Sábado e o Dia do Senhor

Do Sábado Judaico ao Domingo Cristão

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Costuma-se lembrar que as três grandes religiões monoteístas do mundo – o islamismo, o judaísmo e o cristianismo – possuem, cada uma, um dia especial na semana, respectivamente, a sexta-feira, o sábado e o domingo. Assim, em termos bastante simplistas, a sexta é islã, o sábado é judaico e o domingo, cristão.

Mas, as coisas não tão simples assim. Nunca são, não é mesmo? Isso porque dentre os cristãos de toda a cristandade, até entre aqueles ditos como protestantes ou evangélicos e mesmo entre os cristãos reformados, há divergências quanto ao sentido em que o quarto mandamento deve ser compreendido. 

Há os Adventistas do Sétimo Dia e os Batistas do Sétimo Dia, que continuam a insistir na observância do sábado como o sétimo dia da semana, à moda judaica. Para esses grupos, o sábado foi instituído antes da dádiva da lei (Gn 2.2), ratificado por Jesus e deveria ter sido observado em todos os séculos, não o sendo pela apostasia da Igreja Católica Romana e por força do decreto do imperador Constantino, que determinou em 321 o feriado do domingo para as cortes de justiça e o exército.

 Aos cristãos reformados, sobretudo àqueles que advogam a doutrina puritana do shabbath cristão, o quarto mandamento é parte da lei moral de Deus e, portanto, de observância obrigatória para a Igreja cristã, nos moldes do Antigo Testamento e como vivido por Jesus, com uma diferença básica, qual seja: o sábado cristão é o domingo, o Dia do Senhor, celebrado no primeiro dia da semana em comemoração à ressurreição de Cristo dentre os mortos.

O Dr. Johannes Geerhardus Vos, proponente dessa perspectiva, destaca os seguintes argumentos para demonstrar que o sábado cristão é uma lei moral e não cerimonial: “(a) O quarto mandamento mesmo menciona o fato de que o sábado se originou não no tempo de Moisés, mas na criação do mundo. Assim, o sábado existiu milhares de anos antes de Deus haver dado a lei cerimonial nos dias de Moisés. (b) O mandamento do sábado é parte dos Dez Mandamentos e, por se encontrar no contexto das leis morais, tem que ser considerado também como uma lei moral… (c) Assim como o resto dos Dez Mandamentos o mandamento do sábado não foi escrito sobre material perecível, mas sobre tábuas de pedra que indicam a sua validade permanente…”.

Finalmente, dentre aqueles de confissão não menos reformada, há os que ensinam que, não obstante o quarto mandamento esteja elencado no catálogo da lei moral de Deus (é dizer, seja o quarto dos Dez Mandamentos), ele, na verdade, é parte da lei cerimonial conferida aos hebreus no pacto mosaico e, como tal, foi cumprido e extinto em Cristo, a substância para a qual apontava e perante a qual era apenas uma sombra, uma figura.

Nesse sentido, Michael Honton: “… como já argumentei, o sábado é singular entre os Dez Mandamentos. Ele não está, eu manteria, selado na consciência humana por causa da criação; antes, ele é uma ordenança, como a circuncisão, para a comunidade redimida de Israel, apontando para Cristo…”.

A minha posição é nesse sentido, que tentarei sumariar com os seguintes pontos: 

  • A primeira ocorrência ao sétimo dia como um dia de descanso, na Escritura, está em Gênesis 2.2

Ali se diz que Deus terminou a obra da criação e, no dia sétimo, “descansou” “de toda a obra que tinha feito”. O versículo 3 acrescenta que “abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou de toda a obra que, como Criador, fizera”. A primeira observação a ser feita é que a fórmula que encerrou a narrativa de cada dia da criação (“houve tarde e manhã”) não ocorre no sétimo dia. Esse fato indica que o “descanso de Deus” é um tempo interminável, que teve início, mas jamais terá fim. Esse é o sentido teológico que envolve o “sábado”, cujo significado vai sendo ampliado na Escritura até ser completamente revelado no Novo Testamento. 

Assim, o “descanso de Deus” concedido a Adão consistiu daquele estado em que se encontrava, livre de pecado e da fadiga que dele resulta como consequência necessária. Portanto, se se quer dizer que Adão quebrou o quarto mandamento, o fez nos termos esposados por Edawrd Fisher, no sentido de não haver guardado o “descanso”, aquele estado de perfeição moral em que Deus o colocou.

  • No período patriarcal não temos notícia expressa sobre a guarda do dia de descanso, que só vem a ocorrer no Decálogo, como um componente do pacto estabelecido por Deus para a Sua relação com Israel

Deus fez Adão participar do Seu descanso. Mas, como anotamos supra, ele não quis permanecer no descanso de Deus, no estado em que Deus o colocou. Se Adão tivesse sido obediente quando colocado sob teste, teria entrado no descanso eterno de Deus, sem nenhuma possibilidade de perdê-lo. Mas, não o fez. E porque não o fez, a promessa de um descanso é interposta como uma boa nova de salvação, e não como uma dádiva a ser gozada por toda a criação. Assim, quando o povo judeu é convocado a entrar no descanso de Deus, essa é uma oferta da graça ao povo com quem Deus fez um pacto. Com efeito, o shabbath foi um sinal para Israel do pacto da graça (Ex 31.17), conforme administrado no pacto mosaico (ou sinaítico). 

