Primeiro sermão natalino de 2020, Pregado na 1ª Igreja Congregacional de Caruaru.
Uma das doutrinas mais centrais e indispensáveis da fé cristã é a dupla natureza do Salvador. Por ela, quer-se dizer que o Filho eterno de Deus, uma das pessoas da Trindade, adquiriu, na encarnação, uma verdadeira natureza humana. Desse modo, Ele que é verdadeiro Deus em Sua natureza eterna e imutável, na encarnação veio a possuir duas naturezas, a divina e a humana, tornando-se também verdadeiro homem. Essa realidade das duas naturezas continua e continuará como um mistério da fé, que, embora possa ser discernido e estabelecido por meio de proposições inteligíveis, jamais poderá ser perscrutado e conhecido em seus meandros.
Nada obstante, não é difícil constatar a união das duas naturezas no Ente Jesus Cristo a partir das páginas das Escrituras. Dois textos paulinos da Carta aos Romanos já nos esclareceriam com bastante precisão.
O primeiro:
“com respeito a seu Filho, o qual, segundo a carne, veio da descendência de Davi e foi designado Filho de Deus com poder, segundo o espírito de santidade pela ressurreição dos mortos, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor”.
Romanos 1.3,4:
Notemos que Paulo se refere a “Jesus Cristo, nosso Senhor”, em Sua natureza humana, dizendo que Ele, “segundo a carne, veio da descendência de Davi”, e, em Sua natureza divina, afirmando que Ele foi “designado Filho de Deus com poder, segundo o Espírito de santidade pela ressurreição dos mortos”.
O contraste na passagem entre as duas naturezas é evidente. A palavra “carne” significa, no contexto, natureza humana. Por outro lado, quando se diz que Jesus foi “designado Filho de Deus”, quer-se com isso afirmar que Ele foi “declarado” ou “anunciado publicamente”, na ressurreição, como Filho de Deus, não feito “Filho de Deus”.
O segundo texto em Romanos que nos remete à dupla natureza do Salvador é o versículo 5 do capítulo 9:
“deles são os patriarcas, e também deles descende o Cristo, segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito para todo o sempre. Amém!”
Romanos 5:9
Observemos mais uma vez que o apóstolo fala a respeito da natureza humana de Jesus, dizendo que dos judeus “descende o Cristo, segundo a carne”, ao mesmo tempo em que afirma ser Ele “sobre todos [superior a tudo e todos], Deus bendito para todo o sempre [Deus eterno]”.
A palavra “carne”, em ambos os textos, não pode ser traduzida simplesmente como “corpo”, como em outras passagens. Aqui ela quer significar natureza humana, como quando o apóstolo João afirma que “o Verbo se fez carne a habitou entre nós” (Jo 1.14), querendo dizer que Aquele Verbo eterno, que estava com Deus e era Deus, assumiu tão verdadeira humanidade quanto verdadeira era a divindade que possuía.
Esse texto joanino foi, sem sombra de dúvida, e talvez mais do que qualquer outro do Novo Testamento, o fundamento para as declarações ortodoxas se Niceia (em 325 a.D.) e Calcedônia (em 451 a.D.).
Em Niceia, os pais disseram o seguinte sobre a dupla natureza do Redentor:
Cremos (…) em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, gerado pelo Pai, unigênito, isto é, da substância [homoousion] do Pai, Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado não feito, de uma só substância com o Pai, pelo qual foram feitas todas as coisas, as que estão no céu e as que estão na terra; o qual, por nós homens e por nossa salvação, desceu, se encarnou e se fez homem, e sofreu e ressuscitou no terceiro dia, subiu ao céu, e novamente deve vir para julgar os vivos e os mortos (…).
