Das Ordenanças e do Culto Solene2⁵⁰
Artigo 25 – Cremos que as ordenanças do batismo com água, realizado em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e da Ceia do Senhor, as únicas instituídas por Jesus Cristo à Igreja na Nova Aliança2⁵1, são representações por meio das quais os benefícios do pacto da graça são visivelmente sinalizados à fé dos eleitos2⁵2, os quais, por sua vez, ao dessas participarem, professam sua fé e dedicam sua fidelidade a Deus2⁵3, e que devem ser administradas no contexto do culto público, isto é, no ajuntamento solene das igrejas para a adoração no primeiro dia da semana2⁵⁴, observando-se, conforme o ensino das Escrituras, as formas exteriores2⁵⁵, vedadas as inovações2⁵⁶, e aquela santa devoção2⁵⁷ que não se deve nem a homens nem a anjos2⁵⁸.
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250 A UIECB congrega fraternalmente igrejas e pastores que adotam concepções sacramentalistas e memorialistas com respeito ao batismo cristão e à Ceia do Senhor.
251 Mateus 26.26-28; 28.19; Marcos 14.22-24; 16.16; Lucas 22.19,20; 1Coríntios 11.23-25.
252 Romanos 6.3-11; 1Coríntios 10.16,17; 11.25,26; 12.13; Colossenses 2.11,12; Tito 3.5.
253 Atos 2.41,42,46; 8.36-38; 9.18; 10.47,48; 16.33; 19.5; 1Coríntios 11.26-29.
254 Atos 20.7; 1Corínti os 16.2; Apocalipse 1.10.
255 Malaquias 1.7-10,12,13; Mateus 28.19; Atos 2.42; 20.7,20,28; Efésios 5.19,20; Colossenses 3.16,17; 1Timóteo 2.8,9; 4.13; 2Timóteo 4.1,2.
256 Êxodo 20.4; 32; Levíti co 10.1,2; Deuteronômio 4.15,16; 5.8-10; Mateus 15.9.
257 Gênesis 24.52; 2Crônicas 7.3; 29.29; Mateus 2.2; Hebreus 12.28,29; Apocalipse 4.10.
258 Mateus 4.9,10; Atos 10.25, 26; 14.11-15; Apocalipse 22.8,9.
Chegamos ao ponto em que devemos apresentar os fundamentos bíblico-teológicos do credobatismo e sua refutação ao pedobatismo, o que faremos neste estudo somente analisando o Novo Testamento. Enfatizamos que a opção credobatista está consagrada na Declaração, quando afirma que os eleitos, ao participarem das ordenanças, “professam sua fé e dedicam sua fidelidade a Deus”.
1. A Declaração aviva que “as ordenanças do batismo com água, realizado em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e da Ceia do Senhor” são “as únicas instituídas por Jesus Cristo à Igreja na Nova Aliança”. Isso também implica dizer que a compreensão adequada das ordenanças deve estar ancorada no Novo Testamento. A Confissão de Fé de Westminster diz que “O batismo é um sacramento do Novo Testemento” e, a Confissão Batista de 1689, que “O batismo é uma ordenança do Novo Testamento”. Portanto, é no Novo Testamento (e no contexto da Nova Aliança), pensamos nós, que devemos buscar o significado, a natureza e a prática do batismo. Essa decisão fundamental se alinha às seguintes premissas hermenêuticas: a) a regra áurea segundo a qual a Bíblia interpreta a si mesma; b) o atributo escriturístico da perspicuidade ou clareza, o qual ensina que os textos a serem buscados para esclarecer determinado tema são os que mais direta e claramente se dedicam a ele; c) a noção de que o Antigo Testamento deve ser interpretado à luz do Novo Testamento, não o contrário.
2. Os pedobatistas que acreditam encontrar o mandamento de batizar recém-nascidos no Novo Testamento (ou dele deduzir o pedobatismo), em geral evocam: a) os batismos de famílias (At 11.13-14; 16.14-15; 16.33; 18.8; 1Co 1.16); b) Atos 2.38-39 e 1Coríntios 7.14 como textos-prova; c) o fato de que crianças são destinatárias de mandamentos, conforme Efésios 6.1-4 e Colossenses 3.20; d) e o que Jesus disse sobre as crianças nas ocasiões em que algumas foram levadas a ele (Mt 18.1-6; 19.13-15).
