O EVANGELHO PARA TODOS[4]

Parte final

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Modo noturno

Já aprendemos verdades essenciais extraídas da Palavra de Deus nos estudos anteriores. Refletimos seriamente sobre a santidade de Deus e a nossa pecaminosidade, o que nos preparou para entendermos a absoluta necessidade da obra salvadora de Deus em Jesus Cristo. Por fim, fomos levados a conhecer as sérias exigências do Evangelho para nos convertermos a Deus em arrependimento e fé. 
Neste último estudo, concentrar-nos-emos no sentido bíblico de “igreja” e discorreremos sucintamente sobre sua natureza e importância para a nossa vida e família, sobretudo na atualidade. Entendemos, a propósito, que a necessidade de uma igreja decorre de uma exigência lógica. É dizer: se Deus tem separado homens e mulheres para que se relacionem com Ele como filhos perante seu Pai, não deveríamos esperar que o Pai celeste desejasse ver esses filhos reunidos, vivendo em comunhão? Certamente. “Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos!” (Sl 133.1). Essa conclusão foi expressa no antigo Credo Apostólico na cláusula “Creio… na comunhão dos santos”. 
Pois bem, uma igreja local, se verdadeiramente cristã, nada mais é do que a “comunhão dos santos”, a comunhão dos salvos por Jesus Cristo, reunidos para adoração a Deus e para o testemunho do Evangelho ao mundo.
Antes, porém, de ponderarmos sobre a importância da igreja para o crescimento dos salvos em santificação, devemos entender algo sobre a natureza da igreja. O que não é uma igreja? O que é uma igreja? Somente de posse dessas informações poderemos mensurar, em verdade, a importância de uma comunidade verdadeiramente cristã às nossas vidas e famílias. Vejamos, pois.

O que não é uma igreja

Entendamos, por ora, o que uma igreja não é!

Primeiro, uma igreja não é um templo religioso. Sei que quando vamos ao edifício privado de acesso ao público e destinado ao culto religioso, costumamos dizer que “vamos à igreja”. Passando em um templo, muita vez, comentamos: “que igreja linda!” Digo respeitosamente que essa compreensão é equivocada, embora historicamente enraizada. A igreja jamais poderia ser confundida com o lugar onde ela se reúne, até porque os primeiros templos cristãos só foram construídos em meados do terceiro século da era cristã. Os apóstolos nunca construíram templos, tampouco fomos ordenados por Jesus Cristo a fazê-lo. Quando Jesus Cristo disse “edificarei a minha igreja” (Mt 16.18), por certo não tinha em mente uma construção de tijolos e argamassa. Os nossos lugares de cultos têm importância prática e histórica e não podem ser considerados como coisa supérflua, mas não são “casas” que construímos para o Deus que “não habita em santuários feitos por mãos humanas” (At 17.24).

Segundo, uma igreja não é uma instituição estatal. Definitivamente, igreja não é produto de uma confissão religiosa ligada a determinado Estado, ainda que saibamos que existam em nossos dias Estados confessionais – aqueles que possuem uma religião oficial. Historicamente, é sabido que nem sempre a união igreja-Estado contribuiu à pureza da igreja. No mais das vezes, a igreja se secularizou e transigiu com valores espúrios ou, na melhor das hipóteses, confundiu a evangelização com a colonização ou com a ideologização. 

Terceiro, uma igreja não é um agrupamento humano que deseja alienar-se da sociedade. Nos séculos IV e V surgiram movimentos que, de fato, acreditavam que aqueles que desejassem uma vida piedosa deveriam se alijar da convivência social. Nascia assim a vida monástica. No século XVI, um grupo conhecido como “anabatistas” reproduziu compreensão semelhante. Todavia, Jesus Cristo planejou que a Sua igreja estivesse inserida na comunidade e, nela, fizesse a diferença. “Vós sois o sal da terra (…) Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre o monte; nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa. Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus” (Mt 5.13-16). Uma igreja deve sempre conhecer os problemas do seu tempo e contribuir à sua geração sem se imiscuir com a corrupção reinante na sociedade e sem abrir mão da sua missão sagrada.

Quarto, uma igreja não é um agrupamento humano ‘desinteligente’, preocupado tão somente em reproduzir mecanicamente uma tradição religiosa fria e desatenta aos dilemas humanos reais e atuais. Ao revés, uma igreja cristã tem uma mensagem sempre atual, da qual o mundo pós-moderno carece desesperadamente. Mais do que qualquer outro agrupamento humano, enquanto portadora da mensagem bíblica, uma igreja tem uma palavra relevante a respeito de todos os males contemporâneos que mais afetam a humanidade. Quem poderia falar mais eloquentemente sobre ansiedade, medo, mágoa, solidão, desespero, ira, desencontros, etc., que aqueles que creem e seguem o ensino de nosso Senhor Jesus Cristo? Entretanto, mais que isso e especialmente, se é certo que “igreja não salva”, é certo também que ela (“a igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade”, conforme 1Timóteo 3.15) proclama a mensagem da salvação, sem a qual os homens não podem crer e ser salvos. “Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm 10.14).