Em Calcedônia, afirmou-se o modo como as naturezas se relacionam:
Fieis aos santos pais, todos nós, perfeitamente unânimes, ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade e perfeito quanto à humanidade, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, constando de alma racional e de corpo; consubstancial [homoousios] ao Pai, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade; ‘em todas as coisas semelhante a nós, excetuando o pecado’, gerado, segundo a divindade, antes dos séculos pelos Pai e, segundo a humanidade, por nós e para nossa salvação, gerado da Virgem Maria, mãe de Deus [theotókos] (…).
Pois bem, essa mesma verdade quanto às duas naturezas do Salvador foi anunciada pelo anjo Gabriel a Maria por ocasião da concepção sobrenatural da virgem, tal como narrado por Lucas:
E, entrando o anjo aonde ela estava, disse: Alegra-te, muito favorecida! O Senhor é contigo. Ela, porém, ao ouvir esta palavra, perturbou-se muito e pôs-se a pensar no que significaria esta saudação. Mas o anjo lhe disse: Maria, não temas; porque achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem chamarás pelo nome de Jesus. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim. Então, disse Maria ao anjo: Como será isto, pois não tenho relação com homem algum? Respondeu-lhe o anjo: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus.
Lucas 1:28-35
O anjo Gabriel entra à casa de Maria como um amigo faz a outro. A primeira palavra que Maria ouve é uma mensagem de fortalecimento. O chamado espetacular de Maria era expressão da graça de Deus. Ela não merecia tamanha honra, a de vir a ser a mãe do Filho de Deus. “Alegra-te, muito favorecida”. Mas, por outro lado, a vocação divina traria suas dores à jovem, razão pela qual lhe foi prometida a assistência, a presença de Deus, a graça necessária para fortalecê-la: “O Senhor é contigo” (v. 28).
A reação imediata de Maria foi de perplexidade: “Ela, porém, ao ouvir esta palavra, perturbou-se muito e pôs-se a pensar no que significaria esta saudação” (v. 29). O espanto e a estranheza iniciais (v. 29), talvez causadas pelo senso de pecado, aguçado ante a presença angélica, foram acalmados: “Maria, não temas; porque achaste graça diante de Deus” (v. 30). “Achaste graça diante de Deus” explica o significado de “muito favorecida”.
Mas, finalmente, o que foi dito a Maria sobre a concepção de Jesus Cristo? Vejamos.
Foi dito a Maria que ela seria mãe de uma pessoa completa, não apenas da natureza humana de Jesus
“Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem chamarás pelo nome de Jesus” (v. 31). Notemos que o anjo Gabriel disse a Maria que ela seria mãe de uma pessoa completa, que se chamaria Jesus, e não apenas que geraria a natureza humana do Salvador.
Ou seja, um ser completo, chamado Jesus, seria gerado no ventre da virgem. O nome “Jesus” (cujo significado é explicado em Mateus 1.21) já indica que o fruto do ventre da virgem seria o Salvador do Seu povo, prerrogativa que a natureza humana, sozinha, jamais poderia assumir. Esse Ente inteiro, completo, seria concebido por Maria e, nove meses depois, ela o daria à luz, como todas as mães fazem com relação a todas as crianças. Por isso Lucas 2.6 indica o momento quando se completaram os dias de Maria dar à luz.
Foi dito a Maria que o filho que ela geraria seria o Filho de Deus e o Filho de Davi
“Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai” (v. 32). Essa dupla paternidade de Jesus é revelada para que se reconheça Sua dupla natureza. É dito que Ele é “Filho do Altíssimo” para indicar que a divindade é a Sua natureza eterna, e que a encarnação não alterou esse fato, apenas que o ocultou temporariamente para revelá-lo somente aos crentes. Leia-se, a propósito: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14).
Também é dito que Jesus é filho de Davi: “Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai”. Dizer que Jesus é filho de Davi se prestaria a afirmar a realeza de Jesus, mas que também seria afirmada se Jesus fosse filho biológico de José, porque ambos, Maria e José, eram descendentes de Davi, o famoso rei de Israel. Mas, segundo parece-nos, Lucas quer dizer mais do que isso, chegando a afirmar que a natureza humana de Jesus veio da descendência de Davi, linguagem que se aproxima de Romanos 1.3: “segundo a carne, veio da descendência de Davi”.
