Introdução às Divagações sobre a “Declaração de Fé Congregacional da UIECB”

Vida e Teologia do Dr. Kalley (parte 2 – Final)

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Já deixamos antever que o Departamento de Educação Teológica (DET) da UIECB desenvolveu uma proposta de confissão complementar aos 28 Artigos levando em consideração o contexto teológico do Dr. Kalley e o próprio texto da Breve Exposição. Os dados biográficos expostos no texto anterior procuraram definir esse contexto, fazendo-nos concluir que o Doutor era de origem presbiteriana, manteve constante contato com ministros e igrejas congregacionais, casou-se com uma congregacionalista e, no Brasil, plantou igrejas independentes.
Mas isso não é tudo. A análise, ainda que sucinta, da Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo – o maior legado teológico-confessional de Kalley à Igreja Fliminense e àquelas que a ela se associaram na formação do denominacoonalismo kalleyano -, lançará mais luzes sobre o propósito das presentes introduções às divagações, qual seja, esclarecer as decisões do DET que resultaram no texto da minuta, bem como desafiará, esperamos nós, outros teólogos da UIECB a se lançarem ao labor histórico e exegético que nos permitam melhor compreendermos as doutrinas defendidas pelo médico escocês.
Vamos à Breve Exposição.

O contexto histórico

O ano de 1874 chegava ao fim, tempos nos quais a Igreja Fluminense contava com cento e vinte membros comungantes, um pastor brasileiro na iminência de retornar da escola de Spurgeon e um corpo maduro de oficiais. Esses fatos se apresentaram como claros sinais que fortaleciam a compreensão de que estava chegando a hora de deixar o Brasil definitivamente.
Entretanto, Kalley não deixaria o Brasil sem dar às Igrejas Fluminense e Pernambucana (essa última, por ele organizada em 19 de outubro de 1873) uma declaração de fé que lhes servisse de fundamento doutrinário, com vistas à proteção espiritual dos rebanhos.
O Dr. João Gomes da Rocha anotou que Kalley chamou a atenção dos membros da Igreja Fluminense para a necessidade de se organizarem uns “Artigos de Fé”, “um resumo das doutrinas, ensinadas pela Igreja Evangélica Fluminense e aceitas por todos os seus membros”, na sessão de 2 de outubro de 1874. Na ocasião, Kalley disse que “Cada um deve perguntar a si mesmo – ‘Que creio eu da religião que professo? Que desejo eu que se pregue em qualquer congregação, para a qual contribuo com meu dinheiro?’” (ROCHA, João Gomes da. Lembranças do Passado. Vol. IV. p. 100).
Na sessão de 1º de janeiro de 1875, Kalley voltou a falar sobre a necessidade da declaração de fé. Considerou que pessoas que se apresentavam ao batismo não davam respostas satisfatórias, quando arguidas sobre os pontos mais básicos da fé. E apresentou as “Doutrinas Fundamentais do Cristianismo” em um texto com 27 artigos (visto que o artigo 4 só foi acrescentado posteriormente), ainda sem as referências bíblicas, que só foram adicionadas em momento posterior, distribuindo cópias a todos os irmãos (ROCHA, p. 113).
Nas assembleias seguintes, os membros da igreja foram ouvidos e dúvidas foram sanadas. Nesse interregno, em uma reunião com os presbíteros e diáconos da igreja em 30 de setembro de 1875, Kalley apresentou um “catecismo” para o ensino religioso das crianças. Além do catecismo para a infância, o Dr. Rocha menciona também o “Catecismo Histórico”, composto de duas partes correspondentes ao Antigo e ao Novo Testamento (ROCHA, p. 147).
Na assembleia de 5 de novembro do mesmo ano, foi eleita uma “Comissão do Exame dos Artigos de Fé”. Enquanto a Comissão labutava para aperfeiçoar os artigos, João dos Santos concluiu seus estudos e deu início à viagem de retorno ao Brasil, para alento do Doutor Kalley. Chegou ao Rio em fins de setembro de 1875, e, sem detença, em 31 de dezembro do mesmo ano, foi eleito copastor da Igreja Evangélica Fluminense. O Dr. Rocha anotou que João dos Santos chegou no Recife em 1º de setembro de 1875, após a conclusão dos seus estudos na Inglaterra, e só aportou no Rio em 30 do mesmo mês, uma quinta-feira (ROCHA, p. 146, 147).
Finalmente, no dia 2 de julho de 1876, o Dr. Kalley conduziu o último culto e a Ceia do Senhor na Igreja Fluminense. “Devia ter sido uma reunião muito solene!”, opina o Dr. Rocha, que também sugere que na reunião fez-se alusão aos 28 Artigos de fé, já aprovados pela igreja, que vieram chamar-se Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo, documento que traz a data daquele dia memorável (ROCHA, p. 165).
Nada obstante a singeleza dos artigos kalleyanos, sua teologia é clara e em nada destoa do consabido arcabouço da formação cristã e ministério do Doutor, salvo quando ele se posicionou de forma dissidente claramente a respeito.
Na sequência, consideraremos os artigos da Breve Exposição, destacando os pontos que julgamos relevantes.

