Uma elucidação inicial
Jesus transformou água em vinho em umas bodas de casamento ocorridas em Caná da Galileia, por volta de fevereiro ou março do ano 27 d.C. (Jo 2.1-11). Depois desse evento, Ele desceu a Cafarnaum com sua mãe e seus discípulos, onde permaneceu somente alguns dias (v. 12), isso porque se aproximava a Páscoa, que aconteceria por volta do mês de abril daquele ano, razão pela qual subiu para Jerusalém (v. 13).
A Páscoa é uma festa anual em que os judeus comemoram a libertação do Egito. Todos os anos, todos os judeus acima de doze anos deveriam ir a Jerusalém para essa celebração. No dia 14 do mês de “abib” ou “nisan”, que corresponde ao mês de março em alguns anos e abril em outros, um cordeiro macho de um ano e sem defeito era sacrificado entre 3 e 5 horas da tarde.
A Páscoa era associada com a festa dos Pães Asmos, que a seguia e perdurava por sete dias. Ambas as festas, a Páscoa e os Pães Asmos, eram tão estreitamente relacionadas que ambas eram chamadas simplesmente Páscoa: “Estava próxima a festa dos Pães Asmos, chamada Páscoa” (Lc 22.1); “No primeiro mês, no dia catorze do mês, tereis a Páscoa, festa de sete dias; pão asmo se comerá” (Ez 45.21).
Já em Jerusalém, Jesus foi ao templo e encontrou o pátio reservado aos gentios cheios negociantes. Uma verdadeira feira da sulanca no pátio do templo de Jerusalém. Pessoas viajavam de longe e provavelmente tinham dificuldade de levar seus próprios animais para o sacrifício do templo. Além disso, o pagamento do tributo no templo só poderia ocorrer em moeda judaica – tratava-se do tributo anual de metade de um siclo (Ex 30.13).
Pois bem, para “facilitar” a tarefa dos adoradores, um grande e lucrativo negócio foi estabelecido na área reservada aos gentios, muito provavelmente sob o comando o Anás, o sumo-sacerdote. É por isso que havia ali “os que vendiam bois, ovelhas e pombas [animais para o sacrifício] e também os cambistas assentados [para trocar as mais variadas moedas estrangeiras em moeda aceita no templo]” (v. 14).
O lugar era sujo e barulhento, as atividades e o cenário geral eram inapropriadas para a razão de ser do lugar, sem falar das fraudes e cobranças abusivas nos preços dos animais e na taxa de câmbio. Foi esse estado de coisas que Jesus encontrou.
A atitude de Jesus: o zelo que consome
A reação de Jesus está descrita nos versículos 15 e 16. Jesus improvisou um chicote com pedaços de corda, expulsou todos os traficantes e seus animais do templo, virou as mesas dos cambistas, espalhando seu dinheiro ao chão e ainda disse aos que vendiam pombas que tirassem suas gaiolas dali e que não fizessem “da casa de meu Pai casa de negócio”. Notemos que Jesus está reivindicando publicamente sua filiação divina especial, exclusiva, essencial.
A reação dos discípulos: Ele é o Messias
Como os discípulos reagiram à atitude de Jesus?
Eles ficaram grandemente admirados com o feito e viram na cena um cumprimento de Salmos 69.9: “O zelo da tua casa me consumirá” (v. 17). No salmo, lê-se sobre o que havia acontecido com Davi por seu zelo pela casa do Senhor. Ele diz que eram muitos os que lhe odiavam e poderosos os seus destruidores (v. 4), que ele estava suportando afrontas por amor a Deus (v. 7); “Pois o zelo da tua casa me consumiu, e as injúrias dos que te ultrajam caem sobre mim” (v. 9). Os discípulos se recordam do salmo e o citam (com o verbo no futuro) como uma forma de profecia (não consciente) do que aconteceria a Jesus como resultado do seu zelo pela casa do seu Pai.
Mas, não só. É possível que esse salmo fosse considerado messiânico pelos discípulos já nessa época, caso em que saberiam que o caráter do Messias seria permeado de zelo pela casa de Deus. Ver essa marca em Jesus pode tê-los enchido da convicção de que de fato estavam frente a frente com o Messias (Barclay).
A reação dos judeus: “Que sinal nos mostras?”
E qual foi a reação dos judeus? Estes (provavelmente sacerdotes, escribas, a polícia do templo), não puderam contrariar a Jesus. Não seria mesmo o caso de dizer que ele havia agido mal, contra Deus, contra Lei de Moisés e contra o templo – Jesus, afinal, havia purificado o templo.
Então, eles inquiriram a Jesus a respeito da autoridade que tinha para fazer o que fez. Quais eram as credenciais de Jesus que o autorizariam a purificar o templo daquele modo? Especialmente, se se esperaria uma atitude como aquela somente do Messias, e se Jesus com aquela atitude estava manifestando sua messianidade, quais as credenciais que ele apresentaria para agir como se Messias fosse? “Afinal, já que você age como Messias, mostre-nos que és Messias por meio de sinais”. Diz a passagem: “Que sinal nos mostras, para fazeres estas coisas?” (v. 18).
