Divagações sobre a “Declaração de Fé Congregacional da UIECB” (Minuta do DET): Art. 24, Parte 3
Do Governo e dos Oficiais das Igrejas
Artigo 24 – Cremos que as igrejas devem se organizar como comunidades autônomas, administrativamente independentes umas das outras2⁴3, embora ligadas pela fraternidade da fé e pela comunhão no evangelho2⁴⁴, cujos membros reunidos em assembleia constituem o órgão que deve conhecer e executar a vontade de Jesus Cristo2⁴⁵, e que são supervisionadas por oficiais qualificados e por elas eleitos2⁴⁶, espiritualmente, pelos presbíteros ou bispos, que desempenham as funções de pastor e mestre em variados graus de responsabilidade2⁴⁷, e, quanto às necessidades temporais, pelos diáconos e diaconisas2⁴⁸, devendo ambos receberem a devida honra2⁴⁹.
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243 Atos 11.22-26; 13.1-3; Apocalipse 2,3.
244 Romanos 15.25-27; 1Coríntios 16.1-3; 2Coríntios 8.3-9; 9.1,2.
245 Mateus 18.15-20; Atos 1.15-26; 11.29; 1Coríntios 5.1-8.
246 Atos 6.1-6; 14.23.
247 Atos 20.17,28; Colossenses 1.7; 4.12; 1Timóteo 3.1-7; 5.17;
Tito 1.5-9; Tiago 5.14; 1Pedro 5.1-4.
248 Romanos 16.1; Filipenses 1.1; 1Timóteo 3.8-13.
249 Filipenses 2.29; 1Tessalonicenses 5.12,13; 1Timóteo 3.13; Hebreus 13.17.
Seguiremos dicorrendo sobre o desenvolvimento histórico da tradição congregacionalista, nos dois lados do atlântico, a partir do século XVII. Para tanto, é necessário conhecer Henry Jacob e John Robinson, por sua notável contrubuição a essa tradição reformada e por estarem relacionados às primeiras igrejas congregacionais no Velho e no Novo Mundo.
1. Vale lembrar que Henry Jacob (1563-1624) foi membro do grupo separatista de Scrooby – liderado por Robinson e exilado na Holanda a partir de 1608 -, quando este se transferiu de Amsterdã para Leyden. Ao lado de William Ames (1576-1633) e William Bradshaw (1571-1618), Jacob “deu os contornos da posição Congregacional não separatista que combina mais com o Congregacionalismo moderno”. Ele nasceu no condado de Kent, Inglaterra, em 1553. Estudou na escola de Santa Maria, Oxford, e foi ordenado ministro, cargo que ocupou até 1591. Por volta de 1590, aderiu a um grupo de brownistas e tornou-se ardoroso defensor dos separatistas. Após, em 1593, foi à Holanda e só retornou à Inglaterra em 1597. Foi por essa época que se envolveu em um debate sobre o significado da descida de Cristo ao inferno, motivo que o levou a retornar à Holanda, onde pastoreou uma congregação de ingleses, em Middleburg, Zeeland. Em 1599, escreveu uma obra chamada Defesa das Igrejas e do Ministério da Inglaterra, para contra-argumentar com o separatista Francis Johnson, que havia afirmado que a Igreja Anglicana não era uma verdadeira igreja. Jacob, com ideias puritanas, chegava a denunciar as muitas corrupções da Igreja da Inglaterra, mas não dizia, como os separatistas, que ela não era uma Igreja verdadeira.
2. Em 1604, publicou um livro intitulado Razões Extraídas da Palavra de Deus e dos Melhores Testemunhos Humanos que Provam a Necessidade de Reformar as Nossas Igrejas na Inglaterra. Lloyd-Jones esboçou um resumo das afirmações de Jacob nessa obra: “(1) A absoluta perfeição das Escrituras Sagradas em todas as questões de fé e disciplina, sem quaisquer tradições humanas; (2) Que o ministério e as cerimônias da Igreja da Inglaterra tinham necessidade de Reforma; (3) Que durante duzentos anos depois de Cristo as igrejas de Cristo não eram diocesanas, e sim congregacionais; (4) Que o Novo Testamento contém uma forma particular de governo da Igreja; (5) Que essa forma de governo da Igreja não é para ser mudada pelo homem e, portanto, nenhuma outra forma é legítima”. Em 1605, Henry Jacob encontrava-se na Inglaterra e juntou-se ao que foi chamado “Terceira Súplica Humilde” ao rei Tiago, na qual muitos puritanos fizeram uma solicitação de tolerância. Nesta súplica, pediu-se “Permissão para reunir-se nalgum lugar para servir e cultuar a Deus, e para usar e usufruir pacificamente só entre nós o completo exercício do culto a Deus e do governo da Igreja, a saber, por um pastor, presbítero, e diáconos em nossas diversas assembleias, sem nenhuma tradição dos homens (…)” (Lloyd-Jones).
