Introdução
Chegamos, enfim, ao primeiro artigo do Credo dos Apóstolos e nesta lição abordaremos o título pessoal de uma das pessoas da Trindade Santa,“Pai”, e o atributo divino que o acompanha, a “onipotência”.
Deus o Pai
“Pai” (gr. “pater”) é o título de uma das pessoas da Trindade revelado de forma mais clara no Novo Testamento. É, portanto, a um só tempo, o título e o atributo pessoal dessa pessoa bendita da Trindade que a distingue das demais.
Embora Deus seja, já no Antigo Testamento, chamado de Pai da nação de Israel (Ex 4.22-23; Dt 14.1-2; 32.5-6; Os 11.1) e, no sentido de ser Criador e Sustentador das criaturas, Pai de todos os homens (At 17.26,28), o ensino prevalecente do Novo Testamento é que Deus é o Pai do Senhor Jesus e o Pai dos filhos que adotou em Jesus Cristo, os salvos em Cristo. Sobre isso discorreremos com mais pormenores.
Deus, o Pai do Senhor Jesus Cristo
A relação paterno-filial entre Deus o Pai e Deus o Filho é única (Ef1.3). Na Trindade, Deus é Pai em um sentido eterno, primordial e exclusivo do Filho. Dito de outro modo, Jesus Cristo é Filho de Deus o Pai de um modo como ninguém mais o é (Jo 1.18; 20.17).
Quando em debate com os judeus, após o episódio do tanque de Betesda, nosso Senhor se referiu a Deus como “Pai” de modo a deixar claro para os judeus que Ele afirmava ser da mesma essência da divindade (Jo 5.17-18). Não satisfeito, nosso Senhor asseverou fazer as mesmas coisas que o Pai (Jo 5.19-22), como também ser digno da mesma honra (Jo 5.23).
Ademais, vale observar que, no evangelho de João, a palavra usada para Jesus como “filho” (gr. “Uios”) é diversa daquela usada para os discípulos como “filhos” (gr. “teknon”).
Deus, o Pai dos filhos que adotou em Cristo
Com efeito, conforme já antecipamos, há um sentido bíblico em que Deus é referido como Pai de todos os homens. Paulo diz que todos os seres humanos são “geração” de Deus, uma vez que todos somos, sem exceção alguma, criados por Ele, dependentes dele para continuarmos existindo e beneficiários dele quanto às suas obras no âmbito da graça comum, isto é, quanto àquela distribuição de bondade com a qual Deus beneficia todas as pessoas, indistintamente (At 17.26-28; Mt 5.45).
Entretanto, o só fato de nos relacionarmos com Deus necessariamente por meio das obras divinas da criação e da providência não esgota as possibilidades da filiação para com Ele, conforme as Escrituras. Há uma relação filial pessoal que só pode acontecer em Jesus Cristo, como resultado da sua obra redentora.
Que nem todos os homens podem chamar legitimamente Deus o Pai de “nosso Pai” ficou evidente no diálogo de Jesus com os judeus, conforme João 8.39-44. Os judeus afirmaram temerariamente: “temos um pai, que é Deus”. A resposta de Jesus não apenas nega a noção de paternidade universal, mas, indo além, afirma que não é possível ser filho espiritual de Deus à parte de Jesus Cristo, tampouco honrar e obedecer a Deus (sentido absolutamente necessário à noção de filiação) sem honrar e obedecer a Jesus Cristo (Jo 5.23).
Em breve síntese, há um sentido em que não nascemos filhos de Deus. A Bíblia ensina que a nação de Israel cometeu o grave erro de presumir sua filiação divina a partir da geração biológica (Rm 8.9), que o que todos somos por natureza é “filhos da ira” (Ef 2.3) e que somente Deus, por meio de Jesus, pode nos tornar seus filhos.
Nesse sentido, os cristãos foram ensinados por Jesus Cristo a chamar Deus de “Pai nosso” (Mt 6.9). Deus tornou-se nosso “Pai” em um sentido especial, condição perante a qual a paternidade de Israel era apenas uma figura, uma sombra. Trata-se de uma posição privilegiada (1Jo 3.1), que não pertence a todos os membros da raça humana, mas tão somente aos crentes (aos que creem) em Cristo.
É relevante salientar que nosso Senhor usou a expressão “vosso Pai” apenas quando esteve falando com os discípulos (Mt 5.44; 6.9; 7.11; Lc11.1-2; 11.13; 12.22,30; Jo 20.17). Quando tratou com as multidões, sua linguagem foi diferente, como ocorre em Mateus 12.50 (“Meu Pai”). Merece ser destacado ainda que a expressão “meus irmãos” é usada por Jesus apenas em sua relação com os discípulos (Jo 20.17; Rm 8.29; Hb 2.11).