Em suma, o filho gerado por Maria é Filho de Deus (é divino) e filho de Maria (é humano).
Foi dito a Maria que esse Ente completo haveria de reinar eternamente
“… ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim” (v. 33). Em um curto versículo é dito duas vezes que a pessoa completa de Jesus – como Filho de Deus e filho de Davi -, a quem Maria haveria de conceber e dar à luz, reinaria eternamente: “ele reinará para sempre” e “seu reinado não terá fim”.
O texto afirma, noutras palavras, que o Jesus inteiro, o Deus-homem, é um Rei eterno, tal como somente Deus pode ser. É a conclusão a que se pode chegar quando comparamos a passagem com 1Timóteo 1.17 e 6.16. Como Rei eterno, ele reinaria sobre o povo de Deus aqui tratado como “casa de Jacó”. Isso quer significar que a união das duas naturezas seria para todo o sempre.
Foi dito a Maria que a concepção do Ente Jesus Cristo seria fruto de uma obra sobrenatural
“Então, disse Maria ao anjo: Como será isto, pois não tenho relação com homem algum? Respondeu-lhe o anjo: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra” (vs. 34,35a). Em parte, o espanto de Maria residia em que ela não tinha tido “relação com homem algum”. Se algo daquela importância haveria de ocorrer, não seria por meios naturais, portanto.
Então, como seria? O texto diz tudo que pode ser dito em linguagem humana e captado pela mente humana: “Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra”. Ou seja, a concepção de Jesus foi um portento da onipotência divina, que de modo insondável e poderoso, por meio do Espírito Santo, acresceu à natureza divina do Redentor a natureza humana, unindo ambas, de uma vez por todas, no único Ente Jesus Cristo.
As seguintes palavras do Dr. Heber Carlos de Campos podem nos dar dimensão mais acurada do que esteve envolvido na encarnação: “Uma substância (que continha todas as propriedades da natureza humana) foi acrescida à Pessoa Divina, com natureza divina, de forma que o redentor passou a ser vere Deus et vere homo (verdadeiro Deus e verdadeiro homem). A ação do Espírito Santo fez com que as duas naturezas ficassem unidas – a que veio de Deus e a que veio de Maria, de modo que, desde então, nunca mais elas existem separadamente” (Campos, p. 106). Héber continua acentuando que a sobrenaturalidade do feito do Espírito é dita por meio da palavra “sombra”, que pretende excluir qualquer comunicação de elemento físico: “não houve nenhuma injeção física vinda de Deus no ventre de Maria”.
É exatamente porque a natureza humana de Jesus foi sobrenaturalmente unida à Sua natureza divina, pela ação do Espírito Santo, que Ele foi o único da descendência de Adão, segundo a Sua natureza humana, a nascer como “ente santo”: “por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus” (v. 35b). “A sobrenaturalidade da misteriosa obra divina na encarnação [em unir a natureza humana de Jesus à divina] é que tornou possível a santidade daquele que estava para nascer do ventre da virgem” (Campos, idem).
Conclusão
- Desde a concepção, Maria foi mãe de uma pessoa completa, não apenas da natureza humana de Jesus;
- O Ente completo que Maria concebeu e deu à luz é o Filho de Deus (segundo a Sua natureza divina) e o Filho de Davi (segundo a Sua natureza humana);
- Esse Ente completo, Jesus Cristo, Deus-homem, já reina e reinará eternamente sobre todo o Seu povo;
- A concepção do Ente Jesus Cristo foi fruto de uma obra sobrenatural, misteriosa e poderosa, pela qual a natureza humana que Jesus recebeu de Maria foi acrescida, no ventre da virgem, indissociável e eternamente, à Sua natureza divina. Depois da encarnação, Jesus nunca mais foi o mesmo! Ele topou fazer isso por amor.
Solus Christus!
