Da Queda do Homem
Artigo 15 – Cremos que o homem foi criado perfeito em seu estado original [1], mas desobedeceu ao mandado do Criador [2], transgredindo os termos do Pacto das Obras [3], no qual figurou como cabeça e representante da raça humana, razão pela qual foi expulso do paraíso [4] e adquiriu culpa [5], corrupção da natureza [6] e morte [7], para si e toda a humanidade [8], e que, nesse estado assim decaído, todos os homens já nascem com todas as suas faculdades corrompidas [9], sendo por natureza incapazes de fazer [10], desejar [11] e mesmo de entender [12] qualquer bem espiritualmente útil que os faça usar seus poderes, habilidades e faculdades para a glória do Criador [13].
[1] Gênesis 1.31; Eclesiastes 7.29. [2] Gênesis 2.16,17; 3.6. [3] Oséias 6.7. [4] Gênesis 3.23,24. [5] Gênesis 3.7-10. [6] Jeremias 17.9; Marcos 7.20-23. [7] Efésios 2.1-3; João 8.34; Romanos 6.23. [8] Romanos 5.12. [9] Gênesis 6.5; 8.21; Salmos 51.5; 58.3; Romanos 3.9-18. [10] Jeremias 13.23; João 15.4,5; Gálatas 5.19-21. [11] Romanos 8.6-8; João 3.3,19; 5.40; 6.44,65. [12] Salmos 14.2,3; 1Coríntios 1.18-21; 2.6-8,14; 1João 4.5,6. [13] Romanos 3.23.
Da Promessa do Pacto da Graça [14]
Artigo 16 – Cremos que, com a desobediência e a Queda [15], o homem tornou-se incapaz de readquirir a vida eterna através das próprias obras [16], mas Deus imediatamente o socorreu prometendo-lhe um novo pacto, o Pacto da graça [17], por meio do qual estabeleceria um novo cabeça e representante federal, Jesus Cristo [18], para cumprir o Pacto das Obras no lugar do povo a quem Deus concederia salvação somente por graça [19], requerendo dos eleitos tão somente fé no Redentor [20], tendo Deus, na antiga dispensação, prometido aquele pacto [21] e revelado-o progressivamente sob e por meio de alianças, profecias e cerimônias dadas ao antigo Israel [22], tudo a indicar o Messias que havia de vir para estabelecê-lo com o sangue da Nova Aliança [23], mas de modo suficientemente claro para edificar a fé da Igreja de então [24].
[14] Artigo de subscrição facultativa por igrejas e pastores da UIECB. [15] Gênesis 3.6. [16] Romanos .19,20. [17] Gênesis 3.14-19. [18] Romanos 5.12-19; Gálatas 3.16; Hebreus 8.6-13; 1Pedro 2.4. [19] Romanos 11.5,6; Efésios 2.4-9; 1Timóteo 1.9. [20] Romanos 1.16,17; 10.13; Gálatas 2.26; 3.6-11. [21] Gênesis 3.15; 12.1-3; Jeremias 31.31-34; Gálatas 3.8. [22] Romanos 1.1-3; 3.2; 9.4; Efésios 2.12; Êxodo 12.1-14; 24.1-11; Levítico 1–5; 23; 2Samuel 7.12-16; Jeremias 32.38-41; Ezequiel 37.24-28. [23] Lucas 22.20; 1Coríntios 11.25; Hebreus 9.1-14,23; 10.1-4,11-12,29; 12.24. [24] Gálatas 3.23,24.
Feitas as notas introdutórias nos textos anteriores, sentimo-nos prontos para nos voltar à apreciação do artigo 15 da Declaração de Fé Congregacional (minuta do DET), momento em que envidaremos esforços para esclarecer o que se quer dizer por “Pacto das Obras”. Com efeito, a redação confessional proposta diz: “Cremos que o homem foi criado perfeito em seu estado original [1], mas desobedeceu ao mandado do Criador [2], transgredindo os termos do Pacto das Obras…”. Sobre o tema tratado no artigo, doversas questões exigem resposta: Existiu um pacto com Adão? Adão foi estabelecido como um cabeça federal dos seus filhos naturais? Quais os termos desse pacto? O que deveria ser obedecido pelo primeiro Adão? Em caso de obediência, quais as bênçãos propostas? Havendo desobediência, quais as sanções aplicáveis? É que veremos.