A Teologia e a Bibliologia da Breve Exposição

  • Art. 1º – Do Testemunho da Natureza quanto à Existência de Deus
    Existe um só Deus(1), vivo e pessoal(2); suas obras no céu e na terra manifestam, não meramente que existe, mas que possui sabedoria, poder e bondade tão vastos que os homens não podem compreender(3); conforme sua soberana e livre vontade, governa todas as coisas(4).
    (1) Dt.6:4; (2) Jr 10:10; (3) Sl 8:1; (4) Rm 9:15,16
  • Art. 2º – Do Testemunho da Revelação a Respeito de Deus e do Homem
    Ao testemunho das suas obras Deus acrescentou informações(5) a respeito de si mesmo(6) e do que requer dos homens(7). Estas informações se acham nas Escrituras do Velho e do Novo Testamento() nas quais possuímos a única regra perfeita para nossa crença sobre o Criador, e preceitos infalíveis para todo o nosso proceder nesta vida(8). (5) Hb 1:1; (6) Ex 34-5-7; (7); II Tm.3.15,16; (8); Is.8.19,20. () Os livros apócrifos não são parte da Escritura devidamente inspirada.
  • Art. 3º – Da Natureza dessa Revelação
    As Escrituras Sagradas foram escritas por homens santos, inspirados por Deus, de maneira que as palavras que escreveram são as palavras de Deus(9). Seu valor é incalculável(10), e devem ser lidas por todos os homens(1).
    (9) II Pe 1:19-21; (10) Rm 3:1,2. (1) Jo 5:39.
  • Art. 4º – Da Natureza de Deus
    Deus o Soberano Proprietário do Universo é Espírito(2), Eterno(3), Infinito(4) e Imutável(5) em sabedoria(6), poder(7), santidade(8), justiça(9), bondade(10) e verdade(1).
    (2) Jo 4:24; (3) Dt 32:40; (4) Jr 23:24; (5) Ml 3; (6) Sl 146:5; (7) Gn 17:1; (8) Sl 144:17; (9) Dt 32: 4; (10) Mt 19:17; (1) Jo 7:28.
  • Art. 5º – Da Trindade da Unidade
    Embora seja um grande mistério que existam diversas pessoas em um só Ente, é verdade que na Divindade exista uma distinção de pessoas indicadas nas Escrituras Sagradas pelos nomes de Pai, Filho e Espírito Santo(2) e pelo uso dos pronomes Eu, Tu e Ele, empregados por Elas, mutuamente entre si(3).
    (2) Mt 28:19: (3) Jo 14:16,17

O primeiro artigo da Breve Exposição trata do conhecimento de Deus a partir da Revelação Geral, sem, contudo, dizer expressamente a respeito da (in)suficiência dessa revelação ao conhecimento salvífico de Deus em Jesus Cristo. O artigo 2 da minuta do DET buscou explicitar o ponto, considerando que a noção de insuficiência da Revelação Geral pode ser deduzida do artigo 2 da Breve Exposição, o qual afirma que é nas “Sagradas Escrituras do Velho e do Novo Testamento” que “possuímos a única regra perfeita para nossa crença sobre o Criador e preceitos infalíveis para todo o nosso proceder nesta vida”. Ainda sobre a Revelação geral, é de relevo anotar que os mesmos atributos citados por Kalley (sabedoria, poder e bondade) estão no Capítulo da Escritura Sagrada da Confissão de Fé de Wesminster (bondade, sabedoria e poder).
Aqui reside o axioma Sola Scriptura, o princípio formal do movimento reformador do século XVI. A inspiração das Escrituras, claramente ensinada no artigo 3, garante a infalibilidade do seu conteúdo.
O artigo 4, ainda que acrescentado ao longo da análise do texto original apresentado pelo Doutor Kalley, é a expressão confessional dos “28 Artigos” sobre a denominada “Teologia Propriamente Dita”, “Doutrina de Deus em Sentido Estrito” ou “Teontologia”, que tradicionalmente se ocupa dos nomes, do Ser e dos atributos de Deus. O artigo inicia com uma retumbante proclamação da soberania de Deus, já contemplada no artigo 1.
O artigo 5 da Breve Exposição afirma o dogma trinitário. Alguns teólogos chegaram a discutir se não se deveria tratar em primeiro lugar do dogma da Trindade, antes de adentrar ao estudo da revelação acerca do ser essencial de Deus. Entretanto, a ordem da Breve Exposição segue a prevalecente na teologia reformada, sobretudo porque, segundo Herman Bavinck, “Nessa questão de ordem, também, a Escritura é nosso modelo”. Ele explica: “Na Escritura, a natureza de Deus nos é mostrada antes e mais claramente que sua existência trinitária. A Trindade só é revelada claramente quando chegamos ao Novo Testamento…” (BAVINCK, p. 153).

