A Revelação Progressiva do Evangelho: Como o Antigo Testamento Anunciava a Nova Aliança

Descubra como os pactos com Noé, Abraão, Moisés e Davi prefiguraram Cristo e entenda por que a circuncisão de Abraão confirma o batismo de crentes.

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Da Queda do Homem

Artigo 15 – Cremos que o homem foi criado perfeito em seu estado original [1], mas desobedeceu ao mandado do Criador [2], transgredindo os termos do Pacto das Obras [3], no qual figurou como cabeça e representante da raça humana, razão pela qual foi expulso do paraíso [4] e adquiriu culpa [5], corrupção da natureza [6] e morte [7], para si e toda a humanidade [8], e que, nesse estado assim decaído, todos os homens já nascem com todas as suas faculdades corrompidas [9], sendo por natureza incapazes de fazer [10], desejar [11] e mesmo de entender [12] qualquer bem espiritualmente útil que os faça usar seus poderes, habilidades e faculdades para a glória do Criador [13].

[1] Gênesis 1.31; Eclesiastes 7.29. [2] Gênesis 2.16,17; 3.6. [3] Oséias 6.7. [4] Gênesis 3.23,24. [5] Gênesis 3.7-10. [6] Jeremias 17.9; Marcos 7.20-23. [7] Efésios 2.1-3; João 8.34; Romanos 6.23. [8] Romanos 5.12. [9] Gênesis 6.5; 8.21; Salmos 51.5; 58.3; Romanos 3.9-18. [10] Jeremias 13.23; João 15.4,5; Gálatas 5.19-21. [11] Romanos 8.6-8; João 3.3,19; 5.40; 6.44,65. [12] Salmos 14.2,3; 1Coríntios 1.18-21; 2.6-8,14; 1João 4.5,6. [13] Romanos 3.23.

Da Promessa do Pacto da Graça [14]

Artigo 16 – Cremos que, com a desobediência e a Queda [15], o homem tornou-se incapaz de readquirir a vida eterna através das próprias obras [16], mas Deus imediatamente o socorreu prometendo-lhe um novo pacto, o Pacto da graça [17], por meio do qual estabeleceria um novo cabeça e representante federal, Jesus Cristo [18], para cumprir o Pacto das Obras no lugar do povo a quem Deus concederia salvação somente por graça [19], requerendo dos eleitos tão somente fé no Redentor [20], tendo Deus, na antiga dispensação, prometido aquele pacto [21] e revelado-o progressivamente sob e por meio de alianças, profecias e cerimônias dadas ao antigo Israel [22], tudo a indicar o Messias que havia de vir para estabelecê-lo com o sangue da Nova Aliança [23], mas de modo suficientemente claro para edificar a fé da Igreja de então [24].

[14] Artigo de subscrição facultativa por igrejas e pastores da UIECB. [15] Gênesis 3.6. [16] Romanos .19,20. [17] Gênesis 3.14-19. [18] Romanos 5.12-19; Gálatas 3.16; Hebreus 8.6-13; 1Pedro 2.4. [19] Romanos 11.5,6; Efésios 2.4-9; 1Timóteo 1.9. [20] Romanos 1.16,17; 10.13; Gálatas 2.26; 3.6-11. [21] Gênesis 3.15; 12.1-3; Jeremias 31.31-34; Gálatas 3.8. [22] Romanos 1.1-3; 3.2; 9.4; Efésios 2.12; Êxodo 12.1-14; 24.1-11; Levítico 1–5; 23; 2Samuel 7.12-16; Jeremias 32.38-41; Ezequiel 37.24-28. [23] Lucas 22.20; 1Coríntios 11.25; Hebreus 9.1-14,23; 10.1-4,11-12,29; 12.24. [24] Gálatas 3.23,24.