  • É facilmente perceptível que, mesmo no Antigo Testamento, a ideia de provisão de descanso é muito mais ampla do que o provido pelos sábados (semanais ou anuais)

Embora propósitos utilitários temporários sejam apontados (remissão de dívida, libertação da escravidão, provisão aos pobres, descanso, conhecimento da lei), o sábado antevia o dia em que Deus voltaria a dar ao Seu povo entrada em Seu descanso permanente. Essa noção é evocada pelo poeta no Salmo 95. Ele relembrou a geração incrédula de Israel, a que foi liberta do Egito sob a liderança de Moisés. Refletiu sobre a dureza de coração daquele povo como evidenciado no episódio de Meribá e Massá (Ex 17.7; Nm 20.13) e retratou a recusa de Deus em deixar que entrassem na Terra Prometida (Nm 14.20-38) com as seguintes palavras: “Por isso, jurei na minha ira: não entrarão no meu descanso” (Sl 95.11). 

Por óbvio que as implicações da recusa dos israelitas em crer que Deus iria lhes dar o descanso que careciam se estendia para além da incredulidade quanto a realmente herdar uma nesga de terra na Palestina. A Terra Prometida é ainda uma pálida figura em comparação ao descanso definitivo de Deus em novos céus e nova terra, mas estão intimamente relacionadas em termos de sombra e substância, tipo e antítipo. Portanto, quando se recusaram a crer no descanso de Deus em figura, no sentido de posse da Terra Prometida, estavam descrendo também que Deus podia lhes dar descanso eterno.

Em suma, os sábados foram dados no Antigo Testamento para fins utilitários, mas não só. Eles são, em verdade, uma proclamação de boa nova – Deus anunciando ao povo do pacto que lhe daria entrada no Seu descanso, aquele estado de bem-aventurança perdido na Queda. A título de figura, os sábados anteviam a entrada no descanso na Terra Prometida. Mas, certamente não foi em Josué que Deus cumpriu Sua promessa de voltar a dar Seu descanso ao povo do pacto. O shabbath apontava para Cristo, em quem encontramos verdadeiramente a entrada no descanso de Deus, uma vez identificados e unidos a Ele pela fé. Por outro prisma, o sábado anunciava a salvação pela fé como descanso no trabalho de Outro, e não pelo próprio trabalho, o que pode explicar o rigor com que Deus protegeu o quarto mandamento de violação na antiga aliança.

  • Não vislumbramos no Novo Testamento uma correlação entre o shabbath e o domingo como um shabbath cristão

De fato, ausente está qualquer teologia de transferência do sétimo para o primeiro dia da semana, o que explica a completa ausência de conflito com os judeus a respeito. Concluímos, em consequência, que as severas exigências relacionadas ao mandamento do sábado não guardam relação com o domingo como o “dia do Senhor”, nem foram transferidas para esse os preceitos daquele.

  • É certo que as epístolas do Novo Testamento não tratam o quarto mandamento como parte da lei moral e natural (e, por isso, imutável) de Deus

Antes, a lei do shabbath foi tratada como parte daquilo que é considerado lei cerimonial, que, como tal, era sombra de promessas superiores cumpridas em Cristo e, por essa mesma razão, não obriga os cristãos. Paulo era capaz de transigir com a observância do shabbath, mas jamais permitir sua imposição aos cristãos como forma de aceitação na igreja. “Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo” (Cl 2.16,17).

  • Aos cristãos, não a guarda de um único dia na semana, está ordenado que andem “como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus” (Ef 5.15b, 16)

Na vida cristã, o que é central é a mordomia do tempo, e não a distinção religiosa de dias. “Remir” ou “redimir” (grego agorazo) é comprar de novo. No caso, o que deve ser comprado mediante preço é o tempo (kairos, o conjunto de oportunidades propiciadas por Deus). A implicação é que sábios são aqueles que se assenhoreiam de tal modo do tempo que o aproveitam ao máximo, sem perder uma única oportunidade de viver para a glória de Deus. 

  • Por outro lado, embora não concordemos que o primeiro dia da semana era o único dia de culto da igreja primitiva, parece certo afirmar que era o dia regular e o mais importante na sua adoração

Lembramos que na Ásia, ou pelo menos em Trôade, a igreja costumava “partir o pão” no primeiro dia da semana (At 20.7). É igualmente certo que na Acaia, Galácia (e talvez Macedônia, a concluir de 2Coríntios 8.1-6), a dádiva cristã das ofertas deveria ser exercida no primeiro dia da semana (1Co 16.2). Assim, se a prática foi paulatinamente se estabelecendo nas igrejas primitivas, não demorou até o “primeiro dia da semana” ser reconhecido como o “dia do Senhor” (Ap 1.10), o único comum à toda a cristandade quando o culto congregacional era praticado, em comemoração à ressurreição do Senhor.

Conclusão

Para um estudo mais detalhado sobre o quarto mandamento, consultar o nosso Comentário Expositivo aos Dez Mandamentos (Vol. 01): Os Deveres para com Deus. Por ora, é suficiente pontuar que o domingo não é o correspondente cristão do sábado judaico; este, já afirmamos, é um tipo profético plenamente cumprido em Cristo, em quem retornamos ao descanso de Deus. Entretanto, o domingo é, desde os dias apostólicos, o dia do principal culto da Igreja, chegando a ser reconhecido universalmente como “o dia do Senhor”. 

A questão, entretanto, é se cremos nisso e se podemos concordar que o primeiro dia da semana é chamado “o dia do Senhor” por ter sido estabelecido a partir dos dias dos apóstolos como o dia para o principal culto semanal das igrejas. E mais, se estamos dispostos a admitir as consequências desse fato.

SDG 

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