Da Queda do Homem
Artigo 15 – Cremos que o homem foi criado perfeito em seu estado original [1], mas desobedeceu ao mandado do Criador [2], transgredindo os termos do Pacto das Obras [3], no qual figurou como cabeça e representante da raça humana, razão pela qual foi expulso do paraíso [4] e adquiriu culpa [5], corrupção da natureza [6] e morte [7], para si e toda a humanidade [8], e que, nesse estado assim decaído, todos os homens já nascem com todas as suas faculdades corrompidas [9], sendo por natureza incapazes de fazer [10], desejar [11] e mesmo de entender [12] qualquer bem espiritualmente útil que os faça usar seus poderes, habilidades e faculdades para a glória do Criador [13].
[1] Gênesis 1.31; Eclesiastes 7.29. [2] Gênesis 2.16,17; 3.6. [3] Oséias 6.7. [4] Gênesis 3.23,24. [5] Gênesis 3.7-10. [6] Jeremias 17.9; Marcos 7.20-23. [7] Efésios 2.1-3; João 8.34; Romanos 6.23. [8] Romanos 5.12. [9] Gênesis 6.5; 8.21; Salmos 51.5; 58.3; Romanos 3.9-18. [10] Jeremias 13.23; João 15.4,5; Gálatas 5.19-21. [11] Romanos 8.6-8; João 3.3,19; 5.40; 6.44,65. [12] Salmos 14.2,3; 1Coríntios 1.18-21; 2.6-8,14; 1João 4.5,6. [13] Romanos 3.23.
Da Promessa do Pacto da Graça [14]
Artigo 16 – Cremos que, com a desobediência e a Queda [15], o homem tornou-se incapaz de readquirir a vida eterna através das próprias obras [16], mas Deus imediatamente o socorreu prometendo-lhe um novo pacto, o Pacto da graça [17], por meio do qual estabeleceria um novo cabeça e representante federal, Jesus Cristo [18], para cumprir o Pacto das Obras no lugar do povo a quem Deus concederia salvação somente por graça [19], requerendo dos eleitos tão somente fé no Redentor [20], tendo Deus, na antiga dispensação, prometido aquele pacto [21] e revelado-o progressivamente sob e por meio de alianças, profecias e cerimônias dadas ao antigo Israel [22], tudo a indicar o Messias que havia de vir para estabelecê-lo com o sangue da Nova Aliança [23], mas de modo suficientemente claro para edificar a fé da Igreja de então [24].
[14] Artigo de subscrição facultativa por igrejas e pastores da UIECB. [15] Gênesis 3.6. [16] Romanos .19,20. [17] Gênesis 3.14-19. [18] Romanos 5.12-19; Gálatas 3.16; Hebreus 8.6-13; 1Pedro 2.4. [19] Romanos 11.5,6; Efésios 2.4-9; 1Timóteo 1.9. [20] Romanos 1.16,17; 10.13; Gálatas 2.26; 3.6-11. [21] Gênesis 3.15; 12.1-3; Jeremias 31.31-34; Gálatas 3.8. [22] Romanos 1.1-3; 3.2; 9.4; Efésios 2.12; Êxodo 12.1-14; 24.1-11; Levítico 1–5; 23; 2Samuel 7.12-16; Jeremias 32.38-41; Ezequiel 37.24-28. [23] Lucas 22.20; 1Coríntios 11.25; Hebreus 9.1-14,23; 10.1-4,11-12,29; 12.24. [24] Gálatas 3.23,24.
Descrevemos sucintamente nos estudos anteriores, a propósito do artigo 16 da Declaração, sobre como o Pacto da Graça foi progressivamente revelado ao longo da história veterotestementária – a partir da promessa do Descendente da mulher, que feriria mortalmente a cabeça da serpente (Gn 3.15) -, por meio de “alianças, profecias e cerimônias dadas ao antigo Israel”. Dissemos também, de passagem, que essa revelação foi dada “de modo suficientemente claro para edificar a fé da Igreja de então”, isto é, para ser objeto da mesma fé daqueles que foram salvos pela mesma graça dos crentes do Novo Testamento. É o momento, pois, de nos dedicarmos a tratar sobre o estabelecimento do Pacto da Graça, até então prometido, “com o sangue da Nova Aliança”.
