Quarto sermão natalino de 2020, Pregado na Primeira Igreja de Caruaru.
Nos textos natalinos que disponibilizamos ao leitor, estamos a tratar da doutrina cardeal da dupla natureza do Salvador. Já discorremos sobre a união das duas naturezas do Redentor na encarnação (primeiro estudo), sobre o contraste dessas duas naturezas (segundo estudo) e, no anterior, tentamos compreender a necessidade da natureza divina de Jesus Cristo para a obra da redenção, momento em que dissemos, basicamente:
- Que Jesus Cristo só pode ser o Salvador porque é Deus, uma vez que a Bíblia ensina que a obra da salvação é uma obra divina;
- Que o Salvador deveria ser divino a fim de se submeter à ira onipotente de Deus e se sobressair vitorioso;
- Que o Salvador deveria ser divino a fim de satisfazer, com um único sacrifício e de uma vez por todas, as demandas da justiça divina e livrar para sempre uma incontável multidão de pecadores da condenação eterna.
Neste último texto sobre o tema, prosseguiremos para falar sobre a mais absoluta necessidade da natureza humana do Redentor para a obra da redenção. O que nos prende neste estudo é o conjunto daquelas razões pelas quais o Verbo eterno se fez verdadeiro homem para ser o Salvador do Seu povo.
Assim, o nobre leitor já entendeu que estou defendendo a necessidade absoluta da humanidade de Jesus para que Ele pudesse empreender a obra da salvação ou, dizendo de outro modo, que sem a natureza humana Jesus não teria podido fazer o que fez e o que faz por Seu povo. Colocando em termos claros: Deus poderia ter decidido não salvar pecadores caídos e condenados à Sua vista, mas, se decidisse por fazê-lo, como de fato decidiu, a encarnação do Verbo se tornaria, como de fato se tornou, imperiosa.
Essa necessidade de o Salvador se tornar verdadeiro homem é dita de várias maneiras na Escritura:
“Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, destes também ele, igualmente, participou… convinha que, em todas as coisas, se tornasse semelhante aos irmãos…” (Hb 2.14,17), etc.
A nossa questão é: por que essa tão imprescindível necessidade da natureza humana do Redentor? Vejamos.
A verdade geral sobre o tema é que o Redentor tinha que ser verdadeiro homem para ser o representante e o substituto de homens.
Jesus Cristo tinha que ser em tudo semelhante a nós para que pudesse agir como o nosso substituto. Nem Deus somente poderia fazê-lo, nem tampouco anjos.
“Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, destes também ele, igualmente, participou…”.
Jesus Cristo precisava se tornar “semelhante aos irmãos”, ou seja, ele precisava nascer de mulher e se tornar como um da raça que Ele veio redimir.
Ser “em todas as coisas… semelhante aos irmãos” significa que Jesus recebeu uma alma e um corpo humanos, com todas as propriedades que são inerentes aos seres humanos e que, exceto no tocante ao pecado, não havia diferença entre as características da humanidade de Jesus e a nossa, sob os aspectos biopsíquicos, incluindo os volitivos, intelectivos e afetivos.
Em termos bem simples, Jesus experimentou todas as agruras de ser gente, como nós! Ele soube o que é ser rejeitado, inclusive pelos da Sua própria casa, e soube o que é ser mal compreendido, e testado nas circunstâncias mais adversas, e perseguido, e ter carências etc. Ele tinha que ser um de nós para ser nosso representante, o segundo Adão.
Em síntese: eis a razão pela qual Jesus Cristo veio em carne, no ventre da virgem, nascido de mulher: para socorrer a descendência de Abraão (v. 16), deveria se tornar um da raça humana.
O Redentor tinha que ser verdadeiro homem para que houvesse uma justiça humana (a obediência ativa) a ser imputada (ou creditada) à conta de pecadores.
Foi o homem que transgrediu a Lei de Deus e se haveria de haver salvação, ela só poderia se dar pela imputação à conta do pecador de uma obediência que fosse humana.
Não esqueçamos que Deus não aceita em Sua presença nada que esteja aquém da perfeição absoluta. E como nós jamais atingiríamos a exigência divina, o modus operandi da salvação consiste exatamente na imputação de justiça ao pecador para que, vestido de uma justiça alheia, possa comparecer à presença de Deus.
Ocorre que para que Cristo tivesse uma obediência ativa perfeita (consistente na mais absoluta obediência à vontade de Deus) a nos ser imputada, com base na qual fôssemos declarados justos, essa obediência deveria ser vivida em nossa carne mortal. Naturalmente, não esqueçamos que o homem que poderia nos salvar tinha que ter vivido uma vida moralmente perfeita porque, caso contrário, ele teria colhido na morte apenas a condenação pelos seus próprios pecados. Ele deveria ser tentado como homem, mas impecável (Hb 4.15). Entretanto, seria uma necessidade imperiosa que a perfeição que carecemos e que nos é imputada pela fé fosse de um homem.