3. Sobre os batismos de famílias, seria fácil demonstrar, à luz dos respectivos contextos, que somente os crentes professos dessas casas (incluindo filhos, cônjuge, parentes e servos) foram batizados. Deduzir que bebês foram batizados a partir da fórmula “toda a casa” seria apenas inferir (com base no silêncio) que todos, sem exceção alguma, foram batizados, que havia bebês recém-nascidos em todas essas casas e que, considerando que houvessem, foram batizados, quando nenhum desses dados está exposto nas passagens, sequer pressuposto. Como esses textos não lidam “com bebês, mas com a conversão e com o batismo de famílias a quem o evangelho foi proclamado”, deduzir deles o pedobatismo é, para Jewett, “uma espécie de impertinência teológica”, reciocínio que o levou a concluir o seguinte: “Quando lemos que Jesus curou o filho daquele homem e toda a sua casa creu (João 4.53); que Cornélio era um homem que temia a Deus com toda a sua casa (Atos 10.2); ou sobre certas pessoas rebeldes pervertendo casas inteiras com seus ensinos (Tito 1.11), quem vai fazer questionamentos sobre bebês? Todos nós sabemos que bebês não podem “crer no Senhor”, “temer a Deus” ou serem “pervertidos” em suas mentes por hereges. Portanto, lemos esses textos sem querer pensar em perguntar se havia bebês nessas casas. Por que, então, insistir, quando lemos que “ele e todos os seus foram batizados” ou que “ela foi batizada e sua casa”, que essas casas foram ou não abençoadas com bebês, de acordo com nossas inclinações teológicas?” (citação de Crampton). Em síntese, as passagens que falam de batismo de famílias não foram escritas para tratar de pedobatismo, tampouco para sugerir a prática.
4. Voltemo-nos a Atos 2.38-39: “Respondeu-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois para vós outros é a promessa, para vossos filhos e para todos os que ainda estão longe, isto é, para quantos o Senhor, nosso Deus, chamar” (grifei). Quando Pedro diz que “para vós outros é a promessa, para vossos filhos”, nada diz sobre batismo de bebês; antes, confirma a prática do batismo somente dos crentes professantes. “A ocasião desse evento se vê no versículo 37: “[eles] comungiram-se em seu coração… O senso de pecado pairava densamente, de forma que exclamaram: ‘homens e irmãos, o que faremos?’” (John Norcott). Segundo Pedro, a promessa de remissão de pecados e do dom do Espírito é para aqueles que se arrependem. Os penitentes dentre os ouvintes deveriam se arrepender para receberem o batismo como sinal (e selo?) do perdão de pecados e do dom do Espírito. Isso se aplica não somente a eles, mas também a seus filhos e a todos quantos o Senhor chamar. Na sequência, Lucas diz que “os que lhe aceitaram a palavra foram batizados”, que “perseveraram na doutrina dos apóstolos e na comunhão”, que “em cada alma havia temor”, que “todos os que creram estavam juntos” etc. (2.41-47). A passagem, portanto, reforça a noção do batismo somente de crentes.
5. Não raro, 1Coríntios 7.14 também é citado como texto-prova para o batismo de bebês. Nele, Paulo diz: “Porque o marido incrédulo é santificado no convívio da esposa, e a esposa incrédula é santificada no convívio do marido crente. Doutra sorte, os vossos filhos seriam impuros; porém, agora, são santos”. A inferência é que, porque Paulo diz que os filhos de um crente “são santos”, eles devem ser batizados. Ousamos discordar. Se o que é dito pressupõe o batismo de bebês, a conclusão é que pressuporia também o do cônjude incrédulo do crente. Mas não só. Como Paulo não diz que são santos apenas os filhos recém-nascidos do crente, filhos de qualquer idade deveriam ser igualmente batizados, ainda que francamente incrédulos. Em uma ou em outra situação, chegaríamos à esdrúxula conclusão que adultos descrentes deveriam ser batizados. Sobre o significado de ser santificado na passagem, escrevi o seguinte noutro lugar: “A palavra “santificar” aqui tem sentido mais amplo de um viver afastado de pecados mais grosseiros, como se o crente fosse também um instrumento da graça comum do Espírito (para além da possibilidade real de o descrente vir a abraçar a fé), que impede o que poderia desembocar em degeneração moral ainda mais abjeta. O cônjuge crente pode dizer assim, com justiça: “meu marido descrente [ou minha esposa descrente] poderia ter uma vida moral muito mais degradante, não fosse a graça comum de Deus que opera através do nosso casamento”. Sim, com efeito, como o descrente é abençoado pelo convívio com o cônjuge crente! Segundo, o apóstolo acrescenta que “Doutra sorte, os vossos filhos seriam impuros; porém, agora, são santos”. Isto é, a bênção advinda da preservação do casamento, inclusive com o cônjuge descrente que consente com isso, alcança não só o cônjuge descrente, mas também os filhos.” (vide nosso estudo 10 sobre A Criação de Filhos, “A Proteção do Casamento”).
