Retomemos nossa análise das “bem-aventuranças”, em continuação ao primeiro estudo (“Pobres em espírito, os que choram e os humildes...”). Ali, dissemos que as bem-aventuranças não são declarações proeminentemente exortativas, mas a constatação de um estado abençoado-favorecido-bem-aventurado, segundo o julgamento do Senhor Jesus. As declarações de Jesus não têm a ver com o modo como nos sentimos e nos avaliamos, mas com quem somos perante Deus ou com o modo como Deus nos vê.
Já revisitamos naquele primeiro texto as três primeiras bem-aventuranças. Por elas, ficamos sabendo que Jesus declarou abençoadas as pessoas que estão conscientes da sua pobreza espiritual, que a sentem com sofrimentos sinceros e reagem perante Deus e perante o próximo de acordo com essa consciência pesarosa, isto é, com humildade/mansidão.
É fácil verificar que essas bem-aventuranças têm conteúdo predominantemente negativo. Elas guardam relação com o aspecto da santificação denominado mortificação – a obra do Espírito por meio da qual o pecado e tudo quanto está de acordo com a velha natureza se vai gradativamente enfraquecendo. Também é perceptível que as bem-aventuranças até aqui retratadas estão dispostas em uma progressão descendente, pela qual o cidadão do reino de Deus foi descobrindo sua pecaminosidade até achar-se prostrado perante Deus e lidando gentilmente com o próximo. O gráfico abaixo pode ilustrar o ponto.

Fome e sede de justiça
Entretanto, o cristianismo não é apenas retirar o que não serve; não é apenas mortificar, retirar a sujeira da casa velha. Santificação também envolve o aspecto positivo de embelezar a casa nova, denominado vivificação – a obra do Espírito consistente em promover e fortalecer gradual e progressivamente as virtudes do novo homem, recriado por Deus em Cristo. É essa nuance da santificação que ganha relevo nas bem-aventuranças que analisaremos, devendo ser destacado que a quarta bem-aventurança produz uma mudança espantosa. Vejamos:
“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos” (Mt 5.6).
Observemos que o cidadão do reino de Deus já conhece sua pobreza espiritual, já lamenta por ela e já reage de acordo com ela. Ele sabe do que mais precisa sobre todas as coisas nesta vida: de justiça! Então põe-se a buscar justiça desesperadamente. Com efeito, “fome e sede” exprimem um desejo urgente e desesperado por algo absolutamente necessário, sem o qual não há qualquer esperança de sobrevivência. Possivelmente, eu e o leitor jamais passamos pela experiência da busca desesperada de um “faminto-sedento”. Na prática, podemos nada saber sobre a dor e a ansiedade que controlam aqueles que estão agora mesmo a procura de apenas matar a fome e a sede. A declaração de Jesus não pode ser compreendida sem esse pano de fundo. Segundo o ensino do Redentor, bem-aventurados são aqueles que têm essa paixão desesperada, ansiosa e consumidora por… justiça.
A justiça da justificação
A justiça que os abençoados cidadãos do reino anelam é, no mínimo, de dois tipos. Primeiro, é a justiça que vem de Deus, a justiça humana de Cristo recebida pela fé somente. Os bem-aventurados sabem que não têm justiça própria. Então eles almejam a que vem de Deus, a que Deus imputa em sua conta pela fé somente. Filipenses 3.7-9 é certamente um comentário muito apropriado dessa bem-aventurança.
“Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo, E seja achado nele, não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé”. (Sublinhei)
Vê-se que a justiça retratada por Paulo é alheia, é imputada, vem de fora. É a justiça forense, a justificação, a consideração de “inocente/absolvido/justo” que Deus faz, por pura graça, ao pecador crente.
A justiça da santificação
Mas isso não é tudo. Além da justiça imputada de Deus, os cidadãos do reino almejam também a justiça pessoal, a justiça como conduta ética que se adequa totalmente, desde o coração, à vontade de Deus.
Em síntese, o cidadão do reino anela intensamente por uma justiça imputada e também por uma justiça comunicada, a alheia e a pessoal, a que é declarada no tribunal e a que é realizada na vida, a que lhe dá uma posição de “justo” e a que consiste de uma conduta justa. Nada que seja menor que a justiça que vem de Deus mais a justiça que Deus realiza nele satisfará o coração sedento-faminto dos bem-aventurados!
Os famintos-sedentos serão satisfeitos
A segunda sentença da bem-aventurança assevera que os famintos-sedentos serão satisfeitos. Ora, se eles serão satisfeitos (voz passiva), é porque não podem satisfazer a si mesmos. Então temos que concluir que alguém os satisfará. E sabemos que somente a Trindade Santa pode satisfazer a sede/fome de justiça dos cidadãos do reino.
A justiça no primeiro aspecto (imputada na justificação, alheia, forense, a nova posição) ocorre pela imputação dos méritos de Cristo. A justiça no segundo aspecto (comunicada na santificação, pessoal, realizada na vida e consistente de conduta ética de acordo com e lei de Deus) é obra do Espírito Santo.
Uma bem-aventurança de transição
A quarta bem-aventurança, ora analisada, segundo parece-nos, é de transição. Ela nos apanhou em nosso estado mais humilhado. Enquanto as bem-aventuranças quinta, sexta e sétima são o resultado positivo da obra de Deus, talvez em termos ascendentes, como no gráfico abaixo:

É o que veremos no próximo estudo. Até lá.
Soli Deo gloria!