A Antropologia da Breve Exposição

  • Art. 6º – Da Criação do Homem
    Deus, tendo preparado este mundo para a habitação do gênero humano, criou o homem(4), constituindo-o de uma alma que é espírito(5), e de um corpo composto de matérias terrestres(6). O primeiro homem foi feito à semelhança de Deus(7), puro, inteligente e nobre, com memória, afeições e vontade livre, sujeito Àquele que o criou, mas com domínio sobre todas as outras criaturas deste mundo(8).
    (4) Gn 1:2-27; (5) Ec 12:7; (6) Gn 2:7; (7) Gn 1:26,27; (8) Gn 1:28
  • Art. 7º – Da Queda do Homem
    O homem assim dotado e amado pelo Criador era perfeitamente feliz(9), mas tentado por um espírito rebelde (chamado por Deus, Satanás), desobedeceu ao seu Criador(10); destruiu a harmonia em que estivera com Deus, perdeu a semelhança divina; tornou-se corrupto e miserável, deste modo vieram sobre ela a ruína e a morte(1).
    (9) Gn 1:31; (10) Gn 2: 16,17; (1) Rm 5:12.
  • Art. 8º – Da Conseqüência da Queda
    Estas não se limitam ao primeiro pecador. Seus descendentes herdaram dele a pobreza, a desgraça a inclinação para o mal e a incapacidade de cumprir bem o que Deus manda(2); por conseqüência todos pecam, todos merecem ser condenados, e de fato todos morrem(3).
    (2) Sl 50:7; (3) I Co 15:21

A Antropologia dos 28 Artigos está anunciada em primeira mão no artigo 6, o qual reconhece a dualidade da constituição humana, como também afirmou que “alma” e “espírito” são palavras de uso intercambiável na Escritura.
Os artigos 7 e 8, por sua vez, concentram-se na desobediência dos primeiros pais e em seus efeitos, inclusive sobre toda a humanidade. “O primeiro homem foi feito (…) com memória, afeições e vontade livre” (art. 6), mas a Queda o tornou “corrupto e miserável” (art. 7), deixando, portanto, de possuir aquela liberdade da vontade presente em seu estado de inocência. Demais disso, considerando o ambiente teológico de kalley, parece-nos certo afirmar que ele acreditava que os “descendentes” de Adão “herdaram dele a pobreza, a desgraça, a inclinação para o mal e a incapacidade de cumprir bem o que Deus manda” não em virtude de uma simples lei, mas de um pacto no qual o primeiro pai foi colocado na posição de um homem público, representante da raça. O artigo 15 da minuta do DET esclarece o ponto.
Os artigos 9, 10 e 16 serão tratados em conexão com a Escatologia da Breve Exposição.

A Cristologia e a Sotereologia da Breve Exposição

  • Art. 11º – Da Perversidade do Homem e do Amor de Deus
    Deus vendo a perversidade, a ingratidão e o desprezo com que os homens lhe retribuem seus benefícios e o castigo que merecem(1), cheio de misericórdia compadeceu-se deles; jurou que não desejava a morte dos ímpios(2); além disso, tomou-os e mandou declarar-lhes, em palavras humanas, sua imensa bondade para com eles; e quando os pecadores nem com tais palavras se importavam, ele lhes deu a maior prova do seu amor(3) enviando-lhes um salvador que os livrasse completamente da ruína e miséria, da corrupção e condenação e os restabelecesse para sempre no seu favor(4).
    (1) Hb 4:13; (2) Ez 33:11; (3) Rm 5:8,9; (4) II Co 5: 18-20.
  • Art. 12º – Da Origem da Salvação
    Esta Salvação, tão preciosa e digna do Altíssimo (porque está perfeitamente em harmonia com seu caráter) procede do infinito amor do Pai, que deu seu unigênito Filho para salvar os seus inimigos(5).
    (5) I Jo 4:9
  • Art. 13º – Do Autor da Salvação
    Foi adquirida, porém, pelo Filho, não com ouro, nem com prata, mas com Seu sangue(6), pois tomou para Si um corpo humano e alma humana(7) preparados pelo Espírito Santo no ventre de uma virgem(8); assim, sendo Deus e continuando a sê-Lo se fez homem(9). Nasceu da Virgem Maria, viveu entre os homens(10), como se conta nos evangelhos, cumpriu todos os preceitos divinos(1) e sofreu a morte e a maldição como como o substituto dos pecadores(2), ressuscitou(3) e subiu ao céu(4). Ali intercede pelos seus remidos(5) e para valer-lhes tem todo o poder no céu e na terra(6). É nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo(7), que oferece, de graça, a todo o pecador o pleno proveito de sua obediência e sofrimentos, e o assegura a todos os que, crendo nEle, aceitam-no por Seu Salvador(8).
    (6) I Pe1:18,19; (7) Hb 2:14; (8) Mt 1:20; (9) Jo 1:1,14; (10) At 10:38; (1) I Pe 2:22; (2) Gl 3:13; (3) Mt 28:5,6; (4) Mc 16:19; (5) Hb 7:25; (6) Mt 28:18; (7) At 5:31; (8) Jo 1:14.
  • Art. 14º – Da Obra do Espírito Santo no Pecador
    O Espírito Santo enviado pelo Pai(9) e pelo Filho(10), usando das palavras de Deus(1), convence o pecador dos seus pecados e da ruína(2) e mostra-lhe e excelência do Salvador(3), move-o a arrepender-se, a aceitar e a confiar em Jesus Cristo. Assim produz uma grande mudança espiritual chamada nascer de Deus(4). O pecador nascido de Deus está desde já perdoado, justificado e salvo; tem a vida eterna e goza das bênçãos da Salvação(5).
    (9) Jo 14:16,26; (10) Jo 16:7; (1) Ef 6:17; (2) Jo 16:8; (3) Jo 16:14; (4) Jo1:12,13; (5) Gl 3:26
  • Art. 15º – Do Impenitente
    Os pecadores que não crerem no Salvador e não aceitarem a Salvação que lhes está oferecida de graça, hão de levar a punição de suas ofensas(6), pelo modo e no lugar destinados para os inimigos de Deus(7).
    (6) Jo 3:36; (7) II Ts 1: 8,9
  • Art. 17º – Da Obra do Espírito Santo no Crente
    O Espírito santo continua a habitar e a operar naquele que faz nascer de Deus(10); esclarece-lhe a mente mais e mais com as verdades divinas(1), eleva e purifica-lhe as afeições adiantando nele a semelhança de Jesus(2), estes fruto do espírito são prova de que passaram da morte para a vida, e que são de Cristo(3).
    (10) Jo 14:16,17; (1) Jo 16:13; (2) II Co 3:18; (3) Gl 5:22,23
  • Art. 18º – Da União do Crente com Cristo e do Poder para o Seu Serviço.
    Aqueles que tem o Espírito de Cristo estão unidos com Cristo(4), e como membro do seu corpo recebem a capacidade de servi-Lo(5). Usando desta capacidade, procuram viver, e realmente vivem, para a glória de Deus, seu Salvador(6).
    (4) Ef 5:29,30 ( 5) Jo 15:4,7 (6) I Co 6:20