Permanecemos comentando o art. 16 da Declaração de Fé Congregacional (“Da Promessa do Pacto da Graça”), em continuação à divagação anterior. Já conceituamos Pacto da Graça e discorremos sobre sua distinção essencial com o Pacto das Obras, como também pontuamos a relação entre ambas. É dizer, o Pacto da Graça nada mais do que é o cumprimento do Pacto das Obras pelo segundo Adão, agindo como representante e substituto do povo de Deus. 

Vimos também que, imediatamente após a Queda, Deus agiu com bondade para com os primeiros pais e, incontinenti, revelou-lhes que o fazia porque tinha em vista um novo pacto, anunciando-o por meio daquela que também é conhecida como “promessa-mãe”, o protoevangelium de Gênesis 3.15. 

É o momento, pois, de observarmos, na esteira do que diz a Declaração, que Deus “socorreu” o homem caído “prometendo-lhe um novo pacto, o Pacto da graça [17] (…), tendo Deus, na antiga dispensação, prometido aquele pacto [21] e revelado-o progressivamente sob e por meio de alianças, profecias e cerimônias dadas ao antigo Israel [22]”. É sobre o que trataremos. 

1. Conforme anteriormente detalhado, o Pacto da Graça foi primariamente revelado no Antigo Testamento como a promessa de que o Descendente da mulher esmagaria a cabeça da serpente (Gn 3.15). Essa promessa embrionária foi expandida ao longo da história antigotestamentária e, finalmente, se realizou na consumação da Nova Aliança, firmada pelo derramamento do sangue do Salvador, no Calvário, momento em que foi estabelecido de uma vez por todas aquele plano trinitário de redenção (o Pactum Salutis), firmado na eternidade. Esse plano foi, como dito, primeiramente revelado a Adão e, depois, “progressivamente sob e por meio de alianças, profecias e cerimônias dadas ao antigo Israel”, mas sua plena revelação ocorreu somente no Novo Testamento. Isso quer significar que o que foi predito pretendia “indicar o Messias que havia de vir para estabelecê-lo com o sangue da Nova Aliança [23]”. Ou seja, aquelas formas pelas quais Deus revelou o Pacto da Graça na antiga dispensação serviram como tipos, figuras ou sombras das realidades para as quais apontavam, posto que prefiguravam a vinda de Jesus Cristo e o derramamento do seu sangue. Em sintese, a história do Antigo Testamento nada mais é do que a história de como o plano eterno de Deus para salvar pecadores foi desvelado gradual e progressivamente até ser conhecido plenamente na consumação da Nova Aliança. 

2. É imperioso esclarecer, entretanto, que nenhuma daquelas formas que prefiguravam tipologicamente o Pacto da Graça era (ou continha em si) a substância do Pacto da Graça, cuja consumação a Providência reservou para acontecer, ressaltamos, somente na Nova Aliança. Dizendo de outro modo, não se tratavam de manifestações da substância do Pacto da Graça, embora revestidas com as roupas da antiga dispensação, mas de antecipações tipológicas de realidades que estavam por vir. Isso foi especialmente relevante para os credobatistas do século XVII, os quais entendiam que o Pacto da Graça foi anunciado no Antigo Testamento, mas realizado no Novo Testamento; parcialmente revelado no tempo da lei, mas plenamente revelado somente no tempo do evangelho; e que foi uma promessa futura, a ser consumada pelo sangue da nova aliança (Denault, citado por Angelim; 2021, p. 85). 

3. Nesse sentido, as alianças firmadas ao longo do Antigo Testamento tiveram papel relevante na expansão da promessa do Pacto da Graça. Conforme veremos, o Pacto com Noé garantiu a viabilidade histórica para a consumação do Pacto da Graça, o Pacto Abraâmico prometeu o Evangelho e esclareceu a sua instrumentalidade, o Pacto Mosaico explicou o custo do Evangelho, o Pacto Davídico prometeu o Rei eterno e a Nova Aliança estabeleceu o Evangelho. Assim, trataremos, na sequência, da progressiva revelação do Pacto da Graça, observando, com atenção especial, as demais alianças que Deus estabeleceu com o homem. Mas é preciso esclarecer, antes de tudo o mais, que todos os demais pactos estabelecidos por Deus estão necessariamente subordinados ao propósito divino concernente ao Pacto da Graça. Por eles, o Pacto da Graça foi confirmado e progressivamente revelado em cada fase da história da salvação. “É notável que o apóstolo Paulo, quando menciona as várias alianças encontradas no Antigo Testamento, as chame de “alianças da promessa” (Efésios 2.12)” (Angelim; 2021, p. 90). 