- A Nova Aliança é o cumprimento da promessa que antecipou a realização histórica do Pacto da Graça: aquele concerto incondicional por meio do qual Deus satisfez as exigências de sua justiça mediante a obra de um novo cabeça federal da humanidade redimida, o Senhor Jesus Cristo. Isso significa que todas as bênçãos espirituais da salvação foram adquiridas pelos méritos de Cristo, em virtude da dignidade incomparável de sua pessoa e de sua perfeita obediência, de modo que, para nós, tudo é recebido por pura graça e misericórdia, ao passo que, em relação a Cristo, tudo está em perfeita consonância com a justiça e a santidade de Deus.
- Sob a antiga aliança, o Pacto da Graça foi revelado a partir de Gênesis 3.15, momento após o qual permaneceu sendo desvelado progressivamente ao longo do Antigo Testamento até ser concluído na morte e ressurreição de Jesus Cristo. Essa revelação aconteceu sobretudo por meio de alienças formais que precederam a sua consumação em Cristo, cuja substância diferiu da Nova Aliança, tendo sido por ela abolidas. É dizer que “a Antiga Aliança em si não era o Pacto da Graça estabelecido, era uma aliança condicional, nacional e distinta. Na plenitude dos tempos, Cristo veio em cumprimento da promessa e, em Sua obra redentora, estabeleceu o Pacto da Graça em Seu sangue” (Angelim; 2021, p. 99).
- Os crentes da antiga aliança participavam dos benefícios salvadores do Pacto da Graça, fundamentados na obra de Cristo, que a eles retroagiam, quando, pela graça, abraçavam com fé genuína a promessa do Messias. Na Nova Aliança, participamos do Pacto da Graça quando somos regenerados pelo Espírito Santo e, mediante a fé que ele mesmo opera em nós, recebemos a Cristo e nos tornamos participantes dos benefícios de sua redenção, pois, como afirma o apóstolo, “se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9). Portanto, quem não pertence a Cristo não participa do Pacto da Graça, mas permanece sob a condenação decorrente da transgressão do Pacto das Obras.
- Todos quantos fazem parte da Nova Aliança, pois, necessariamente desfrutam das bênçãos espirituais prometidas por Deus por intermédio do profeta Jeremias. Por isso, somente os eleitos, quando passam a professar uma fé genuína, operada pelo Espírito Santo, são participantes do Pacto da Graça. Dito de outro modo, todos os que pertencem a esse pacto têm a lei de Deus escrita no coração, conhecem verdadeiramente o Senhor, desfrutam de comunhão com Ele como seu Deus e pertencem ao seu povo, além de receberem o perdão de seus pecados, que Deus não mais lhes imputa. Essas bênçãos não constituem meras possibilidades oferecidas aos participantes da Nova Aliança, mas privilégios efetivamente concedidos a todos aqueles que nela estão verdadeiramente incluídos (Jr 31.31-34; Hb 8.10-12).
- Paul Washer, citado por Angelim, esclarece que na antiga aliança somente um remanescente dos descendentes naturais de Abraão consistia de pessoas regeneradas, enquanto que na Nova Aliança a Igreja é o remanescente fiel: “(…) todo o ponto da Nova Aliança é que ela não seria igual à Antiga. Na Velha Aliança, Deus chamou uma nação física, descendente de Abraão, para ser Seu povo, mas dentro daquela grande multidão de indivíduos, apenas alguns eram verdadeiramente regenerados e crentes. O restante era não regenerado e carnal, e hoje sofre eterna perdição. Na Nova Aliança, Deus chama uma nação espiritual, composta de judeus e gentios, e são todos crentes regenerados. Não existe um remanescente piedoso na igreja verdadeira: essa igreja verdadeira é o remanescente piedoso” (Angelim; 2021, p. 98). Ditas essas coisas, sentimo-nos prontos a discorrer sobre as diferenças entre a antiga e a Nova Aliança.
- A aliança antiga refere-se, especificamente, ao Pacto Mosaico até o estabelecimento do Pacto da Graça na Nova Aliança. Entretanto, ela também inclui todo o período antigotestamentário, desde a Queda até a Nova Aliança. Pascal Denault esclarece o ponto avivando que aquela aliança foi concluída com base no Pacto Abraâmico; que muitas vezes o Novo Testamento apresentou a aliança entre Deus e Israel como estando enraizada não apenas no Pacto Moisaico, mas também na aliança com os patriarcas; que Jesus e Paulo uniram a circuncisão dada a Abraão à lei dada a Moisés de forma indissociável (Jo 7.22,23; Gl 5.3); que Estêvão começou seu relato da antiga aliança com Abraão (At 7), etc. E mais: A Epístola aos Hebreus afirma que Cristo pagou pelo pecados cometidos sob a primeira Aliança (Hb 9.15), a saber, todos ao pecados cometidos antes da morte de Cristo desde a queda”. Denault conclui: “A primeira Aliança, portanto, cobria todo o período indo desde a queda até ao estabelecimento da Nova Aliança” (DENAULT, Pascal; 2023, p. 160).
