O reverendo Vanderli Lima Carreiro avivou que o médico missionário Robert Reid Kalley costumava usar seu questionário nas ocasiões batismais, nas quais seguia o procedimento de aspergir água sobre a cabeça do candidato, após esse respondê-lo em pé, perante toda a congregação. Transcrevemos abaixo as dez questões da confissão batismal do doutor Kalley, seguidas de um brevíssimo comentário.
1 — Credes na existência de Deus e que Ele é um Espírito, presente em três pessoas, e um só Deus?
Deus é o mais espiritual de todos os seres. Que “Deus é espírito”, nosso Senhor o diz explicitamente em João 4.24. Esse atributo incomunicável informa que Deus é imaterial, incorpóreo (Lc 24.39; 1Tm 1.17). Com efeito, é próprio do ser divino ser dotado da mais pura espiritualidade, visto que somente um ser que fosse perfeitamente espiritual poderia ser simples (não composto), infinito e imutável. Uma implicação prática da espiritualidade de Deus é que ela condena a tentativa de materializá-lo (Dt 4.12,15-16), tanto quanto impõe a forma correta de adoração (Jo 4.24).
Devemos reconhecer que o Ser divino é uno e indivisível e que ao mesmo tempo subsiste em três pessoas ou hipóstases. Tudo quanto pode ser dito sobre a essência de Deus, vale para todas as pessoas da divindade – tem-se em mira a unidade do ser divino como essência una e indivisa. Isso quer significar que, quanto à essência, o Pai é o Deus verdadeiro, o Filho é o Deus verdadeiro e o Espírito Santo é o Deus verdadeiro.
Aquilo, porém, que é dito sobre cada pessoa da divindade, não pode ser dito acerca da essência, visto que quanto à subsistência, Deus o Pai não é Deus o Filho, Deus o Filho não é Deus o Espírito e Deus o Espírito não é Deus o Pai – aqui reside a diversidade de pessoas na divindade. Diz-se em teologia, a propósito da distinção entre as pessoas, que Deus o Pai é a pessoa não gerada, sendo a fonte eterna das demais subsistências; que Deus o Filho é a pessoa não criada e eternamente gerada do Pai; e que o Espírito Santo é a pessoa eternamente procedente do Pai e do Filho.
2 — Credes que a Bíblia foi escrita por inspiração e sob a direção de Deus e contém as leis para a Humanidade?
O registro da revelação na forma escrita se deu com a finalidade de preservá-la e transmiti-la através dos séculos sem as possíveis e eventuais interpolações de uma transmissão meramente oral, sendo a Bíblia a fonte exclusiva de tal revelação.
Nesse processo de registro da revelação, o Espírito Santo guardou os escritores sagrados de tal maneira que tanto as ideias quantos as palavras que escreveram foram exatamente as pretendidas por Deus.
Em 2Timóteo 3.16-17, Paulo avalia a Escritura como sendo integralmente inspirada. A palavra “inspirada” (grego theopneustos) significa literalmente “soprada por Deus”, expressão que explica a Bíblia como sendo um produto da criação divina (Gn 2.7; Jó 33.4; Sl 33.6). Notável igualmente é a afirmação de 2Pedro 1.20-21, no sentido de que não há possibilidade de a revelação de Deus ter sido corrompida no processo de interpretação e registro em virtude da falibilidade humana, visto que homens santos foram “movidos pelo Espírito Santo” quando a registravam. O resultado do processo de inspiração é que as palavras que os escritores sagrados escreveram são as palavras de Deus.
3 — Sabeis e confessais que tendes quebrado essas leis divinas e, sendo pecador, mereceis o castigo da morte e do inferno?
Importa reconhecer igualmente a extensão e a gravidade da Queda. Conforme o artigo 8 da Breve Exposição, “Estas não se limitaram ao primeiro pecador. Seus descendentes herdaram dele a pobreza, a desgraça, a inclinação para o mal e a incapacidade de cumprir bem o que Deus manda; por consequência todos pecam, todos merecem ser condenados e de fato todos morrem”. O pecado é, com efeito, a causa primeva de todas as tragédias humanas. Foi ele que encerrou todos os homens de todos os tempos e lugares na masmorra abjeta da alienação para com o Criador (Rm 2.9-19), entenebreceu seus sentidos (Rm 1.22; 1Co 1.20), petrificou seu coração (Ef 4.17-19) e trouxe como resultado inexorável a morte física e espiritual, estando igualmente na base da morte eterna, o que, de fato, todos merecemos por natureza (Rm 2.28-32; 6.23; Ef 2.1-3).