Nesse sentido, a Bíblia testifica que Jesus Cristo foi um homem perfeito, que nasceu sem a maldição do pecado, que viveu em obediência irrestrita a Deus em todas as coisas. Jesus amou a Deus com toda a mente, alma, entendimento e força em todos os momentos da vida, sem exceção alguma. Tudo o que Ele fez, desde as tarefas mais simples, Ele o fez para a glória de Deus e durante toda a Sua vida não houve uma única palavra, um único pensamento, uma única ação ou uma omissão, por menor que seja, em desarmonia com a vontade de Deus.
Ele mesmo disse:
“E aquele que me enviou está comigo, não me deixou só, porque eu faço sempre o que lhe agrada” (Jo 8.29); “Quem dentre vós me convence do pecado?…” (Jo 8.46); “… eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e no seu amor permaneço” (Jo 15.10).
Nos momentos que precederam a crucificação, Jesus foi declarado inocente por Judas (“Pequei, traindo sangue inocente…” – Mt 27.4), por Pilatos e sua esposa (“Não te envolvas com esse justo…”; “Estou inocente do sangue deste justo…” – Mt 27.19,24). No momento da morte de Jesus, o centurião e os soldados romanos disseram: “Verdadeiramente, este era o Filho de Deus” (Mt 27.54).
Os apóstolos atestaram a impecabilidade de Jesus de modo inequívoco:
“Sabeis também que ele se manifestou para tirar os pecados, e nele não existe pecado” (Jo 3.5); “o qual não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca” (1Pe 2.22).
Portanto, Jesus foi um homem perfeito em todo o tempo, e somente assim Ele conquistou uma justiça perfeita a nos imputar, porque obedeceu a Deus em nossa própria humanidade.
O Redentor tinha que ser verdadeiro homem para que sofresse a ira de Deus (a obediência passiva) como homem.
Foi o homem quem transgrediu e por isso a justiça de Deus exigiu que o pecado fosse punido na mesma natureza em que foi cometido. Anjos não poderiam substituir os homens. Também o escritor aos Hebreus diz que o sangue de touros e de bodes não pode remover pecados (Hb 10.4).
Somente um verdadeiro homem, que tomasse parte comum na raça que veio redimir poderia assumir o lugar do culpado e remover, com a oferta da Sua vida, os pecados, porque, do contrário, não haveria substituição. A substituição só poderia ser feita por um igual.
No texto de Hebreus 2.17, lemos que convinha que Jesus se tornasse semelhante a nós em todas as coisas “para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para fazer propiciação pelos pecados do povo”. O escritor, noutras palavras, diz que Jesus se fez homem para acertar a conta dos homens para com Deus. “Coisas referentes a Deus” indicam a necessidade de uma oferta sacerdotal que removesse o pecado que era uma afronta à justiça de Deus. Diz também que Jesus se tornou semelhante aos irmãos para “fazer propiciação pelos pecados do povo”.
A Bíblia ensina, de variadas formas, que Jesus foi esse homem que substituiu pecadores, fazendo-se maldição por nós. Diz, nesse sentido:
“Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós…” (2Co 5.21); “carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados” (1Pe 2.24); “Também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito” (1Pe 3.18), etc.
Conclusão
Pelo exposto, concluímos que:
- Se, por um lado, somente Deus poderia salvar (uma vez que a salvação é uma obra divina), somente um homem poderia ser representante e substituto adequado do homem;
- Se somente Deus poderia resistir incólume após se submeter à ira do Todo-poderoso, somente um homem poderia substituir pecadores recebendo em si o justo pagamento que os pecados dos homens merecem;
- Se somente Deus poderia realizar uma oferta com valor suficiente para libertar eternamente uma multidão incontável de pecadores, somente um homem poderia adquirir uma obediência humana a ser imputada à conta de pecadores.
O nosso Salvador é o Deus-homem! Tinha que ser. Porque o Redentor é Deus, a oferta pelo pecado foi suficiente para nos salvar; porque Ele é homem, a oferta do pecado foi válida para nos salvar. A suficiência e a validade da obra de Jesus Cristo, resultantes de quem Ele é, tornam-no absolutamente digno de que nos entreguemos confiantemente a Ele, certos de que Ele nos conduzirá seguros à presença graciosa de Deus.
Natal é sobre isso! É a celebração da vinda do Verbo eterno em verdadeira humanidade para ser o Redentor do povo que Deus o Pai Lhe deu.
Feliz Natal ao estimado leitor.
Solus Christus!

