Como ovelhas sem pastor

Quando, em tempos extraordinários, as multidões estão famintas pela Palavra de Deus a ponto de não haver obreiros suficientes.

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Jesus tinha feito a última visita a Nazaré, após o que fez a última viagem pela Galileia (v. 35; Mc 6.6b), na qual percorreu “todas as cidades e povoados”. Isso inclui cidades maiores e pequeníssimas e insignificantes vilas de distantes zonas rurais, aldeias pobres e desconhecidas.

Ao longo da viagem, o Senhor ensinou nas sinagogas (de maneira mais formal), como também pregou o evangelho do Reino em conversas informais, além de ter realizado também nessas andanças curas miraculosas, como costumava fazer. 

Com isso, Jesus Cristo ensina que se faz missões onde há oportunidades e sempre que elas surgem. Paulo disse aos colossenses: “Portai-vos com sabedoria para com os de fora; aproveitai as oportunidades” (Cl 4.5). A Timóteo, disse: “prega a palavra… Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina” (2Tm 4.2,3), ou seja, “prega enquanto há oportunidades, porque elas faltarão”. Aquilo que Paulo ordenou era também uma regra que ele mesmo obedecia, a de não perder oportunidades: “Ficarei, porém, em Éfeso até ao Pentecostes; porque uma porta grande e oportuna para o trabalho se me abriu; e há muitos adversários” (1Co 16.8,9). 

Jesus Cristo agia assim e nisso também Ele é o perfeito modelo a ser seguido. Pensemos se isso faria sentido para Jesus: “Você está pregando o evangelho?” “Não. Estou aguardando ser eleito por alguma igreja”. 

Essa campanha deu a Jesus em cores muito vívidas as reais dimensões da tarefa missionária, notadamente em épocas extraordinárias. Isso porque ele viu as “multidões” (v. 36). Eram formigueiros humanos. Havia ajuntamentos por todos os lados onde caminhava. 

Ante o impacto dessa visão, Jesus teve compaixão das multidões, ele “compadeceu-se delas”. A palavra denota forte reação emocional que traz em si potencial para agir concretamente por meio de atos de misericórdia. As entranhas do Salvador se comoveram de misericórdia pelas multidões. As multidões eram o objeto da sua grande misericórdia.

O evangelista informa na sequência a causa imediata da compaixão: a aflição e a exaustão das multidões. Elas estavam aflitas e exaustas. Eram como ovelhas sem pastor. 

A figura da “ovelha” é importante aqui. Ovelhas são bichos que só sabem se perder, que são sempre incapazes de retornar ao caminho sem ajuda. Elas nem enxergam muito bem e nem têm muita habilidade. Quando se perdem, costumam andar por caminhos que as machucam, dos quais não sabem se livrar e de forma alguma encontram sozinhas o caminho de volta. Ovelhas têm um único sentido realmente eficaz: elas ouvem bem e por isso são facilmente conduzidas por aqueles que elas reconhecem como seu pastor. 

Mas há na passagem uma constatação preocupante de Jesus: aquelas multidões “estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor”. Não havia pastor que as reconduzisse, que as tratasse e as guiasse por pastos verdejantes. Observemos, entretanto, que havia mestres, escribas, anciãos, sacerdotes e levitas espalhados pela nação, mas Jesus Cristo ainda assim diz que o povo está sem pastores.

Sim, as multidões estavam sem pastores porque os líderes da nação não faziam seu trabalho. Eles eram superficiais, legalistas e preguiçosos. Os escribas, especialistas na lei, e os fariseus, membros da seita mais popular do judaísmo da época, apenas sobrecarregavam o povo com minudências legais na mesma medida que ocultavam o real sentido da Palavra de Deus. Essas multidões estavam sempre enredadas com os ditos dos antigos e iludidas com a tradição dos homens, mas vazias de poder espiritual que pudesse aliviá-las e reconduzi-las pelo caminho seguro da comunhão com o Deus vivo.

Então, é evidente que temos aqui uma denúncia contra os líderes religiosos da nação! Eles estão ali, mas são imprestáveis e o povo não pode contar com eles.

Oh, que tarefa essa! Quanta urgência em realizá-la! O cenário era este: a situação das pessoas era lastimável, porque elas não dispunham de líderes espirituais e, se possuíam, não eram verdadeiros pastores, mas apenas obreiros fraudulentos que pensavam mais em si do que nos interesses de Jesus Cristo e seu povo.

Bem, quando a realidade se afigura com tais nuanças, o que fazer? O que Jesus fez? A compaixão de Jesus não era inerte. Ele, porque compadecido das multidões, desencadeou um plano de ação em benefício delas. Vejamos.