4 — Credes que uma das Pessoas do Supremo Deus tomou corpo e alma humanos, em tão íntima união com sua Divina Pessoa, que, continuando a ser Deus, veio a ser também Homem; e que essa singular Entidade é Jesus Cristo, que nasceu em Belém, viveu, foi crucificado e sepultado; ressuscitou dos mortos, subiu ao céu e está sentado à direita de Deus?
Aqui, devemos confessar a dupla natureza do Salvador. A concepção de Jesus foi um portento da onipotência divina, que de modo insondável e poderoso, por meio do Espírito Santo, acresceu à natureza divina do Redentor a natureza humana, unindo ambas, de uma vez por todas, no único Ente Jesus Cristo.
Conforme Heber Carlos de Campos, “Uma substância (que continha todas as propriedades da natureza humana) foi acrescida à Pessoa Divina, com natureza divina, de forma que o Redentor passou a ser vere Deus et vere homo (verdadeiro Deus e verdadeiro homem). A ação do Espírito Santo fez com que as duas naturezas ficassem unidas – a que veio de Deus e a que veio de Maria, de modo que, desde então, nunca mais elas existem separadamente”.
Jesus Cristo é, pois, “essa singular Entidade” que adentrou na carreira da redenção pelo povo que veio salvar.
5 — Credes que tendes o grande benefício que decorre do grande sacrifício da expiação consumado por Nosso Senhor Jesus Cristo e que participais de sua intercessão, agora que Ele está na glória celeste?
A pergunta “5” é tão simples quanto profunda. É o coração do questionário kalleyano. Pressupõe que a vida e a morte de Jesus Cristo foram penais (que uma certa penalidade foi paga) e substitutivas (que o Redentor agiu no lugar de um povo). Parte ainda da premissa – não que Cristo exerceu sua função sacerdotal em benefício de todos (que morreu e intercede para garantir a salvação de todos), mas – que o povo por quem Cristo realmente morreu e intercede tem sua salvação garantida.
É com base nesses fundamentos que o professante deve responder se já está ou não na posse dos benefícios conquistados pelo Redentor, se é ou não parte do povo no lugar de quem a expiação foi realizada.
6 — Como viestes a gozar desses benefícios – por boas obras que fizestes ou porque as comprastes ou por dádiva?
Se a pergunta “5” destaca a causa eficiente da nossa salvação, a “6” questiona sobre a fonte dela. A causa eficiente é a obra expiatória do Cristo, mas a fonte é a graça, a dádiva imerecida (e inexplicável!) de Deus por meio do Cristo.
É dizer, a salvação não foi conquistada pelos méritos das nossas boas obras. Trata-se de um dom exclusivamente gratuito, realidade afirmada inumeráveis vezes nas Escrituras: “sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus” (Rm 3.24); “Porque pela graça sois salvos… não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8,9).
7 — Julgais que, em consequência de o Deus-Homem ter obedecido a Lei e ter levado o castigo em vosso lugar, não vos é necessário ter escrúpulo de fazer aquilo que é contrário à vontade de Deus?
A pergunta “7”, mais uma vez, baseia-se na expiação penal e vicária do Filho de Deus. Ele agiu em nosso lugar quando recebeu sobre Si a penalidade que nós merecíamos. Sua justiça humana foi realizada para nós, em benefício do povo que veio salvar. Paulo o diz: “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição em nosso lugar…” (Gl 3.13).
Mas a questão inquire ao professante se ele acredita que a graça de Deus em Cristo o libera para uma vida inescrupulosa, descuidada, desinteressada em fazer a vontade de Deus. Noutras palavras, se a graça de Deus é um salvo-conduto que o autoriza a fazer o que seus instintos naturais reclamam, sem nenhum pesar. Em síntese, pergunta-se: o evangelho não passa de uma graça barata, ou o dom gratuito de Deus exige compromisso radical com a justiça do reino de Deus?