3. Nessa época, Jacob escreveu uma obra chamada Princípios e Fundamentos da Religião Cristã, na qual ele definiu uma verdadeira igreja visível de Cristo e afirmou o modo como ela deve ser constituída: “Por um livre e mútuo consentimento, os crentes se unem e concertam viver juntos como membros de uma sociedade santa em todos os deveres da religião e da virtude conforme Cristo e Seus apóstolos os instituíram e os praticaram mediante o evangelho (…) (Lloyd-Jones). Nessa obra, Jacob defendia a formação de uma “Igreja Independente ou Congregacional não separatista” a partir de um pacto livremente acordado entre os crentes. Seu comportamento na defesa desses princípios o levou à prisão, em 1609. Solto, foi para Leyden e conheceu John Robinson, por volta de 1610. Nesse ano, ele publicou um livro que ajudou Robinson a deixar de ser um separatista radical, intitulado O Divino Princípio e a Instituição da Verdadeira, Visível e Ministerial Igreja de Cristo. No ano seguinte, publicou outro livro, no qual asseverou que “o governo da Igreja deve ser com consentimento do povo” e que “Uma Igreja verdadeira, sob o evangelho, não tem mais que uma congregação (ou igreja local). Os membros da Igreja, criados de novo em Cristo Jesus, têm o direito e a autoridade de escolher pastores para a obra pela graça de Deus, e não pela influência transmitida por meio do corrupto canal do papado” (Lloyd-Jones).
4. Depois de algum tempo, Jacob começou uma congregação em Middleburg. Segundo Joelson Gomes, foi nesse período que conheceu William Ames e ajudou na plantação de um bom número de igrejas congregacionais não separatistas. Em 1616, Jacob voltou à Inglaterra e estabeleceu uma igreja em Southwark, Londres, nos moldes dos livros por ele publicados. “Em sua concepção, era notório o fato de que a autoridade descansava nos membros de cada igreja local, não em uma igreja nacional. Todavia essas igrejas locais deveriam coexistir com a igreja estatal. Era um tipo de Congregacionalismo mais moderado, não era nem Separatista, mas também não se conformava com o estado da Igreja oficial”. Lloyd-Jones afirma haver falhado em sua busca do nome da rua, sabendo somente que foi em Southwark. Jacob e outros notáveis marcaram um dia exato para buscar ao Senhor em jejum e oração e no final do dia fizeram confissão de fé e arrependimento e uma aliança no sentido de “andar em todas as veredas de Deus como Ele as tinha revelado ou que lhes fizesse conhecer” (Lloyd-Jones). O próprio Jacob foi eleito como pastor por votação dos membros. Assim começou a igreja!
5. No mesmo ano em que deu início à congregação, Jacob publicou uma confissão consistente de vinte e oito artigos, após um breve prefácio. Seu propósito era justificar o início de uma nova igreja e esclarecer que não se tratava de um cisma. Os artigos 4 a 7 da declaração de Jacob são especialmente dignos de nota ao nosso propósito. O artigo 4 define o modo como a verdadeira igreja de Cristo deve organizar-se: “Cremos que a natureza e a essência da verdadeira Igreja visível de Cristo sob o evangelho é uma livre congregação de cristãos para o serviço de Deus, ou um verdadeiro corpo espiritual e político que não contém mais que uma congregação (ou igreja local) regular, e essa independente. Onde se deve observar mormente dois pontos: primeiro, que uma verdadeira Igreja visível e política sob o evangelho é tão somente uma congregação (ou igreja local) regular… [e] que pela ordenança de Deus, esta única congregação regular de cristãos é um corpo espiritual e político; e, assim, é uma congregação livre e independente. Isto é, ela tem, da parte de Deus, o direito e a autoridade para administração espiritual e para o governo, nela e sobre ela, graças ao comum e livre consentimento do povo, independentemente, e imediatamente sob Cristo, sempre na melhor ordem possível…”.
6. O artigo 5, igualmente instrutivo, estabelece que “poderá haver, e que oportunamente deveria haver na terra uma associação de congregações ou igrejas, a saber, por meio de sínodos. Não, porém, uma subordinação, nem, certamente, uma sujeição das congregações a alguma autoridade espiritual superior e absoluta, exceto a de Cristo e das Escrituras Sagradas. Os que negam isto, defendendo uma Igreja visível e política que seja diocesana e provincial (e nem nós nem eles sabemos quão universal), tanto em termos absolutos como representativa, nisso se afastam da regra do evangelho”. O artigo 6 nega a existência de uma Igreja visível universal sob o evangelho: “Sob o evangelho Cristo nunca instituiu, nem Deus, alguma Igreja visível e universal, quer propriamente dita, quer representativa, que ordinariamente devesse exercer o governo espiritual externo sobre todas as pessoas do mundo que professam o cristianismo. Nenhuma igreja desse tipo se vê no Novo Testamento”. O artigo 7 nega a existência de uma Igreja visível e política provincial ou diocesana e nacional. Quanto à chamada Igreja Anglicana, o mesmo artigo vaticina: “de nossa parte reconhecemos que existem muitas igrejas visíveis, sim, igrejas políticas na Inglaterra… mas negamos também que uma Igreja nacional, provincial ou diocesana seja, sob o evangelho, uma verdadeira Igreja visível e política… A razão pela qual negamos estas também é que nada que se assemelhe se vê estabelecido em parte alguma da Palavra de Deus no Novo Testamento… Todavia somente se vê no Novo Testamento uma congregação e assembleia livre e comum, como foi demonstrado pouco antes”.