- Gênesis 1.26-28 descreve a criação dos primeiros pais no contexto da criação em geral. Era o sexto dia da criação. Os animais da terra foram produzidos simplesmente a partir do fiat criador divino, conforme sua espécie (Gn 1.24-25). Esse feito é seguido pela declaração solene do v. 26: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”.
- As palavras bíblicas para “imagem” e “semelhança” ocorrem, no Antigo Testamento, em três passagens: Gênesis 1.26-28, 5.1-3 e 9.6. O texto hebraico nos permite concluir, conquanto haja diferenças semânticas entre os vocábulos, que eles podem ser usados intercambiável e isoladamente. Em Gênesis 1.26, ambas as palavras ocorrem; em 1.27, somente “imagem” aparece; em 5.1, somente “semelhança” é usada; em 5.3, as duas voltam a aparecer, mas em ordem inversa; por fim, em 9.6, ocorre somente “imagem”. Esses vocábulos, pois, são usados para referir ao conjunto daquilo que está no escopo da “imagem e semelhança”, a saber, aquela santidade positiva com a qual Adão e Eva foram criados (“…o homem foi criado perfeito em seu estado original…”), associada às habilidades e poderes que, juntos, tornaram-nos capazes de representar Deus na Terra e refletir as perfeições divinas (Gn 1.28; 2.15; Sl 8.3-8). Esse conceito está estabelecido no art. 12 da Declaração. Enfim, a humanidade foi feita com capacidade para, em nome de Deus, “dominar” sobre a criação, “encher” a Terra e “sujeitá-la” (vs. 26, 28)
- Nesse estado abençoado em que o homem foi criado, ele possuía a lei moral de Deus gravada em seu coração e era totalmente capaz de obedecê-la perfeita e ininterruptamente, ou seja, de amar o Criador com todo o coração, alma, força e entendimento (Dt 6.5; Mt 22.37) e ao próximo como a si mesmo (Lv 19.18; Mt 22.39). A essa obediência não corresponderia qualquer benefício adicional, uma vez que era dever do homem viver para agradar o Criador em todas as coisas. Mas, por outro lado, o homem não foi criado em seu estado mais perfeito possível. Ele poderia obedecer e parmenecer na comunhão graciosa de Deus, mas também pecar contra o Criador e adquirir a morte e a corrupção da natureza, a título pessoal. O homem foi criado no estado de “posse non peccare” (posso não pecar) e, portanto, “posse non mori” (posso não morrer), mas não tinha, em decorrência da criação, o “non posse peccare” (não posso pecar) e, portanto, o “non posse mori” (não posso morrer). Em síntese, o homem foi criado moralmente perfeito, mas passível de cair desse estado de perfeição, pelo que se pode concluir que ele não possuía aquele estado mais perfeito e imutável possível a uma criatura.
- Foi, portanto, para o aperfeiçoamento do homem em relação ao estado em que se encontrava que Deus decidiu fazer um pacto com a humanidade, representada por Adão. Para tanto, após formar o homem do pó da terra e conceder-lhe o fôlego de vida (Gn 2.7), “plantou o Senhor um jardim no Éden” e o colocou no jardim “para o cultivar e o guardar” (Gn 2.15). A passagem apresenta a ação divina (tomar-colocar) e a comissão divina (cultivar-guardar). Isto é, “Moisés vai da criação do homem, macho e fêmea, para a vocação edênica de Adão” (C. BARCELLOS, Richard; 2019, p. 57). Importante observar com Renihan que o jardim do Éden “não era a localização inicial e natural do homem. Adão foi formado, depois o Éden foi preparado e só então Adão foi colocado no Éden” (RENIHAN, Samuel David; 2021, p. 91). Em outras palavras, o homem foi criado fora do Éden (na “’adâmâh”), e somente depois foi posto no jardim. Essa “transposição” aconteceu por uma ação intencional de Deus, que “tomou” (heb. “wayyiqqah”) o homem do modo como posteriormente faria Enoque (Gn 5.24), e o “colocou” no jardim.