A graça de Deus por meio de Jesus Cristo, fonte da inexplicável salvação que Deus concede a pecadores, não foi exposta a partir de qualquer sistema teológico global (vide os artigos 11-13). Lembramos que o objetivo de Kalley, naquele momento, era preparar os membros da Igreja Fluminense quanto ao “que é realmente essencial crer e ensinar”. Nos trabalhos da Comissão do Exame dos 28 Artigos não faltaram opiniões no sentido de se introduzir novos pontos no projeto original, até que todos atenderam à ponderação de que se deveria “distinguir entre pequenas diferenças de opinião e aquilo que é realmente essencial crer e ensinar”, e resolveram adotar os artigos nos moldes propostos pelo Dr. Kalley.
Essa graciosa salvação é iniciada com a obra do Espírito Santo consistente da regeneração de pecadores, por meio da qual são levados ao arrependimento e à fé no Evangelho, conforme o artigo 14. Essa obra nos regenerados é persevarada pela habitação contínua do Espírito (art. 17) e pela união com Cristo, que os capacita a viverem para a glória de Deus (art. 18).

A Eclesiologia da Breve Exposição

  • Art. 19º – Da União do Corpo de Cristo
    A Igreja de Cristo no céu e na terra é uma(7) só e compõe-se de todos os sinceros crentes no Redentor(8), os quais foram escolhidos por Deus, antes de haver mundo(9), para serem chamados e convertidos nesta vida e glorificados durante a eternidade(10).
    (7) Ef 3:15; (8) I Co 12:13; (9) Ef 1:11; (10) Rm 8: 29,30.
  • Art. 20º – Dos Deveres do Crente
    É obrigação dos membros de uma Igreja local, reunirem-se(1) para fazer oração e dar louvores a Deus, estudarem sua Palavra, celebrarem os ritos ordenados por Ele, valerem um dos outros e promoverem o bem de todos os irmãos; receberem(2) entre si como membros aqueles que o pedem e que parecem verdadeiramente filhos de Deus pela fé; excluírem(3) aqueles que depois mostram a sua desobediência aos preceitos do Salvador que não são de Cristo; e procurarem o auxílio e proteção do Espírito Santo em todos os seus passos(4).
    (1)Hb 10:25; (2) Rm 14:1; (3) I Co 5:3-5; (4) Rm 8:5,16.
  • Art. 21º – Da Obediência dos Crentes
    Ainda que os salvos não obtenham a salvação pela obediência à lei senão pelos merecimentos de Jesus Cristo(5), recebem a lei e todos os preceitos de Deus como um meio pelo qual Ele manifesta sua vontade sobre o procedimento dos remidos(6) e guardam-nos tanto mais cuidadosa e gratamente por se si acharem salvos de graça(7).
    (5) Ef 2:8,9; (6) I Jo 5:2,3; (7) Tt 3:4-8.
  • Art. 22º – Do Sacerdócio dos Crentes e dos Dons do Espírito
    Todos os crentes sinceros são sacerdotes para oferecerem sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo(8), que é o Mestre(9), Pontífice(10) e Único Cabeça de sua Igreja(1); mas como Governador de sua casa(2) estabeleceu nela diversos cargos(3) como de Pastor(4), Presbítero(5), Diácono(6), e Evangelista; para eles escolhe e habilita, com talentos próprios, aos que ele quer para cumprirem os deveres desses ofícios(7), e quando existem devem ser reconhecidos pela igreja e preparados e dados por Deus(8).
    (8) I Pe 2:5-9; (9) Mt 23:8-10; (10) Hb 3:1; (1) Ef. 1:22; (2) Hb 3:6; (3) I Co 12:28; (4) Ef 4:2; (5) I Tm 3:1-7; (6) I Tm 3: 8-13; (7) I Pe 5:1; (8) Fl 2:29.
  • Art. 23º – Da Relação de Deus para com Seu Povo
    O Altíssimo Deus atende as orações(9) que, com fé, e, em nome de Jesus, único Mediador(10) entre Deus e os homens, lhe são apresentadas pelos crentes, aceita os louvores(1) e reconhece como feito a Ele, todo o bem feito aos Seus(2).
    (9) Mt 18:19; (10) I Tm 2:5; (1) Cl 3:16,17; (2) Mt 25:40,45; (3) Hb 10:1; (4) At 10:47,48; (5) Mt 26:26-28.
  • Art. 24º – Da Cerimônia e dos Ritos Cristãos
    Os ritos judaicos, divinamente instruídos pelo Ministério de Moisés , eram sombras dos bens vindouros e cessaram quando os mesmos bens vieram(3): os ritos cristãos são somente dois: o batismo com água(4) e a Ceia do Senhor(5).
  • Art. 25º – Do Batismo com Água
    O batismo com água foi ordenado por Nosso Senhor Jesus Cristo como figura do batismo verdadeiro e eficaz, feito pelo Salvador , quando envia o Espírito Santo para regenerar o pecador(6). Pela recepção do batismo com água, a pessoa declara que aceita os termos do pacto em que Deus assegura as bênçãos da salvação(7).
    (6) Mt. 3:11; (7) At 2:41
  • Art. 26º – Da Ceia do Senhor
    Na Ceia do Senhor foi instituída pelo Senhor Jesus Cristo, o pão e o vinho representam vivamente ao coração do crente o corpo que foi morto e o sangue derramado no Calvário(8); participar do pão e do vinho representa o fato de que a alma recebeu seu Salvador. O crente faz isso em memória do Senhor, mas é da sua obrigação examinar-se primeiro fielmente quanto a sua fé, seu amor e o seu procedimento(9).
    (8) I Co 10:16; (9) I Co 11:28,29.