Quinto, uma igreja não é um meio à prosperidade e ao bem-estar materiais. Isso precisa ser enfatizado, sobretudo em épocas como a nossa, quando a fé, o serviço a Deus e tudo quanto se refere à espiritualidade tem sido transformado em mero instrumento de propósitos egoístas. Que a Palavra de Deus fale a essa geração: “pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres” (Tg 4.3).

O que é uma igreja

Havendo colocado brevemente o que uma igreja não é, devemos, nesse ponto, refletir sobre o que é, em verdade, uma igreja, nos termos do Novo Testamento.

Primeiro, uma igreja é um agrupamento humano formado pelos salvos por Jesus Cristo.O Evangelho é a mensagem que Deus usa para salvar os pecadores arrependidos e crentes. O Evangelho é “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16). Quando Deus salva um pecador, ele não o deixa só. Antes, Ele mesmo proveu uma comunhão onde o salvo pode ser nutrido, crescer em semelhança com Ele e glorificá-lO, quer na adoração quer na evangelização do mundo. “Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sedo salvos” (At 2.47b). 

Segundo, uma igreja é um agrupamento humano separado dos valores do mundo, por Deus e para o serviço a Deus. A igreja é um grupo de pessoas chamado, dentre as massas, para viver uma vida piedosa, santa. Foi assim que as cartas apostólicas se dirigiram aos crentes das diversas cidades do império romano do primeiro século: “à igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados para ser santos, com todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo(…)” (1Co 1.2).

Terceiro, uma igreja é um agrupamento humano separado do mundo para constituir uma família. Uma igreja é uma família! Quando alguém disse ao Senhor Jesus que “tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem falar-te”, sua resposta foi a seguinte: “Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? E estendendo a mão para os discípulos, disse: Eis minha mãe e meus irmãos. Porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai celeste, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mt 12.47-50). Deus proveu uma família para aqueles que Ele gera em Cristo, de modo que Seus filhos recebam apoio, estímulo, cuidado e assistência em todas as horas e para todas as áreas da existência. Essa família é a igreja. “Levai as cargas uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo” (Gl 6.2). “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13.35). Por óbvio, a igreja não pretende substituir a família natural (nuclear ou extensa), tampouco separar seus membros do convívio familiar natural. Ao contrário, dezenas de milhares são os casos nos quais o convívio com uma igreja genuinamente cristã devolveu os pródigos às famílias que os haviam perdido.

Quarto, uma igreja é um agrupamento humano separado por Deus, para dar testemunho dEle ao mundo. “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pe 1.9). Esse testemunho ocorre sobretudo através da pregação verbalmente articulada do Evangelho, que deve ser acompanhada de uma vida irrepreensível perante os homens e rica de boas obras. Os grandes inimigos da igreja não são aqueles que a afrontam abertamente, nem a maior ameaça à sua existência e respeitabilidade, a ação opressora de governos autoritários. Aqueles que mais a maltratam são os que se dizem parte dela, mas não vivem do modo digno dela. O beijo traiçoeiro dos “amigos” da igreja mais a perturba do que a espada dos seus perseguidores mais hostis. A despeito dos tantos escândalos dos quais a igreja tem sido vítima, permanece a verdade inabalável que ela constitui o “sal da terra” e a “luz do mundo”.

A nossa necessidade de uma igreja

Portanto, devemos colocar as coisas de modo bem claro: nós precisamos da igreja! É tão certo dizer que precisamos de uma igreja como dizer que pessoas precisam de pessoas. Pessoas precisam de Deus e pessoas precisam de pessoas. Nós precisamos de uma igreja porque não podemos prescindir de um constante estímulo ao serviço a Deus. 

Não pensemos que seja tarefa fácil servir a Deus neste mundo, sozinhos. Deus nos deu uma igreja para isso. Desobedecer à ordem expressa de congregar com outros “irmãos” é estar aquém do padrão estabelecido pelos apóstolos: “Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima” (Hb 10.24,25).

Nós precisamos de uma igreja porque Deus é o Pai dos filhos que constituiu Sua igreja. E, como também os pais humanos, Deus tem prazer na comunhão dos Seus filhos. Filhos isolados nunca fizeram bem a pai algum! Leiamos outra vez: “Oh, como é bom e agradável viverem unidos os irmãos!” (Sl 133.1).