- Isso quer significar que a Adão foi dado algo que estava para além daquilo que recebeu quando simplesmente criado, lugar onde também receberia promessas de uma vida ainda mais abençoada, quando comparada àquela que recebeu na criação, e de onde cumpriria sua missão até aos confins da Terra. O Éden era um jardim-santuário, no qual Adão governava como rei, sacerdote e profeta e a partir do qual expandiria a glória de Deus sobre toda a Terra, conduzindo a criação à consumação, em uma missão escatológica.
- Samuel Renihan argumenta que “O Éden era um modelo prototípico de templo”, observando as seguintes semelhanças entre um e outro: o Éden é descrito como estando em um lugar elevado (cf. Hb 12.22); as pedras preciosas remetem à estética do tabernáculo, do templo e do peitoral de Arão; as árvores são prospectivas dos candelabros do tabernáculo e do templo (cf. Ex 25.31-39); Adão teve acesso proibido ao jardim após o pecado, assim como Deus se recusa a admitir o pecado em seus santuários. Renihan conclui: “Esses fatores indicam que Deus fez o Éden para ser um templo e santuário onde sua presença seria manifestada. E colocou Adão lá para guardá-lo e lavrá-lo (…). Deus concedeu a Adão um domínio particular para governar, uma esfera de soberania. Deus colocou Adão sobre o rei sobre o Éden (…)”.
- O aspecto sacerdotal do ofício de Adão pode ser também percebido quando observado que as palavras para “lavrar” e “guardar” só ocorrem juntas em Gênesis 2.15 e para descreverem os deveres sacerdotais dos levitas quanto a “servir” e “guardar” o santuário (cf. Nm 3.7-8; 8.26; ; 18.5-6). A nuance profética do ofício tríplice de Adão está igualmente presente: “Nas Escrituras, receber a Palavra do Senhor diretamente constituía alguém como um profeta. Assim como o profeta Moisés recebeu os mandamentos levíticos (Nm 3.5-6), assim também Deus declarou seus decretos de maneira pessoal a Adão (…)” (RENIHAN, Samuel David; 2021, p. 91-98). Com efeito, a palavra hebraica “abad” pode significar “cultivar”, “servir” ou “cultuar”, e “samar” tem o sentido básico de “guardar”, “vigiar”, “proteger” ou “observar” (um mandamento). A combinação dos dois verbos é rara, conforme apontado, o que indica a função sacerdotal de Adão no Éden (para um estudo sobre o “Éden como um templo”, consultar BEALE, G. K., “O templo e a missão da Igreja: uma teologia bíblica do templo do Éden ao Cristo”. São Paulo: Cultura Cristã, 2016. pp. 66-99; ver também PEREIRA, Ney Brasil. Cultivar e guardar a criação: estudo exegético de Gn 2.15. Revista Encontros Teológicos, v. 31, n. 3, p. 377-396, 2016).