4. É deveras revelador que a Satanás foi dito que o Descendente da mulher lhe esmagaria a cabeça (Gn 3.15), o que nos faz concluir que seu grande propósito seria, a partir de então, tentar destruir a semente prometida e frustrar a ameaça divina, inclusive por instinto de autopreservação. Com efeito, ao longo de toda a história veterotestamentária, Satanás tentou destruir a semente da mulher utilizando a sua própria descendência, ora por atos de violência franca e aberta, ora por influências nefastas de ordem religiosa e moral (Gn 4.8, 19, 23-24). Isso implica dizer que a promessa de Deus quanto ao envio do Filho da mulher seria levada ao seu pleno cumprimento, na plenitude do tempo (Gl 4.4), mas no contexto daquela inimizade divinamente determinada entre a serpente e a mulher e respectivas descendências.

5. Como parte do propósito de Satanás em destruir a semente da mulher, “os filhos de Deus”, gerados na linhagem de Sete, casaram-se com “as filhas dos homens” (Gn 2.2). Aquela anterior separação, delimitada pelo culto conforme a instrução divina e pela obediência devida a Deus, foi desfeita. Aqueles que eram chamados filhos de Deus e se dedicavam à solene adoração, invocando o nome do Senhor (Gn 4.26), entregaram-se às uniões com a descendência de Satanás, afastando-se da verdadeira piedade. A depravação da humanidade é descrita de forma assustadora. O que se multiplicou e encheu a terra não foi a presença dos filhos de Deus levando a glória do Senhor aos confins da criação, mas a maldade do coração dos seres humanos e o número dos filhos do Diabo (Gn 6.5, 11-12). O desígnio de Satanás parecia plenamente estabelecido. Onde estava a semente prometida à mulher? E mais: pesava no coração do Criador ter feito a espécie humana, havendo o Senhor já decidido dar cabo de toda a vida sobre a Terra  (Gn 6.6-7, 13). Era o brandir da espada do Pacto das Obras! 

6. Mas em tudo isso o beneplácito de Deus tinha em vista a realização de propósitos superiores de paz e bem-aventurança ao povo eleito. A vida não seria destruída em absoluto, mas apenas a longevidade seria reduzida (Gn 6.3). E não só. Em meio às mais densas trevas, Deus concedeu graça a um homem, por meio de quem a humanidade receberia um novo começo (Gn 6.8). Noé e sua família foram postos na arca (Gn 7.1, 13) para serem salvos da destruição do mundo pelas águas do dilúvio (Gn 7.22-23). Contudo, não se deve olvidar que a ação graciosa divina não divisou apenas a salvação temporal, nem tampouco estava restrita a Noé e sua família, mas tinha em vista a salvação eterna de toda a Igreja. Eles foram, no dizer do Pedro, “salvos, através da água”, pelo que o apóstolo concluiu que a arca foi um tipo da salvação em Jesus Cristo sinalizada pelo batismo (1Pe 3.21-21). Nehemiah Coxe afirma, nesse sentido, que a arca “foi um sacramento extraordinário, ou prefiguração, da redenção da igreja e da salvação pela morte e ressurreição de Cristo, e da união e comunhão dela com Ele (…)”. Observa também que o verbo “calafetar” (hebraico “kaphar”), de Gênesis 6.14, significa principalmente “cobrir”, e que, “metaforicamente”, “significa ‘expiar’ ou ‘fazer expiação’”, considerando que a palavra nunca reaparece com o mesmo sentido, mas que na lei “é frequentemente usada para expressar a ideia de ‘cobrir pecados’ ou ‘propociação pelo pecado’”. Por fim, refletindo sobre Hebreus 11.7, vaticina que Noé se tornou “herdeiro da justiça que vem pela fé” porque “sua fé alcançou e, em certo grau, compreendeu o uso espiritual da arca que estava construindo” (OWEN, John; COXE, Nehemiah; 2020, pp. 92-93). Com efeito, o sentido teológico-cultual de “kaphar” é de longe o mais usual, para significar a remoção da culpa por meio de um rito (cf. Lv 16.30). Toda a cerimônia do “Dia da Expiação” gira em torno do verbo “kaphar” (Gn 16), que também está associado com o “propiciatório” (heb. “kapporet”), a cobertura da arca onde o sangue era aspergido (Ex 25.17).