7. Relembro que os separatistas foram perseguidos por James I, fato que obrigou as congregações de Scrooby e Gansborough a buscarem exílio na Holanda. Após cerca de dez anos na Holanda, John Robinson, pastor da congregação oriunda de Scrooby, juntamente com um grupo de sua congregação estabelecida em Leyden, já havia decidido que as condições políticas na Inglaterra não favoreciam o retorno à pátria. Por outro lado, a permanência na Holanda começava a dar sinais de inconveniência, com acontecimentos que recomendavam fortemente que o país estava deixando de ser o lugar ideal para refugiados em busca de liberdade. Nesse cenário, vislumbrou-se a possibilidade de estabelecimento na recém-colonizada América do Norte, razão pela qual, em 1617, os diáconos John Carver e Robert Cushman foram a Londres aplainar os caminhos legais para que a viagem ocorresse, resultando em uma autorização que garantia a fixação de uma colônia ao Norte, sob a jurisdição da Companhia da Nova Inglaterra. A viagem seria custeada por Thomas Weston, um comerciante londrino abastado, sob a condição de que os irmãos trabalhariam sete anos como contraprestação.
8. Acabados os arranjos para a viagem, aquele que seria o primeiro grupo de colonos (120 pessoas) viajaria em dois navios – o Speedwell e o Mayflower. Já no início, entretanto, concluiu-se pela inviabilidade do Speedwell. A solução foi encontrada reduzindo-se os viajores em 18 passageiros e superlotando o Mayflower, cuja partida se deu em 16 de setembro de 1620. “Na viagem”, ressalta Joelson, “eram 102 passageiros apertados num só navio; destes 102, 35 vieram de entre os irmãos Congregacionais Separatistas de Leyden”. John Robinson permaneceu em Leyden, cuidando da congregação. Seu desejo de posteriormente juntar-se aos colonos na Nova Inglaterra não se realizou porque morreu 1625. Em 10 de novembro daquele ano, a tripulação avistou o litoral da Nova Inglaterra. Eram as praias de Cap Cod. O Pacto do Mayflower, como é conhecido, foi assinado em 11 de novembro por 41 dos homens a bordo. Por ele, os viajantes decidiram que criariam uma colônia centrada em leis justas e no temor de Deus, marcando “a igualdade essencial de condição jurídica do indivíduo (marca do Congregacionalismo)”. Sobre o Pacto do Mayflower, Porto Filho destaca que “a bordo, os Peregrinos haviam assinado um Pacto, relativo à colônia que iriam fundar e à fidelidade com que se conduziriam em relação a Deus e uns aos outros. Na base desse pacto foi organizada a primeira comunidade congregacionalista na América, como extensão da Igreja de Scrooby, emigrada na Holanda”.
9. Após os angustiantes 65 dias de viagem, em 19 de novembro, os Peregrinos aportaram em Cap Code, a atual Provincetown Harbor. Em 26 de dezembro, mudaram-se para um porto que oferecia melhores condições de abrigo que denominaram Plymouth, em lembrança ao porto inglês de onde haviam partido. O primeiro inverno enfrentado pelos Pais Peregrinos no Novo Mundo foi devastador. Metade dos colonos perdeu a vida, sem falar das ameaças indígenas. Duas surpresas, todavia, estavam guardadas pela Providência aos colonos. Em 16 de março de 1621, comunicaram-se com o índio Samoset, que havia aprendido inglês com os marinheiros. Samoset apresentou outro índio, mais versado em inglês do que ele, de nome Tisquatum. Em 22 de março, Tisquatum apresentou aos Peregrinos o chefe do povo Wampanoag, o índio Massoit, com quem “selaram um tratado fumando o cachimbo da paz e estabeleceram relações comerciais”. Sobre a importância dos índios Tisquatum e Massoit, Joelson anotou: “Tisquatum foi um grande amigo e guia que ajudou os Peregrinos a estabelecer relações comerciais em vários outros locais. Ele também ensinou os colonos como plantar milho, pescar e utilizar melhor os recursos naturais do lugar. O chefe Massoit também foi um grande aliad dos Peregrinos até sua morte em 1656”.
10. Em outubro de 1621, os colonos fizeram sua primeira boa colheita, motivo pelo qual agradeceram a Deus com orações e uma grande festividade. Era o primeiro do que hoje se conhece como Dia de Ação de Graças. A Primeira Igreja Congregacional das Américas foi fundada em Plymouth, em 1620. Dentre os homens que contribuíram para o desenvolvimento da colônia, destacam John Carver – seu primeiro governador e falecido em abril de 1621 – e William Bredford, eleito governador para suceder Carver.
11. Na próxima divagação, lidaremos com os desdobramentos posteriores do movimento congregacional, com especial destaque às formulações da Declaração de Savoy e da Plataforma de Cambridge.
Soli Deo Gloria