- No jardim havia, além de “toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento”, duas árvores nominalmente destacadas: “a árvore da vida” e “a árvore do conhecimento do bem e do mal” (Gn 2.9). Com o cenário pronto, Deus formalizou, mediante decisão soberana, aquilo que tem sido denominado Pacto das Obras. A soberania da decisão divina foi destacada por Marcus Paixão com as seguintes palavras: “Adão não necessariamente precisava representar sua posteridade, assim como o universo não necessatriamente teria que ser como é. (…) Se todos os homens falassem por si mesmos, não haveria relação de representatividade e federalismo, embora pudesse haver algum tipo de pacto pessoal” (PAIXÃO, Marcus; 2022, p. 20). Barcellos, por sua vez, fornece argumentos bíblicos que fundamentam a existência de um pacto com Adão: o uso do nome pactual “Yahweh” em Gênesis 2.4; as palavras de Isaías (24.5-6) e de Oseias (6.7); as razões do termo “Pacto de Obras” com base em Romanos 5.12-21 e o fato de Adão ser “um tipo daquele que havia de vir” (Rm 5.14); com base em Romanos 3.23, aduz que Adão perdeu algo que ele não possuía em virtude da criação (na p. 70, afirma: “Adão não foi criado em uma condição ou estado que pudesse ser chamado de “glória” e não alcançou esse estado porque pecou (…). Adão foi criado em um estado que poderia ser melhorado, sendo Deus a causa última e a obediência de Adão a causa instrumental para esse aperfeiçoamento”); Jesus Cristo, como antítipo de Adão, entrou na glória e, “segundo a Sua natureza humana, Se tornou o que não era através da ressurreição” (p. 75) (vide pp. 55-78 da obra de Barcellos).
- Em termos cronológicos, esse foi o primeiro pacto realizado por Deus com o homem, logo após a criação. A condição do Pacto das Obras, ressalte-se, foi uma obediência perfeita. Adão deveria obedecer a todos os seus termos, perfeitamente, sem falhas, na qualidade de cabeça federal da humanidade. Esclareça-se ainda que a desobediência de Eva não teve o mesmo significado da desobediência de Adão. Os termos do Pacto foram estabelecidos com Adão antes da criação de Eva. É evidente que Eva não poderia comer do fruto proibido, um mandamento que ela havia aprendido com Adão, o único pactualmente responsável pela preservação da santidade e da obediência no jardim de Deus. Eva era parte de Adão e, como tal, o fruto que foi proibido a Adão o foi igualmente a ela. Mas Adão e Eva estavam em níveis diferentes: Eva respondia por si; Adão, não apenas por si, mas pela família humana, da qual ele era o cabeça pactual. É por isso que Paulo diz que “Em Adão [não “em Adão e Eva”], todos morrem” (1Co 15.22), por causa da transgressão de Adão (Rm 5.14). Em síntese, o Pacto das Obras envolveu a humanidade, mas ela estava representada por Adão, somente.
- As estipulações do pacto consistiam de um mandamento positivo, adicionado à lei moral de Deus (gravada na disposição natural do homem). A lei moral (lei natural ou lei da criação) gravada no coração de Adão é parte do aspecto substancial da sua criação à imagem de Deus, fundamenta-se na imutabilidade da natureza divina e é dada ao homem através da revelação geral (Rm 2.14-15). A lei positiva, por sua vez, pode ser qualquer lei acrescentada à lei moral (o que se deu após o pecado) e só pode ser recebida por meio de revelação especial. A lei moral é imutável, tendo sido apenas codificada no Decálogo (Ex 20) e esclarecida por Jesus (Mt 5) (OWEN, John; COXE, Nehemiah; 2020, p. 65). Esse mandamento positivo consistiu do dever de se abster do fruto “da árvore do conhecimento do bem e do mal”, sob pena de morte (Gn 2.17). O cabeça federal da raça humana não seria testado indefidamente, mas submetido a um teste probatório único e de uma vez por todas e, em caso de obediência, colheria a vida eterna no sentido mais pleno possível à criatura, representada sacramentalmente pela “árvore da vida”.
- Importante reconhecer que, pelo só fato da criação, Adão (e a humanidade) já estaria sob o dever de observar perfeitamente a lei moral e eterna de Deus, que nada mais é do que o reflexo do caráter santo e imutável de Criador. Adão tanto conhecia a lei moral como, pela mesma disposição natural, era capaz de (e pronpenso a) obedecê-la. O mandamento do pacto de obras, por seu turno, foi uma lei positiva, não deduzida da lei natural, posto que veio a manifestar-se pela instituição positiva da vontade de Deus e que vincula a parte pactuante pelo só fato de Deus tê-lo ordenado. O objeto da lei do pacto (a árvore do conhecimento do bem e do mal) era moralmente indiferente, querendo isso dizer que comer ou não comer daquele fruto específico seria um indiferente moral, à parte do mandamento de Deus. A obrigatoriedade decorreu unicamente da ordem divina para ser um teste externo de obediência, a saber se o homem se submeteria à vontade revelada de Deus somente pelo fato de sê-la.