É notável que Kalley tenha dedicado oito artigos à Eclesiologia, área doutrinária na qual realmente divergiu do seu contexto eclesiástico de origem.
Aqueles mencionados no artigo 18, “os que têm o espírito de Cristo”, esses tais compõem a “Igreja de Cristo no céu e na terra”, “os quais foram escolhidos por Deus, antes de haver mundo, para serem chamados e convertidos nesta vida e glorificados durante a eternidade” (art. 19). Aqueles outros, que permanecerem impenitentes, perder-se-ão eterna e irremediavelmente, segundo os artigos 15 e 16 (vide a Escatologia da Breve Exposição).
Os deveres dos crentes vêm expostos no artigo 20 e pressupõem o governo eclesial congregacional e o credobatismo, uma vez que são eles que devem receber “entre si como membros aqueles que o pedem e que parecem verdadeiramente filhos de Deus pela fé”, como também excluir “aqueles que depois mostram pela sua desobediência aos preceitos do Salvador que não são de Cristo”. O mesmo pode ser dito a respeito do artigo 22, onde se afirma que “Todos os crentes sinceros são sacerdotes para oferecerem sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo(8), que é o Mestre(9), Pontífice(10) e Único Cabeça de sua Igreja(1); mas como Governador de sua casa(2) estabeleceu nela diversos cargos(3) como de Pastor(4), Presbítero(5), Diácono(6), e Evangelista; para eles escolhe e habilita, com talentos próprios, aos que ele quer para cumprirem os deveres desses ofícios(7), e quando existem devem ser reconhecidos pela igreja e preparados e dados por Deus(8)”. Sublinhei o que é tem sido o fundamento para a governo congregacional, que “Jesus Cristo, que é o Mestre, Pontífice e Único Cabeça de sua Igreja”, e que sua única forma de governo leva em consideração a existência de igrejas locais.
Sobre o artigo 22, Timóteo Klein Cardoso, em seu estudo comparativo da Breve Exposição com a Confissão de Fé de Westminster, afirmou: “Chama a atenção o fato deste artigo ser o que tem o maior número de textos-prova, o mesmo número encontrado no artigo único sobre Cristologia… a redação e a quantidade de textos-prova pode indicar uma ênfase no aspecto eclesiológico, especialmente no que diz respeito à igreja como instituição organizada e estruturada pela própria Escritura Sagrada” (Cardoso, p. 114).
Os crentes, que não são salvos pela obediência à “lei”, “recebem a lei e todos os preceitos de Deus como um meio pelo qual Ele manifesta sua vontade sobre o procedimento dos remidos e guardam-nos tanto mais cuidadosa e gratamente por se acharem salvos de graça” (art. 21).
É certo afirmar que a “lei” como expressão da vontade de Deus para a vida dos crentes pressupõe o aliancismo kalleyano. Uma vez que o Dispensacionalismo defende que Deus tem programas diferentes para Israel e para a Igreja, visto tratarem-se de povos distintos, a lei inteira do Antigo Testamento, segundo esse sistema teológico, foi abolida em Cristo e os mandamentos destinados aos cristãos são os estabelecidos em algumas partes do Novo Testamento. Somente após o arrebatamento da Igreja, o Israel físico estaria outra vez debaixo da lei. É improvável que “lei”, para Kalley, significasse somente a que consta (em parte) no Novo Testamento. O próprio artigo pressupõe que a lei moral dos cristãos é a mesma do legalismo judaizante, ideia que se adequa à Teologia Pactual, segundo a qual o ensino do Antigo Testamento permanece válido e normativo à Igreja neotestamentária, salvo no aspecto em que o Novo Testamento o derroga. A lei do Antigo Testamento serve a três propósitos: restringir o pecado, conduzir a Cristo e instruir na piedade. As leis cerimonial e civil foram abolidas. A lei moral, sumariada no Decálogo, continua em vigor.
O mesmo pode ser dito sobre o artigo 24 (“Os ritos judaicos, divinamente instruídos pelo Ministério de Moisés, eram sombras dos bens vindouros e cessaram quando os mesmos bens vieram”). Dificilmente se poderia argumentar que, para Kalley, a cessação dos “ritos judaicos” seria temporária e transitória, e que seriam reintroduzidos em um futuro reino milenar. Ao contrário, para Kalley, os ritos cerimoniais e sacrificais cessaram permanentemente porque foram cumpridos de uma vez por todas em Cristo: “quando os mesmos bens [para os quais aquelas sombram apontavam] vieram”. A realidade veio, a sombra desapareceu para sempre. Não há expectativa de um retorno a esses ritos no futuro, nem mesmo em um reino milenar na Terra, pois o sistema sacrificial era imperfeito e temporário por natureza. Isso é próprio da Teologia Pactual.
O credobatismo kalleyano está pressuposto no artigo 20, visto que os “membros” da igreja são os crentes (“aqueles que o pedem e que parecem verdadeiramente filhos de Deus pela fé”), como também no artigo 25: “… Pela recepção do batismo com água, a pessoa declara que aceita os termos do pacto em que Deus assegura as bênçãos da salvação”.
Esses artigos (20 e 25), como se pode facilmente perceber, contemplam a dissidência kalleyana em relação ao pactualismo pedobatista, ao aduzirem que são membros da igreja (e do Pacto da Graça) somente os crentes. Isto é, não são membros da igreja os crentes e sua descendência natural, mas somente os crentes e aqueles que “parecem verdadeiramente filhos de Deus pela fé”. Essa cláusula indica que a membresia da igreja é composta de regenerados, mas que, em virtude da falibilidade do julgamento humano, eventualmente não regenerados são recebidos em seu seio.
Mas não só. Para Kalley, o Pacto da Graça consiste de “bênçãos da salvação” (não de bênçãos terrenas destinadas à descendência natural não regenerada dos crentes, como quer o aliancismo pedobatista), de modo que são parte desse concerto somente aqueles beneficiários das bênçãos (espirituais e eternas) por ele garantidas, cujos beneficiários professam terem-nas recebido no batismo. Aqui reside a essência do pactualismo credobatista: que o Pacto da Graça, concluído em Cristo, destina-se aos eleitos professantes, para assegurar-lhes as conquistas da cruz de Cristo. Esse aspecto da dissidência kalleyana foi observado no artigo 16 da minuta do DET.
O artigo 26 estabelece o memorialismo kalleyano quanto aos sacramentos, tendo essa dissidência disso contemplada no artigo 25 da minuta do DET.

