 3.15 informa que Timóteo havia sido instruído nas “sagradas letras” “desde a infância”: “e que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus”. Isso quer significar que mesmo antes da conversão a Cristo, a avó Loide e a mãe Eunice tinham ensinado Timóteo de acordo com os padrões da piedade israelita, desde sua tenra idade, “desde a infância”, palavra que indica criança ainda bem pequena. 

O fato marcante para nós é a influência da piedade dessa avó e dessa mãe, que ensinaram Timóteo a familiarizar-se com o Antigo Testamento e, consequentemente, com a esperança messiânica. Depois, convertidas, aceitando Jesus como o Cristo, mantiveram a influência sobre o jovem e certamente estiveram na linha de instrumentos divinamente úteis à conversão de Timóteo. 

Essa insistência de Paulo quanto à influencia da avó e da mãe sofrida por Timóteo, desde a infância, primeiro no ambiente da piedade israelita, depois na fé cristã, sublinham a importância da influência de uma mãe crente (e de uma avó crente), na formação do caráter cristão dos filhos (e dos netos).

A conversão (pela regeneração do Espírito)

Em Timóteo, esses privilégios de conhecer a esperança messiânica no contexto da piedade judaica e o cumprimento dessa esperança na fé cristã não foram vãos

Timóteo se converteu. Abraçou a fé cristã. Creu que Jesus era o cumprimento de antigas promessas, Aquele por meio de quem Deus reconciliaria o Seu povo consigo. 

Ele se converteu entre os anos 47 e 51. O Espírito de Deus usou a Palavra pregada pelos missionários Paulo e Barnabé, na primeira viagem missionária, e regenerou a avó e a mãe de Timóteo, por cuja instrumentalidade foi ele, por fim, também regenerado. “Pois, segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade…” (Tg 1.18). 

É do coração regenerado que brota a conversão, que nada mais (nem nada menos) é que a fé e o arrependimento. Converter-se é se voltar para Deus em fé e arrependimento. Esse é o ponto de virada na formação do caráter cristão. É aqui que a vida cristã autêntica começa. Aqui se tem o início da santificação, como processo de refazimento gradativo da imagem de Deus.

Timóteo foi transformado pela regeneração, converteu-se ao Senhor, passou a crer que Jesus Cristo é o cumprimento da esperança messiânica que ele nutria desde a infância. Essa conversão é de tal modo divisor de águas que Lucas diz que havia em Listra “um discípulo chamado Timóteo” e que “dele davam bom testemunho os irmãos em Listra (sua cidade) e Icônio (distante cerca de 31 km)” (At 16.1,2). O jovem crente e recém-convertido já possuía considerável reputação por sua piedade, que até extrapolava os limites da sua cidade. Isso é resultado de conversão autêntica e nos faz concluir que um caráter cristão genuinamente aprovado não surgirá sem aquele retorno necessário da alma devota para Deus e com repulsa daquilo que o desagrada.

A comunhão (com a igreja)

Essas mesmas informações de Lucas também nos forçam a concluir que Timóteo foi encontrado por Paulo no contexto de uma comunhão cristã, de uma igreja instituída nos termos do Novo Testamento

Paulo havia plantado a igreja em Listra na primeira viagem missionária. Lá ele havia sido apedrejado. De lá partiu para evangelizar Derbe e fazer o caminho de volta, exortando os irmãos recém-convertidos a permanecerem firmes e organizando as igrejas, promovendo a eleição de presbíteros (At 14.20-23). 

Com aqueles discípulos Paulo encontrou o discípulo Timóteo. Ele se converteu e se tornou parte de uma comunhão cristã, o ambiente por excelência onde o Espírito dispensa os meios de graça para a nossa santificação. Desde então, Timóteo nunca mais se apartou do convívio igrejeiro, estando sempre a serviço da causa do evangelho no serviço às igrejas.

Notável que Paulo distingue a operação específica do Espírito na bênção apostólica como sendo a “comunhão” (2Co 13.13). A graça é do Senhor Jesus, o amor é de Deus e a comunhão é do Espírito Santo. Aos Efésios, é dito que há uma “unidade do Espírito”, a que somos exortados a preservar com diligência no vínculo da paz, para em seguida dizer que “há somente um corpo e um Espírito”, dando a entender que é o Espírito que une os crentes no corpo místico de Cristo (Ef 4.3,4), noção também presente em 1Coríntios 12.13: “Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo”. 

Digno de nota também é Filipenses 2.1-4, onde Paulo registra que a realidade de haver, dentre outras experiências, a “comunhão do Espírito” (v. 1) torna possível a humildade que mantém a unidade da igreja. A conclusão é não apenas que a comunhão é produto da operação do Espírito Santo, mas que essa comunhão é geradora de caráter cristão genuíno ou, dizendo de outro modo, que é na comunhão que os meios de graça são dispensados por Deus e aproveitados pelos crentes. 

Conclusão

A minha conclusão, portanto, é que Deus usa principalmente três influências para modelar em nós o caráter cristão: 

  • Primeiro, a influência de um lar piedoso, de pais piedosos, senão de uma mãe ou de uma avó piedosas, como no caso de Timóteo. Não se deve subestimar a influência do berço, como se diz. 
  • Segundo, o impacto da conversão a Deus como resultado da regeneração do Espírito pela Palavra, o ponto inicial da vida cristã, o começo da estrada da santificação. 
  • Terceiro, a “comunhão dos santos” ou a “comunhão do Espírito”, no contexto de um povo que se reconhece como igreja, como o lugar onde o Espírito dispensa os meios de graça. 

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