V – As Reações da Igreja (Parte 1):

A Literatura dos Séculos II e III

História da Igreja
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A Igreja, para fazer frente às dificuldades que a desafiaram nos primeiros séculos, desenvolveu uma literatura epistolar, apologética e em defesa da ortodoxia. Ademais, para resistir às tantas heresias que lhe assediaram, fez crescer o poder do bispo monárquico, desenvolveu sua declaração de fé (“O Credo dos Apóstolos”) e reconheceu oficialmente os livros divinamente inspirados, que deveriam compor o cânon do Novo Testamento. 

Analisemos, neste passo, a literatura dos Pais Apostólicos e dos Pais da Igreja dos séculos II e III.

A Literatura dos Pais Apostólicos

OsPais Apostólicos foram os primeiros líderes da Igreja cristã que, tendo mantido algum contato com os apóstolos, desenvolverem uma literatura cristã pós-apostólica. Eles escreveram apenas para cristãos durante o período compreendido entre 95 e 150 d.C. e sua preocupação era tão somente edificar as igrejas. Os principais nomes deste período são Clemente de Roma, Inácio, Policarpo e Papias.

Clemente de Roma (30-100 d.C.) 

Clemente de Roma escreveu aos coríntios em cerca de 95 d.C., carta que tem recebido atenção especial por ser o escrito cristão mais antigo após o Novo Testamento. A carta foi motivada por problemas entre os cristãos coríntios revoltosos contra seus pastores, razão dos capítulos 42 a 44 da epístola, nos quais Clemente pede aos cristãos que obedeçam aos líderes. Em Clemente, há ainda dois ofícios, o de “bispos” e o de “diáconos”, e o título “presbítero” ocorre como termo intercambiável de “bispo” (vide capítulos 44, 47 e 57). A participação da congregação na escolha dos oficiais das igrejas é fato ainda observável: “Aqueles que foram nomeados por eles ou depois por outros homens de renome com o consentimento de toda a Igreja …” (capítulo 44). 

Nos capítulos 24 a 26, o pai apostólico trata da ressurreição dos corpos, ilustrando-a com a lenda de Fênix. Em 5.5-7, Clemente menciona o ministério de Paulo, de onde exsurge a tese de duas prisões de Paulo e uma frutífera obra missionária entre elas.

Inácio de Antioquia (c. 35-c. 107) 

Inácio de Antioquiafoi preso por seu testemunho cristão e levado a Roma para ser devorado pelas feras. Ao longo da viagem, foi-lhe permitido ser visitado pelas igrejas, às quais escrevia como forma de gratidão e para dar-lhes instrução. O bispo de Antioquia escreveu suas sete cartas (às igrejas de Éfeso, Magnésia, Trália, Roma, Filadélfia, Esmirna e a seu amigo Policarpo) por volta de 110 d.C., sendo ele o primeiro a hierarquizar as funções de bispo, presbítero e diácono no âmbito da igreja local, com forte centralização em torno do bispo (vide capítulo 8 da Carta a Esmirna). Nesse sentido, escreveu aos filadelfos já no prólogo: “Apegai-vos ao Bispo, ao Presbítero e aos diáconos”. 

Escrevendo aos romanos, Inácio suplicou que não intervissem com a finalidade de livrá-lo do martírio: “Suplico-vos, não vos transformeis em benevolência inoportuna para mim. Deixai-me ser comida para as feras, pelas quais me é possível encontrar Deus. Sou trigo de Deus e sou moído pelos dentes das feras, para encontrar-me como pão puro de Cristo. Acariciai antes as feras, para que se tornem meu túmulo e não deixem sobrar nada de meu corpo, para que na minha morte não me torne peso para ninguém”.

Inácio escreveu aos esmirniotas combatendo o docetismo (vide capítulos 2-5). Aos magnésios (capítulos 8 e 9), insurgiu-se contra a influência judaizante e à observância do sábado: “Assim, não há mais o sábado, mas o dia do Senhor. Nesse dia, nossa vida se levantou por intermédio Dele e de Sua morte” (capítulo 9). 