 Nós precisamos de uma igreja porque somos imperfeitos – como imperfeita ela é enquanto peregrina neste mundo -, e Deus deseja nos aperfeiçoar. O projeto obstinado e infalível de Deus é a restauração da Sua imagem no homem, há muito deveras avariada. A igreja é o instrumento, porquanto porta voz das Escrituras, e o lugar de Deus para nos ensinar como viver as verdades cristãs. 

Nós ainda precisamos da sinceridade de uma igreja neste mundo de fingimentos; da amizade de uma igreja neste tempo de solitários; do conforto de uma igreja nesta geração sem esperança. Nós precisamos do encorajamento de uma igreja neste mundo desanimador e da mensagem da igreja neste mundo perdido, vazio e confuso. Nós precisamos de uma igreja!

Mais ainda, nossa família precisa de Deus! É a igreja que nos ajuda a criar filhos para Deus neste mundo sem (comunhão com) Deus. A igreja é o melhor ambiente neste mundo de álcool, drogas, banalidade sexual, criminalidade desenfreada e crise existencial. 

Assim, estejamos nos encontros de uma igreja, nos seus serviços e sobretudo nos cultos que ela se reúne para oferecer a Deus. Mas, não com aquele olhar crítico, inquisidor, de quem chega para encontrar falhas. Nós encontraremos falhas na igreja e essas falhas não devem ser motivo suficiente para nós a desprezarmos. Ela é amada por Deus. Nós devemos amá-la também.

Uma palavra de alerta

Finalmente, devemos ponderar seriamente sobre o fato de que muitos agrupamentos que se autodenominam “igreja”, em verdade, não o são. Somos gratos a Deus pela liberdade religiosa em nosso país, ao passo que nos preocupamos com o crescimento numérico de “igrejas” e “denominações religiosas” cujos objetivos, ensino e práticas são, com justa razão e para dizer o mínimo, questionáveis. 

Pensando nisso, passaremos a sugerir algumas perguntas que devemos fazer antes de nos filiarmos a uma “igreja”. 

  • A “igreja” professa que a Bíblia é a única e suficiente regra de fé e prática? Se ela aceita como estando em pé de igualdade com a Palavra de Deus concílios eclesiásticos, livros apócrifos, tradições e doutrinas da lavra de autoridades humanas, antigas ou atuais, sem respaldo na Escritura, sugiro que você busque outra. Não é uma igreja de Jesus Cristo. 
  • A “igreja” aceita indiscutivelmente a doutrina bíblica da triunidade de Deus? Não esqueçamos que a fé cristã é basicamente a crença em um só Deus, que existe em três pessoas distintas entre Si e iguais em essência e eternidade: o Pai, o Filho e o Espírito. Caso ela questione a plena divindade de Jesus Cristo e a divindade e/ou personalidade do Espírito Santo, não se trata de uma verdadeira igreja de Jesus Cristo. Sugiro fortemente que você busque outra. 
  • A “igreja” abraça alegremente o artigo de fé referente à justificação graciosa pela fé somente? Se ela acrescenta a necessidade de méritos pessoais, fundados em boas obras, à simples fé depositada na suficiente obra de Jesus Cristo para que o homem seja aceito no favor de Deus, sugiro fortemente que você busque outra, porque, sendo esse o caso, não se trata de uma verdadeira igreja de Jesus Cristo. 
  • Quais os valores mais caros da “igreja”, que ditam suas prioridades e encontros? Ela valoriza a pregação da Palavra de Deus como estando acima do entretenimento? A disciplina cristã e a santidade no viver diário são levadas a sério? As disciplinas espirituais da leitura da Palavra de Deus e da oração são importantes ao grupo, estimuladas e ensinadas? Se esse não é o caso, devemos buscar uma igreja mais ajustada ao padrão bíblico. 
  • A “igreja” possui uma confissão de fé? Uma “confissão de fé” é uma declaração articulada de modo claro e objetivo, mais ou menos completa, de suas crenças inegociáveis. É importante saber se a “igreja” a possui, e se essa declaração possui importância real ao grupo, se é de fato valorizada, conhecida e ensinada. Igrejas há que, embora possuam uma declaração de fé histórica e confiável, já a aposentaram no sótão das coisas que não mais importam. Se esse é o caso, devemos buscar uma igreja melhor.      

Perguntas para Reflexão

  1. O termo “igreja” corresponde exatamente ao conceito de “templos religiosos”? Explique sua resposta.
  2. Por que Deus desejou reunir os salvos em “igrejas”?
  3. Quais as finalidades e a missão de uma igreja?
  4. Quais critérios devemos observar antes de nos filiarmos a uma igreja?

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