A Escatologia da Breve Exposição

  • Art. 9º – Da Imortalidade da Alma
    A alma humana não acaba quando o corpo morre. Destinada por seu Criador a uma existência perpétua, continua capaz de pensar, desejar, lembrar-se do passado e gozar da mais perfeita paz e regozijo; e também de temer o futuro, sentir remorso e horror e sofrer agonias tais, que mais quereria acabar do que continuar a existir(4); o pecado da rebelião contra o seu Criador, merece para sempre esta miséria, que é chamada por Deus de segunda morte(5).
    (4) Lc 16:20-31; (5) Ap 21:8
  • Art. 10º – Da Consciência e do Juízo Final
    Deus constituiu a consciência juiz da alma do homem(6). Deu-lhes mandamentos pelos quais se decidissem todos os casos(7), mas reservou para si o julgamento final, que será em harmonia com seu próprio caráter(8). Avisou aos homens da pena com que com punirá toda injustiça, maldade, falsidade e desobediência ao seu governo(9); cumprirá suas ameaças, punindo todo pecado em exata proporção à culpa(10).
    (6) Rm 2:14,15; (7) Mt. 22:36-40; (8) Sl 49:6; (9) Gl 3:10; (10) II Co 5:10
  • Art. 27º – Da Segunda Vinda do Senhor
    Nosso Senhor Jesus Cristo virá do céu como homem(10), em Sua própria glória(1) e na glória de Seu Pai(2), com todos os santos e anjos; assentar-se-á no trono de Sua glória e julgará todas as nações.
    (10) At 1:11; (1) Mt 25:31; (2) Mt 16:27
  • Art. 28º – Da Ressurreição para a Vida ou para a Condenação
    Vem a hora em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus e ressuscitarão(3); os mortos em Cristo ressurgirão primeiro(4); os crentes que neste tempo estiverem vivos serão mudados(5), e sendo arrebatados estarão para sempre com o Senhor(6), os outros também ressuscitarão, mas para a condenação(7).
    (3) Jo 5:25-29; (4) I Co 15:22,23;(5) I Co 15:51,52; (6) I Ts 4:16; (7) Jo 5:29.

A Escatologia da Breve Exposição aparece nos artigos 9,10, 27 e 28. Os artigos 9 e 10 são uma recusa evidente do universalismo e das noções relativas ao sono da alma.
O artigo 27 afirma que Cristo, em sua Segunda Vinda, julgará todo o mundo. Vê-se claramente que a Parousia de Cristo, conforme a Breve Exposição, não trará a instalação de um reino milenar terreno, mas o juízo final. O artigo 28, indubitavelmente, ensina a existência de uma única ressurreição geral, para crentes e descrentes. Nada é dito sobre uma vinda secreta de Cristo, nem sobre um período de sete anos, nem sobre um reino milenar terreno de Cristo a partir de Jerusalém, com o Templo retomado e o sacerdócio levítico e os sacrifícios restaurados.
Observe-se que a leitura dos artigos 27 e 28 da Breve Exposição fornece um argumento bastante forte contra a presença de uma escatologia pré-milenista no documento. A estrutura dos artigos, a nosso sentir, é decisiva: segunda vinda → ressurreição → destino eterno. Cristo vem do céu, acompanhado dos santos e anjos, assenta-se no trono de sua glória e julga todas as nações (art, 27). Então o artigo 28 afirma: “Vem a hora em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus e ressuscitarão”; “os mortos em Cristo ressurgirão primeiro”; os vivos serão transformados e arrebatados; “os outros também ressuscitarão, mas para a condenação”.
A redação dos artigos não suporta um esquema do tipo: segunda vinda → ressurreição dos justos → reino milenar terrestre → ressurreição dos ímpios → juízo final. Ao contrário, a escatologia é apresentada como uma sequência concentrada: segunda vinda de Cristo → juízo → ressurreição dos mortos → transformação dos vivos → reunião definitiva dos salvos com Cristo → ressurreição dos condenados. Isso se aproxima muito mais da estrutura tradicional amilenista do que do pré-milenismo.
Veja-se a construção do art. 27: “Nosso Senhor Jesus Cristo virá do céu como homem, em Sua própria glória e na glória de Seu Pai, com todos os santos e anjos; assentar-se-á no trono de Sua glória e julgará todas as nações”. As referências são Atos 1.11, Mateus 25.31 e Mateus 16.27. Mateus 25.31 merece especial destaque por ser o texto da vinda gloriosa do Filho do Homem acompanhada pelos anjos e do julgamento das nações. Na Breve Exposição, a segunda vinda não é apresentada meramente como o evento que inaugura uma nova etapa histórica de mil anos. Ela já aparece associada à entronização gloriosa e ao juízo universal. A imagem é: Cristo vem → aparece em glória → vêm com ele os anjos/santos → assenta-se no trono → julga as nações.