7. Após o dilúvio, Deus fez uma aliança com Noé (Gn 9.8-13), a qual, entretanto, à toda evidência, não foi um pacto de salvação. Não era o Pacto da Graça, nem uma administração dele. Noé e sua descendência não foram realocados no Éden. O coração do cabeça federal, o pregador da justiça, continuava pecador e a descendência de Satanás também estava na arca, pronta para voltar a crescer. A inimizade entre a semente da mulher e a de Satanás permaneceria (Gn 9.20-27). Mas, por outro lado, Satanás não conseguiu dar cabo da semente prometida. Tanto a destruição da humanidade depravada como a preservação da vida por meio do patriarca estão subordinadas ao propósito maior de Deus quanto a garantir a existência da descendência de Eva e, nela, o advento do Descendente prometido. O Pacto Noético não é o Pacto da Graça, mas é um pacto gracioso, estabelecido com vistas ao Pacto da Graça. Essa aliança de graça prometida em Gênesis 3.15 viu sua revelação progredir sob o pacto com o pregador da justiça e, nele, encontra-se prefigurada em seus elementos formadores (a graça a Noé; a arca “coberta” com betume; o sacrifício de cheiro suave; o arco). A Igreja de então foi edificada ao antever nessa aliança o Pacto da Graça, cujo cabeça federal é Cristo, e a soberania de Deus no estabelecimento dos seus propósitos redentores, de modo que a luz do evangelho brilhou naquela época com uma intensidade inédita. Em síntese, o pacto com Noé estava a serviço da Nova Aliança (e para o benefício da Igreja quanto a fundamentá-la na esperança da promessa) de pelo menos duas formas: primeiro, trazendo segurança e conforto ao povo de Deus porque garantiu a preservação e a expansão da vida no contexto das quais o Descendente viria; segundo, instruindo o povo eleito por meio de tipos e sombras das realidades espirituais e eternas para as quais apontavam, de modo suficientemente capaz para guardar e edificar a Igreja respectiva. 

8. Após o dilúvio a maldade voltou a predominar sobre a terra. O homem iníquo acreditou poder olvidar impunemente o mandado do Criador e desafiá-lo por meio da Torre de Babel, mas Deus não esqueceu sua promessa, a qual fizera embrionariamente no Éden, tendo-a confirmado a Noé. Foi em meio ao novo caos que Deus chamou Abraão de Ur dos Caldeus, com quem fez uma aliança. No contexto do Pacto Abraâmico, Deus prometeu ao patriarca duas descendências: uma física e uma espiritual (Rm 9.6-8; Gl 4.22-31), razão pela qual Abraão deve ser considerado o pai dos verdadeiros crentes e o pai dos israelitas. Cada uma dessas descendências recebe bênçãos conforme sua posição peculiar na aliança. Para com os descendentes naturais do patriarca, o pacto tinha natureza condicional, motivo pelo qual poderiam decair dessa posição e receber a maldição do pacto, faceta que foi devidamente explicitada no Pacto Mosaico (Dt 27, 28), conforme veremos. Quanto aos descendentes espirituais, dentre israelitas e gentios, o pacto assumia a feição de uma promessa a respeito de um concerto incondicional, por meio do qual as respectivas bênçãos seriam fruídas incondicionalmente, como uma realização do próprio Deus, com base na obediência do segundo Adão (Gl 3.6-14). Nesse sentido, considera Angelim que “as promessas da aliança com Abraão culminariam no descentende de Abraão por meio de quem todas as nações da terra seriam abençoadas, a saber, Jesus Cristo” (2021, p. 94; cf. Gl 3.16). Essa distinção ficará evidente quando analisarmos a promessa da Nova Aliança, notadamente a partir de Jeremias 31.31-34. 