6. Sobre crianças como destinatárias de mandamentos (Ef 6.1-4; Cl 3.20), simplesmente não faria sentido pensar em outra alternativa senão que havia nas igrejas crianças professantes, que participavam dos cultos públicos nos quais as cartas apostólicas eram lidas, e que eram consideradas “membros” das igrejas. Isso explica razoavelmente o fato de que são tratadas como responsáveis morais pela observância do código doméstico dos apóstolos, juntamente com “pais” e “servos”. Nada mais pode (nem precisa) ser dito.
7. As ocasiões em que Jesus recebe as crianças, conforme Mateus 18.1-6 e 19.13-15, também devem ser consideradas. No primeiro texto (Mt 18.1-6), Jesus respondeu a pergunta dos discípulos sobre quem é “o maior no reino dos céus”. Mas o fez reorientando o diálogo para a pergunta que deveria ter sido feita, afirmando que se converter e se tornar humilde como criança é condição para entrar no reino dos céus. Somente após diz quem é o maior no reino dos céus: “aquele que se humilhar como esta criança”. O tema da passagem não é o batismo de bebês, mas a criança como modelo de humildade do cidadão do reino. O segundo texto (Mt 19.13-15) informa que crianças foram levadas a Jesus para ele orar por elas, mas os discípulos tentavam impedi-las. Jesus repreendeu os discípulos (“Deixai os pequeninos, não os embaraceis de vir a mim, porque dos tais é o reino dos céus”) e, por fim, orou por elas, impondo sobre elas as mãos. O ensino de Jesus é basicamente o mesmo da passagem anterior: que o reino de Deus é povoado pelos “pequeninos”, aqueles que se tornam humildes e dependentes da graça de Deus, à semelhança daquelas dependência e humildade que se vêm nas crianças. O ponto central não é que as crianças pertencem automaticamente ao reino dos céus, mas que possuem uma marca que deve ser necessariamente achada nos cidadãos do reino. De qualquer modo, Jesus não batizou as crianças que foram a ele, nem por seus discípulos (cf. Jo 4.1-2), mas as recebeu, desembaraçando-lhes o caminho até ele, e orou por elas. Imitemos o Salvador.
8. Positivamente, o Novo Testamento aponta sem sombra de dúvida ao batismo cristão como a forma de confissão pública da fé consciente de pessoas que compreenderam e abraçaram o evangelho, sem nada dizer sobre batismo dos bebês dos convertidos. Antes mesmo do batismo cristão, João Batista batizava pessoas (que já tinham sido circuncidadas) quando se arrependiam e professavam fé no Messias vindouro (Mt 3.5-6; Lc 3.7-8; At 19.4). O ponto crucial na pregação do Batista era realmente este: o simples pertencimento à comunidade da Antiga Aliança (cuja marca distintiva era a circuncisão) nada significava à parte do arrependimento e da fé e o descuido quanto a essa realidade foi precisamente o alvo da denúncia do profeta (Lc 3.8). Era necessário arrependimento e abandono de pecados, professados publicamente por meio do batismo, como forma de identificação com o verdadeiro Israel. João Batista também batizou, após certa resistência, o Senhor Jesus, “porque, assim, nos convém cumprir toda a justiça” (Mt 3.13-15). É dizer, João estava, como profeta de Deus, cumprindo a ordem divina de batizar, razão pela qual era necessário que Jesus se submetesse ao batismo a fim de “cumprir toda a justiça”, apesar de ter sido circuncidado ao oitavo dia (Lc 2.21), mas também como forma se identificar com o povo que veio salvar. Em síntese, o batismo de João antecipou em alguma medida o significado e o padrão do batismo cristão, que o sucedeu.
9. Importa destacar também o batismo realizado no ministério de Jesus, por meio dos discípulos: “Quando, pois, o Senhor veio a saber que os fariseus tinham ouvido dizer que ele, Jesus, fazia a batizava mais discípulos que João (se bem que Jesus mesmo não batizava, e sim os seus discípulos) deixou a Judeia…” (Jo 4.1-3). Observa-se a sequência “fazer” e “batizar” “discípulos”, presente na prática batismal do Batista e de Jesus, levando-nos a afirmar que não havia batismo antes de os batizandos terem se tornado discípulos. A ilação óbvia foi captada por A. W. Pink: “o fato de que “batizava” aqui vem depois, e não antes, do verbo “fazia”, prova que primeiramente eles se tornaram discípulos e que foram “batizados” posteriormente” (citação de Crampton).