- Entretanto, a relação da lei moral com a lei do pacto é indissociável. A lei moral pode ser resumida no amor (Mt 22.37-40; Rm 13.10) e o amor se manifesta pela obediência (Jo 14.21, 23-24), de modo que se Adão quebrasse o mandamento positivo do pacto, deixando de amar a Deus desobedecendo a sua vontade, estaria, a um só tempo, violando o pacto e quebrando toda a lei moral de Deus. Dizendo de outro modo, não seria possível violar a lei específica da aliança de obras sem se tornar culpado de haver quabrado toda a lei de Deus (Tg 2.10). Como disse Coxe: “Não pode haver transgressão de um preceito cerimonial sem a violação daquela lei eterna que está escrita em seu [de Adão] coração” (OWEN, John; COXE, Nehemiah; 2020, p. 65). Portanto, Adão deveria obedecer o mandamento do pacto, sob pena de sofrer a maldição nele estipulada: “no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.17).
- Satanás, porém, por meio da serpente, enganou Eva, levando-a a comer do fruto; Eva tomou do fruto e o comeu, e o deu a Adão, e ele comeu (Gn 3.1-6; 1Tm 2.14). Ao comer, Adão foi escravizado ao domínio do pecado, o aspecto substancial da imagem de Deus (a santidade positiva; a lei moral gravada no coração e a capacidade de obedecê-la) foi perdido e recebeu a maldição do pacto – a morte -, e, nele, a humanidade foi amaldiçoada (Rm 5.12; 1Co 15.21-22). Observe a redação confessional do art. 15: “… [Adão] desobedeceu ao mandado do Criador [2], transgredindo os termos do Pacto das Obras [3], no qual figurou como cabeça e representante da raça humana, razão pela qual foi expulso do paraíso [4] e adquiriu culpa [5], corrupção da natureza [6] e morte [7], para si e toda a humanidade [8]…”.
- A morte espiritual foi imediatamente experimentada pelos primeiros pais. A vergonha, a culpa e a alienação do Criador foram sentidas instantaneamente após a desobediência (Gn 3.7-8). A partir daquele momento, Adão não seria mais capaz de amar, escolher e realizar qualquer bem espiritualmente útil (Jo 3.19; Rm 3.9-18; 1Co 2.14; Ef 4.18): “…e que, nesse estado assim decaído, todos os homens já nascem com todas as suas faculdades corrompidas [9], sendo por natureza incapazes de fazer [10], desejar [11] e mesmo de entender [12] qualquer bem espiritualmente útil que os faça usar seus poderes, habilidades e faculdades para a glória do Criador [13]”. Não porque tenha perdido a capacidade de exprimir sua vontade livremente por meio de decisões e realizações, mas que sua vontade tornou-se escrava da sua natureza decaída.
- Fisicamente, Adão e Eva não morreram naquele dia, após a desobediência, mas começaram a morrer imediatamente. A vida, prontamente, deixou de ser uma contagem progressiva para ser uma contagem regressiva, e já não podia acontecer sem a plena certeza da morte. As “delícias” do Éden cederam lugar à luta árdua pela sobrevivência, ao final da qual o homem voltaria ao pó (Gn 3.17-19). Mas não só. A maldição continha também a ameaça de morte eterna, significando a eterna sujeição à justa ira do Deus Todo-poderoso no “Geena” (Mt 23.33; Lc 12.5) ou “Lago de Fogo” (Ap 20.15; 21.8), onde os condenados colhem o “castigo eterno” ou “eterna destruição” (Mt 25.46; 2Ts 1.9), sob tormentos ininterruptos e pelos séculos dos séculos (Mc 9.43-48; Ap 14.11; 20.10).