9. Essa dupla posteridade pode ser visualizada em Gálatas 4.21-31, quando o apóstolo Paulo propõe sua “alegoria”, segundo a qual Sara e Agar representam “duas alianças”. Coxe explica essas “duas alianças” do seguinte modo: “Agar era um tipo de Monte Sinai e da aliança da lei estabelecida ali. Ismael era um tipo da descendência carnal de Abraão sob aquela aliança. Sara era um tipo de nova Jerusalém, a igreja dos tempos do Evangelho fundada no Pacto da Graça. Isaque era um tipo dos verdadeiros membros daquela igreja que é nascida do Espírito, convertida pelo poder do Espírito Santo para o cumprimento da promessa do Pai a Jesus Cristo, o Mediador. A expulsão de Agar e Ismael prefigurou a ab-rogação da aliança sinaítica e a dissolução da igreja-estado judaica, de modo que a herança de bênçãos espirituais pudesse ser dada claramente aos filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo” (citação de Angelim; 2021, p. 93). Portanto, sob a aliança com Abraão, havia dois povos, os quais poderiam ser com justiça denominados povo de Deus, mas em sentidos diversos. Sob a antiga aliança, embora todos os descendentes físicos do patriarca fossem parte do povo pactual de Deus, somente um pequeno remanescente desse povo poderia ser considerado verdadeiro povo de Deus, consistente daquelas pessoas verdadeiramente regeneradas pelo Espírito (1Rs 19.10-18; Rm 11.3).

10. Os descendentes físicos do patriarca deram origem à nação de Israel. A princípio foram levados ao Egito por meio de José e, posteriormente, escravizados por quatrocentos anos na terra de Faraó. Cumprido o tempo da Providência (Gn 15.12-16), Deus os libertou por meio de Moisés, sob a liderança de quem concedeu-lhes, no Pacto do Sinai, leis morais, cerimoniais e civis (cf. Ex 24.3-8). Para ser parte dessa aliança com a posteridade física de Abraão, era indispensável ser circuncidado, posto que o ingresso no povo pactual ocorria pelo nascimento físico. Essa aliança deve ser necessariamente considerada como uma expansão do Pacto Abraâmico no que diz respeito à sua descendência meramente física, tratando-se de um concerto condicional, conforme adiantamos supra, pelo qual a concessão de bênçãos restaria condicionada à obediência, sob pena de colher-se a maldição do pacto (Gl 3.10, 12). 

11. Mas, não esqueçamos, aquela aliança também estava subordinada, de diversas formas, ao propósito divino quanto ao Pacto da Graça, para o benefício do verdadeiro povo de Deus que viveu sob ela. A lei mosaica estava, pois, a serviço do Pacto da Graça e cumpria três funções distintas, mas complementares. Primeiramente, evidenciava a incapacidade humana de alcançar a justificação pela obediência, pois ninguém poderia ser justificado diante de Deus pelas obras da lei (Gl 3.11). Ela revelou, portanto, a necessidade de um representante que cumprisse cabalmente seus termos, no lugar do verdadeiro povo de Deus, e expiasse os pecados em caráter definitivo. É nesse sentido que a lei serviu de aio para conduzir a Cristo (Gl 3.24-25). Em segundo lugar, estabelecia a norma de vida requerida por Deus para o seu povo, orientando sua conduta no contexto da aliança e da nação teocrática. Em terceiro lugar, por meio dos sacrifícios e das prescrições cerimoniais e levíticas, prefigurava a obra redentora de Cristo, apontando para o sacrifício definitivo pelo qual os pecados seriam expiados (Hb 9.11-14; 10.1-14). Por fim, a aliança mosaica também serviu para preservar a linhagem que nos daria o Messias, bem como para preservar a revelação de Deus para a segurança e conforto da Igreja de todos os tempos (Rm 3.2; 9.4, 5).