E há algo particularmente importante: o texto não menciona em momento algum um reino de Cristo na terra entre a ressurreição dos justos e a ressurreição dos ímpios. O artigo 28 usa uma linguagem que parece deliberadamente reunir as duas ressurreições no complexo da consumação. Aqui está, provavelmente, o aspecto mais claro do texto kalleyano. O artigo começa citando João 5.25-29: “Vem a hora em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus e ressuscitarão…”. A passagem citada diz, em essência, que chegará a hora em que todos os que estiverem nos túmulos ouvirão a voz do Filho e sairão, uns para a ressurreição da vida e outros para a ressurreição do juízo. Isso é importante porque o próprio texto bíblico escolhido por Kalley apresenta as duas ressurreições sob a categoria de uma mesma “hora” escatológica. Depois, o artigo acrescenta 1Coríntios 15 e 1Tessalonicenses 4 para explicar a ressurreição dos crentes e a transformação dos vivos.
Finalmente, volta aos ímpios: “os outros também ressuscitarão, mas para a condenação”. A expressão “os outros também ressuscitarão” merece atenção dobrada. O “também” estabelece uma relação direta entre a ressurreição anteriormente descrita e a dos condenados. O artigo primeiro fala dos: “mortos em Cristo” e dos vivos que serão transformados e arrebatados. Depois acrescenta: “os outros também ressuscitarão”. Portanto, o texto está trabalhando com dois destinos decorrentes da ressurreição, e não com uma exposição de dois eventos de ressurreição separados por uma era histórica. Isso é coerente com a referência a João 5:29, que coloca lado a lado: ressurreição da vida; ressurreição do juízo.
Ou seja, o artigo não constrói duas ressurreições separadas por mil anos. Isso seria perfeitamente diferente da formulação pré-milenista clássica, na qual a ressurreição dos justos e a dos ímpios pertencem a momentos distintos, separados pelo reino milenar de Apocalipse 20.
Note-se também que Kalley parece ter deliberadamente evitado a citação de Apocalipse 20. As referências escolhidas são: João 5:25-29; 1 Coríntios 15:22-23; 1 Coríntios 15:51-52; 1 Tessalonicenses 4:16; João 5:29. Portanto, quando Kalley apresenta sua doutrina da ressurreição, ele constrói sua síntese a partir de textos que apresentam indubitavelmente a ressurreição, a transformação dos vivos e o juízo como acontecimentos associados à consumação, evitando a necessidade de debates interpretativos em torno de Apocalipse 20.
Além da própria redação dos artigos escatológicos da Breve Exposição, não se deve olvidar das fontes históricas congregacionais que fazem justamente a distinção de que Kalley não aderiu ao darbismo, nem ao dispensacionalismo, apesar da influência que esse movimento exerceu sobre pessoas próximas ao seu trabalho, a exemplo de Richard Holden. O fato de Richard Holden ter levado membros da Igreja Fluminense ao darbismo, por exemplo, acabou provocando tensão no ambiente da igreja. Portanto, é historicamente inadequado presumir que tudo aquilo que circulava entre os evangélicos britânicos ligados aos Irmãos tenha sido simplesmente incorporado por Kalley.
A nossa conclusão, destarte, é que os arts. 27 e 28 da Breve Exposição não apenas deixam de mencionar o pré-milenismo; sua própria construção escatológica é dificilmente conciliável com ele. Ao associar a segunda vinda de Cristo ao juízo universal e, em seguida, apresentar a ressurreição dos mortos, a transformação dos vivos e o destino definitivo dos justos e dos ímpios, sem inserir entre esses eventos um reino messiânico terreno de mil anos, a Breve Exposição apresenta uma escatologia de consumação final que se harmoniza muito mais naturalmente com o esquema amilenista do que com o pré-milenista. É dizer, a Breve Exposição apresenta uma escatologia cuja estrutura é compatível com o amilenismo clássico, especialmente pela associação entre a segunda vinda, o juízo e a ressurreição dos mortos, sem qualquer menção a um reino milenar intermediário.