Policarpo (c. 70-c. 155)

Policarpo, o bispo de Esmirna, foi discípulo do apóstolo João. Em 110 d.C., escreveu uma epístola aos filipenses com o propósito de fortalecer a vida cristã dos irmãos de Filipos. Nessa epístola, fez 60 citações do Novo Testamento, sendo 34 paulinas, demonstrando profundo conhecimento das epístolas de Paulo. Sobre a carta que Paulo escreveu aos filipenses, ele afirmou: “Ele [Paulo], estando entre vocês, comunicou com exatidão e força a palavra da verdade na presença daqueles que estão vivos ainda. E, quando vos deixou, escreveu-lhes uma carta, que, se a estudarem com cuidado, encontrarão o sentido de terem sido erguidos na fé que lhes foi dada, e que, sendo seguida da esperança e precedida pelo amor para com Deus e Cristo, assim como para nosso próximo, é mãe de todos nós” (capítulo 3, com tradução de Luiz Fernando Karps Pasquoto).

Papias (c. 60-140)

Papias, bispo de Hierápolis, na Frígia, pode ter sido discípulo do apóstolo João. Em meados do segundo século, escreveu “As Interpretações dos Ditos do Senhor”, cujos fragmentos foram preservados nos escritos de Irineu e Eusébio. Segundo Eusébio, Papias afirmou que Marcos foi o intérprete de Pedro e que o Evangelho de Mateus foi escrito em hebraico (talvez em aramaico). Segundo Irineu, Papias defendia ideias pré-milenistas.

A Literatura dos Apologetas e dos Defensores da Ortodoxia 

Nos séculos II e III da era cristã, surgiu uma literatura cristã voltada para resistir a desafios vindos de fora, tanto quanto para enfrentar os surgidos no seio da própria igreja. Earle E. Cairns percebeu que “os apologistas, recentemente convertidos do paganismo, estiveram preocupados com a ameaça à segurança da Igreja, especialmente com a perseguição; os polemistas, que tinham uma formação cultural cristã, preocuparam-se com a heresia, a ameaça interna à paz e à pureza da Igreja” (com grifos nossos).

Os apologetas 

A literatura voltada aos inimigos da fé e ao império romano pretendia refutar as falsas acusações e demonstrar que a razão e o bom senso pertenciam aos cristãos, que eram superiores aos seus vizinhos pagãos. Defensivamente, os apologetas demonstravam que as acusações feitas contra os cristãos eram incoerentes, tanto em relação à mensagem do evangelho como ao caráter dos professantes da fé cristã. Positivamente, teciam argumentos no sentido de demonstrar o absurdo da religião pagã, com seu panteão de deuses devassos. 

A seguir, transcrevemos algumas linhas do “Discurso a Diagneto”, uma das mais antigas apologias, de autor anônimo: “Os cristãos não se diferenciam dos demais por sua nacionalidade, por sua linhagem nem por seus costumes… Vivem em seus próprios lugares, mas como transeuntes, peregrinos. Cumprem todos os seus deveres de cidadãos, mas sofrem como estrangeiros. Onde quer que estejam encontram sua pátria, mas sua pátria não está em nenhum lugar… Se encontram na carne, mas não vivem segundo a carne. Vivem na terra, mas são cidadãos dos céus. Obedecem todas as leis, mas vivem acima daquilo que as leis requerem. Amam a todos, mas todos os perseguem” (5.1-11, citação de Justo L. González).

No Oriente, os grandes nomes que se destacaram na defesa da fé cristã foram Aristides (século II), Justino Mártir (100-165), Taciano (século II), Antenágoras (escreveu em 177 a “Súplica pelos Cristãos”) e Teófilo de Antioquia (escreveu em c. de 180 a “Apologia a Autólico”). No Ocidente, destacaram-se Minúcio Félix (escreveu “Otávio” em c. de 200) e, principalmente, Tertuliano (c.160 – c. 230).

É verdade que nem todos os apologistas defenderam o cristianismo sob a mesma perspectiva, sobretudo quanto à relação da fé cristã com a cultura grega. Justino Mártir se dedicou a demonstrar as relações entre o cristianismo e a filosofia clássica, abordando os vários pontos de contato e explicando-os em termos da influência do “Logos”. Para Justino, o “Logos”, que para os gregos era a fonte de todo o saber, se fez carne através do homem Jesus, sendo Jesus Cristo a fonte de todo o conhecimento verdadeiro. Portanto, em certo sentido, os sábios da antiguidade clássica (Sócrates, Platão, etc.), ainda que só conhecessem o verbo parcialmente, poderiam ser considerados cristãos.

Em outro extremo estava Taciano, o mais famoso discípulo de Justino, para quem havia uma oposição radical entre a fé cristã e a cultura pagã. Para Taciano, se há alguma coincidência entre a cultura grega e a religião cristã, deve-se ao fato de que os gregos aprenderam sua sabedoria dos “bárbaros” (cristãos). Sobre os deuses gregos, Taciano questiona o direito que exigem dos cristãos que sejam tais deuses honrados, uma vez que Homero e os demais poetas gregos contam coisas a seu respeito que são dignas de vergonha, tais como adultério, incesto e infanticídio. 