12. Desse modo, os verdadeiros crentes da antiga aliança, reconhecendo que não poderiam obter a salvação por seus próprios méritos, encontravam na lei tanto a orientação para viver diante de Deus quanto o testemunho de que sua esperança de perdão e reconciliação repousava na provisão graciosa do Messias prometido. Embora não conhecessem com a mesma clareza dos crentes da nova aliança todos os aspectos dessa obra, encontravam nas promessas e nas figuras da lei fundamento suficiente para esperar o perdão dos pecados e a reconciliação com Deus, realidades que seriam definitivamente asseguradas pelo sacrifício de Jesus Cristo (Rm 4.1-8; Hb 11.13; 1Pe 1.10-12). A Declaração o diz: “(…) tudo a indicar o Messias que havia de vir para estabelecê-lo com o sangue da Nova Aliança [23], mas de modo suficientemente claro para edificar a fé da Igreja de então [24]”.

13. Na aliança com Davi, finalmente, Deus prometeu ao renomado rei de Israel que um descendente seu herdaria o trono e reinaria para sempre. O Pacto Davídico é estabelecido principalmente em 2 Samuel 7.8-16, quando Deus promete a Davi que firmará sua casa, estabelecerá o trono de sua descendência e consolidará seu reino, declarando que seu trono será estabelecido para sempre (2Sm 7.12-16). Embora a promessa tenha uma dimensão histórica imediata, relacionada à continuidade da dinastia davídica e ao reinado de Salomão, seu alcance ultrapassa a sucessão dos reis de Israel, pois aponta para um descendente cujo reino não teria fim. Essa expectativa messiânica é confirmada em passagens como Salmo 89.3-4, 27-37 e Isaías 9.6-7, que associam à descendência de Davi a permanência de um trono e de um reino eternos. No Novo Testamento, essa promessa encontra seu cumprimento em Jesus Cristo, apresentado como filho de Davi e herdeiro do trono prometido (Mt 1.1; Lc 1.32-33). Em Atos 2.29-36, Pedro relaciona a promessa feita a Davi à ressurreição e à exaltação de Cristo, enquanto Atos 13.34 e Romanos 1.3-4 também vinculam a obra de Jesus ao cumprimento das promessas messiânicas. Sua relação com a Nova Aliança decorre, portanto, do fato de que esta é inaugurada pelo próprio Cristo, o Rei prometido, cujo sangue garante o perdão dos pecados (Lc 22.20; Hb 8.6-13). Enquanto o pacto davídico assegura a promessa de um descendente que reinaria para sempre, a Nova Aliança estabelece as bênçãos redentoras que esse Rei concede ao seu povo: perdão, conhecimento de Deus e renovação interior (Jr 31.31-34; Hb 8.10-12). Os dois pactos não são idênticos, mas convergem no propósito divino de redenção: o pacto davídico anuncia o Rei messiânico, e a Nova Aliança é estabelecida por meio de sua obra salvadora e de seu reinado. Assim, Jesus Cristo cumpre a promessa feita a Davi não apenas por ocupar eternamente o trono, mas também por reunir e governar o povo de Deus, concedendo-lhe as bênçãos da salvação e conduzindo-o à consumação do Reino.