Conclusão

Seja qual for a conclusão que venhamos a chegar sobre a teologia de Robert Reid Kalley em geral, ou dos 28 Artigos da “Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo” em particular, sempre se deve considerar sua origem e permanente contato com a Igreja oficial da Escócia e com ministros e igrejas congregacionais do Velho Mundo.
Essa conexão e seus escritos, bem como as polêmicas contra o Dispensacionalismo, levam-nos a afirmar que Kalley foi um calvinista pactualista, mas cuja dissidência o fez se aproximar do federalismo credobatista dos batistas particulares, veementemente defendido por homens como Charles Spurgeon, a grande influência sobre o primeiro pastor brasileiro. Essa aproximação, no entanto, não ocorreu sem reservas.
Assim, é possível concluir que Kalley estaria disposto a consentir com as linhas gerais da teologia dos congregacionais, presbiterianos e batistas particulares do seu tempo, mas com divergências que repercutiram em sua Eclesiologia. Com os presbiterianos, as distâncias foram mais notáveis, porque deles ele se afastou quanto ao sistema presbiterial de governo e ao pedobatismo, tendo permanecido entre os congregacionais e os batistas. Com os primeiros, contudo, não podia, por questão de consciência, consentir que “Não só aqueles que realmente professam fé em Cristo e obediência a ele, mas também as crianças, filhos de um ou de ambos os pais crentes, devem ser batizados, e somente estes” (Declaração de Savoy, Cap. XXIX.4) ; com os últimos, tampouco anuiu que “A imersão – isto é, o ato de mergulhar uma pessoa na água – é necessária para a devida administração dessa ordenança” (Confissão de Fé Batista de Londres de 1689, Cap. 29.4).
De posse dessa convicção, defendemos que o pactualismo mais ajustado às convicções e práticas pastorais de Kalley é o pactualismo credobatista, o qual também julgamos ser a história bíblica da redenção, que perpassa pela necessidade do Evangelho (a violação do Pacto das Obras) e pelo Evangelho em estado de promessa até o Evangelho em estado concluído e acabado, ambos para serem objeto da fé dos eleitos, respectivamente, na Antiga e na Nova Aliança. Essa decisão foi fundamental para a revisão do artigo 16 da minuta de declaração do DET, a propósito do qual, bem como do artigo 15, exporemos o que denominado “aliancismo/pactualismo credobatista”.

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