- Os aspectos da morte como maldição do Pacto das Obras são indissociáveis. A morte espiritual diz respeito à presente condição de alienação do homem em relação a Deus, em seu tríplice estado de morte, escravidão e corrupção (Ef 2.1-3). A morte física e a eterna selam a morte espiritual, tornando-a definitiva e, como consequência dessa combinação, o homem foi expulso do jardim e o caminho à árvore da vida se tornou uma impossibilidade (Gn 3.23-24). Essa foi a condição que Adão colheu para si, mas também para a toda a humanidade, visto que Deus o pôs como representante federal de todos os seus descendentes naturais, à exceção de Jesus Cristo. Aquilo que Adão fez, não o fez somente para si e em seu próprio nome, mas representando toda a sua progênie, razão pela qual a sua desobediência foi imputada a todos nós e, nele, todos morremos (Rm 5.12). Pelo que ele fez, aquilo que pode ser dito dele após a Queda pode ser dito de cada um dos membros da humanidade, à exceção de Jesus Cristo. Sua maldição é a nossa maldição, sua culpa é a nossa culpa, sua natureza corrompida é a nossa e o salário do seu pecado é o nosso.
- Quanto a Satanás, “a antiga serpente”, é possível dizer que a Queda lhe concedeu certa autoridade sobre a raça decaída (Lc 4.6), bem como legitimidade para, nos limites impostos pelo Criador, enganar os homens (como “o sedutor de todo o mundo”) e acusá-los perante Deus (Jó 1.6-12; 2.1-6; 1Cr 21.1; Zc 3.1; Ap 12.9-10; 20.3). “Embora Deus tenha permanecido soberano, o Diabo assumiu o controle legal sobre o homem, e o reino do homem foi transformado em um reino de trevas” (JOHNSON, Jeffrey; 2023, p. 197). Satanás se tornou o príncipe de um mundo que jaz no maligno, o “deus deste século”, um senhor cruel que opera nos filhos da desobediência (Jo 12.31; 14.30; Ef 2.2; 2Co 4.4; 1Jo 5.19).
- Mas o que teria acontecido se Adão tivesse obedecido os termos do pacto? A deduzir pela maldição colhida por Adão como consequência da sua desobediência, é certo afirmar que ele teria alcançado, por sua obediência, um nível de perfeição da sua natureza e de comunhão com Deus que estavam para além daquelas que recebeu pela criação. Citando A. A. Hodge, Richard Barcellos afirma que a “‘recompensa de vida’ pela obediência é uma estipulação pactual, não uma estipulação estrita ou absolutamente criacional. Em outras palavras, havia dois estados antes da queda nos quais Adão existiu – como uma criatura racional de Deus, devendo obediência a seu criador, e como uma criatura racional de Deus em aliança, devendo obediência ao seu Senhor pactual” (C. BARCELLOS, Richard; 2019, p. 34). Ele teria saltado para um estado ainda mais bem-aventurado e sido colocado na condição de impossibilidade de pecar e de morrer.
- A “árvore da vida” estava posta perante Adão como símbolo da promessa pactual de vida. Esse aspecto da promessa pode ser demonstrado quando o Cristo glorificado promete ao “vencedor” de Éfeso (isto é, aquele que permanecer fiel até o fim, resgatando o amor verdadeiro, sem negligenciar a boa doutrina) que a ele será dado “que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus” (Ap 2.7). Considerando a promessa de Apocalipse 2.7, Coxe conclui: “Isso é assim em razão de Deus haver designado essa árvore para ser uma garantia de vida eterna para Adão nos termos e condições de um Pacto de Obras, e pela analogia da recompensa que Cristo dá a seus fieis nos termos de outro pacto” (OWEN, John; COXE, Nehemiah; 2020, p. 67). A árvore da vida volta a aparecer em Apocalipse 22.2 como simbólica da vida eterna consumada. Essa promessa é retirada de Adão em virtude do seu pecado (Gn 3.22-24), como também para que o homem não julgasse que o caminho à vida eterna permaneceria aberto por suas próprias obras. A obstrução à árvore da vida, portanto, era um anúncio poderoso de que o homem jamais poderia obter a vida eterna por meio das suas próprias obras.