14. Tendo explicado como o Pacto da Graça foi progressivamente revelado no Antigo Testamento, importa ressaltar como os crentes da antiga dispensação foram salvos. Quanto a isso, não pode haver dúvida: eles foram salvos pela graça, mediante a fé na promessa do Cristo que haveria de vir. É nesse sentido a afirmação confessional segundo a qual a promessa estava “a indicar o Messias que havia de vir (…), mas de modo suficientemente claro para edificar a fé da Igreja de então [24]”. Isto é, o Novo Testamento ensina que os crentes do Antigo Testamento foram salvos pela mesma graça de Deus e mediante a mesma fé que caracteriza a salvação dos crentes da nova aliança. A diferença não está no fundamento da salvação, mas na maneira como o Cristo foi revelado para ser o objeto da fé: os santos do Antigo Testamento creram na promessa do Redentor que havia de vir, enquanto os crentes do Novo Testamento contemplam o cumprimento dessa promessa na pessoa e na obra de Jesus Cristo. Em ambos os casos, a salvação se dá da mesma forma, pela graça, mediante a fé em Jesus Cristo. 

15. A Epístola aos Hebreus ensina que os sacrifícios de animais instituídos na antiga aliança não possuíam, em si mesmos, poder para remover os pecados. Hebreus 10.1-4 afirma que o sangue de touros e bodes era incapaz de tirar pecados e que esses sacrifícios, repetidos continuamente, não podiam aperfeiçoar definitivamente os que se aproximavam de Deus. Sua função era tipológica: apontavam para a necessidade de um sacrifício perfeito e definitivo, que seria oferecido por Jesus Cristo. Por isso, quando os crentes genuínos do Antigo Testamento ofereciam sacrifícios, o faziam com fé nas promessas de Deus, não porque cressem serem salvos pelo sangue dos animais, mas, pela graça, o faziam por depositarem fé no Redentor prometido, a quem aqueles sacrifícios apontavam, ainda que não compreendessem plenamente todos os aspectos de sua obra. 

16. Hebreus 9.11-14 contrasta o sangue de animais com o sangue de Cristo, que efetivamente purifica a consciência, enquanto Hebreus 10.10-14 afirma que Cristo ofereceu um único sacrifício pelos pecados, válido definitivamente. Essa relação entre os sacrifícios antigos e seu cumprimento em Cristo também aparece em João 1.29, quando João Batista identifica Jesus como “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”, e em 1 Pedro 1.18-20, que apresenta Cristo como o Cordeiro sem defeito, conhecido antes da fundação do mundo e manifestado nos últimos tempos. Portanto, os sacrifícios da antiga aliança não removiam os pecados por sua eficácia própria, mas edificavam a fé dos eleitos da antiga aliança, posto que prefiguravam o sacrifício de Cristo, cuja obra é o único fundamento da redenção dos crentes de todas as épocas. Essa compreensão é coerente também com Romanos 3.25-26, que relaciona a obra de Cristo à demonstração da justiça de Deus em face dos pecados anteriormente cometidos.

17. Isso significa afirmar que Jesus Cristo morreu por seu povo eleito, o qual consiste de todos os crentes de todos os tempos, os quais compõem a sua Igreja una. Em outras palavras, a Igreja de Deus nunca foi composta de pessoas regeneradas e não regeneradas, salvos e perdidos, justificados e condenados. Conforme o artigo da 19 da Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo, “A Igreja de Cristo no céu e na terra é uma só e compõe-se de todos os sinceros crentes no Redentor, os quais foram escolhidos por Deus, antes de haver mundo, para serem chamados e convertidos nesta vida e glorificados durante a eternidade”. Isso implica a conclusão de que o Pacto da Graça, a Nova Aliança, possui efeito retroativo para alcançar os crentes da antiga aliança, os quais receberam integralmente os benefícios que seriam adquiridos na vida, morte, ressurreição e ascensão do Filho de Deus. Em uma sentença: os crentes do Antigo Testamento foram salvos do mesmíssimo modo que nós, pela mesma graça do mesmo Deus, pela mesma fé no mesmo e único mediador, com fundamentanto no mesmo pacto de graça. Há apenas uma única diferença: eles abraçaram o pacto em perspectiva, em estado promessa; nós, o pacto em retrospectiva, em estado já consumado e plenamente revelado. 