Jesus dedicou um tempo especial de oração privada

“Naqueles dias, retirou-se para o monte, a fim de orar, e passou a noite orando a Deus” (Lc 6.12). Esta noite de oração de Jesus cabe bem aqui porque em Lucas ela antecede a chamada dos discípulos. Assim, a oração de Jesus, a compaixão de Jesus pelas multidões e a chamada dos discípulos são ações e atitudes conectadas. Nós aprendemos com isso, pois, que devemos, antes de tudo, orar por quem temos compaixão e orar pelo projeto de atendê-las em sua necessidade.

Jesus compartilhou a sua percepção com os discípulos. 

“A seara, na verdade, é grande, mas os trabalhadores são poucos” (v. 37). Há muito trabalho a ser feito e poucos obreiros disponíveis. 

Havia algo de incomum acontecendo: as pessoas do povo estavam ávidas por ensino genuíno da Escritura. Verdadeiramente, aqueles eram tempos extraordinários resultantes do ministério de Jesus. É certo afirmar que o trabalho de Jesus elevou o padrão a outro nível. Jesus estava chamando os cansados e sobrecarregados para acharem descanso nele (Mt 11.28-30). A autoridade com que Ele falava o distanciava dos líderes religiosos. Havia naquele ensino de Jesus uma vitalidade, um vinho novo, um poder espiritual, uma esperança de real encontro com Deus, tudo isso embalado por uma originalidade autoral e pela força de um modelo poderoso… Tudo isso está presente nas palavras finais de Mateus ao Sermão do Monte: “Quando Jesus acabou de proferir estas palavras, estavam as multidões maravilhadas da sua doutrina; porque ele ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas” (Mt 7.28,29). 

Dito isso, esclareço que estou aqui sugerindo que surgiu um problema, um bom problema, se é que o leitor me entende, qual seja: uma necessidade de boa pregação, de compreensão bíblica alcançada pelo ministério de obreiros sinceros e apegados à Escritura. Esse tipo de coisa costuma ocorrer em épocas de despertamento espiritual. Aquele era verdadeiramente um tempo extraordinário, em que multidões estavam famintas pela Palavra de Deus a ponto de não haver obreiros disponíveis, capazes de atender seus mais nobres anseios. E quando a seara se torna grande nesse ponto há também uma grande colheita no horizonte próximo. Faltavam somente mãos para a ceifa. 

Aquele foi um momento de oportunidades em que toda a diligência do mundo deveria ser dispensada e todas as oportunidades, aproveitadas. A fome da verdade deveria ser suprida embora não houvesse proporção entre a grande demanda de trabalho e o número de obreiros aptos.

Pronto, o cenário foi compartilhado com os discípulos.

Jesus incitou seus discípulos a orar, uma vez esclarecida a situação. 

Fazer o que frente à oportunidade de uma grande colheita com tão poucos trabalhadores? Jesus ordenou: “Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara” (v. 38). 

Observemos que as nossas orações devem ser também dirigidas pelas necessidades mais prementes das igrejas. Quando as coisas não estiverem boas, não reclamemos, mas oremos exatamente pelos motivos que nos fariam desanimar. Problemas, dificuldades e carências, portanto, não são motivos de abatimento, são motivos de oração. 

Em suas orações, todavia, os discípulos deveriam considerar as seguintes realidades: primeiro, Deus o Pai é o Senhor da seara – “meu Pai é o agricultor” (Jo 15.1), Israel é a vinha do Senhor (Is 5.7), a igreja é a lavoura de Deus (1Co 3.9); segundo, como a seara é do Senhor, Ele a dirige com poder soberano, inclusive para dispor obreiros como lhe apraz: “Rogai… (nós rogamos humildemente) “que mande (o Senhor manda) trabalhadores”. É trabalho divino suprir a necessidade da seara que é sua. Os obreiros são dons do Cristo glorificado à igreja (Ef 4.11). O chamado é obra sua. Isso corresponde ao tesouro em vasos de barro, como disse Paulo aos coríntios. 

E, como sói ocorrer, quando Jesus Cristo incita seu povo a orar pela seara do Senhor, isso significa que Ele está prestes a fazer coisas extraordinárias em resposta às orações. Tem sido assim ao longo da história. Não há, segundo confiáveis historiadores, nenhum movimento de reforma ou avivamento que não tenha passado pelo trono da graça de Deus por meio orações ferventes de pessoas que sentiram o fardo da necessidade da igreja. 

