Não Terás Outros Deuses

Lição 4/15

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Introdução 

O primeiro mandamento é uma proclamação de Deus quanto à sua absoluta singularidade. Deus, por ser quem é, essencialmente dotado de perfeições que somente a Ele pertencem e possuidor de uma glória incomparável, não aceita dividir a honra que lhe é devida com nenhum dos demais seres, visíveis ou invisíveis, reais ou imaginados pela criatividade humana (Is 48.11).

Como somente Deus pode dizer “Eu Sou o que Sou” (Ex 3.14), sua reivindicação de ser único é a música que se ouve em toda a Escritura (Ex 15.11; Is 44.6; 46.9; Zc 14.9; 1Tm 2.5). O credo judaico mais antigo afirma: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR” (Dt 6.4). Salomão suplicou que sua causa fosse atendida “para que todos os povos da terra saibam que o SENHOR é Deus e que não há outro” (1Rs 8.60). O apóstolo Paulo declarou em tons igualmente claros que os ídolos nada são e que há um só Deus (1Co 8.4,6).

O que Deus nos proíbe com o primeiro mandamento?

Segundo o ensino do Antigo Testamento, não devemos nos lembrar do nome de outros deuses, nem tê-los em nossa boca (Ex 23.13). Tampouco podemos sacrificar a outros deuses, sob pena de destruição (Ex 22.20). As alianças com os povos pagãos ficaram proibidas para que se preservasse a pureza monoteísta de Israel, e, pela mesma razão, os casamentos mistos (Ex 34.12-16).

A idolatria representa um espiral descendente rumo à corrupção e destruição. Deuteronômio 11.16 menciona essa queda gradativa provocada pela idolatria: engano do coração, desvio, serviço a outros deuses e prostração perante eles. As consequências da idolatria eram tanto espirituais e eternas (Ex 32.7-10; Hc 2.19) quanto físicas (Dt 13.6-11). Também são extensas as listas de maldições divinas aos violadores do primeiro mandamento (Lv 26.14-46; Dt 28.15-68; 32.15-28).

Em Êxodo 34.16, ocorre pela primeira vez a metáfora da prostituição cultual. A idolatria, nesse diapasão, é comparada ao adultério (Jr 2.20). O Senhor havia “desposado” com Israel e, como Deus zeloso que é (Ex 34.14), não poderia suportar vê-la flertando com outros deuses em adultério espiritual. Eis a razão dos profetas de Israel, inumeráveis vezes, terem denunciado a idolatria da nação, inclusive através de agudos sarcasmos (Is 44.6-20).

Finalmente, o profeta Ezequiel traz à baila o antigo e perene problema da idolatria do coração (Ez 14.4-7). Isso significa dizer que mesmo no Antigo Testamento já se adverte ao fato de que idolatria não está necessariamente relacionada aos ídolos da religião pagã. A idolatria do coração pode estar relacionada com coisas moralmente neutras, ou até mesmo com dádivas do Criador, que são desejadas de modo a extrapolar o seu devido lugar.

O Novo Testamento mantém o padrão monoteísta do Antigo, quer no ensino do Senhor Jesus, quer no dos apóstolos. Em Marcos 12.29, Jesus citou a declaração de Deuteronômio 6.4. No diálogo com o jovem rico, ensinou que “bom só existe um” (Mt 19.16-22). Paulo, por sua vez, afirma claramente a unicidade de Deus no debate sobre o sacrifício dos ídolos em Corinto (1Co 8.4-6).

No Novo Testamento, a idolatria é condenada por ser Deus o único digno de receber toda a honra. É porque os homens deixam de dar a Deus o devido reconhecimento da sua glória que lhes sobrevém a ira e a consequente entrega de suas vidas a seu próprio coração depravado (Rm 1.18-32). Assim, a falha mais básica do ser humano é não glorificar a Deus como Deus nem Lhe dar graças (Rm 1.21; 3.23). 

Para o apóstolo, a idolatria (e as demais formas de desvio religioso) é obra da carne (Gl 5.19,20), e os idólatras não têm parte no reino de Deus (Ef 5.5; 1Co 6.9). Essa é a razão pela qual os cristãos devem fugir da idolatria (1Co 10.4), ordem que é repetida por João no último versículo de sua primeira carta (1Jo 5.21).

Outras formas de idolatria são mencionadas no Novo Testamento. Com base no ensino do Senhor Jesus no sentido de que não podemos servir a Deus e a Mamom (Mt 6.24), a avareza é uma forma odiosa de idolatria e o avarento é um idólatra (Cl 3.5; Ef 5.5), visto que as riquezas requerem de seus “servos” dedicação exclusiva e esperança nelas depositada (1Tm 6.17).

Em Filipenses 3.18,19, Paulo refere-se aos “inimigos da cruz de Cristo” e afirma que “o deus deles é o ventre”. A palavra “ventre” (grego “koilia”, que significa estômago) talvez seja um termo genérico para incluir tudo quanto pertence aos apetites do homem natural. Aqueles cujo deus é o ventre são, no dizer de Hendriksen, idólatras que não mantém seus apetites sob controle (Rm 8.13; 1Co 9.27), à luz da compreensão que seu corpo é templo do Espírito Santo, e se entregam à glutonaria e à licenciosidade.  