10. O batismo somente de discípulos foi não somente praticado por Jesus, mas por ele ordenado na Grande Comissão: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os…” (Mt 28.19-20). O texto diz, em tradução literal: “tendo ido, portanto, discipulai (aor. imp. de “matheteuô”) todas as etnias (“panta ta ethne”)” [ou seja, “fazei discípulos de pessoas de todos os povos], batizando-os (part. pres, part. de modo de “baptizo”)…. ensinando-os (part. pres, part. de modo de “didaskô”)…”. Notemos que enquanto “ta ethne” (as etnias) é neutro, o pronome que aponta a quem deve ser batizado e ensinado é masculino (“autous”), isto é: os discípulos são os que devem ser batizados e ensinados. O mandamento de Jesus na Grande Comissão deixa claro a ordem a seguida: indo, façam discípulos, batizando-os e ensinando-os. Isso quer significar que Jesus ordenou aquilo que ele mesmo, por meio dos discípulos, praticou: o batismo de discípulos, de pessoas professantes da fé (Mc 16.15-16).
11. Esse é o padrão seguido ao longo do Novo Testamento, como se pode colher das seguintes passagens: os batismos no Pentecostes (Atos 2.41-42, 46); o batismo dos samaritanos e do eunuco etíope (At 8.12, 36-38); o batismo de Paulo (At 9.18; 22.16); o batismo das casas de Cornélio (At 10.47,48), Lídia (At 16.15), do carcereiro de Filipos (16.33), de Crispo, além de “muitos dos coríntios” (At 18.8), e da casa de Estéfanas (1Co 1.16); o rebatismo de “alguns discípulos” de Éfeso que tinham recebido o batismo de João, provavelmente após a morte e ressurreição de Jesus (At 19.5). Tudo no Novo Testamento indica que o batismo é o modo como os discípulos de Jesus professavam publicamente sua fé e se tornavam “membros” da igreja visível.
12. Noutro giro, sugerimos que o pedobatismo defende razões diferentes para o batismo de recém-nascidos em relação àquelas sobre as quais fundamenta o batismo dos crentes professantes. A CFW afirma que o batismo foi instituído para também servir à “pessoa batizada” “de sinal e selo do pacto da graça, de sua união com Cristo, da regeneração, da remissão dos pecados e também da sua consagração a Deus” (CFW, XXVIII.I). Na sequência, diz que “Não só os que de fato professam a sua fé em Cristo e obediência a ele, mas também os filhos de pais crentes (ainda que só um deles o seja) devem ser batizados”, sem nada esclarecer sobre os motivos do batismo nesse caso (CFW, XXVIII.I). Se o batismo é sinal e selo da união com Cristo e do gozo dos benefícios de Cristo, o que sinalizaria e selaria para os recém-nascidos dos crentes? Que é provável que esses sejam eleitos e que a promessa pode pertencer-lhes?
13. Por fim, parece-nos também que o pedobatismo separa as ordenanças do Novo Testamento, que foram instituídas para permanecerem unidas. É dizer, as ordenanças do batismo e da ceia do Senhor estão alinhadas, uma vez que destinadas às mesmas pessoas, aquelas que professam sua fé em Jesus Cristo. Pelo batismo, entramos na casa e somos recepcionados pelo Anfitrião; pela ceia, mantemos comunhão constante com ele (e somos por ele alimentados?). Os que se assentam à sua mesa são, necessariamente, todos os que entraram pela porta da sua casa. Entretanto, os teólogos de Westminster (embora nem todos) separaram o que Deus uniu quando ensinaram que “Os Sacramentos do batismo e da ceia do Senhor diferem, sendo que o batismo deve ser administrado… também para as crianças, enquanto a ceia do Senhor deve ser administrada… apenas àqueles que têm idade e habilidade de examinarem a si mesmos” (Pergunta 177 do Catecismo Maior). Será? Se batizar crianças é correto, por que proibi-las de participar da ceia? Se os filhos dos crentes são membros do Pacto da Graça, por que privá-los de um dos sinais (e selos) da aliança? Ao assim procederem, não é certo que o pedobatismo separa o que Deus uniu? Se os fundamentos da prática devem ser buscados no Antigo Testamento, as crianças israelitas não participavam da refeição pascal?
Soli Deo Gloria