Uma pergunta mais direta seria: “Professante, você é um libertino? Você acredita que a salvação gratuita e o pleno pagamento da sua dívida são motivo para a licenciosidade?” A doutrina apostólica sempre foi alvo de críticas exatamente nesse sentido. Os inimigos de Paulo, já no primeiro século (Rm 6.1,2), como os de Lutero, no século XVI, acusaram a doutrina bíblica de salvação gratuita de promover a licenciosidade. Nada mais equivocado!
8 — Ou julgais, ao contrário, que essa grande manifestação do amor de Deus para convosco estabelece mais uma razão para que vos esforceis por agradar-lhe?
A pergunta “8” considera as coisas positivamente. Se o professante afirmou que a graça não é um cheque em branco para atendermos as demandas da natureza corrompida, o que o amor de Deus deve produzir?
Paulo havia dito que “onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5.20). Depois, provocou: “Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante?” (Rm 6.1). Vejamos sua resposta: “De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos?” (Rm 6.2).
Em 2Coríntios 5.14,15, escreveu: “Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos; logo, todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou”. Em que consistia esse amor constrangedor? Consistia em que Jesus Cristo havia morrido no lugar do pecador penitente e que, por isso, esse também havia morrido para si mesmo, para uma vida de autogratificação, e agora vivia para aquele que por ele ressuscitou. Em síntese, a amor de Jesus Cristo constrange o beneficiário a viver para aquele que o amou. “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4.19).
9 — Esperais que será fácil servirdes a Deus fielmente durante esta vida?
A questão “9” pergunta ao batizando se ele já calculou o preço da caminhada, se ele sabe quanto custa ser discípulo de Jesus Cristo. Lembremos que não faltaram advertências do Senhor quanto à dureza de segui-lo. A vida cristã é descrita pelo Senhor como uma “porta estreita” e um “caminho apertado”, sendo “poucos os que acertam com ela” (Mt 7.13,14). “Bem-aventurados”, ele diz, são “os perseguidos por causa da justiça” e os injuriados e caluniados “por minha causa” (Mt 5.10,11).
A um discípulo todo empolgado, que afirmava que seguiria a Jesus aonde ele fosse, sua advertência foi esta: “As raposas têm seus covis, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lc 9.57,58). Decerto, para seguir a Jesus deve haver uma pré-disposição para morrer por causa dele, se necessário for: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me” (Lc 9.23).
Tudo isso para não mencionar aquele tríplice “não pode ser meu discípulo” de Lucas 14.25-33: não pode ser meu discípulo quem “não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida”; quem “não tomar a sua cruz e vier a pós mim”; e quem “não renuncia a tudo quanto tem”.
Não, definitivamente, servir a Deus fielmente durante esta vida não é tarefa fácil!
10 — Quereis ser batizado, para significar que concordais com a aliança, pela qual Deus assegura ao crente o pleno proveito do sacrifício expiatório de Jesus, e que, portanto, decidis, com o auxílio divino, servi-lo sempre durante o resto de vossa vida aqui na terra?
O batismo é o novo sinal da Nova Aliança. Da parte de Deus, o batismo é Ele nos dando uma marca pela qual confirma a promessa que somos o povo da Sua aliança (Cl 2.11). As graças invisíveis significadas e confirmadas no batismo são o batismo com o Espírito Santo (1Co 12.13), a regeneração operada pelo Espírito (Tt 3.5) e a nossa união com Cristo em Sua morte e ressurreição (Rm 6.3-11).
Por outro lado, pelo batismo também confessamos publicamente nossa fé em Cristo: “que concordamos com a aliança, pela qual Deus assegura ao crente o pleno proveito do sacrifício expiatório de Jesus”. Além disso, quando nos submetemos ao sacramento do batismo, afirmamos nossa submissão à autoridade do Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo (Mt 28.19,20), sendo esta também a expressão de uma decisão de “servi-lo sempre durante o resto de vossa vida aqui na terra”.
Soli Deo Gloria!