Para falar sobre a nossa filiação em relação a Deus, o apóstolo Paulo usou o termo “adoção”, um instituto do direito romano que permitia que um filho adotivo se tornasse herdeiro com todos os privilégios de um filho biológico. Para Paulo, os crentes em Cristo foram predestinados por Deus “para ele, para a adoção de filhos” (Ef 1.4); Cristo realizou Sua obra redentora para que os que estavam sob a maldição da lei, reduzidos à condição de escravos, recebessem a adoção de filhos (Gl 4.1-5); e, como resultado da obra de Cristo, o Espírito Santo foi dado para que os salvos recebessem essa posição honrosa de filhos e pudessem clamar “Aba, Pai!” (Gl 4.6,7; Rm 8.15). Essas expressões usadas por Paulo em Gálatas 4.6 e Romanos 8.15 (a aramaica “abba” e a grega “pater”) estão a indicar uma relação paterno-filial plena de ternura e proximidade.
O apóstolo João, a seu turno, demonstrou a filiação dos salvos em Cristo por outro ângulo, enfatizando que somos filhos por “regeneração”. Regeneração é a ação do Espírito de Deus no coração do pecador que muda a sua disposição interior, tornando-o inclinado à santidade. Esse aspecto da nossa filiação pontua que tudo não se resume à uma posição legal (adoção), ou à “condição de filhos”, mas, antes, que de uma maneira muito real Deus implantou Sua natureza em nós, que se manifesta em termos de comportamento semelhante ao dEle, a partir de uma transformação no caráter (1Jo 2.29; 3.1-10; Jo 1.12-13).
Não há qualquer contradição entre os apóstolos. A suma é que Deus adotou como filhos, para serem parte da sua família, com todos os privilégios que exsurgem dessa condição, herdeiros de Deus e com Cristo, aqueles que regenerou.
Deus Todo-Poderoso
O atributo de Deus que a antiga declaração destaca é a “onipotência”.
Embora todos os atributos de Deus revelados nas Escrituras sejam essenciais ao ser divino, Seu poder é o mais evidentemente essencial, razão pela qual a palavra “Poder” é um dos nomes usados para Deus (Mc 14.62).
Por “poder de Deus”, entende-se a capacidade divina para fazer tudo quanto deseja. Deus pode fazer tudo que resolveu que faria (Ef 1.11), como também tudo o que não decidiu que faria (Mt 3.9; 26.53,54), sem sofrer ou submeter-Se a quaisquer limitações, de quaisquer ordens, salvo as que emanam da Sua própria vontade e natureza perfeitíssimas.
Assim, onipotência é o poder que Deus possui para levar a termo tudo quanto a Sua mui sábia e santa vontade decretou (Ap 4.11), cuja manifestação resta estampada nas obras da criação (Jr 32.17; Sl 150.1; Rm1.20), da providência (Sl 36.6; Mt 8.31) e da redenção (Mt 19.23-26; Ef 1.19-21, 2.5,6).
A antiga distinção entre “poder absoluto” e “poder ordenado” parece-nos bastante útil. O poder absoluto designa a capacidade que Deus possui para fazer todas as coisas, inclusive aquilo que decidiu não faria, sofrendo limitação, frise-se, imposta somente por Sua própria natureza (p. ex., Deus não pode mentir, morrer, voltar atrás em sua palavra, mudar seus planos, pecar – Tt1.2; Jo 5.26; Tg 1.17; Is 46.10; Mt 5.48; 2Sm 22.31). O poder ordenado, por sua vez, é a capacidade de Deus para operar Seu decreto, e, assim, cumprir toda a Sua vontade soberana.
O poder absoluto e o ordenado podem ser vistos lado a lado em Mateus 26.53,54: “Acaso, pensas que não posso rogar a meu Pai, e ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos? [poder absoluto] Como, pois, se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim deve suceder? [poder ordenado]”.
Conclusão
Um enorme debate em torno de uma “linguagem inclusiva”, iniciado nos Estados Unidos, chegou ao Brasil. Lá, como aqui, teólogos liberais têm propalado que falar em “Deus o Pai” (como no “Pai nosso”, p. ex.) é uma forma machista, sexista e misógina, razão pela qual têm sugerido uma “atualização” da linguagem de modo que comecemos a nos referir a Deus como “uma deusa”, “uma mãe”.
A isso respondemos que, conquanto o ser divino transcenda aos gêneros humanos, não temos o direito de adaptar os nomes e os títulos pelos quais o Deus Todo-Poderoso decidiu revelar-se à humanidade. E Ele quis ser conhecido, crido, adorado e servido (não como “Mãe”, mas) como “Pai” (Mt 6.9-13; Rm 8.14-17).
Por fim, é imperioso avivar que muitos podem pensar que os cristãos são as pessoas mais absurdamente alienadas e desinteligentes, e as mais dignas de dó, notadamente daqueles que se julgam possuidores de mentes mais privilegiadas (1Co 15.19). Ledo engano. O antigo Credo relembra-os que são os mais felizes, os bem-aventurados, porque desesperados de si e da sua condição de pecadores, tornaram-se, pela confiança pessoal na pessoa e obra de Jesus Cristo, filhos adotivos de Deus o Pai, Todo-Poderoso.