- O Pacto Abraâmico guarda relação direta com ambas as alianças, a antiga e Nova, visto que possui aspectos físicos e espirituais. Os aspectos físicos da aliança abraâmica se cumpriram na nação de Israel e o sinal dessa aliança era a circuncisão física. A terra prometida era Canaã e seu desenvolvimento se deu com a descendência do Israel natural sob a antiga aliança (Gl 4.24-31), ressalta Angelim, o qual asseverou que a antiga aliança era um tipo que apontava para Cristo (Angelim; 2021, p. 121-122). Por outro lado, os aspectos espirituais da aliança abraâmica referiam-se a Cristo, o Descendente de Abraão (Gl 3.16), e se cumpriram na Nova Aliança, no estabelecimento do Pacto da Graça. Na Nova Aliança, a circuncisão ocorre no coração e os herdeiros dessas promessas são os crentes em Jesus Cristo, a descendência espiritual de Abraão. No primeiro caso, em Abraão tem-se um pacto de obras estabelecido com seus descendentes naturais; no segundo, foi revelado ao patriarca a promessa do Evangelho que divisava os crentes dentre os israelitas, com a inclusão dos gentios (Mt 3.9; Rm 2.28, 29; 9.6-8; Gl 3.29). “Portanto”, conclui Angelim, “a aliança do Sinai é uma progressão da aliança abraâmica e surge por meio dessa aliança, enquanto as promessas espirituais e incondicionais feitas a Abraão se cumprem apenas na Nova Aliança” (2021, p. 127).
- É precisamente na relação entre a Antiga e a Nova Aliança que se encontra uma das divergências fundamentais entre pedobatistas e credobatistas. Embora ambas as tradições reconheçam que a salvação sempre se fundamentou na graça de Deus e na obra mediadora de Cristo, elas divergem quanto à natureza da relação entre as alianças e às consequências dessa relação para a composição do povo pactual. Na perspectiva pedobatista reformada, a Antiga e a Nova Aliança constituem diferentes administrações do mesmo Pacto da Graça, o que fundamenta a continuidade do princípio de inclusão dos filhos dos crentes na comunidade pactual e a aplicação do sinal da aliança também às crianças. Os credobatistas, por sua vez, distinguem o Pacto da Graça, revelado progressivamente nas promessas anteriores, da aliança sinaítica, entendida como uma aliança distinta, de caráter tipológico e temporário, e da Nova Aliança, estabelecida definitivamente por meio da obra redentora de Cristo. Nessa compreensão, a continuidade da graça salvadora não implica identidade entre a Antiga e a Nova Aliança, nem exige que ambas possuam a mesma composição de membros.
- A exposição de John Owen sobre Hebreus 8 constitui uma referência importante para essa segunda perspectiva. Ao comentar Hebreus 8.6-13, Owen examina a distinção entre a aliança estabelecida no Sinai e a Nova Aliança, argumentando que elas não são simplesmente duas administrações da mesma aliança, como querem os pedobatistas, mas alianças distintas, embora a salvação, em ambas, sempre tenha ocorrido por meio de Cristo. Para Owen, os crentes do Antigo Testamento foram salvos pela eficácia da promessa da graça e pela mediação de Cristo, e não pela eficácia salvadora intrínseca da aliança sinaítica. A Nova Aliança, por sua vez, introduz a forma definitiva e testamentária das promessas da graça, confirmadas pela morte de Cristo, e assegura aos seus participantes as bênçãos espirituais anunciadas em Jeremias 31.31-34: a lei de Deus escrita no coração, o conhecimento salvador do Senhor e o perdão dos pecados. Essa interpretação fortalece o argumento credobatista de que a composição da comunidade da Nova Aliança deve ser compreendida à luz das bênçãos que a caracterizam, e não simplesmente reproduzida a partir da estrutura nacional e tipológica da antiga aliança sinaítica.
