O Criador do céu e da terra

Lição 5/13

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Introdução

Em um ponto já avançado da história moderna e na contemporânea, várias teorias foram propostas objetivando explicar a origem do universo. Como, obviamente, nenhuma teoria pode ser observada ou testada, segue-se que nenhuma pode ser definitivamente comprovada. Todas as teses postuladas podem, entretanto, resumir-se em duas: ou a matéria é eterna ou foi criada por alguém ou algo que existe eternamente e cuja existência independe dela. A terceira via, que afirma que o mundo criou a si mesmo, não é levada a sério por sua notória inconsistência lógica.

Para aqueles que defendem a eternidade da matéria, muitos aderem ao pensamento evolucionista, segundo o qual o mundo como nós o conhecemos, e tudo e todos que nele há, é produto de eventos naturais aleatórios ocorridos através de bilhões de anos. Essas forças acidentais teriam construído o nosso habitat e a nós mesmos como o animal do degrau mais alto da escada da evolução. 

Essa versão da história simplesmente, repito, não pode ser demonstrada. Não por acaso, desde o surgimento das ideias evolucionistas não faltaram aqueles que tentaram harmonizar aquelas noções com intervenções divinas criacionistas. Nesse sentido, Alfred Russel Wallace, um dos principais evolucionistas dos dias de Darwin, afirmou que “deve ter havido três intervenções do poder divino e sobrenatural para explicar as coisas como elas existem. É certamente notável a harmonia entre a ciência e o Gênesis. Há um abismo entre a matéria e o nada; outro entre o vivo e o não vivo; e um terceiro entre o homem e a criação inferior; e a ciência não pode transpor nenhum deles”.

A fé cristã, todavia, tem consistentemente reverberado sua confissão de que Deus, o Pai Todo-Poderoso, é o Criador do céu e da terra. Tem dito que, sim, à parte da criação, acima dela e independente dela, existe um Ser que do nada a chamou à existência, o qual fez todas as coisas inanimadas, todos os seres irracionais e a humanidade pela palavra do seu poder. Em síntese, a “Bíblia descreve a criação com respeito ao incrível poder dos mandamentos de Deus por imperativo divino ou fiat. Deus ordena que ela exista, e ela existe”.

Pensemos mais a respeito.

A criação segundo as Escrituras

Ferreira e Myatt observam como é “significativo que num documento tão curto”, a criação tenha sido “considerada claramente importante para ser incluída”, e concluem que “nosso entendimento da doutrina da criação é importante por causa de sua relação com outras áreas da doutrina cristã”. De fato, diversas afirmações de Moisés, do Senhor Jesus e dos apóstolos tomaram por base a historicidade da narrativa da criação (Ex 20.8-11; Mt 19.4-6; 24.37; Lc 11.51; Rm 5.12-21; 1Co 15.45; 1Tm 2.13-14). 

Da narrativa bíblica da criação (Gn 1.1), portanto, depreende-se tratar-se de um evento histórico (Sl 136), realizada por um ato inteiramente livre (At 17.24-25; Ef 1.11; Ap 4.11) do Deus Tri-Uno (1Co 8.6; Jo 1.3,10; Hb 1.2; Gn 1.2; Sl 104.30; Is 40.12-13), a partir do nada, isto é, sem matéria pré-existente ou ex nihilo (Hb 11.3), e para a sua própria glória (Sl 19.1). Paulo diz que Deus “vivifica os mortos e chama à existência as coisas que não existem” (Rm 4.17).

Ademais, devemos ainda considerar, sobretudo com base na criação ex nihilo fortemente sugerida em Gênesis 1.1, que há uma absoluta distinção entre o Criador e a criatura. Por um lado, tudo que veio a existir derivou sua existência de Deus (Cl 1.16) e é por Ele sustentado (Cl 1.17; Hb 1.3); por outro, a criação não é uma emanação do próprio Deus, como se parte da substância do Ser divino apenas tivesse mudado de estado. 

Pelo exposto, conclui-se que a criação nem pode ser adorada, porque não é parte do Ser de Deus (Rm 1.18-25), nem desprezada, como se fosse má em si mesma, já que derivou de Deus (Gn 1.4,10,12,18,21,25,30,31), tampouco destruída, porque nos foi dada para que seus recursos sejam por nós conhecidos, controlados e usados, não esgotados e destruídos (Gn 1.28; 2.15,19,20). 

Finalmente, lembramos que o plano do Criador inclui a redenção da criação, que ora se sujeita ao cativeiro do pecado (Rm 8.20-21), para que participe da futura glória dos redimidos (Ap 21.5).