É notável que ao invés de os judeus terem se sentido pesarosos pelo que faziam no templo, transformando-o em “casa de negócio”, e se arrependido do seu pecado, concentraram-se em questões formais, sobre a autoridade daquele que denunciava seus erros. Ora, qualquer que nos disser que pecamos, não importa quem seja, é nosso dever avaliar seriamente a conduta e, de posse dessa consciência, confessar a Deus o pecado e abandoná-lo. Não foi o que os judeus fizeram!
O sinal apresentado por Jesus
Qual o sinal apresentado por Jesus? Este: “Destruí este santuário, e em três dias o reconstruirei” (v. 19). O que temos aqui é uma forma enigmática de linguagem. Tudo é dito, mas nada está muito claro. “Destruir” pode ser usado tanto para edifícios como para vidas de pessoas. “Reconstruir” pode indicar o refazimento de um prédio, como também a ressurreição de um morto. Jesus está dizendo que eles, os judeus, e não ele, Jesus, destruiriam “este santuário”, mas em três ele, Jesus, e não eles, os judeus, o reconstruiria. Há uma relação bem íntima, portanto, entre Jesus e o templo.
De fato, o corpo de Jesus e o templo não podem ser separados na linguagem usada por Jesus. O templo de Jerusalém havia sido erguido, conforme a Palavra de Deus, para ser uma casa de oração, o lugar onde Deus se encontraria com o seu povo. Mas tudo isso era apenas uma figura em relação a realidades mais altas. Jesus seria “destruído” na cruz e “reconstruído” na ressurreição para que ele se tornasse o novo templo e fizesse da Igreja, seu corpo, o novo templo, para a adoração do Pai, por Ele, no Espírito Santo e na verdade.
Mas, não esqueçamos, a figura e a realidade são inseparáveis. O templo era o lugar da habitação de Deus, Jesus é aquele em quem reside toda a plenitude de Deus (Cl 1.19). No momento em que o corpo de Jesus fosse destruído, o templo também seria, em pelo menos dois sentidos: primeiro, sua razão de ser deixaria de ser existir – o véu seria rasgado, a parede da separação seria derrubada (Ef 2.14), um novo caminho seria aberto (o Novo Testamento possui diversas fórmulas para dizer a mesma coisa); segundo, o pecado da condenação do justo Jesus resultaria na destruição física do templo físico de Jerusalém, o que de fato ocorreu no ano 70. Note-se que a destruição do templo de Jerusalém está relacionada a esses dois fatores: o templo perde o sentido porque este se esgota na cruz e na ressurreição de Jesus; o pecado dos judeus foi simbolicamente punido.
Como costuma ocorrer no Evangelho de João, a interpretação literal de ditos figurados leva a conclusões bizarras (v. 20). De fato, Herodes havia iniciado uma série de reformas no templo de Jerusalém por volta de 20 ou 19 a.C. – há 46 anos -, reforma que continuaria por mais 20 anos. “Como Jesus reconstruiria tudo aquilo em três dias?” foi a pergunta tola dos judeus.
João esclarece aos seus leitores, para que não incorramos no mesmo equívoco ingênuo dos judeus, que “Ele, porém, se referia ao santuário do seu corpo” (v. 21). O templo, ressalto, era apenas um tipo passageiro do corpo de Cristo!
Palavras distorcidas e esquecidas
Pronto. O dito enigmático (“Destruí este santuário, e em três dias o reconstruirei”) talvez tenha sido esquecido pelos discípulos, mas certamente permaneceu incompreendido por eles durante todo o ministério terreno de Jesus (v. 22).
Mas houve uma gente que não esqueceu! Esse mesmo dito seria distorcido três anos depois, ganhando o sentido de que Jesus teria dito que ele, Jesus, destruiria o templo. O Sinédrio estava buscando motivo para matar Jesus quando apareceram duas testemunhas afirmando que Jesus disse o seguinte: “Posso destruir o santuário de Deus e reedificá-lo em três dias” (Mt 26.61). Mais ainda, é mesmo possível que Estêvão tenha, como parte da sua argumentação, citado esse mesmo dito de Jesus, mas que, na boca de falsas testemunhas, recebeu sentido desvirtuado para levar o servo de Deus ao martírio: “porque o temos ouvido dizer que esse Jesus, o Nazareno, destruirá este lugar…” (At 6.14).
Em resumo, o dito foi distorcido pelos inimigos da fé cristã e esquecido pelos discípulos, até que “Jesus ressuscitou dentre os mortos”, disse João, momento em que “lembraram-se os seus discípulos de que ele dissera isto; e creram na Escritura e na Palavra de Jesus” (v. 22).
Algumas considerações devem ser destacadas, à luz do nosso texto:
- A boa semente há de germinar no tempo certo.
A palavra de Jesus foi “esquecida” por três anos, até que voltou à mente dos discípulos após a ressurreição. Isso é motivo de alento aos pastores, que tantas vezes acreditam que pregam em vão; aos pais, que não veem a semente germinar imediatamente e até mesmo percebem que os filhos se voltam contra ela, negando tudo que aprenderam; e aos professores, que tampouco veem o resultado imediato do seu ensino.