- Em seu comentário de Hebreus 8, John Owen divide a exposição em duas partes gerais. A primeira, correspondente aos versículos 1 a 5, trata da excelência do sacerdócio de Cristo em comparação com o sacerdócio da ordem de Arão. Owen organiza essa seção em torno de três aspectos: a exaltação de Cristo e o lugar de sua atual habitação (v. 1); o santuário e o tabernáculo em que exerce seu ministério (v. 2); e o sacrifício que ofereceu, considerado também em relação às exigências do sacerdócio terreno e à natureza tipológica do culto mosaico (vv. 3-5). A segunda parte, que abrange os versículos 6 a 13, desenvolve a superioridade da Nova Aliança em relação à antiga, demonstrando, por essa comparação, a excelência do ministério sacerdotal de Cristo. Owen observa que toda a organização religiosa de Israel, incluindo o sacerdócio levítico, as ordenanças de culto e os privilégios associados, estava vinculada à aliança estabelecida no Sinai. A introdução do sacerdócio superior de Cristo, portanto, implicava o término daquela ordem pactual e exigia o estabelecimento de uma aliança superior, dotada de melhores promessas. Nessa segunda seção, Owen examina a insuficiência da primeira aliança para conduzir o povo à condição definitiva pretendida por Deus (v. 7), a promessa profética de uma Nova Aliança (v. 8), sua distinção em relação à aliança feita com os pais no êxodo (v. 9), as bênçãos espirituais que a caracterizam (vv. 10-12) e, finalmente, a obsolescência da primeira aliança diante da introdução da nova (v. 13). É sobretudo nessa segunda parte que se encontra a contribuição de Owen para a discussão sobre a relação entre as alianças e a natureza da Nova Aliança.
- A tese de John Owen precisa ser entendida a partir de uma distinção fundamental: uma coisa é a aliança sinaítica, estabelecida com Israel; outra é o Pacto da Graça, por meio do qual os pecadores são salvos em Cristo. Owen sustenta que os crentes do Antigo Testamento foram realmente salvos pela graça de Cristo, mas não porque a aliança do Sinai, considerada em si mesma, lhes conferisse justificação e vida eterna. É essa distinção que permite a Owen defender que a Antiga e a Nova Aliança são alianças distintas, sem concluir que houve dois caminhos de salvação.
- O ponto de partida: Hebreus 8.6. Owen começa observando que o autor de Hebreus passou a comparar duas alianças: a que Deus estabeleceu com Israel no Sinai e a Nova Aliança, mediada por Cristo. O argumento do apóstolo é que Jesus recebeu um ministério superior porque é mediador de uma aliança superior, estabelecida sobre promessas melhores. Para Owen, isso não é apenas uma mudança de cerimônias religiosas. A aliança do Sinai sustentava toda a organização religiosa de Israel: seu sacerdócio, suas ordenanças de culto e os privilégios ligados àquela estrutura. Quando Cristo veio como sumo sacerdote, inaugurando uma nova ordem, aquela estrutura pactual precisava chegar ao fim. Era necessário, portanto, que a Nova Aliança trouxesse algo superior em lugar da antiga. Para Owen, a questão é esta: se o autor de Hebreus afirma que uma aliança é melhor do que a outra, que a primeira envelheceu e que ela seria abolida, podemos dizer que temos simplesmente a mesma aliança, com a mesma substância, administrada de duas maneiras diferentes? É justamente essa interpretação que Owen passa a questionar.
- A salvação sempre foi a mesma, mas isso não torna as duas alianças idênticas. Aqui está uma das distinções mais importantes de seu argumento. Owen reconhece que os crentes do Antigo Testamento foram salvos pela graça, mediante Cristo. Eles receberam perdão, justificação e reconciliação com Deus pela mesma mediação que salva os crentes do Novo Testamento. A diferença entre os períodos bíblicos não significa que, antes de Cristo, alguém pudesse ser salvo por suas próprias obras ou pela simples observância da lei mosaica. Mas observemos a pergunta de Owen: se os antigos crentes foram salvos pela promessa da graça e pela mediação de Cristo, isso significa que foram salvos por meio da aliança do Sinai? Sua resposta é não. Owen distingue o Pacto da Graça, que operava no período do Antigo Testamento por meio da promessa de Cristo, da aliança sinaítica propriamente dita. Os crentes antigos desfrutavam dos benefícios da redenção prometida, mas não obtinham justificação e salvação pela eficácia da aliança do Sinai em si mesma. Assim, não é necessário afirmar que as duas alianças têm a mesma substância para preservar a unidade do caminho da salvação. O que permanece o mesmo é o fundamento da salvação — Cristo e sua obra —, não necessariamente a identidade entre as alianças.