O relacionamento entre o Criador e a criação 

Sobre a relação do Criador com a criação, há variadas tentativas de explicação que incluem os polos extremos da absoluta transcendência e da absoluta imanência. A absoluta transcendência foi popularizada no século XVIII pelos adeptos do “deísmo”, noção segundo a qual o Criador teria feito a criação como um sistema autosubsistente, com a qual Ele não mais se relacionada. No extremo oposto, está o imanentismo absoluto, que, na sua forma mais simples, é refletido no “panteísmo” (junção das palavras gregas pan, todos, e Theos, Deus), presente notadamente nas religiões orientais, que propugna não que Deus está em todos os lugares, mas que tudo o que há é parte do ser essencial de Deus.  

O Deus que Se revela nas Escrituras, todavia, é tanto imanente como transcendente, quando visto em Sua relação com aquilo que criou. Explique-se. Chama-se “imanência” o fato de que Deus se envolve, faz-se presente, controla e intervém nos assuntos da Sua criação (Jr 23.24), sobretudo, mas não só, naqueles relacionados com os salvos em Jesus Cristo (Ex 3.7,8; Mt 1.23; Hb 2.14). “Transcendência”, a seu turno, é a noção de Deus como estando totalmente separado, independente, sobre e para além da Sua criação (Jó 11.7; Is 55.8-9; Jo 8.23). 

É necessário, pois, mantermos em mente, lado a lado, a transcendência e a imanência de Deus. Ou seja, “que creiamos em um Deus separado dos homens, santo, distinto dos pecadores, mas também em um Deus que se revela e se envolve com o universo por ele criado”. 

São inúmeras as passagens das Escrituras que destacam a imanência e a transcendência de Deus lado a lado. Conforme Isaías 6.1-10, o Deus santíssimo está “assentado sobre um alto e sublime trono”, cercado por anjos incandescentes, mas que redime, santifica e fala com um humilde pecador. Em Isaías 57.15, Deus é chamado de “Alto”, “Sublime” e “Santo” e Ele mesmo diz que habita “no alto e santo lugar”, mas também “com o contrito e abatido de espírito”. Ideias semelhantes ocorrem, v.g., em Salmos 113.5-7 e em Mateus 6.9, onde Jesus ensina que Deus deve ser invocado como o “Pai nosso” “que estás no céu”. 

Por isso o antigo Credo confessa que Deus é “Pai” e “todo-poderoso”, porque é pessoal e infinito, é o Deus conosco e o Altíssimo, está presente na criação, embora seja totalmente distinto dela, é imanente e transcendente. Negar a transcendência de Deus é uma forma odiosa de humanizá-lo, de rebaixá-lo à simples condição das criaturas. Negar a Sua imanência é um modo igualmente horrendo de negar o Seu envolvimento amoroso com os homens que adotou como filhos, Sua personalidade e Sua providência.

Não é arrebatador pensar que o Deus Todo-Poderoso, o Criador de todas as coisas, o Pai do Senhor Jesus Cristo, é também o nosso Pai?

Conclusão

Em conclusão ao primeiro artigo do antigo “símbolo de fé”, descobrimos que somos exortados a crermos no Deus que Se revela nas Escrituras, o Deus Trino, com destaque ao “Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra”. Seu título – “Pai” – nos remete à filiação eterna, essencial e primordial de Jesus Cristo e ao relacionamento especial que Ele tem com os filhos que regenerou e adotou. O atributo da onipotência nos relembra Seu governo soberano sobre todas as coisas que criou com o Seu mui sábio, puro e livre conselho. 

A confissão cristã a respeito da criação divina, por sua vez, é capaz de saciar os anseios mais profundos da humanidade relacionados ao conhecimento sobre quem somos, de onde viemos, se tudo isso que vivemos faz algum sentido e para onde iremos. Respostas a essas mais constantes inquietações dos seres humanos dependem, como diria Sproul, de sabermos se somos o produto de um projeto intencional de um único Deus pessoal e amoroso ou uma mistura fortuita de aminoácidos num lago quente e primordial.

Se abraçamos a segunda alternativa, é forçoso reconhecer que somos deixados no mais abjeto vácuo existencial. As perguntas de Sproul, nesse sentido, são provocadoras: “Por que os germes deveriam ser morais? Se eu sou um acidente cósmico, por que eu deveria “dar a mínima” para você? Por que preferir a vida à morte? O que há de tão especial na vida? Por que um ser humano deveria ser mais valorizado do que uma pedra?” Ele conclui: “Mais devastador do que um universo hostil é um universo indiferente.

Por outro lado, afirmar que o Deus Todo-Poderoso é o Criador do céu e da terra não apenas nos salva do vazio existencial, mas é confissão dotada de valor espiritual. David S. Clark destaca, nesse sentido, as implicações da doutrina da criação, para dizer apenas o mínimo:

“A criação coloca Deus sobre todas as coisas.

A criação faz de Deus o soberano do universo.

A criação torna todos os homens responsáveis perante ele.

A criação faz todos dependentes dele.

A criação nos leva a adorá-lo.

A criação nos garante o seu cuidado.

A criação nos leva a confiar nele.

A criação torna possível a salvação.

A criação torna provável que Deus intervenha na vida dos homens”

Crês tu em Deus, o Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra?

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