Entretanto, J. C. Ryle adverte que esses ensinos, orientações e sermões “após um intervalo de muitos anos, frequentemente voltam à lembrança”. Diz que “A boa semente, às vezes, germina quando quem a semeou já faleceu há muito tempo”, e conclui: “Que os pregadores continuem a pregar, e os professores prossigam em ministrar, e os pais insistam em ensinar os filhos no caminho em que devem andar! Que todos estes semeiem a boa semente da verdade bíblica, com fé e paciência. Não é vão no Senhor o trabalho que realizam. Suas palavras serão lembradas mais do que podem imaginar, e ainda frutificarão depois de muitos dias”.
O texto ensina a confiar que a Palavra de Deus é a boa semente que frutifica no tempo por Ele determinado.
- A Palavra de Deus é digna de toda confiança.
A mensagem de Jesus aos judeus naquele dia ficou na gaveta da memória dos discípulos até que a compreensão plena dela veio às suas mentes, quando do seu cumprimento. É como disse Irineu: “Nenhuma profecia é compreendida de modo completo até que se cumpra”. Cumprida a profecia e compreendido o seu significado, os discípulos creram na Escritura (v. 22). Em especial, os discípulos creram na Escritura que predisse a ressurreição de Jesus.
Essa ressurreição começou a ser já antevista e antedita no proto-evangelho: “… este lhe ferirá a cabeça [ferida mortal irreversível], e tu lhe ferirás o calcanhar [ferida reversível]” (Gn 3.15). Isaías 53, texto que esteve sempre na mente de Jesus e da igreja primitiva, assim disse: “Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do Senhor prosperará nas suas mãos. Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma…” (Is 53.10,11).
Também os discípulos creram na Escritura que diz: “… nem permitirás que o teu santo veja corrupção” (Sl 16.10). Pedro citou esse salmo no Pentecostes (At 2.31) e Paulo em Antioquia (At 13.35). Mais ainda, João equipara a Palavra de Jesus à Escritura, colocando ambas no mesmo nível de aceitação por parte dos discípulos: “creram na Escritura e na Palavra de Jesus”.
Em síntese, a ressurreição de Jesus demonstra cabalmente que toda a Palavra de Deus é inteiramente digna da nossa confiança. Ela se cumprirá em tudo quanto promete e em tudo quanto ameaça, e não passará até que um único “til” ou “i” se cumpra.
O texto ensina a confiar na fidelidade da Palavra de Deus, por causa da fidelidade do Deus da Palavra.
- Há uma nova adoração já vigente.
A linguagem da destruição do corpo de Jesus em consonância com a destruição do templo de Jerusalém já prenunciava uma nova forma de adoração despontando na história.
Jesus de fato esperava o fim do templo, sabia que ele se tornaria desnecessário e sua adoração, obsoleta. Ele diria em breve à mulher samaritana que os homens adorariam a Deus não no monte Gerizim, nem em Jerusalém, mas em Espírito e em verdade (Jo 4.21). É mesmo possível, como sugere Barclay, que a purificação do templo tenha sido uma denúncia velada de Jesus sobre a impossibilidade de o templo promover, com todo o seu ritual e mobiliário, real contato do homem com Deus.
Em suma, quando Jesus se refere a si como o templo, o que disse é que o homem não pode fazer coisa alguma para se reconciliar com Deus e entrar à sua presença e gozar da sua comunhão. O caminho da adoração é possível e está aberto, mas somente porque Deus o manifestou em Jesus Cristo morto e ressurreto.
É por causa do que Deus fez em Jesus que nos tornamos nós mesmos o templo, o lugar de adoração, e que somos nós mesmos a adoração que é entregue a Deus, e que somos nós mesmos e a um só tempo os adoradores por meio de Jesus. Em Jesus, e no Espírito, somos o lugar, a oferta e os sacerdotes para a adoração de Deus.
Os nossos serviços são, pois, diários, ininterruptos, ubíquos, no lar, na casa de oração da igreja, no trabalho, nos relacionamentos.
Mas, isso não é tudo. Chegará o tempo em que até as presentes formas de adoração perderão o sentido, quando a morada de Deus for também a morada dos homens. No tempo em que não houver tempo, a adoração será perfeita porque contemplaremos o Senhor como ele é.
Em síntese,
- O texto ensina a confiar que a Palavra de Deus é a boa semente que frutifica no tempo por Ele determinado;
- O texto ensina a confiar na fidelidade da Palavra de Deus, por causa da fidelidade do Deus da Palavra;
- O texto ensina que caminho da adoração é possível e está aberto, mas somente porque Deus o manifestou em Jesus Cristo morto e ressurreto. Nessa nova adoração em curso, nós, os crentes em Cristo e por meio dele, somos o lugar de adoração e os sacerdotes que ofertam (1Co 3.16; 6.19; 1Pe 2.5), bem como a oferta que é entregue a Deus (Rm 12.1).