Por isso, segundo Mathew Henry, “todos os que amam a Cristo e às almas devem mostrar isso através de orações fervorosas a Deus, especialmente quando a seara é abundante, para que Ele envie mais obreiros habilidosos, fiéis, sábios e diligentes para a sua seara. E que Ele os levante em benefício da conversão dos pecadores e da edificação dos santos. Que Ele lhes dê energia para o trabalho, os chame para o trabalho e os faça ter sucesso nele. Para que Ele lhes dê sabedoria para ganhar almas. Para que Ele envie o número de obreiros necessário; obreiros que não se entreguem ao desânimo demonstrando relutância ao trabalho, por causa de sua própria fraqueza e da impiedade das pessoas e da resistência dos homens, que se esforçam para lançá-los para fora da colheita. Mas devemos orar para que todas as contradições interiores e exteriores possam ser derrotadas e superada”. 

Além disso, não olvidemos que Jesus Cristo manda que seus discípulos, aqueles que haveria de enviar, roguem a Deus pedindo obreiros à seara. Então, é evidente que os discípulos deveriam ver a si mesmos e seus ministérios para Deus como resultado da comissão divina. Ninguém pode arvorar-se a tomar posse na seara do Senhor sem que o Senhor da seara não o designe. Por isso, os discípulos deveriam orar por sua própria vocação, suplicar por si mesmos.

Jesus chamou, preparou e enviou os discípulos.

O chamado é soberano, livre e individual. É um chamado, antes de tudo, para estar com Jesus. “Depois, subiu ao monte e chamou os que ele mesmo quis, e vieram para junto dele. Então, designou doze para estar com ele e para os enviar a pregar” (Mc 3.13,14), mas não antes de instruí-los (10.1,5). 

Notem: são pessoas certas e determinadas (elas têm nome: “Ora, os nomes dos doze apóstolos são estes…”), escolhidas soberanamente pelo Senhor da seara (“chamou os que ele mesmo quis”), chamadas para, antes de tudo, estarem com o Senhor (“e vieram para junto dele. Então, designou doze para estar com ele”) e receberem dele a instrução adequada à missão que lhes seria designada. 

A passagem subsequente deixa claro que tudo foi dito e nada foi omitido: a natureza da tarefa foi informada, a capacidade para executá-la foi provida, o destinatário da missão foi informado, as dificuldades que enfrentariam foram comunicadas, as variadas reações e suas consequências foram preditas. Não deveria haver obreiros decepcionados, porque nenhum deles foi enganado. 

Conclusão

À guisa de conclusão, deixe-me o leitor destacar detalhes relevantes que saltam do texto. 

Primeiro, o homem mais misericordioso que já pisou na terra, quando compadecido de multidões, compadeceu-se sobretudo do seu estado espiritual. É verdade que Jesus alimentou multidões para não as dispersar famintas, por sua misericórdia, e também que, pela mesma misericórdia, curou os enfermos. O que estou querendo dizer é que Jesus fez todas essas coisas, além de fazê-las com outros variados propósitos, o fez também movido por entranhável misericórdia. Mas nada comoveu suas entranhas como ver as multidões como ovelhas sem pastor. Isso nos ensina que nunca somos tão misericordiosos do que quando, além de dispensarmos a necessária ajuda material a quem dela precisa, interessamo-nos pela carência espiritual das pessoas.

Segundo, quando o homem mais misericordioso que já pisou na terra, quando compadecido de multidões, começou a traçar um plano de ação para remediar aquilo que reputou de maior urgência, começou orando, ele mesmo, e mandando orar. Isso não é magnífico? Oração é tanto uma atitude de amor como a nossa expressão de dependência de Deus para o exercício do amor. Quem ama, ajuda orando e ora para ajudar.

Terceiro, quando o homem mais misericordioso que já pisou na terra, quando compadecido de multidões, começou a agir para remediar aquilo que reputou de maior urgência, preparou obreiros cristãos. Não preparou filósofos, nem juristas, nem estadistas, nem sociólogos. Preparou simples obreiros para a sua seara. 

Não custa, à luz de todo o exposto, suplicar para que oremos por um avivamento em nossa região, cidade, bairro, igreja. Oremos para que Deus desperte vocacionados entre nós. Mantenhamos seminários e esforcemo-nos para que permaneçam fieis à Palavra de Deus, livres dos entulhos do liberalismo, e (somente nesse caso) enviemos-lhes os vocacionados. Por fim, exerçamos nós mesmos, no lugar e com as oportunidades que dispomos, a missão de Deus. 

SDG

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