Em geral, a grande dificuldade que se tem contra os apologetas desse período é a sua apresentação do cristianismo em termos de filosofia, o que se pode observar, sobretudo, na doutrina do “Logos”. Sua doutrina incluía a ressurreição dos corpos e uma inexplicável inconsistência soteriológica, visto que, às vezes, punham ênfase demasiada no livre-arbítrio e, em outras, faziam a salvação depender inteiramente da livre graça. 

Mais problemática era a doutrina dos apologetas quanto ao “Logos”. Para eles, o “Logos” existia em Deus, eternamente, sem existência pessoal, ao que Deus concedeu existência separada e pessoal. Embora essencialmente igual a Deus, o “Logos” nem sempre existiu como autonomamente existente, pelo que se poderia dizer ser Ele uma criatura, segundo essa perspectiva.

Os defensores da fé 

Outros escritores cristãos dos séculos II e III, por sua vez, desenvolveram uma literatura para combater as heresias que desafiavam a pureza doutrinária da Igreja. Irineu é o maior pai antignóstico do Oriente. No Ocidente, destacaram-se em Alexandria Clemente(155-225) e Orígenes (185-254) e, em Cartago, Tertuliano e Cipriano.

Os Pais antignósticos: Irineu (130-200) e Tertuliano

Irineu nasceu no Oriente, onde se tornou discípulo de Policarpo. Mais tarde foi ordenado presbítero em Lyon. De cristologia ortodoxa, afirmava contra os gnósticos que o “Logos” existiu desde toda a eternidade, tornou-se o Jesus histórico na encarnação, sendo, daí em diante, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Negava peremptoriamente a heresia gnóstica de que o Jesus humano se separou do Cristo divino, quando dos seus sofrimentos e morte. 

Tertuliano, o mais famoso pai antignóstico do Ocidente, foi advogado e presbítero da igreja em Cartago. Escreveu tanto em defesa da fé, em sua obra “Apologeticum”, quanto como teólogo, na obra “Adversus Praxeas”. Foi o primeiro a ensinar a tripersonalidade de Deus usando o termo “Trindade”. Em Tertuliano também se vê um indício da doutrina do pecado original.

Louis Berkhof analisa que nem Irineu nem Tertuliano chegaram a uma plena declaração da Trindade, porque em ambos estava presente a ideia de subordinação do Filho em relação ao Pai. Em ambos, também se percebe a relação entre o batismo e a regeneração. O homem seria regenerado pelo batismo, segundo Irineu. Para Tertuliano, o pecador, pelo arrependimento, obtém salvação mediante o batismo, e os pecados cometidos após o batismo requerem satisfação mediante penitência. 

Irineu e Tertuliano também não compreenderam a doutrina paulina da justificação pela fé. Segundo Irineu, “A fé necessariamente levaria à observância dos mandamentos de Cristo, sendo ela suficiente para tornar o homem justo diante de Deus” (Berkhof). Sua escatologia era pré-milenista. Os seis primeiros mil anos seriam sucedidos pelo milênio literal, o milênio sabático, inaugurado pela reaparição de Cristo, quando os crentes gozariam as riquezas da terra na Palestina. Após o milênio, surgirão os novos céus e a nova terra.

Os Pais alegoristas: Clemente e Orígenes

Clemente e seu discípulo, Orígenes, foram os grandes representantes da escola alexandrina, ainda menos ortodoxos que Irineu e Tertuliano. Eram extremamente alegóricos na interpretação da Bíblia e favoreciam a uma espécie extravagante de síntese entre neoplatonismo e cristianismo. Ambos mantiveram a ideia de subordinação do Filho em relação ao Pai e, sobre o Espírito Santo, Orígenes afirmou que é uma criatura criada pelo Pai através do Filho, tendo o Espírito uma relação menos íntima com o Pai do que o Filho. 

Ambos defendiam a ideia de livre-arbítrio, que o batismo é o começo da nova vida na igreja e que fora da igreja – a congregação dos crentes -, não há salvação. Para ambos, o processo de purificação continua após a morte. Segundo Clemente, os pagãos teriam oportunidade de se arrepender no hades. Para Orígenes, a obra redentora não estaria terminada enquanto todas as coisas não fossem restauradas à sua beleza original, incluindo Satanás e seus demônios. Ambos, Clemente e Orígenes, rejeitaram o milenarismo.

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