- O argumento decisivo de Hebreus 8.8-12: as promessas da Nova Aliança. Owen não se limita a dizer que as alianças são diferentes porque uma veio antes e a outra depois. Ele examina o conteúdo da promessa de Jeremias 31.31-34. Deus promete fazer uma nova aliança na qual escreverá suas leis no coração de seu povo, será o Deus daqueles que lhe pertencem, e eles serão seu povo, concederá o conhecimento verdadeiro do Senhor, perdoará suas iniquidades e não mais se lembrará de seus pecados. Owen entende que essas promessas não são simples mudanças nas formas externas de culto. Elas expressam privilégios espirituais superiores, ligados à obra de Cristo e à realidade da Nova Aliança. É precisamente por isso que ele considera insuficiente tratar a diferença entre as alianças como se fosse apenas uma mudança na administração externa de uma única realidade pactual. Aqui aparece a relevância desse argumento para a posição credobatista. Se as promessas de Jeremias descrevem os privilégios efetivamente concedidos aos participantes salvadores da Nova Aliança, então a composição dessa comunidade não deve ser deduzida automaticamente da composição nacional de Israel sob a aliança do Sinai. Essa conclusão favorece a leitura credobatista, embora a questão específica dos destinatários do batismo ainda exija um argumento adicional.
- É importante não interpretar Owen como se estivesse afirmando que, antes da vinda de Cristo, não existia Pacto da Graça ou que os crentes do Antigo Testamento estavam privados de seus benefícios. Para ele, antes de Cristo, a graça salvadora era anunciada por promessas e apresentada por meio de figuras, sombras e instituições que apontavam para o Redentor. Na aliança do Sinai, Israel recebeu uma ordem pactual particular, com seu sacerdócio, culto e ordenanças, que cumpria uma função temporária na história da redenção. Na Nova Aliança, a obra de Cristo foi realizada e a aliança foi estabelecida em sua forma definitiva, com um ministério sacerdotal superior e as bênçãos prometidas por Jeremias. Portanto, a Nova Aliança não substituiu a graça pela qual os antigos crentes foram salvos. Ela substituiu a ordem pactual do Sinai, que era temporária e tipológica, pela ordem definitiva instituída por meio de Cristo. A promessa da graça, anteriormente revelada de modo antecipatório, encontrou sua realização histórica na obra do Mediador.
- Em síntese, o argumento de Owen é que a unidade do caminho da salvação não exige que a aliança do Sinai e a Nova Aliança sejam uma única aliança em substância. Os crentes do Antigo Testamento foram salvos por Cristo mediante a promessa da graça; a aliança sinaítica, porém, era uma ordem pactual distinta, com finalidade temporária, que apontava para Cristo e foi abolida quando a Nova Aliança foi estabelecida. É essa distinção que reforça a teologia credobatista em sua defesa da natureza específica da comunidade da Nova Aliança. Entretanto, Owen foi um teólogo reformado congregacionalista pedobatista.
- O resumo da ópera é este: a antiga aliança, estabelecida com Israel no Sinai, estava ligada à formação daquele povo como nação, com suas leis, seu sacerdócio e suas cerimônias, que também apontavam para realidades futuras em Cristo; a Nova Aliança, por sua vez, foi estabelecida por Cristo e inaugurada por sua morte, cumprindo as promessas de redenção anunciadas anteriormente. Embora a salvação sempre tenha sido pela graça de Deus, mediante Cristo, as duas alianças não se confundem: a Nova Aliança possui caráter próprio, fundamenta-se na obra consumada de Cristo e traz as bênçãos prometidas de perdão dos pecados, conhecimento de Deus e transformação interior. Sua composição também se distingue daquela do antigo povo nacional de Israel: dela participam aqueles que conhecem o Senhor e recebem as bênçãos da aliança, e não alguém simplesmente em razão de sua descendência natural. Assim, a Nova Aliança não é mera continuidade das instituições do Sinai, mas o cumprimento da promessa divina em Cristo e o estabelecimento de um povo constituído segundo essa nova realidade pactual.
Soli Deo Gloria