- O reino estabelecido para Adão teria logrado ultrapassar os limites do Éden e alcançado os confins da criação de Deus, povoando toda a Terra com sua descendência crente e abençoada. A comunhão com Deus teria alcançado seu ápice e o jardim-santuário teria sido elevado a lugar de morada comum de Deus e dos homens. Jeffrey Johnson escreveu o seguinte sobre a missão dada a Adão: “O jardim do Éden era o lugar inicial onde a glória da presença de Deus habitava com o homem. Assim, o santuário do jardim era o templo de Deus, e a comissão dada ao homem era levar a presença de Deus consigo, dominar o mundo e encher a terra com os filhos de Deus. Em outras palavras, a glória de Deus que preenchia o santuário do jardim deveria ser estendida e encher toda a terra. Isso deveria acontecer à medida que os filhos de Deus se multiplicassem e carragessem dentro deles a presença divina para todo o mundo. Quando os filhos de Deus acabassem por ocupar a terra, dominar a criação com o conhecimento e a glória de Deus, então o mandato do reino seria cumprido com o descanso sabático de Deus que se seguiria disso” (JOHNSON, Jeffrey; 2023, p. 188).
- Se Adão tivesse obedecido, é razoável concluir, a repercussão da sua fidelidade teria sido sentida imediatamente por Satanás, o enganador-acusador. Não teria havido lugar para o seu reino de trevas (Cl 1.13). As nações não teriam sido enganadas e assim permanecido por milênios. Satanás teria sido despojado incontinenti (Cl 2.15) e não haveria lugar para ele na Terra e no Céu (Jó 1.6, 7; 2.1, 2). Embora tenhamos a revelação mais completa da maldição do pacto com Adão do que da promessa de vida feita a ele, é razoável pressupor que ele, Adão, conhecia “com igual clareza” a promessa de bênção como a ameaça de maldição, assevera Coxe, que explica as razões desse aspecto menos explícito do pacto com as seguintes palavras: “Isso pode ser porque é mais importante que estejamos completamente humilhados sob a ideia da miséria presente da humanidade em seu estado caído, do que curiosos sobre em que consistia especificamente ou o grau daquela bem-aventurança que uma vez foi proposta, mas que nunca mais poderá ser obtida por nós através da participação naquele pacto que primeiramente nos deu direito á recompensa” (OWEN, John; COXE, Nehemiah; 2020, p. 70).
- Fato é, entretanto, que Adão desobedeceu o Pacto das Obras, transgredindo o quanto estipulado. Mas mesmo tendo sido violado por Adão, o pacto da criação permaneceu vigente quanto às consequências da desobediência, sendo certo afirmar que em tempo algum os homens escaparam da exigência divina de justiça perfeita, sob pena de morte. Veja, a propósito, Romanos 5.13-14: “Porque até ao regime da lei havia pecado no mundo, mas o pecado não é levado em conta quando não há lei. Entretanto, reinou a morte desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança de Adão, o qual prefigurava aquele que havia de vir”. A partir da Queda até ao tempo em que a lei de Moisés foi dada no Sinai (e mesmo após o Pacto Sinaítico), a humanidade permaneceu sob o pacto que Deus havia firmado com Adão, porque, embora violado, ele permaneceu íntegro quanto à maldição que previu contra os violadores da lei moral de Deus, ínsita ao mandamento positivo do pacto.
- Se apenas Adão estivesse obrigado a guardar a lei de Deus, as consequências da sua obediência teriam alcançado somente a ele, mas em virtude do pacto o seu pecado foi imputado a toda a humanidade. A maldição do Pacto das Obras permaneceu, uma vez que todos os membros da raça humana estavam nele representados. Por isso Paulo diz que a morte “passou a todos os homens” (Rm 5.12), no sentido de ter alcançado (como a maldição do pacto) a todos os seres humanos em decorrência do pecado do cabeça federal da humanidade.
Soli Deo Gloria