Coração de Pedra

Lição 4/13

Temas Gerais
6
min de leitura
Modo noturno

Introdução

Ao dizer o que não é e o que é o novo nascimento, tratamos sobre o “o quê” dessa doutrina grandiosa da Escritura Sagrada, momentos em que a conceituamos como aquela obra divina, soberana, sobrenatural, realizada pelo Espírito de Deus (o agente divino) através das Escrituras (o instrumento divino), que concede vida espiritual, a vida que só se obtém estando em união com Jesus Cristo.

Em seguida, voltamo-nos ao “porquê” do novo nascimento. Começamos, pois, a pensar sobre a razão pela qual nascer de novo é uma imperiosa necessidade (Jo 3.3,5,7). A esse título, já concluímos que carecíamos desesperadamente de nascer de novo porque estávamos mortos. Compreendemos, a propósito, que aquela morte era “em delitos e pecados”, dita também em termos de uma tríplice escravidão (ao curso deste mundo, ao Diabo e à natureza pecaminosa) e de uma condenação desde a concepção (“éramos por natureza filhos da ira”). 

Mas não só. A Palavra de Deus também descreve aquela morte de outras maneiras e, não raro, usando a linguagem de uma dureza de coração: “obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza do seu coração” (Ef 4.18, com grifo). É o que estudaremos nesta lição.

Um coração de pedra (Ez 36.26,27)

“Coração”, na Bíblia, é a sede da razão e dos sentimentos de uma pessoa. Assim, a nossa maneira de ver, sentir, pensar, avaliar e decidir está totalmente relacionada com o vocábulo “coração”. Vejamos, nesse sentido, a linguagem do profeta Ezequiel: “Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis” (Ez 36.26,27).

Quando o profeta diz que tínhamos um “coração de pedra”, quer isso significar que antes de nascermos de novo possuíamos coração morto, insensível, indiferente, fechado. Não tínhamos olhos para contemplar a glória de Deus e de Cristo, nem mente que compreendesse salvadoramente o evangelho. Também não possuíamos mãos que se estendessem para receber a graça de Cristo, nem pernas que corressem aos pés do Salvador. Nossas emoções não se inflamavam ante a beleza de Cristo, nem nossos afetos eram dirigidos ao que agrada a Deus. Nossas decisões não eram tomadas levando-se em consideração a vontade de Deus, porque estávamos mortos para um relacionamento vital com Ele. Éramos, em síntese, uma pedra! 

É, no entanto, através do novo nascimento que Deus remove o coração de pedra e concede um coração de carne. Mas atentemos a isto: “carne” em Ezequiel não equivale à “carne” em João 3.6 (“O que é nascido da carne é carne…”). Em João, “carne” corresponde àquilo que é meramente humano, natural e incapaz de gerar rebento espiritual. Em Ezequiel, “carne” (em contraponto à pedra) refere-se a um coração vivo, sensível, reativo, perceptivo, respondente, fervoroso. 

Eis, pois, outra maneira da Escritura dizer que estávamos mortos, absolutamente carentes da nova vida que o Espírito Santo cria no novo nascimento. Sem o novo nascimento tudo que somos é pedra. 

Essa dureza de coração se manifesta em alguns sentidos, destacados nos tópicos seguintes.

Dureza de coração como a incapacidade do homem natural para aceitar o evangelho sem o novo nascimento (1Co 2.14)

A pessoa não regenerada (“o homem natural”) não aceita o evangelho, não pode entendê-lo. O problema, entretanto, não é que o evangelho exige raciocínio que extrapola os limites da compreensão do homem natural. O homem natural é, sim, capaz de captar a lógica do evangelho da graça de Deus, da justificação pela fé somente com base na imputação da obediência de Cristo à conta de pecadores. 

O problema real reside em que todas essas coisas soam ao homem natural como loucura e insensatez. O homem natural diz: “Como é possível que alguém acredite nisso?” É assim que Paulo explica a resistência natural ao evangelho do homem não regenerado: “Essas coisas só se discernem espiritualmente”, isto é, após a concessão da vida espiritual concedida no novo nascimento.

Dureza de coração como a impossibilidade do homem natural para ir a Cristo, aceitar a Cristo ou confessá-lo salvadoramente sem o novo nascimento (Jo 6.37,44,65; 1Co 12.3)

Em João 6, aceitar a Cristo ou confessar salvadoramente a Cristo está expresso como “ser dado pelo Pai a Cristo” (v. 37), “ser trazido pelo Pai a Cristo” (v. 44) e “receber do Pai a concessão de ir a Cristo” (v. 65). Sem a obra do Pai (no novo nascimento) seria impossível para nós termos ido a Cristo ou crido nele salvadoramente. 

O mesmo pode ser visto em 1Coríntios 12.3, onde Paulo afirmou que “ninguém pode dizer: Senhor Jesus!, senão pelo Espírito Santo”. Naturalmente, Paulo não disse que não é possível confessar “Senhor Jesus!” meramente com os lábios, de maneira vazia e leviana, sem novo nascimento. Os descrentes e apóstatas da igreja visível certamente o fazem. O que quis dizer é que uma confissão verdadeira, desde o coração, só será feita após a obra do Espírito na regeneração espiritual. 

Dureza de coração como afetos distorcidos do homem natural, pelos quais, por natureza, amávamos as trevas e odiávamos a luz (Jo 3.19,20)

Nisso também se revela o que somos sem o novo nascimento: o amor e o ódio do coração não regenerado se movem na direção errada. Odiávamos o que devíamos amar e amávamos o que devíamos odiar. Somente a obra de Deus no novo nascimento pode reverter esse estado caótico de afeições e dirigi-las ao caminho correto: de amor pelo que é apreciado por Deus e ódio pelo que é odiado por Deus. 

Conclusão

Por tudo o que vemos, somos levados a concluir que jamais compreenderemos quão profunda é a nossa pecaminosidade (Jr 17.9; Sl19.12), de modo que não nos conformemos com mera adesão a igrejas e denominações (e sistemas religiosos), por mais ortodoxas que sejam suas confissões. É necessário nascer de novo! 

Somente a operação divina da regeneração espiritual reverte a dureza de coração que se manifesta em termos de incapacidade do homem natural para aceitar o evangelho, de impossibilidade do homem natural para ir a Cristo, aceitar a Cristo ou confessá-lo salvadoramente e de afetos distorcidos do homem natural, pelos quais, por natureza, amávamos as trevas e odiávamos a luz.

*Somos uma marca de teologia reformada comprometida em transmitir a mensagem da fé de forma clara, direta e eficaz para um mundo que precisa do amor e da graça de Deus.

Saiba mais