O primeiro mandamento, ademais, não nos proíbe apenas a idolatria a deuses criados pela criatividade supersticiosa dos homens, ao dinheiro, ao ventre, ao próprio homem. Ele nos proíbe, igualmente, de decidirmos por um caminho ateísta. Quando fomos restaurados à comunhão com Deus, fomos tirados de uma condição de “sem Deus (o grego “ateoi” significa literalmente “sem deuses”) no mundo” (Ef 2.11).

Mais que isso, o primeiro mandamento igualmente condena a religião meramente formal, conforme salientou Hans Ulrich Refler. De fato, Tiago desafia a confissão ortodoxa, retirada de Deuteronômio 6.4, quanto à unicidade de Deus, mas que não procede de uma fé viva: “Crês, tu, que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios creem e tremem” (Tg 2.19). O “tremor” dos demônios é um grande desafio aos cristãos professos, cuja confissão de um só Deus em nada influencia sua relação com Ele, tampouco os retira do estado de apatia espiritual (Ap 3.16).

O que Deus nos exige com o primeiro mandamento?

Voltamo-nos agora aos aspectos mandamentais positivos do primeiro mandamento, a fim de descobrirmos o que Deus nos exige através dele.

Em primeiro lugar, o primeiro mandamento exige que conheçamos a Deus como o único Deus vivo e verdadeiro e promovamos o conhecimento dEle, de acordo com a revelação que Ele nos legou. Isso envolve certamente o fato de que devemos nutrir sobre Deus ideias que estejam de acordo com a sua Palavra. Ademais, se possuímos conhecimento verdadeiro de Deus, centrado nas Escrituras, devemos divulgar esse conhecimento e fazê-lo a partir dos relacionamentos familiares. Nesse sentido, o antigo credo judaico (Dt 6.4) deve ser inculcado nos filhos (Dt 6.7; 1Cr 28.9; Is 43.10).

Em segundo lugar, o primeiro mandamento exige que amemos a Deus de todo o nosso coração, alma, forças e entendimento (Lc 10.27; Mt 22.37). Nosso Senhor Jesus Cristo resumiu os primeiros quatro mandamentos no dever de amar a Deus com todo o ser. Porque só existe um único Deus vivo e verdadeiro (Dt 6.4), a inteireza da nossa vida deve ser dedicada exclusivamente a Ele (Dt 6.5). Isso significa, na prática, que não pode haver nenhum tipo de distinção entre aquilo que é próprio da nossa religião e aquilo que não é por ela afetado. Nas palavras do Dr. Vos, o “crente em Cristo que é coerente há de compreender que a sua religião é o princípio regulador de toda a sua vida e que não há nada na vida que possa estar à parte da nossa relação com Deus”.

Em terceiro lugar, o primeiro mandamento nos impõe que confiemos somente em Deus e dependamos somente dEle (Is 26.4, Sl 130.7). Segundo Lutero, o sentido desse mandamento “é exigir a fé autêntica e a confiança do coração no autêntico Deus único, atendo-se apenas a ele”. O reformador alemão ensinou ainda que pelo primeiro mandamento Deus está dizendo: “deixe somente eu ser seu Deus e nunca procure nenhum outro, ou seja, o que lhe fizer falta, espere-o de mim. E quando você estiver passando por infortúnio e aperto, arraste-se para junto de mim e fique comigo, EU é que lhe darei o suficiente e ajudarei em toda necessidade. De forma alguma entregue seu coração a algum outro”.

Em quarto lugar, o primeiro mandamento nos exige que adoremos a Deus e lhe demos ações de graças (Is 45.23; Dt 6.13; M 4.10). A adoração diz respeito ao culto que prestamos a Deus, submetidos à sua majestade. “Ação de graças é a gratidão”, ensina Calvino, “pela qual o louvor de todos os bens é a Ele atribuído”. O reformador de Genebra asseverou que “como o Senhor não pode consentir que nada disso [ele se referia à adoração, confiança, invocação e ação de graças] seja desviado para outro, assim ordena que tudo seja atribuído exclusivamente a Ele”.

Em quinto lugar, o primeiro mandamento exige que nos submetamos a Deus (Tg 4.7) e lhe obedeçamos em tudo (Dt 6.17; Jr 7.23). Certamente, o primeiro mandamento é o mandamento fundamental, do qual os demais dependem, por ser ele a fonte primária e fundamental da vida. Eis a razão pela qual ele foi posto como o primeiro. Isso significa que toda e qualquer violação a qualquer mandamento de Deus constitui uma quebra do primeiro. 

Conclusão

O primeiro mandamento, como a maioria dos demais, ocorre em forma negativa, de proibição, e expressa o zelo de Deus por Sua glória (Ex 34.6,14). Deus é, por assim dizer, despertado em seu ciúme por toda a forma de idolatria. “Se Ele é Deus, e só Ele é, o único Criador e Senhor dos homens, tem direito a nossa adoração exclusiva e fica ‘ciumento’ quando a dirigimos erroneamente para ídolos que não são deuses”. Assim, o primeiro mandamento nos proíbe de toda e qualquer forma de idolatria. Ele nos impede de darmos a quaisquer criaturas as honras que são devidas somente a Ele. 

Portanto, o significado do primeiro mandamento consiste em que Deus reivindica das suas criaturas racionais o reconhecimento da sua exclusiva divindade e da glória única e incomparável que possui, com todas as implicações que analisamos, para dizer apenas o mínimo.

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