18. Essa compreensão pode ser demonstrada por diversas passagens do Novo Testamento. O texto mais claro é Romanos 4. O apóstolo Paulo recorre ao exemplo de Abraão para demonstrar que a justificação sempre ocorreu pela fé, independentemente das obras humanas. Em Romanos 4.3, Paulo cita Gênesis 15.6: “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça.” O argumento apostólico é que Abraão não foi declarado justo por causa de suas obras, mas porque creu na promessa de Deus. Paulo reforça essa conclusão nos versículos 4 a 8, contrapondo a recompensa devida a quem trabalha à justificação daquele que crê em Deus, que justifica o ímpio. O mesmo ensino aparece na sequência (vv. 9-12), quando Paulo explica que Abraão foi considerado justo antes de receber o sinal da circuncisão. Esse dado é particularmente importante aos credobatistas, sobretudo porque consideram importante o momento da circuncisão do patriarca quando comparado ao seu ato de fé. 

19. Em Gênesis 15.6, Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça. A circuncisão, entretanto, somente foi instituída em Gênesis 17, quando Abraão já tinha 99 anos (Gn 17.24), enquanto a promessa de Gênesis 15 ocorreu antes. Paulo enfatiza essa sequência em Romanos 4.10: Abraão foi considerado justo quando ainda era incircunciso. Em seguida, no versículo 11, explica que ele recebeu a circuncisão como sinal e selo da justiça da fé que já possuía quando era incircunciso. A interpretação credobatista faz todo sentido: Paulo não afirma simplesmente que a circuncisão era o sinal de uma justiça que todos os circuncidados já possuíam. Ele afirma especificamente que Abraão recebeu a circuncisão como sinal e selo da justiça da fé que possuía quando ainda era incircunciso (Rm 4.11), de modo que que essa afirmação deve ser interpretada à luz da experiência particular de Abraão. No caso dele, a sequência é inequívoca: a) Abraão creu na promessa de Deus; b) sua fé lhe foi imputada para justiça; c) posteriormente, recebeu a circuncisão como sinal e selo dessa justiça. Portanto, a circuncisão de Abraão apontava para uma realidade espiritual que ele já possuía pela fé.

20. Por outro lado, a circuncisão dos descendentes do patriarca não pressupunha uma fé pessoal previamente professada. Em Gênesis 17.10-14, Deus ordenou que os homens e meninos da casa de Abraão fossem circuncidados. O rito deveria ser aplicado aos meninos aos oito dias de vida (Gn 17.12), independentemente de uma profissão pessoal de fé. Isso significa que os descendentes do patriarca recebiam o sinal em virtude de sua inserção na comunidade da aliança pelo nascimento natural, e não em razão de uma profissão pessoal de fé já realizada. Essa diferença é decisiva. Abraão recebeu a circuncisão depois de crer e ser justificado; seus descendentes, por sua vez, recebiam-na antes de poderem professar pessoalmente a fé. A conclusão é que não se deve transferir automaticamente aos descendentes a função específica que Romanos 4.11 atribui unicamente à circuncisão de Abraão. Para Abraão, a circuncisão foi um sinal de fé na promessa de Deus anteriormente professada. Para os descendentes de Abraão, o mesmo rito tem função distinta, qual seja, inseri-los, por nascimento físico, no Pacto Abraâmico enquanto beneficiários de promessas condicionais, para confirmá-los na comunidade histórica da aliança, sem garantir que possuiriam a realidade espiritual da salvação. A circuncisão, portanto, não assegurava a salvação dos descendentes de Abraão, nem deve ser confundida com a própria fé salvadora, nem vista como simplesmente equivalente ao batismo.

21. Na próxima e última divagação sobre os artigos da Declaração em epígrafe, lidaremos com o cumprimento do Pacto da Graça na realização da Nova Aliança. Até lá.

Soli Deo Gloria

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